Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

Renda média dos trabalhadores volta a crescer 4,2% após permanecer estável ao longo do primeiro semestre deste ano

Helio Montferre/Ipea

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado nesta sexta-feira (15), aponta um aumento de 4,2% nos rendimentos habituais reais médios do trabalho no Brasil durante o terceiro trimestre de 2023, em comparação com o mesmo período do ano passado. As estimativas mensalizadas mostram que o rendimento habitual médio real em setembro deste ano, no valor de R$ 3.059, foi 3,8% maior que o observado no mês anterior, de R$ 2.946,00 e 3,4% superior do que o valor registrado em junho do mesmo ano.

Além disso, os dados apresentaram um aumento de 3,7% em relação ao valor de dezembro de 2022, que foi de R$ 2.950. Já a renda efetiva média em setembro, no valor de R$ 3.188,00 (maior valor da série histórica), foi 3,3% maior que o observado no mês anterior, R$ 3.086. No mês de outubro, a estimativa da renda mensal recuou para R$ 3.101,00.

A nota “Retrato dos Rendimentos do Trabalho – Resultados da PNAD Contínua do Terceiro Trimestre de 2023” teve como base os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Rendimento habitual refere-se à remuneração recebida por empregados, empregadores e trabalhadores por conta própria, mensalmente, sem acréscimos extraordinários ou descontos esporádicos, ou seja, sem parcelas que não tenham caráter contínuo.

Os maiores aumentos na renda em comparação ao mesmo período do ano passado foram registrados na região Sudeste, entre os trabalhadores jovens de 14 a 24 anos, com ensino superior. Embora nenhum grupo demográfico de trabalhador tenha apresentado queda na renda, mas o crescimento foi menor para os que habitam no Sul e em regiões não metropolitanas, os maiores de 60 anos, aqueles com ensino fundamental completo e os chefes de família.

Com base nos dados da Pnad Contínua, o estudo também traz análises por corte de gênero. Os rendimentos habituais recebidos pelas mulheres, que vinham apresentando desempenho inferior ao dos homens ao longo de 2023, registraram um crescimento interanual maior nos três primeiros trimestres de 2023, atingindo 4,5%, em comparação com os 4% da renda habitual dos homens. 

Na análise por tipo de vínculo, os trabalhadores do setor privado com carteira tiveram o menor crescimento dos rendimentos no terceiro trimestre de 2023, com elevação da renda habitual de 2,3%. Por outro lado, os trabalhadores do setor público tiveram elevação de sua renda em 3,6%. O maior aumento da renda habitual ocorreu para os trabalhadores informais, que apresentaram acréscimo de 7,5% para os trabalhadores por conta própria e de 6,3% para os sem carteira.

No recorte por setor, no terceiro trimestre de 2023, houve uma maior desaceleração do crescimento da renda nos setores de comércio e construção, com aumento interanual da renda habitual de 2,5% e 1,9%, respectivamente. Os trabalhadores da indústria, serviços pessoais e coletivos, assim como aqueles que atuam com alojamento e alimentação, apresentaram um crescimento maior em relação ao trimestre anterior, destacando-se o setor de alojamento e alimentação, que mantém um crescimento robusto da renda há quatro trimestres consecutivos. O destaque negativo foi a queda de 4,6% na renda média interanual no terceiro trimestre de 2023 na agricultura.

Um efeito significativo da pandemia foi o aumento da proporção de domicílios sem renda do trabalho, que subiu de 22,7% no primeiro trimestre de 2020 para 28,7% no segundo. No terceiro trimestre de 2023, a proporção de domicílios nessa situação ficou em 23,2%, mais de um ponto percentual acima do observado no mesmo trimestre do ano anterior.

Acesse a íntegra do estudo 

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Fórum internacional no Ipea discute desenvolvimento, transformação digital e financiamento do desenvolvimento

Helio Montferre/Ipea

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Observer Research Foundation (ORF America) realizaram a “Conferência de Brasília sobre Justiça Social: Preparando o Cenário para a presidência brasileira do G20” na sede do Ipea em Brasília nos dias 14 e 15 de dezembro. O encontro reuniu representantes das três instituições responsáveis pelo Comitê Organizador do T20 – Ipea, a Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) e o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) –, além de Think Tanks da Índia, responsáveis pela gestão anterior do T20, e da África do Sul, que assume em dezembro de 2024. A União Africana, novo membro do G20, participou com sua Agência de Desenvolvimento, AUDA-NEPAD. Entre gestores de políticas do Brasil que participaram como moderadores ou palestrantes, a secretária de Assuntos Internacionais e Desenvolvimento do Ministério do Planejamento e Orçamento, Renata Amaral, e o presidente da Dataprev, Rodrigo Assumpção. 

Na mesa de abertura, a presidenta do Ipea, Luciana Mendes Santos Servo, lembrou que o evento é o primeiro evento paralelo do T20 durante a presidência do Brasil no G20. Luciana Servo agradeceu a presença da comitiva indiana e elogiou a atuação do país durante os eventos do T20 ao longo de 2023. Ela reforçou que o T20 brasileiro fará um resgate das propostas dos anos anteriores para potencializar a implantação. “Quero ressaltar que a nossa presidência será marcada por orientações que busquem a justiça social”, reforçou a Presidenta. Para ela é preciso, neste momento, a busca por um novo conceito de desenvolvimento.  

Também estavam presentes a presidenta da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), embaixadora Marcia Loureiro e o conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), embaixador Marcos Caramuru. Por videoconferência participou o diretor executivo da ORF America, Dhruva Jaishankar. Marcia Loureiro defendeu em sua fala que o grupo sirva para “combater desigualdades e com a pluralidade reconhecer as diferenças de cada lugar para buscar recursos e reduzir vulnerabilidades”. Caramuru disse acreditar ser preciso “utilizar os mecanismos internacionais para reduzir as diferenças, mas com novas soluções”. Dhruva encerrou a abertura defendendo “uma nova arquitetura digital global, mais transparente e acessível” e que os mecanismos financeiros sejam revistos.

