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O auditório do Ipea se transformou, na última semana, em um espaço onde memórias, vozes e sonhos se encontraram. No seminário “Presença Negra: Forjar Imaginários, Formar Novos Quilombos”, que reuniu servidores, pesquisadores e artistas, a ancestralidade se fez presente em cada relato, celebrando a força da juventude quilombola, a potência das mulheres negras no cinema e na literatura, e a urgência de criar narrativas em que o povo negro possa existir plenamente — para além da dor, da invisibilidade e do esquecimento histórico.
A abertura contou com a presidenta do Instituto, Luciana Mendes Santos Servo, que destacou o papel da instituição na promoção de diálogos com diferentes formas de produção de conhecimento. “A cultura, o território e as narrativas que nos formam também são política pública. Reconhecer essas vozes é reconhecer o Brasil real. Presença, memória e criatividade são instrumentos de transformação”, afirmou.
Marina Lacerda, coordenadora-geral de Promoção e Sustentabilidade do Iphan, reforçou a relevância de construir espaços institucionais que acolham pluralidades e histórias diversas. “Trazer essas histórias para o centro do debate é também afirmar nossa responsabilidade em ampliar horizontes e ouvir o que, por muito tempo, foi silenciado. É reconhecer que os territórios e a ancestralidade também falam conosco”, disse.
Um filme que acende presenças e territórios
A tarde foi marcada pela exibição do documentário “Vozes e Vãos”, dirigido por Edileuza Penha de Souza e Edymara Diniz, que estreia no Festival de Cinema de Brasília. Ambientado na Chapada dos Veadeiros, o filme retrata a juventude quilombola de comunidades como Kalunga, Capela e São Domingos, mostrando como jovens preservam tradições e transformam a herança cultural em força para o futuro.
“O filme é atravessado pela força da ancestralidade. Nele, jovens narram suas próprias histórias com uma clareza que emociona e desarma. Suas vozes costuram passado e futuro, chamam por quem veio antes e por quem ainda virá. O pertencimento comunitário, a força das avós, a espiritualidade quilombola e a construção coletiva da identidade compõem uma obra que não apenas registra, mas faz existir”, destacou Andressa Marques, coordenadora-geral de Livro e Literatura do Ministério da Cultura.
O documentário também mostra o Cerrado como personagem vivo, evidenciando a relação entre cultura e natureza: rios, matas e serras desenham o território onde tradições são preservadas, reforçando que proteger quilombos é também proteger a sustentabilidade e o futuro climático do Brasil.
Cinema e literatura como territórios de futuro
No debate que se seguiu, a mesa “O cinema e a literatura forjando imaginários pelas mãos de mulheres negras”, mediada por Bruna Ferreira (Iphan), reuniu Edileuza Penha de Souza e Andressa Marques, num diálogo marcado por afeto, crítica e memória.
Edileuza provocou a plateia ao questionar como grande parte das obras que compõem o imaginário nacional limita os horizontes da população negra. “Por que a violência precisa ser tão detalhada? Por que, se você é negro, nas narrativas mais populares, você foi, é ou será bandido?”, indagou.
Para a diretora, pensar cinema e literatura é também pensar futuros: “A gente precisa forjar novos quilombos quando faz arte. É nesse imaginário que encontramos possibilidades que o real ainda não nos oferece.”
Imaginar é resistir
Entre memórias resgatadas, referências históricas e a emoção da obra apresentada, o seminário reafirmou a importância de criar espaços onde pessoas negras possam não apenas ser vistas, mas se verem, de forma plural, complexa e amorosa. Uma tarde que uniu arte, pesquisa e política pública, lembrando que imaginar novos futuros não é fuga: é trabalho, é criação de mundo, é continuidade.
Porque presença não é apenas estar, é permanecer. É acender caminhos.
É inaugurar o que ainda não existe.
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O fortalecimento da cultura de avaliação no Estado brasileiro foi o eixo central do 2º Fórum Nacional de Avaliação, realizado nos dias 25 e 26 de novembro na Escola Nacional de Administração Pública (Enap), em Brasília. O evento reuniu gestores dos três níveis federativos, especialistas, parlamentares e representantes de organismos internacionais para debater a construção de um Sistema Nacional de Avaliação de Políticas Públicas e Revisão de Gastos. A programação incluiu a apresentação dos resultados do ciclo 2024–2025 do CMAP e o lançamento da agenda avaliativa 2025–2026.
