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08/07/2020 17:36

Nota Técnica - 2020 - Junho - Número 21- Dinte

Covid-19 no Continente Africano: Impactos, Respostas e Desafios


Autores: Ana Saggioro Garcia, Caroline Chagas de Assis e Renata Albuquerque Ribeiro

 

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Pandemias são eventos recorrentes na história da humanidade. Porém, a cada novo evento surgem novos desafios e consequências políticas, econômicas e sociais. A pandemia causada pelo novo coronavírus, conhecido por Sars- -COV-2, tem sido apontada como um dos maiores desafios do século XXI. A própria definição do termo remete ao caráter global da questão. Essa característica se vê fortemente potencializada em um mundo globalizado, conectado tecnológica, política e regionalmente..

Reportando as conhecidas desigualdades presentes no mundo, o noticiário tem sido inundado por notícias referentes aos principais eixos de poder do mundo como China, Europa, Estados Unidos e com destaque para alguns países já preocupados com uma segunda onda de contágio. Além de visibilidade quanto à emergência vivida nestes lugares, outras desigualdades se tornaram mais visíveis a partir da pandemia de coronavírus. Desigualdades na balança de poder no sistema internacional se mostram evidentes quando países mais poderosos usaram seu poderio econômico e/ou político para comprar e, às vezes, desviar e reter medicamentos e insumos básicos no combate à doença. A pandemia acabou por evidenciar o melhor e o pior dos Estados e, principalmente, os limites das organizações multilaterais diante da soberania do nacional.

No plano social, o número de óbitos maior entre latinos e pessoas negras nos Estados Unidos escancara as dimensões raciais que transpassam a desigualdade no sistema capitalista, em sua dimensão mais cotidiana.2 As desigualdades já observadas, por exemplo, na composição da força de trabalho, são reproduzidas no tratamento e na cura da doença. No plano individual, o isolamento forçado de um terço da população mundial3 evidenciou as desigualdades de gênero há tanto tempo denunciadas pelas mulheres, no que concerne à divisão do trabalho doméstico, ao cuidado dos entes que compõem o núcleo familiar, à carga mental e, de forma geral, ao trabalho doméstico não remunerado.

No âmbito do projeto A agenda externa do Brasil para a África: avaliações e propostas, do Ipea, este trabalho apresenta os impactos políticos, econômicos e sociais da pandemia para o continente africano. Nesse caso, as diversas desigualdades fazem-se igualmente presentes com o diferencial de relativa ausência na cobertura e disseminação de informações sobre o enfrentamento que o continente tem travado contra a Covid-19.5 Ao mesmo tempo, certa expertise africana prévia para o tratamento e a contenção de epidemias anteriores é colocada como um elemento positivo que pode ajudar a controlar o avanço da doença no continente. No entanto, há inseguranças no que tange ao futuro da ajuda internacional, fundamental para a sobrevivência e manejo de alguns Estados, já prometida pelos doadores tradicionais e demais atores do sistema internacional

A vulnerabilidade do continente é alta. Por exemplo, segundo a Unicef, 47% dos sul-africanos que vivem em áreas urbanas (ou 18 milhões de pessoas) não têm acesso à água encanada em suas casas,7 o que evidencia os problemas já existentes em infraestrutura de saneamento básico, cenário que se reflete em vários países da região. Além de problemas de infraestrutura, o continente enfrenta simultaneamente outras epidemias, como a de febre amarela, cólera, ebola e HIV/Aids,8 que muitas vezes poderiam ser evitáveis por vacina ou controladas e prevenidas pela disponibilização de medicamentos.

Não só os problemas com saúde pública são muito preocupantes nos países africanos, mas também o agravamento de distúrbios políticos e sociais como resultado da falta de recursos disponíveis. Por exemplo, as chuvas torrenciais que atingiram o leste africano na primeira semana de maio de 2020 causaram enchentes e deslizamentos no Quênia, em Uganda, na Somália, em Ruanda e na Etiópia, deixando milhares de desabrigados e tornando a situação ainda mais complexa para os países atingidos.9 Embora esses elementos que remetem a desigualdades, inseguranças e instabilidades ainda estejam presentes em muitos casos, a resposta rápida de alguns países e, sobretudo, a resposta conjunta coordenada pela União Africana tem se mostrado eficaz no combate ao novo coronavírus.

Nesse sentido, esta análise traz um panorama da Covid-19 na África até o momento, considerando que os dados da conjuntura de cada país da região se atualizam a cada dia, tornando qualquer análise, necessariamente, parcial e limitada.10 Este panorama do continente ocorre a partir das subdivisões entre as regiões definidas pela União Africana: norte, ocidental, oriental, sul e central. Essa subdivisão se dá pela similaridade de características de um contexto geopolítico, uma vez que a África é um continente que apenas recentemente foi descolonizado e apresenta muitos Estados ainda em processo de consolidação. Este texto não pretende, de forma alguma, reduzir a realidade africana a algo único, passível de ser generalizado. Muito pelo contrário, busca-se mostrar a diversidade de realidades presentes no continente.

Dessa forma, o trabalho se divide em outras quatro partes, além desta introdução. Na seção 2, é traçado um panorama sobre os impactos de outras pandemias na história do continente, seguido de uma breve análise das respostas adotadas até o momento, em seus aspectos econômicos e políticos (seção 3). Em seguida, na seção 4, é apresentado o recorte por regiões. Por fim, há breves considerações finais com recomendações para o Brasil na seção.

 
 

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