A primeira mesa abordou a Transição do G20: Delimitando a Agenda de Desenvolvimento, com moderação da presidenta do Ipea. Os panelistas foram o diretor de Estudos Internacionais do Ipea, Fabio Veras, Anit Mukherjee da ORF America, Elizabeth Sidiropoulos da South Africa Institute of International Affairs, e Marcos Caramuru. A mesa discutiu o papel das finanças e da tecnologia na promoção do desenvolvimento, da sustentabilidade, e da equidade. Deu foco às prioridades da presidência brasileira, fez um balanço da presidência indiana, e indicou caminhos para um G20 com maior impacto sobre futuro do multilateralismo. Além de discutir os caminhos para que as propostas do T20, e outros grupos de engajamento, tenham mais impacto no G20.

A carta conceitual que orientou o encontro esclarece que, à medida que o mundo se recupera dos impactos da pandemia de Covid-19, os formuladores de políticas enfrentam desafios em níveis global, regional, nacional e local. Mudanças climáticas aceleradas, crescente dívida pública, inflação e desigualdade são apenas alguns dos problemas em destaque. A estrutura multilateral estabelecida nas últimas sete décadas está sob crescente desafio com o surgimento de novos poderes globais, incluindo coalizões emergentes na Ásia, África e América Latina.

A conferência destaca a oportunidade significativa para remodelar o discurso sobre desenvolvimento global, colocando justiça social e climática no centro da agenda. Inovações em finanças e tecnologias podem melhorar o acesso a serviços, com sustentabilidade, criar oportunidades de emprego e aprimorar a transparência e a qualidade da governança pública. Simultaneamente, essas iniciativas têm o potencial de reduzir as desigualdades e superar as lacunas tecnológicas entre economias avançadas e aquelas do Sul Global, avançando em direção a um novo paradigma de desenvolvimento para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2030 proposto pela Organização das Nações Unidas.

Ao longo do último ano, a presidência do G20 pela Índia buscou abordar alguns desses desafios globais, conforme refletido na Declaração de Líderes de Nova Delhi, acordada na cúpula de setembro de 2023. Com as próximas presidências rotativas do G20 a cargo do Sul Global, há uma oportunidade única para o Brasil e, posteriormente, a África do Sul, impulsionarem a agenda de finanças para o desenvolvimento, destacando a justiça climática e social, a luta contra a desigualdade e as mudanças climáticas, além da reforma das desatualizadas instituições multilaterais globais.

Liderança Digital para o Desenvolvimento Sustentável

À medida que os países exploram o potencial da tecnologia digital para o desenvolvimento, as experiências e especializações do Brasil e da Índia podem servir de guia para uma digitalização inclusiva nos países do Sul Global. Ao longo da última década, a Índia estabeleceu uma infraestrutura digital em escala populacional, incluindo identificação digital (Aadhaar), Unified Payments Interface (UPI), vacinação contra a Covid-19 (Co-Win) e Transferência Direta de Benefícios (DBT) para proteção social, entre outros. Esses bens públicos digitais podem ser utilizados por entidades públicas e privadas para atender às necessidades específicas da economia digital, como verificação de identidade, pagamentos digitais, aprendizado remoto, prestação de serviços de saúde, empregos qualificados, transição energética e administração da justiça.

O Brasil avançou com a adoção de pagamentos digitais, recibo fiscal eletrônico, banco de dados de saúde digital, a plataforma gov.br e o projeto de moeda digital (real). O Brasil e a Índia podem acelerar o progresso em direção aos ODS, oferecendo liderança não apenas no G20, mas globalmente, amplificando as vozes dos países do Sul Global.

A conferência serve como base para dar continuidade ao foco na transformação digital, proteção social e ação climática durante a transição da presidência do G20 da Índia para o Brasil. O objetivo é criar uma comunidade diversificada de políticas e práticas que fornecerá insumos e orientações ao processo do G20, com o Ipea e a ORF America como principais interlocutores e organizadores.

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Inflação é menor para famílias de renda mais baixa pelo sexto mês consecutivo em novembro

Helio Montferre/Ipea

O Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda referente a novembro revela que, pelo sexto mês seguido, a inflação se mostrou mais amena para as famílias de menor poder aquisitivo. Os dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nesta quarta-feira (13) indicam que a inflação de 0,20% observada nas três faixas de renda mais baixas em novembro foi significativamente inferior à registrada na classe de renda alta (0,58%).

Nesse contexto, a variação acumulada no ano para as famílias de renda muito baixa (2,6%) segue sendo menos da metade da taxa acumulada para as famílias de renda alta (5,6%). Ao longo dos últimos doze meses, os dados apontam um resultado semelhante, embora com menor discrepância. Enquanto a taxa de inflação para os domicílios da classe muito baixa é de 3,4%, as famílias de maior renda tiveram uma variação de preços de 6,1%, conforme a tabela abaixo:

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A desagregação por grupos revela que o principal fator de pressão inflacionária para as classes de renda mais baixas, em novembro, veio do grupo de “alimentos e bebidas”. As altas do arroz (3,7%), feijão-preto (4,2%), batata (8,8%), cebola (26,6%), carnes (1,4%) e aves e ovos (0,53%) explicam esta contribuição positiva dos alimentos para a inflação das famílias brasileiras, especialmente as de renda menos elevada. Ainda que em menor intensidade, essas famílias também foram influenciadas pelo grupo "habitação", sobretudo por conta da alta de 1,1% nas tarifas de energia elétrica. Essa alta inclusive anulou o alívio inflacionário vindo do recuo dos preços de artigos de limpeza (-0,53%).