A presidenta do Ipea, Luciana Mendes Santos Servo, participou da mesa de abertura e destacou que a avaliação deve estar no centro da formulação e do acompanhamento das políticas públicas. Ela afirmou que o objetivo das avaliações não é produzir relatórios isolados, mas aperfeiçoar a ação governamental e ampliar seu alcance sobre a população. “A gente faz avaliação porque queremos que as políticas públicas alcancem seus objetivos. O que a gente quer é apoiar essas políticas para que se tornem mais efetivas e alcancem a população”, afirmou.
Luciana ressaltou ainda que os estudos avaliativos compõem um repertório acumulado que se torna fundamental em momentos estratégicos de tomada de decisão, como ocorreu recentemente na Reforma Tributária, e lembrou que o campo tem avançado de forma consistente dentro do governo federal.
Institucionalização da agenda e aprendizados
Na primeira mesa temática, dedicada ao ciclo de avaliações do CMAP, a pesquisadora da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) Camila Mata Machado Soares destacou o avanço institucional da pauta e o papel crescente do Ipea na articulação entre avaliação e gestão pública. Ela mencionou que o Instituto ampliou sua participação nos comitês do CMAP e estruturou, em 2024, um núcleo interno voltado exclusivamente às avaliações. “A pauta está consolidada, a equipe maior, os processos se fortalecendo. É uma felicidade pessoal participar disso e ver o Ipea tão próximo da agenda de avaliação”, afirmou.
A pesquisadora enfatizou que a avaliação é também um processo de aprendizado coletivo, fruto da interação entre especialistas temáticos e avaliadores. Entre os desafios futuros, apontou a necessidade de incorporar com mais força equidade, raça e gênero nas metodologias e nos guias utilizados pelo governo. “A pauta mudou muito nos últimos anos. A gente precisa incluir discussões sobre equidade nos guias e evoluir metodologicamente”, observou.
Ferramentas e padronização
No painel dedicado à Metodologia de Avaliação Padronizada de Políticas Públicas (MAPP), o pesquisador da Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest) Rodrigo Toneto apresentou a evolução da ferramenta e sua importância para criar bases comuns dentro de um ecossistema de políticas públicas muito diverso.
Ele relembrou que acompanhou o desenvolvimento da metodologia desde seu ingresso no Instituto e que o processo permitiu compreender a fundo como o Ipea se relaciona com a Esplanada na construção de instrumentos avaliativos. “O desenvolvimento da MAPP foi, para mim, o processo de entender como são feitas as políticas de avaliação e como o Ipea se relaciona com a Esplanada”, afirmou.
Toneto ressaltou que a principal contribuição da MAPP é oferecer linguagem, estrutura e conceitos compartilhados a gestores e equipes técnicas, facilitando a construção de diagnósticos comparáveis e mais acessíveis. “A MAPP não é só uma ferramenta. Ela cria um terreno comum e uma linguagem comum. Isso é fundamental num ecossistema tão diverso”, destacou.
Ele também frisou que o uso ampliado da metodologia permitirá identificar novas possibilidades e eventuais aperfeiçoamentos. “A gente só vai descobrir todo o potencial, e os problemas, quanto mais pessoas usarem. É um convite ao uso”, concluiu.
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O Brasil tem potencial para ser um dos protagonistas globais na corrida pelos minerais que promovem a transição energética, mas está ficando para trás. Essa é a conclusão de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fruto de acordo de cooperação técnica com a Agência Nacional de Mineração (ANM), que analisou reservas, produção, comércio exterior e investimentos em dez minerais considerados essenciais para tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas e painéis solares.
Os números impressionam pela disparidade entre potencial e realidade. O país detém 74 milhões de toneladas de grafita, quase o mesmo volume da China, que lidera o ranking mundial. Nas terras raras, substâncias essenciais para motores de veículos elétricos e equipamentos de geração renovável, o Brasil aparece com 19% das reservas globais, atrás apenas da China e do Vietnã. No manganês, ocupa a terceira posição mundial; no níquel, a quarta. E possui ainda 9% das reservas de bauxita, matéria-prima do alumínio.
