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19/08/2009 19:27

Após a crise, desenvolvimento mais justo é o desafio

Em seminário na sede do Ipea, especialistas destacam renascimento do keynesianismo e cobram melhor governança para lidar com períodos de instabilidade

O seminário realizado no auditório do Ipea integra o ciclo Perspectivas do Desenvolvimento Brasileiro

Enquanto o mundo ainda se recupera da crise que explodiu em setembro de 2008, pensar em novos modelos de desenvolvimento torna-se tarefa premente para os governos e a sociedade civil. Essa urgência permeou o seminário Crise como oportunidade, ocorrido terça-feira (18) na sede do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em Brasília. Participaram como palestrantes Ladislau Dowbor, professor de economia e administração da PUC-SP, Paul Singer, titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária, ligada ao Ministério do Trabalho, e Silvio Caccia Bava, coordenador-executivo do Instituto Pólis e editor do Le Monde Diplomatique Brasil.

Diante de um auditório lotado, Singer afirmou que a crise proporcionou uma "grande oportunidade". "Todos os governos do mundo simplesmente jogaram fora os ensinamentos da ortodoxia neoliberal e tiraram Keynes da naftalina. Isso significa aumentar o gasto público e o crédito o máximo possível", disse. Segundo o secretário, o Brasil passou de maneira mais fácil pela turbulência por ter quase metade de seu sistema bancário nas mãos do governo federal.

Singer considera que a crise já foi superada apenas do ponto de vista financeiro, não na perspectiva social. "A crise definitivamente sacudiu o que era a ortodoxia mundial do neoliberalismo e o enfraquecimento dos Estados nacionais, a globalização imposta. A oportunidade que ela nos oferece é de uma outra agenda de prioridades", completou. Segundo ele, a agenda anterior, dos "homens de negócios", tinha como prioridades o controle inflacionário e o equilíbrio fiscal. Agora, ganham relevância a agenda ecológica e a redução das diferenças econômicas e sociais.

Para Ladislau Dowbor, o problema atual não é tanto a produção, mas a melhoria da governança do sistema para que todos tenham um mínimo de qualidade de vida. Dowbor apresentou um gráfico de megatendências sobre população, PIB, espécies em extinção, uso de água, entre outros itens, todos convergindo para uma escalada sem precedentes desde o começo do século passado. "Estamos destruindo o planeta por um sistema que beneficia um terço da população (...) Estruturalmente, estamos amarrados em um processo de desigualdade e destruição ambiental", declarou, lembrando que 82,7% da produção mundial é consumida por apenas 20% da humanidade.

Depois que Singer citou uma volta ao keynesianismo, Caccia Bava levantou dúvidas sobre a possibilidade de a crise erguer uma "social-democracia global", um retorno completo às premissas de Keynes. "Começo a achar que não, pois não vejo atores sociais pressionando por essas posições, por uma agenda mais aberta de alternativas políticas", afirmou. "Então, provavelmente, vamos continuar tendo uma sequência de crises, com mais concentração de poder no sistema financeiro." O seminário foi mediado pelo assessor da Presidência do Ipea Milko Matijascic e teve transmissão ao vivo pelo site do Instituto.

 
 

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