Ao contrário das famílias mais ricas, as de menor poder aquisitivo tiveram uma descompressão inflacionária dos grupos “transporte” e “saúde e cuidados pessoais”. Esses domicílios foram beneficiados pelas quedas nos preços das tarifas de ônibus urbano (-1,2%), dos combustíveis (-1,6%) e dos artigos de higiene pessoal (-0,95%).

Para a faixa de renda alta, o maior impacto inflacionário de novembro veio da alta de 19,1% dos preços das passagens aéreas e de 0,76% dos planos de saúde. Adicionalmente, o grupo "despesas pessoais" também pressionou de forma significativa a inflação dessas famílias, devido aos reajustes dos serviços pessoais (0,41%) e de recreação (0,94%).

A comparação com novembro do ano passado revela uma desaceleração da inflação para todos os níveis de renda pesquisados, com exceção do segmento de renda alta. No que diz respeito às classes de renda mais baixas, a melhora da inflação é visível pelo desempenho favorável dos combustíveis e dos artigos de vestuário e limpeza, cujas variações de -1,6%, -0,35% e -0,53%, respectivamente, registradas em 2023, ficaram bem abaixo das observadas no mesmo período de 2022 (3,0%, 1,1% e 1,2%).

No que diz respeito às famílias de renda mais elevada, a alta mais intensa da inflação em novembro de 2023, comparativamente a novembro de 2022, veio, sobretudo, da piora no desempenho das passagens aéreas e dos serviços de recreação, cujas variações de 19,1% e 0,94%, este ano, contrastam fortemente com as apuradas no ano anterior (-9,8% e 0,34%, respectivamente).

Após a incorporação do resultado de novembro de 2023, apenas a classe de renda alta não registrou desaceleração da sua curva de inflação acumulada em doze meses. Em termos absolutos, as famílias de renda muito baixa são as que apresentam a menor taxa de variação no período (3,4%), enquanto a mais elevada está no segmento de renda alta (6,1%).

Acesse a íntegra do indicador 

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Proposta para uma nova modalidade de concessão do seguro desemprego no Brasil foi o assunto do Seminário das Quintas desta quinta-feira (07/12). O encontro contou com a presença de especialistas que discutiram o estudo sobre a inovações no cenário trabalhista do país. O evento pode ser assistido na integra no canal de youtube do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Mário Magalhães, especialista em políticas públicas e gestão governamental, apresentou o trabalho que propõe uma nova modalidade de concessão do seguro-desemprego, trazendo benefícios para trabalhadores, empresas e o governo. Magalhães acredita que o momento político é oportuno para o debate, devido ao "novo perfil da gestão do Ministério do Trabalho". O especialista explicou que essa é uma ideia antiga que vem desenvolvendo ao longo do tempo.

O mediador do evento, José Aparecido Ribeiro, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, promoveu a interação entre os participantes. O debatedor convidado foi Miguel Foguel, técnico de planejamento e pesquisa, que elogiou bastante os avanços apresentados pela proposta.

A proposta destaca uma modalidade revolucionária na concessão do seguro-desemprego, permitindo que os trabalhadores sejam reempregados sem perder o benefício, mediante a assinatura de um Contrato Prévio de Capacitação (CPC) com um novo empregador. O CPC terá duração mínima de um mês e máxima de cinco meses, correspondendo ao número de parcelas restantes do seguro-desemprego formal. A capacitação será feita a critério do empregador, seja por meio de cursos ou treinamento em serviço. O pagamento das parcelas do seguro-reemprego será feito junto com a remuneração do trabalhador, escalonando a divisão entre o governo e a empresa.

A regulamentação do seguro-reemprego estabelecerá critérios conforme a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) de contratação, buscando garantir a qualificação necessária para as diferentes ocupações. A proposta visa incentivar a capacitação profissional, reduzindo custos para o governo e as empresas. Entre os atributos esperados está o aumento da capacitação profissional, redução de despesas com o seguro-desemprego, fomento ao investimento em qualificação e mudança na atitude dos empresários em relação ao fator humano em seus negócios.

Apesar dos benefícios apresentados, a implementação do seguro-reemprego enfrenta desafios, como a necessidade de as empresas se adaptarem a políticas de qualificação e a possível resistência de alguns trabalhadores. Pontos críticos incluem o equilíbrio entre estímulo ao reemprego e qualificação, a duração do período de fidelização do vínculo e o possível impacto nos serviços públicos de emprego.

As estimativas apontadas no estudo indicam um impacto positivo na qualificação profissional, com potencial aumento de investimento em cursos. A adesão ao seguro-reemprego poderia gerar uma conversão significativa de parcelas do seguro-desemprego, promovendo benefícios tanto para os trabalhadores quanto para as empresas. A proposta visa transformar o cenário trabalhista brasileiro, incentivando a qualificação e reduzindo despesas governamentais. É fundamental considerar cuidadosamente a implementação, ouvindo os principais interessados e ajustando a proposta conforme as necessidades do mercado.

O evento do Ipea proporcionou uma discussão rica e aberta sobre a proposta, inovadora em diversos aspectos, destacando a importância de repensar a relação entre trabalhadores, empresas e governo. O seguro-reemprego se apresenta como uma potencial solução para desafios do mercado de trabalho brasileiro, promovendo a capacitação e o crescimento profissional, ao mesmo tempo que qualifica a mão de obra do país.