Apesar disso, a produção nacional de parte significativa desses minerais caiu de forma sistemática nos últimos sete anos, enquanto o mundo acelerou a extração para abastecer a indústria da transição energética. O estudo mostra que a produção brasileira de grafita despencou, em média, 8,4% ao ano, enquanto o mercado global avançou 10% anualmente. No segmento de manganês, a retração anual foi de 7,4%. No caso das terras raras, a queda média foi de 6,4% ao ano, diante de um crescimento mundial superior a 19%.
“O Brasil tem reservas comparáveis às dos principais produtores, mas não converte esse potencial em produção. O país está fora da dinâmica global que impulsiona a mineração para sustentar a descarbonização”, afirma Rafael da Silveira Soares Leão, um dos autores do estudo.
O contraste fica ainda mais evidente quando comparado a países que partiram de posições muito inferiores. Moçambique, que em 2017 tinha uma produção irrisória de grafita, multiplicou sua extração por 206 vezes até 2022. Madagascar cresceu quase nove vezes no mesmo período. A Guiné, dona das maiores reservas globais de bauxita, quase triplicou sua produção desde 2017. Já o Brasil, reduziu sua oferta de bauxita em cerca de 2,8% ao ano.
A disputa global pela “nova energia”
Parte dessa corrida é explicada pela mudança estrutural nos sistemas de geração e consumo de energia. Com a expansão de carros elétricos, parques solares e usinas eólicas, tecnologias de baixa emissão de carbono tornaram-se altamente dependentes de minerais específicos. Enquanto um carro a combustão utiliza menos de 50 kg desses materiais, um veículo elétrico pode demandar mais de 200 kg de cobre, níquel, lítio, grafita e terras raras.
A International Energy Agency (IEA) estima que a intensidade mineral da geração elétrica renovável é várias vezes maior que a das usinas fósseis. Uma turbina eólica offshore, por exemplo, exige até 16 toneladas de minerais por megawatt instalado. Um painel solar requer mais de sete toneladas.
Essa nova realidade abriu espaço para uma geopolítica distinta da que marcou o século do petróleo. Em vez de grandes exportadores de hidrocarbonetos, agora ganham importância países com reservas de cobalto, níquel, grafita e terras raras. A China, ciente desse movimento desde os anos 1990, antecipou-se e construiu hegemonia na extração, além de etapas de maior valor agregado como o refino e o processamento.
Segundo o estudo do Ipea, atualmente os chineses controlam 95% do refino de grafita, 91% das terras raras, 91% do manganês, 78% do cobalto e 70% do lítio. No níquel, a liderança é dividida com a Indonésia, embora boa parte das operações indonésias seja de controle chinês. Com isso, a China domina também o elo final da cadeia: 85% da produção global de baterias para veículos elétricos está em território chinês.
“Os países que conseguem garantir acesso estável e barato a minerais críticos têm melhores condições de desenvolver tecnologias renováveis. E isso vale tanto para grandes produtores quanto para grandes importadores com forte poder de barganha, como Japão e Alemanha”, observa o pesquisador.
Brasil: potência geológica, desempenho tímido na produção
Se o Brasil não avança na produção, tampouco ocupa posição relevante no refino de minerais críticos ou na manufatura de tecnologias da transição energética. Isso deixa o país, segundo o estudo, em situação de vulnerabilidade: exportador de minérios brutos de baixo valor agregado e importador caro de equipamentos verdes.
A exceção recente é o lítio, extraído no Vale do Jequitinhonha. Impulsionadas por novos investimentos, as minas brasileiras registraram crescimento anual médio de 75%, transformando o país no sexto maior produtor do mundo. Mas ainda é pouco para a ambição de integrar a cadeia global de baterias.
Para Leão, o país não tem apenas um desafio mineral. “Há também entraves logísticos, ambientais, regulatórios e tecnológicos. Sem investimentos em exploração, pesquisa geológica e capacidade industrial, manter grandes reservas não será suficiente para garantir lugar na economia verde”, afirma o pesquisador.
O estudo ainda revela outra tendência: ao mesmo tempo em que cai a produção doméstica, cresce a dependência externa de produtos do segundo elo da cadeia: os minerais já processados, essenciais para a indústria. Isso reforça o diagnóstico de perda de competitividade e de ausência de estratégia integrada.
O Brasil, de modo geral, tem se comportado mais como fornecedor complementar de matérias-primas para a China do que como competidor global capaz de subir na escada de valor. “Se o país não alinhar sua política mineral à política industrial e energética, corre o risco de ficar na mesma posição que ocupou durante o século XX: exportador de recursos primários e importador de tecnologia”, alerta o autor.
