O tempo da integração regional em um mundo fragmentado

Chamada de artigos para o número 40

Submissões até 15 de março de 2026

A integração regional sul-americana é estratégica para o desenvolvimento do Brasil e de seus vizinhos. Para além da dinâmica comercial, a cooperação regional é indispensável ao enfrentamento de desafios compartilhados em áreas como infraestrutura, segurança e mudanças climáticas. Onze estados brasileiros fazem fronteira a dez países da América do Sul, somando quase 17 mil km de extensão terrestre e abrangendo 588 municípios, dos quais 33 configuram-se como cidades gêmeas internacionais. Além das fronteiras físicas, o Brasil compartilha com seus vizinhos histórias entrelaçadas, identidades culturais e interdependências econômicas que tornam a região um espaço privilegiado de diálogo e construção conjunta. 

A consolidação da América do Sul como espaço político, porém, é um fenômeno recente. A primeira reunião dos doze presidentes sul-americanos ocorreu apenas em 2000. Neste século, a União de Nações Sul-americanas (Unasul) foi criada e paralisada, deixando um legado de integração em defesa, infraestrutura e saúde, entre outros temas. Parte desse legado decorre do esforço da Unasul em convergir com experiências anteriores de integração econômica e cooperação regional, como a agenda integracionista da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), criada em 1948; sua materialização na Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc), em 1960, e na Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), em 1980; o Tratado da Bacia do Prata, de 1969; o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), de 1978; e a criação do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 1991.

Em maio de 2023, após oito anos e meio sem se reunir, os presidentes de todos os países da América do Sul se encontraram no Brasil. No Consenso de Brasília, documento derivado do encontro, assinado pelos doze mandatários, reconheceu-se a importância de manter um diálogo regular, com o propósito de impulsionar o processo de integração da América do Sul e projetar a voz da região no mundo. Desse compromisso, derivou-se o Mapa do Caminho da Integração Sul-Americana, o qual busca promover iniciativas de cooperação sul-americana em temas como meio ambiente, recursos hídricos, desastres naturais, infraestrutura e logística, interconexão energética e energias limpas, transformação digital, defesa, segurança e integração de fronteiras, combate ao crime organizado transnacional e segurança cibernética.

Apesar do simbolismo do encontro e do mérito da iniciativa, seus desdobramentos práticos foram de baixa intensidade. Não houve continuidade em nível presidencial, e, no plano ministerial, apenas uma reunião no formato “2+2” entre chanceleres e ministros da Defesa chegou a ocorrer, sem produzir efeitos concretos de maior alcance. Desde então, a agenda não foi retomada, e tampouco há, até o momento, perspectivas de novo encontro em 2026. Diante desse cenário, coloca-se a dúvida sobre se o Consenso de Brasília representou de fato uma retomada do projeto de integração sul-americana ou apenas um espasmo pontual. Enquanto isso, a região se mostra mais fragmentada e vulnerável à crescente influência e às ingerências de potências externas.

A Revista Tempo do Mundo, publicada pela Diretoria de Estudos Internacionais do Ipea, têm buscado aprofundar esse debate, divulgando produção significativa sobre a América do Sul, tanto de pesquisadores do Ipea como de autores externos do Brasil e de países da região. Seus números anteriores, 23 e 30, tiveram como  tema “Integração e Fragmentação da América do Sul” e “América do Sul, Latina e Caribe: por que e como buscar a integração regional?”. O instituto tem se dedicado ao tema também por meio de livros, capítulos, Textos para Discussão e Notas Técnicas. As publicações podem ser conferidas na página de América do Sul do portal do Ipea. 

O projeto “Integração Regional: o Brasil e América do Sul”, da Diretoria de Estudos Internacionais, vem estudando a agenda do Brasil para a América do Sul por meio de análise das políticas de governança regional, integração econômica e em infraestrutura física e digital, avaliação de externalidades econômicas e sociais de projetos de integração de infraestrutura com os países vizinhos e cooperação amazônica. O instituto também se beneficia de acordos e memorandos de entendimento com importantes instituições regionais, como a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e o Sistema Econômico da América Latina e Caribe (SELA), que fortalecem seus estudos e vínculos com a integração regional.