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Briga de família e desemprego são os motivos mais citados por pessoas em situação de rua para explicar sua circunstância

Helio Montferre/Ipea

Problemas familiares e desemprego são as razões mais apontadas por pessoas em situação de rua para explicar sua circunstância. A exclusão econômica, dimensão que envolve o desemprego, a perda de moradia e a distância do local do trabalho, é citada por 54% das pessoas. Problemas de saúde – particularmente, mas não somente, aqueles relacionados à saúde mental – são apontados por 32,5%. A fragilização ou ruptura de vínculos familiares é citada por 47,3% e lidera a estatística que leva em consideração somente motivos individuais. O levantamento apresenta os valores absolutos e os percentuais das causas autodeclaradas de situação de rua. Essas causas não são excludentes, por isso os percentuais somam mais de 100%.

Levando em consideração somente motivos individuais, além da liderança dos problemas com familiares e companheiros (47,3%), aparecem razões como desemprego (40,5%), alcoolismo e outras drogas (30,4%), perda de moradia (26,1%), ameaça e violência (4,8%), distância do local de trabalho (4,2%), tratamento de saúde (3,1%), preferência ou opção própria (2,9%) e outros motivos (11,2%). Entretanto, é importante notar que as causas para a situação de rua no Brasil podem ser organizadas em três dimensões: a exclusão econômica, envolvendo a insegurança alimentar, o desemprego e déficit habitacional nos grandes centros; a fragilização ou ruptura de vínculos sociais, particularmente vínculos familiares e comunitários, por meio dos quais essas pessoas poderiam ser capazes de obter acolhimento em situações de dificuldade; e os problemas de saúde – particularmente, mas não somente, aqueles relacionados à saúde mental.

Os resultados são parte de uma série de dados presentes no texto para discussão “A população em situação de rua nos números do Cadastro Único”, de autoria do especialista em políticas públicas e gestão governamental da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marco Natalino, divulgado nesta segunda-feira (11). O trabalho analisa os dados sobre a população em situação de rua disponíveis no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (Cadastro Único ou CadÚnico), apresentando um perfil desse público.

A dimensão econômica se manifesta em três motivos elencados entre os motivos individuais: desemprego, perda de moradia e distância do local de trabalho. Por isso, quando conjugados, essa dimensão aparece como a principal razão dada por pessoas em situação de rua para falar sobre sua circunstância. É comum que as três dimensões usadas para organizar os dados se manifestem ao mesmo tempo. Por exemplo, metade daqueles que alegam motivações ligadas à saúde também apontam razões familiares para a situação de rua e 44% deles acrescentam motivações econômicas. Entre aqueles que falam em problemas familiares, 42% também têm motivações econômicas como causa de sua situação de rua e 34% relatam motivos de saúde.

A análise mostra também que o tempo de permanência na rua está fortemente associado ao motivo para a situação de rua. Os problemas familiares estão associados a um tempo de permanência a maior. Isso ocorre também com os motivos relacionados à saúde, em especial pelo uso abusivo de álcool e outras drogas. Por outro lado, razões econômicas, como o desemprego, estão associadas a episódios de rua de mais curta duração. No agregado, 33,7% da população em situação de rua está nesta condição pelo período de até 6 meses, 14,2% entre seis meses e um ano, 13% entre um e dois anos, 16,6% entre dois e cinco anos, 10,8% entre cinco e 10 anos e 11,7% há mais de 10 anos.

O estudo dos dados realizado por Natalino revela que 70% da população em situação de rua mora no mesmo estado em que nasceu. Além disso, embora as mulheres sejam somente 11,6% da população adulta em situação de rua, representam 35% das responsáveis familiares entre a parcela que vive com as famílias nessas circunstâncias. Mesmo entre os inscritos no Cadastro Único, 24% não possuem certidão de nascimento. Entre os adultos, 29% não têm título de eleitor e 24% não possuem carteira de trabalho. Apenas 58% das crianças e adolescentes de 7 a 15 anos e em situação de rua frequentam a escola. Pelo menos 69% da população adulta em situação de rua realiza alguma atividade para conseguir dinheiro, mas apenas 1% tinha um emprego com carteira assinada.

A maioria da população em situação de rua (68%) se declara negra. Os autodeclarados brancos são 31,1%. O número médio de anos de escolaridade entre os negros em situação de rua (6,7 anos) é menor que entre os brancos (7,4 anos). Sobre a circulação no território urbano, o Formulário PopRua informa onde a pessoa costuma dormir e com que frequência semanal. Aqueles que costumam dormir na rua com alguma frequência são 58%. Um terço costuma dormir em albergues com alguma frequência. Pouco mais de 3% costumam dormir em domicílios particulares, e 12% costumam dormir em outros espaços que não se enquadram entre os anteriores.

O objetivo do estudo é, ao apresentar um diagnóstico atual da situação, colaborar com o aprimoramento das políticas públicas voltadas à população em situação de rua. Em 25 de julho, o Supremo Tribunal Federal (STF) emitiu uma medida cautelar, em resposta à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 976. Nela, determina a necessidade de elaboração, por parte do governo federal, de um plano de ação e monitoramento para a efetiva implementação da Política Nacional para a População em Situação de Rua e determina que tal plano se baseie em um diagnóstico desse público.

A publicação apresenta informações sobre as causas da situação de rua, o tempo de permanência na rua, as migrações, as áreas de circulação e permanência, os vínculos familiares, a participação em associações da sociedade civil e em atividades comunitárias, raça/cor, as pessoas com deficiência e em situação de rua, sexo, idade, acesso à documentação, à saúde e a benefícios sociais, escolaridade, trabalho e geração de renda.

Das 96 milhões de pessoas presentes no CadÚnico, em agosto de 2023, 227 mil estavam oficialmente registradas como em situação de rua. Esse número não pode ser considerado como um censo oficial da população de rua. A pesquisa destaca a complexidade do problema, que entre diversas dimensões, dificulta inclusive um levantamento fidedigno dos números totais de pessoas nessa circunstância. A pesquisa apresenta um método para a análise dos dados do Cadastro Único para esse público - incluindo dados de painel longitudinal - que pode ser replicado para outros públicos. Esses dados em painel podem, no futuro, permitir a análise individualizada dos percursos que levam as pessoas à situação de rua, bem como dos percursos que levam uma pessoa em situação de rua para um domicílio.