Janelas que começam a se fechar
Embora os dados indiquem alguma recuperação pontual da produção mineral brasileira em 2023, especialmente em cobre, manganês, zinco e lítio, os pesquisadores afirmam que esse movimento ainda é insuficiente para alterar o quadro geral. A transição energética avança rápido e tende a concentrar cadeias produtivas nos próximos anos.
De acordo com o estudo, o Brasil precisa agir imediatamente caso queira transformar suas reservas gigantes em oportunidades concretas. Isso inclui reduzir incertezas regulatórias, ampliar investimentos em prospecção, fortalecer a fiscalização ambiental, modernizar a infraestrutura logística e fomentar a indústria de transformação mineral.
“Estamos diante de uma mudança estrutural que não acontecerá de novo. A forma como o mundo organizará suas matrizes energéticas e industriais nas próximas décadas será profundamente influenciada por decisões tomadas agora. O Brasil tem condições de ser protagonista, mas só será se agir”, conclui Leão.
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O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizou a cerimônia de posse coletiva de novos técnicos de planejamento e pesquisa, em um evento marcado pelo acolhimento aos novos servidores e pela reafirmação do papel estratégico da instituição na produção de conhecimento para subsidiar a tomada de decisão do Estado brasileiro. A solenidade também incluiu uma apresentação geral do balanço de ações recentes do Instituto.
Foram nomeados recentemente mais 20 servidores do último concurso realizado em 2024, que se somam aos 80 já recebvidos num primeiro momento. “A chegada de vocês faz muita diferença numa instituição que volta a se renovar. Mas essa renovação precisa estar conectada à experiência de quem já estava aqui, carregando esse trabalho ao longo do tempo”, afirmou a presidenta do Ipea, Luciana Mendes Santos Servo, ao abrir sua fala.
Ao destacar a dimensão simbólica da posse, Luciana ressaltou que a “marca Ipea” é maior do que qualquer gestão ou indivíduo e que cada servidor carrega essa responsabilidade em todas as instâncias de atuação. “A nossa missão é pensar o Estado brasileiro, qualificar o debate público e produzir conhecimento para subsidiar políticas públicas. A gente não traz soluções prontas. O que trazemos é a possibilidade de diálogo qualificado com quem formula e executa as políticas”, disse.
Segundo a presidenta, esse trabalho exige cada vez mais integração entre as diretorias, visão de longo prazo e atuação transversal, especialmente diante dos desafios nacionais ligados às desigualdades sociais, raciais, regionais e ambientais. “Não há como discutir desenvolvimento sem considerar a população negra, os povos indígenas, os territórios e os impactos do clima. A diversidade não é apenas uma agenda institucional, é uma dimensão central da política pública”, pontuou.
Luciana também apresentou, de forma sintética, alguns avanços estruturantes do Instituto, como o fortalecimento da agenda de avaliação de políticas públicas, a organização de um portfólio estratégico de projetos e o aprimoramento da atuação junto a ministérios e órgãos do Executivo federal. “Nosso principal interlocutor é o Estado brasileiro. É com ele que precisamos dialogar mais, de forma mais orgânica e coordenada. Sem isso, nosso impacto se reduz”, alertou.
Diretores destacam papel estratégico e agenda futura do Instituto
O diretor de Desenvolvimento Institucional (Dides), Fernando Gaiger Silveira, deu as boas-vindas aos novos servidores e apresentou um panorama das ações voltadas à melhoria da infraestrutura, à gestão de pessoas e ao fortalecimento institucional. Entre os destaques de sua fala, mencionou avanços na organização do espaço físico, ações para ampliar a diversidade, implantação de novas rotinas de gestão e investimentos previstos em convivência e sustentabilidade, como a instalação de painéis fotovoltaicos.
Já o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas (Dimac), Cláudio Roberto Amitrano, ressaltou a importância do momento vivido pelo Instituto. “É uma enorme satisfação participar desse dia. Esse é um espaço extraordinário para quem deseja trabalhar com temas relevantes para o país”, afirmou. Ele explicou, de forma geral, como a diretoria vem se organizando em torno de grandes linhas de pesquisa ligadas a crescimento econômico, política fiscal, desigualdade e meio ambiente, além do fortalecimento de uma agenda mais diversa e interdisciplinar.