A publicação do número 40 da Revista Tempo do Mundo coincidirá com as comemorações do bicentenário do Congresso Anfictiônico, reunião histórica realizada no Panamá entre junho e julho de 1826, liderada por Simón Bolívar, com o objetivo de criar uma confederação dos países hispano-americanos, estabelecer a paz, e organizar a defesa comum entre as novas repúblicas independentes, antecipando princípios do direito internacional.  Esse dossiê da revista Tempo do Mundo busca celebrar os esforços integracionistas e divulgar a reflexão crítica acerca dos avanços e desafios, contando com um coordenador de notório saber para cada um de seus três blocos temáticos. 

O primeiro bloco centra-se nos 200 anos do Congresso do Panamá, buscando debater sua relevância contemporânea para a integração regional. Esse bloco também se dedica à divulgação e atualização do acervo da revista Diplomacia, Estratégia e Política (DEP), publicada entre 2004 e 2009 no âmbito do Projeto Raúl Prebisch, com apoio do Ministério das Relações Exteriores e da Fundação Alexandre de Gusmão, e coordenada pelo embaixador Carlos Henrique Cardim. A DEP consolidou-se como um espaço de reflexão sobre a América do Sul, reunindo contribuições de presidentes, chanceleres, ministros, embaixadores e intelectuais da região. Ao ressaltar a importância histórica do Congresso do Panamá e reconhecer o esforço em organizar esse acervo, a revista procura fornecer um espaço para atualização dos artigos publicados pela DEP, de modo a revigorar os subsídios de compreensão dos desafios e avanços da integração sul-americana.

O segundo bloco concentra-se nos desafios e oportunidades da convergência dos diversos mecanismos de integração regional. Coordenado pelo embaixador Clarems Endara, ex-secretário permanente do SELA, essa seção busca abordar os esforços de harmonização de agendas e políticas entre organismos e países vizinhos, com atenção a temas como infraestrutura, segurança, meio ambiente, como respostas conjuntas à desastres naturais, e comércio. A análise busca compreender de que forma a convergência institucional pode fortalecer a atuação coordenada da América do Sul, promovendo benefícios compartilhados e ampliando a projeção da região no cenário internacional.

O terceiro bloco tem dois objetivos: atualizar o debate sobre o regionalismo e fomentar a articulação de think tanks sul-americanos, buscando a constituição de uma rede dessas instituições no âmbito do Consenso de Brasília. A proposta reforça a importância da colaboração científica e intelectual para o fortalecimento do debate sobre integração regional, políticas públicas e desenvolvimento sustentável, contribuindo para um espaço de intercâmbio de conhecimento que apoie decisões governamentais e iniciativas multilaterais na região. 

Estimula-se a submissão de trabalhos nos seguintes temas:

  • Importância histórica e contemporaneidade da agenda do Congresso Anfictiônico;
  • História e legado dos mais de 100 artigos de autores dos 12 países da América do Sul publicados na Revista Diplomacia, Estratégia e Política (DEP);
  • Consenso de Brasília e seu Mapa do Caminho da Integração Sul-Americana;
  • Cidadania sul-americana e migrações;
  • Integração em educação e cultura;
  • Desenvolvimento fronteiriço no marco da elaboração da primeira Estratégia Nacional de Fronteiras;
  • Participação dos atores subnacionais e privados na governança da integração;
  • Integração da infraestrutura e da logística;
  • Integração energética e proposta do Mercado Sul-Americano de Energia;
  • Mecanismos de integração regional e convergência: Organização Latino-Americana de Energia (OLADE), Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), Sistema Econômico Latino-Americano e do Caribe (SELA), Comunidade do Caribe (CARICOM), Comunidade Andina (CAN), Mercado Comum do Sul (Mercosul), União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), entre outros;
  • Cooperação e integração amazônica e o papel da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica;
  • Cooperação acadêmica, diplomacia científica e potenciais e desafios para a produção e difusão do conhecimento;
  • Integração financeira, mecanismos de compensação e sistemas de pagamento em moeda local;
  • Financiamento da integração e bancos regionais de desenvolvimento;
  • Conselho de Defesa Sul-Americano e Escola Sul-Americana de Defesa;
  • História e legado do Conselho Sul-Americano de Saúde e do Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde (ISAGS);
  • História e legado do Conselho Sul-Americano de Economia e Finanças;
  • História e legado do Conselho Sul-Americano de Ciência, Tecnologia e Inovação (COSUCTI).

Os manuscritos podem ser enviados pelo site da Revista Tempo do Mundo até 15 de março de 2026.

Outras normas de apresentação e diretrizes para os autores podem ser consultadas no link: https://www.ipea.gov.br/revistas/index.php/rtm/about/submissions