O texto para discussão serve de subsídio às políticas públicas voltadas para a sociedade e órgãos de Governo. Nesta mesma data, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) lançou o Plano de Ação e Monitoramento para Efetivação da Política Nacional para a População em Situação de Rua, entregue pelo governo federal ao STF no dia 27 de novembro. Em setembro, o Ipea e o MDHC, através de um acordo de cooperação, lançaram o “Guia Inclua – Pop Rua”, uma Avaliação de Riscos de Desatenção, Exclusão ou Tratamento Inadequado da População em Situação de Rua. O guia também abasteceu o governo federal com dados para elaboração do plano.

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Crescimento dos estabelecimentos religiosos no país é liderado por igrejas pentecostais e neopentecostais

Divulgação


Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado nesta quinta-feira (07), revela um surpreendente crescimento dos estabelecimentos religiosos no Brasil nos últimos 20 anos. Entre os 124.529 estabelecimentos existentes no país em 2021, 52% são evangélicos pentecostais ou neopentecostais, liderando o resultado, seguidos por 19% evangélicos tradicionais e 11% de católicos. Entre os evangélicos pentecostais, a Assembleia de Deus é a que possui o maior número de estabelecimentos, 14%. Apenas 8% dos estabelecimentos não puderam ser identificados, pois grande parte é composta por associações comunitárias, beneficentes ou educacionais.

A nota técnica, intitulada "Crescimento dos Estabelecimentos Evangélicos no Brasil nas Últimas Décadas", é de autoria de Fernanda De Negri, diretora de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação e Infraestrutura (Diset) do Ipea, Weverthon Machado, pesquisador de pós-doutorado na Utrecht University, e Eric Jardim Cavalcante, pesquisador bolsista na Diset. O estudo destaca uma notável tendência de crescimento, tanto em números absolutos quanto na dispersão geográfica em todo o território brasileiro. O avanço tem sido especialmente marcante no interior do país nos últimos anos, representando uma mudança significativa em relação ao crescimento anterior concentrado nas grandes cidades.

Em 2000, cerca de 15,4% da população brasileira se identificava como evangélica, número que subiu para aproximadamente 22,2% em 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa ascensão é atribuída, em parte, à migração para áreas urbanas, onde a oferta de igrejas e eventos religiosos é maior. Além disso, as mudanças sociais e econômicas, como a urbanização acelerada e as desigualdades socioeconômicas, contribuíram para essa expansão, conforme destaca o estudo.

Os pesquisadores observam ainda uma tendência interessante, revelando que o crescimento das igrejas evangélicas não está limitado apenas às grandes cidades. Houve um aumento notável no número de estabelecimentos em áreas rurais e municípios menores, indicando uma interiorização das instituições religiosas.

"Houve um processo muito intenso de interiorização desses estabelecimentos no país ao longo dos últimos anos", conclui De Negri. Por fim, a pesquisa concluiu que o fenômeno evangélico no Brasil não é apenas um crescimento exponencial, mas também uma notável disseminação geográfica. O levantamento é a partir da Relação Anual de Informações Sociais (Rais).

Acesse a íntegra da nota técnica

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Boletim Radar aponta desafios para o Brasil construir um futuro produtivo e sustentável

Diante dos desafios socioambientais que se apresentam para toda a humanidade, a edição temática nº 74 do Boletim Radar: Tecnologia, Produção e Comércio Exterior, lançada nesta quinta-feira (07/12) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), tem como foco a "produção do futuro". Composto por cinco artigos, o Radar fomenta o debate sobre temas cruciais, como cidades inteligentes, Green Bonds, hidrogênio verde, micro e pequenas empresas, e a evolução do emprego de novos doutores no setor privado no Brasil.

Esta publicação é a primeira de uma série da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura do Ipea, em um projeto transversal e estruturante, que tem por objetivo traçar o tecido produtivo de um país em frente aos desafios para uma produção industrial.

O técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e editor desta edição do Radar, Mauro Oddo Nogueira, comenta que “o principal desafio para se pensar numa produção sustentável no Brasil é a histórica desigualdade socioeconômica do país. Ele enfatiza a necessidade de repensar o tecido produtivo brasileiro, considerando os três pilares da sustentabilidade: crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental”, disse.

A publicação explora o papel que o Estado brasileiro deve desempenhar e as políticas públicas necessárias para conduzir o país para uma transformação e um futuro melhor. “Esse é um desafio histórico do Brasil, que ao longo de seus 500 anos vem reproduzindo e ainda não conseguiu encontrar um caminho para superar de uma forma consistente. Isso acaba indo de encontro aos outros dois objetivos”, disse Nogueira.

Segundo Nogueira, a desigualdade social, tem impactos também no desenvolvimento econômico e de certo modo tem impactos também na preservação ambiental. “Nos estratos de baixa renda, que têm um imediatismo de sobrevivência, pensar em preservação do planeta, do médio para longo prazo, para quem precisa pensar em comer hoje, é um debate complicado. Então, esse é o grande desafio”, destacou.

Os cinco estudos da nova edição do Radar definem caminhos para superação desses desafios, contribuindo com o debate sobre desenvolvimento sustentável em temas específicos. O primeiro artigo trata do financiamento da indústria renovável e do desenvolvimento sustentável, apresentando uma proposta baseada nos Green Bonds, os chamados títulos verdes, que oferece uma análise de como financiar essa produção do futuro. O segundo artigo fala especificamente da questão energética, discutindo como alimentar de energia limpa essa produção, esse aparato produtivo e avalia o papel do hidrogênio verde no país.