Luseni Aquino, diretora de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest), além de falar dos principais focos de atuação da sua diretoria, destacando projetos como o voltado à participação popular e de inclusão social, também ressaltou a importância da parceria com outros órgãos e e instituições. Segundo ela, é importante “esse diálogo próximo com o Estado brasileiro, seus agentes, suas instituições”.
O diretor de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (Dirur), Alexandre dos Santos Cunha, reforçou o caráter transversal da diretoria que dirige e o impacto territorial das políticas públicas. Ele ressaltou o papel dela no enfrentamento de desafios estratégicos que já estão em andamento, como avaliações na área ambiental, estudos para o planejamento habitacional e a construção do Plano de Desenvolvimento Territorial da Bacia do Rio Doce. “É a partir do trabalho de vocês que essa instituição continuará se reinventando e cumprindo sua missão nas próximas décadas”, afirmou.
A diretora-adjunta de Estudos Internacionais, Cláudia Curralero, destacou a presidência do Brasil no BRICS, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e a Agenda 2030, que trata dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, pautas em que o Ipea tem assumido protagonismo e que explicam a internacionalização da instituição.
Letícia Bartholo, diretora de Estudos e Políticas Sociais, além de destacar algumas áreas de pesquisa do setor, passando por saúde, educação e previdência, por exemplo, destacou a importância de se construir políticas públicas que possam, de fato, ser concretizadas. “Uma boa política pública que não tem possibilidade de implementação não é uma boa política pública”, defendeu.
Pedro Miranda, diretor de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset), também ressaltou algumas das pautas prioritárias da diretoria: política de fortalecimento do complexo industrial da saúde; ambiente de negócios e regulação; produção do futuro, envolvendo a incorporação de novas tecnologias; e política de desenvolvimento produtivo.
Miranda também preside o grupo de trabalho do concurso e aproveitou o momento para agradecer aos demais membros e reforçar a responsabilidade dos que estão chegando. “Venham com garra, porque a gente tem muito trabalho para consolidar o Estado brasileiro e, sobretudo, construir um país menos desigual”, concluiu, dirigindo-se aos recém-empossados.
Também participaram da mesa de abertura e deram as boas-vindas aos novos servidores o coordenador-geral de Ciência de Dados e Tecnologia da Informação, Lucas Mation; a chefe de gabinete Sheila Tolentino; e o presidente do Sindicato Nacional dos Servidores do Ipea (Afipea), Gustavo Luedemann.
A posse de novos servidores, simboliza um novo ciclo para o Ipea, marcado pelo fortalecimento de sua capacidade técnica, pela ampliação da diversidade e pelo aprofundamento de seu papel como instituição de Estado dedicada à análise, à avaliação e à produção de evidências para o aprimoramento das políticas públicas no Brasil.
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O II Seminário Melhorias Habitacionais: da Saúde do Habitat à Economia Popular reuniu, em Brasília, especialistas do Ipea, Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR), Caixa Econômica, ONU-Habitat, IBGE e outras instituições para discutir estratégias integradas de melhoria habitacional e fortalecimento da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Athis).
Na abertura, a presidenta do Ipea, Luciana Mendes Santos Servo, ressaltou a importância de o instituto sediar o seminário e destacou a longa parceria com instituições como a Fiocruz e o CAU/BR, especialmente no trabalho desenvolvido com a Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (Dirur). “Essa discussão sobre a questão habitacional nas suas várias perspectivas é central para o Brasil. A possibilidade de tratar uma habitação saudável de uma perspectiva mais ampliada para além da construção de novas habitações”, enfatizou.
Renato Balbim, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, destacou o crescimento expressivo das organizações sociais (OSCs) atuantes no campo habitacional, tema da terceira mesa do seminário. “O Mapa das OSCs, produzido pelo Ipea, identificava apenas 8 organizações dedicadas à habitação de interesse social no início deste ano; hoje são 376, com previsão de atualização para aproximadamente 770 organizações”, detalhou.
No encontro, o técnico anunciou uma parceria do Ipea com o Ministério da Saúde para trabalhar a dimensão ambiental do Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), plataforma de consulta de indicadores e índices associados à temática da vulnerabilidade social. A parceria prevê uso de dados do Sistema Único de Saúde, acompanhamento de agentes comunitários de saúde, entre outros pontos.