O terceiro artigo aborda, de forma sustentável, as tecnologias digitais aplicadas e utilizadas nas cidades inteligentes, incorporando o conceito de sustentabilidade em seu sentido amplo. Isso inclui a inclusão social com qualidade de vida, a preservação ambiental e a construção de infraestrutura, com foco no desenvolvimento sustentável.

O quarto artigo trata das pequenas empresas, que, do ponto de vista da estrutura produtiva, talvez sejam o maior desafio. Isso porque são as empresas que se concentram no estrato mais baixo da produtividade, nos estratos de menor desenvolvimento tecnológico e de menor disponibilidade financeira. Nesse contexto, a agenda do desenvolvimento sustentável enfrenta mais dificuldades para superar obstáculos e ser difundida. O desafio é como levar essa agenda a esse universo de milhões de pequenas empresas, de baixíssima produtividade, e como reverter esse quadro. Esse artigo trata dos serviços empresariais, voltados à capacitação dessas empresas, para que possam se adequar à produção do futuro.

A nova edição do Radar aborda ainda o mercado de trabalho. No estudo, que parte da premissa de que a produção do futuro precisa e envolve tecnologias cada vez mais sofisticadas, considera-se que seu desenvolvimento pressupõe que novas vagas sejam abertas com emprego intensivo de tecnologias sofisticadas que precisam de capital humano e de profissionais altamente capacitados, que dominem ferramentas tecnológicas e que sejam capazes de desenvolver e aplicar conhecimentos de fronteira. Esse estudo avalia como o mercado de trabalho privado do Brasil vem tratando os profissionais mais qualificados, aqueles com formação de doutores.

Nogueira destaca ainda que a nova edição do Radar busca definir caminhos para a superação desses desafios e visa apoiar o governo federal na elaboração e implementação de políticas públicas, apontando os desafios e soluções práticas para o Brasil construir um futuro produtivo e sustentável, conforme os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030.

Acesse a edição temática nº 74 do boletim Radar

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Filhos precisam estudar muito mais para obter mesma posição social dos pais

Helio Montferre/Ipea

Compreender as diferentes dimensões da dinâmica social no Brasil, a estratificação e a mobilidade social brasileira são temas que compõem o livro “Dinâmica Econômica, Mudanças Sociais e Novas Pautas de Políticas Públicas”, lançado nesta quarta-feira (06/12), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A obra, ao longo de seus nove capítulos, busca apresentar uma variedade de trabalhos que abordam os aspectos teórico-metodológicos do uso de tipologias de classes.

Organizado pelos pesquisadores do Ipea, João Cláudio Basso Pompeu, André Rego Viana,Luis Carlos Garcia Magalhães, e Ana Paula Vasconcelos Gonçalves, professora adjunta no Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o livro é resultado de dois anos de pesquisas e debates.

“Uma parte da obra é essencialmente teórica, baseada em uma longa discussão que busca resgatar a importância do uso da estratificação social e das categorias de classe para o debate de política pública no Brasil. Apresenta uma série de estudos de caso que são relevantes a reflexão sobre impactos em diversas políticas públicas”, explicou André Rego Viana.

Viana também ressaltou que as duas visões abordadas pela obra são capazes de compor um cenário abrangente, aprofundando, por meio de análises, a pauta da educação, a questão racial e as repercussões das alterações que ocorrem nas rendas das diferentes classes sociais para quadros políticos diversos.

Educação relativa

O sexto capítulo, intitulado "Fundamentos e Aplicações de uma Tipologia de Classes para o Brasil", do autor André Ricardo Salata, procura argumentar em defesa da relevância e adequação de se considerar a educação como um bem posicional, medindo-a de modo relativo. A ideia central é que o importante não é a quantidade absoluta de educação que o indivíduo possui, mas sim quanto ele obtém em relação aos demais. Nesse sentido, o valor, do ponto de vista do investimento pessoal, da educação alcançada por alguém depende da quantidade de educação que os demais possuem.

Salata conclui que, entre outras coisas, por mais que a expansão educacional possa ter tornado as chances de acesso a determinados níveis de ensino menos desiguais, ela também acaba por enfraquecer a estrutura de oportunidades atrelada àqueles níveis. “É possível, então, que uma das principais consequências da expansão educacional seja não a redução da associação entre classe de origem e escolaridade alcançada, mas sim que os indivíduos precisem acumular cada vez mais anos de estudo, chegar a níveis de ensino cada vez mais altos, a fim de permanecerem na mesma posição social de seus pais, configurando uma verdadeira corrida posicional”, disse.

A primeira parte do livro, os quatro primeiros capítulos, debate os aspectos teóricos e metodológicos que fundamentam a relevância do uso da análise de classes sociais. Essa seção também abrange as limitações desse procedimento para a compreensão de diferentes fenômenos sociais da realidade do Brasil. A segunda parte da obra utiliza a análise de classe para elaborar diagnósticos de diferentes problemas que afetam o bem-estar da sociedade brasileira.

O livro sugere que o conceito de classe, em suas variadas dimensões, permanece importante para a compreensão de muitos fenômenos sociais. “Os mapas de classe posicionais ajudam a descrever e analisar as diversas formas de desigualdades que condicionam o padrão de consumo, o acesso à educação e saúde, as oportunidades de vida dos indivíduos e, ainda, as possibilidades e os limites da ação coletiva para alterar a estrutura de classe na qual se inserem”, afirmam os organizadores da obra em suas considerações finais.

Além dos organizadores da obra e de Salata, assinam também artigos na coletânea Marcela Fernanda da Paz de Souza, Natália Leão, Luiz Rubens Câmara de Araújo, Carla Rodrigues Costa de Araújo, Kolai Zagbaï Joel Yannick, Flavio Carvalhaes e José Alcides Figueiredo Santos.

Os capítulos teórico-metodológicos tratam de temas como: percursos metodológicos dos estudos sobre estratificação social no Brasil (capítulo 1); tipologias de classe aplicadas à realidade brasileira (capítulo 2); procedimentos metodológicos utilizados para a construção da tipologia de classes adotada na pesquisa dinâmica econômica, mudanças sociais e novas pautas de políticas públicas (capítulo 3); e a tipologia ocupacional erikson-goldthorpe-portocarero: uma avaliação analítica e empírica (capítulo 4).

A segunda parte da obra, na seção de aplicações de tipologias de classe, trata dos assuntos: fundamentos e aplicações de uma tipologia de classes para o Brasil (capítulo 5); classe de origem e resultados educacionais: uma análise considerando o caráter posicional da escolaridade (capítulo 6); interações entre origem de classe e raça na transmissão das desigualdades no Brasil (capítulo 7); desindustrialização e mudança na estrutura de classes no Brasil: evidências a partir das pesquisas domiciliares no período 2002-2015 (capítulo 8); e grupos ocupacionais na PNAD Brasil (2002-2015): mudanças e pistas para um mapa de classes a partir da renda (capítulo 9).

Acesse a íntegra do livro ​

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Atlas da Violência estima que mais de 49 mil homicídios deixaram de ser devidamente classificados, entre 2011 a 2021

O Atlas da Violência 2023 , do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, revela que 49.413 mortes deveriam ter sido classificadas como homicídios, mas ficaram fora dos números, entre 2011 e 2021. A estimativa divulgada no Atlas é resultado de análises do Ipea, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O estudo aponta também que, nesse período, o Brasil não conseguiu classificar a contento o conjunto de 126.382 óbitos, que foram registrados como morte violenta por causa indeterminada (MVCI). Essas mortes podem ser tanto decorrentes de acidentes quanto de suicídios ou homicídios, portanto, causas totalmente diferentes entre si.

O Atlas, divulgado nesta terça-feira (05/12) pelo Ipea e pelo FBSP, estima que o número de homicídios ocultos ao ano foi de 4.492 nesses 10 anos. Este índice corresponde à média de homicídios que ocorre anualmente no estado de São Paulo, ou à queda sem sobreviventes de 150 Boeings 787 lotados, em tragédias totalmente invisibilizadas.

O estudo também revela que, entre os anos de 2011 e 2021, 616.095 pessoas foram assassinadas, 47.847 apenas em 2021, conforme os registros oficiais do Ministério da Saúde. Esse número corresponde a uma taxa de 22,4 mortes por 100 mil habitantes.

No recorte por estados, a inclusão dos homicídios ocultos permite identificar quais estados têm maior incidência de homicídios, sendo as Unidades Federativas com maiores populações residentes as responsáveis por 72,5% dos homicídios ocultos do país. São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais lideram neste aspecto.

Os pesquisadores do Atlas alertam que, neste cenário de elevada incerteza sobre intencionalidade dos óbitos, ignorar as MVCI pode influenciar negativamente diagnósticos e formulações de políticas públicas, impedindo intervenções em aspectos sensíveis da sociedade. Os autores consideram também que, se não houvesse o aumento de armas de fogo em circulação entre 2019 e 2021, teria havido 6.379 homicídios a menos no Brasil, equivalendo a todos os homicídios na Região Norte do país em 2021 ou a mais do que todos os homicídios registrados nos estados da Região Sul nesse ano.

O Atlas da Violência traz informações e análises que ajudam a compreender e visibilizar as violências com diferentes recortes específicos. Há citações a violência contra a juventude e as crianças, violência contra as mulheres e os casos de feminicídio, violência contra pessoas negras, contra a população LGBTQIAP+, pessoas com deficiência, indígenas e idosos.

Entre 2020 e 2021, diversos estados registraram queda da taxa de homicídios em quase todas as regiões, com exceção da Região Norte, que apresentou altas de 34,9% para Amazonas, 17,1% para o Amapá e 16,2% para Rondônia. O Acre, contrariando a tendência regional, obteve a maior redução (-33,5%), seguido por Sergipe (-20,3%) e Goiás (-18,0%).

Desde 2016, esse índice de violência vinha diminuindo nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul, conforme analisado nos Atlas da Violência 2019 e 2020. Além do armistício na guerra em as maiores facções do país, pelo controle do corredor internacional de drogas nas Regiões Norte e Nordeste, houve a mudança do regime demográfico em direção ao envelhecimento da população, com a subsequente diminuição do número de jovens entre 15 e 29 anos. Além disso, alguns estados e municípios brasileiros começaram a implementar ações e programas qualificados de segurança pública. 

Os recortes demográficos

Em 2021, de cada 100 jovens entre 15e 29 anos que morreram no Brasil por qualquer causa, 49 foram vítimas de violência letal. Dos 47.847 homicídios ocorridos em 2021, 50,6% tiveram como alvo jovens dessa faixa etária, totalizando 24.217 pessoas. Com isso, há uma média de 66 jovens assassinados por dia no país. Na série histórica dos últimos onze anos, entre 2011 e 2021, 326.532 jovens foram vítimas da violência letal no país.

Apesar dos números alarmantes, em 2021 houve uma queda de 6,2% no número absoluto de homicídios de jovens em 2021 em comparação com 2020. A taxa de homicídios para cada 100 mil jovens diminuiu de 51,8 para 49,0, representando uma redução de 5,4% em um ano e uma contração de 25,2% no período de 2016 a 2021.

Quanto às mulheres, na última década, mais de 49 mil mulheres foram assassinadas no Brasil. Entre 2020 e 2021, a taxa geral de homicídios caiu 4,8%, mas no caso de homicídios femininos houve um crescimento de 0,3%. Em números absolutos de 2021, 3.858 mulheres foram assassinadas, conforme os dados oficiais. No entanto, o Atlas estima que o total dessas mortes violentas tenha sido de 4.603; ou seja, outras 745 mulheres sofreram agressões fatais sem que o Estado conseguisse registrar corretamente as causas dessas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI).

Historicamente, as pessoas negras são as maiores vítimas de violência no Brasil. Quando falamos da violência contra as mulheres, os dados não diferem: a violência letal é mais prevalente entre mulheres negras do que entre não negras. Em 2021, 2.601 mulheres negras foram vítimas de homicídio no Brasil, representando 67,4% do total de mulheres assassinadas naquele ano e uma taxa de aproximadamente 4,3 mulheres negras mortas para cada 100 mil habitantes desse grupo. Entre as mulheres não negras, essa taxa foi de 2,4 por 100 mil, quase 45% menor. Na comparação das taxas, o risco relativo de sofrer um homicídio é 1,8 vezes maior entre as mulheres negras do que entre as não negras.

Em 2021, o cenário em que o registro de homicídios de pessoas negras (soma de pretos e pardos, segundo a classificação do IBGE) lidera o ranking de mortes violentas se repetiu, totalizando 36.922 vítimas. Nesse ano, a população negra respondeu por 79% dos mortos, com uma taxa de 31,0 homicídios para cada 100 mil habitantes desse grupo populacional, contra a taxa de 10,8 para pessoas não negras (soma de amarelos, brancos e indígenas).

Violência contra idosos

Seguindo a tendência mundial, o novo regime demográfico brasileiro se caracteriza pelo crescimento mais acentuado da população idosa (com 60 anos ou mais) em relação aos outros grupos etários. Em 2022, a população idosa era composta por cerca de 32 milhões de pessoas, correspondendo a aproximadamente 15% da população brasileira. Por esse motivo, o Atlas reservou um capítulo para discutir a violência contra idosos e as diferentes formas pelas quais isso ocorre entre negros e não negros.

As mortes por causas violentas foram responsáveis por 4,7% do total de óbitos de homens negros e 4,3% no caso dos não negros em 2021. Os óbitos por causas externas incluem diversas formas de violência, como agressões, quedas e acidentes de transporte. A mortalidade por agressão foi cerca de 41% mais elevada para negros do que para não negros em 2021, quando o país registrou uma taxa de 16,6 óbitos por agressão por 100.000 habitantes para negros, e 9 por 100.000 para não negros.

No período de 2011 a 2021, houve uma diminuição na taxa desses óbitos de 23,4% para os idosos negros e de 40,2% para os não negros. Já em relação aos óbitos por agressão de mulheres idosas, registrou-se uma taxa de 2,1 por 100.000 para mulheres negras e de 1,8 por 100.000 para não negras. Houve uma redução de 19,8% na taxa de óbitos para as mulheres negras e de 28,1% para as não negras no período. Apesar de a variação ter sido negativa para todos os grupos, as taxas de decréscimo foram menores para homens e mulheres negros.

Acesse a íntegra do Atlas da Violência 2023

Confira o sumário executivo

Arte infográfico

Acesse o portal do Atlas da Violência

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Ministra Simone Tebet discute seus planos para os próximos quatro anos

Helio Montferre/Ipea

Simone Tebet, ministra de Estado do Planejamento e Orçamento (MPO), apresentou os 14 objetivos estratégicos, que foram definidos em 34 resultados-chave e 29 projetos para os próximos quatro anos, durante o lançamento do Planejamento Estratégico Integrado (PEI) da pasta na segunda-feira (4). Segundo a ministra, o Plano equivale, para o Ministério, ao que é o Plano Plurianual (PPA) para o Brasil. A cerimônia, reuniu representantes das secretarias do MPO e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A ministra enfatizou a participação ativa dos funcionários no processo, indicando que o PEI foi moldado considerando suas perspectivas. "Para fazer o PPA, ouvimos o Brasil. Para o PEI, ouvimos os vocês", declarou, ressaltando a importância de políticas públicas mais eficientes, visando à redução das desigualdades por meio de recursos bem aplicados.

Os objetivos estratégicos relacionam-se ao fortalecimento das relações institucionais com as entidades vinculadas; estimular o bem-estar e o desenvolvimento das pessoas; aperfeiçoar os processos de trabalho por meio da simplificação e transformação digital; e a governança em prol do alcance da missão institucional.

O secretário-executivo em exercício do MPO, Marcio de Oliveira Albuquerque, destacou o caráter colaborativo da elaboração do PEI, envolvendo todas as equipes ministeriais. Ele explicou que o plano não apenas visa atingir metas, mas também impulsionar o desenvolvimento de projetos em cada secretaria, sublinhando a relevância do intenso debate interno. Albuquerque salientou ainda que esta é a primeira vez que o planejamento do MPO incorpora órgãos subordinados, incluindo o Ipea e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O presidente substituto do Ipea, Claudio Roberto Amitrano, que participou da mesa de abertura, expressou a satisfação com a recriação do MPO e o fortalecimento do planejamento estratégico nas atividades do governo federal. “O próprio Ipea nasce de uma iniciativa do MPO”, lembrou Amitrano.

231240 lancamento plano estrategico institucional interna

Helio Montferre/Ipea

O envolvimento do Ipea na elaboração do PEI destaca a importância da cooperação entre órgãos estratégicos, ressaltando que o Instituto não apenas desempenha um papel importante no planejamento, mas também contribui para a eficácia das políticas públicas no país. O evento evidenciou a sinergia entre os diferentes setores governamentais na busca por uma gestão mais eficiente e focada no desenvolvimento sustentável do país.

Assista o evento no canal de youtube do MPO.

Acesse a apresentação feita durante o evento.

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