“Tenho muito orgulho de dizer que a nossa equipe formulou uma coisa que é absolutamente inovadora não só no Brasil, mas no mundo: a unidade básica de análise de vulnerabilidade é a pessoa, é a família, aquilo que a família ou a pessoa não tem, que a torna vulnerável. No caso da vulnerabilidade ambiental, o que a gente vai fazer é relacionar com a qualidade da casa”, explicou o pesquisador.
Participaram da mesa de abertura também representantes do Ministério das Cidades (MCid), da Caixa Econômica Federal, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Experiências pelo Brasil
A coordenadora Paula Zacarias apresentou a atuação da iniciativa ONU-Habitat no Brasil, guiada pela Agenda 2030 e pelo ODS 11 - Comunidades e Cidades Sustentáveis, destacando cinco eixos principais: planejamento urbano, produção de dados qualificados, desenho de espaços públicos, segurança urbana com foco em gênero e ações voltadas à resiliência climática e soluções baseadas na natureza.
Ela concentrou sua fala na experiência do projeto desenvolvido com o governo de Alagoas, voltado ao fortalecimento de políticas urbanas sustentáveis. A ONU mapeou vulnerabilidades nas grotas de Maceió e na região lagunar, produziu diagnósticos urbanos e socioeconômicos, apoiou diretrizes para uma política habitacional estadual e desenvolveu metodologias como o Mapa Rápido Participativo.
“O mapa nos permite uma leitura sociodemográfica da população, com dados de educação, renda, esporte, cultura, lazer, serviços e equipamentos urbanos, também como as famílias percebem aquele território. Isso permite também dimensionar do ponto de vista da população como ela se sente nesse local e quais tipos de políticas urbanas ou transversais da questão urbana que ela consegue acessar ou não. Isso, de certa forma, se reflete nas condições de moradia”, explica.
Bruno Perez, da Diretoria de Pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destacou a importância da produção de dados qualificados para orientar políticas públicas de habitação e urbanização. Ele reconheceu os avanços do Cadastro Único, que hoje é uma das principais fontes de informação sobre domicílios e moradores, mas lembrou que sua natureza autodeclaratória traz limitações. “O Cadastro Único se tornou uma fonte indispensável para o planejamento de políticas de moradia, mas ainda precisamos de outras bases complementares”.
Um dos frutos da parceria entre o Ipea e CAU/BR, segundo a arquiteta e urbanista e conselheira federal Jeanne Versari, foi um entendimento ampliado de habitação, articulado pelo conceito de saúde do habitat. A fala também destacou o papel do CAU na promoção da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Athis), foco do encontro.
“É uma noção muito mais ampla do que a gente entende como habitação, onde a melhoria envolve não só a melhoria habitacional em si, mas sim de todo o entorno da habitação e que o direito à moradia engloba uma série de outros direitos, como o direito à cidadania em si, englobando uma série de aspectos como a educação, saúde, cultura”, detalhou a conselheira da CAU/BR.
A Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Athis) é um direito previsto pela Lei nº 11.888/2008, que garante assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção da própria moradia às famílias com renda mensal de até três salários-mínimos.
Outra experiência destacada foi a da Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), entidade formada por moradores da favela de Heliópolis, localizada na zona sul de São Paulo, mobilizada pela luta pelo direito à moradia e à posse da terra.
“O território pode produzir conhecimento científico. Muitas das vezes colocam a gente como um saber ancestral, que também é isso, uma outra forma de saber, mas também tem um saber científico ali dentro, que às vezes é o que tem mudado essa experiência com universidades como o UNB e a USP”, explicou João Victor da Cruz, pesquisador de um dos projetos da UNA, o De Olho na Quebrada, que reúne jovens atuando com coletas de dados e pesquisas quantitativas e qualitativas sobre temas do território.
Representado a Rede MultiverCidades da Amazônia, de ação pelas Athis no estado do Pará, a professora Myrian Cardoso abordou a questão da implementação da política de regularização fundiária que, segundo ela, revelou desafios estruturais nos territórios, como cidades inteiras situadas em áreas federais e instrumentos de planejamento que não dialogavam com a realidade amazônica.
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A quantidade de bens industriais disponível para o mercado interno do Brasil avançou 2,1% em setembro, na comparação com agosto, conforme Indicador Ipea de Consumo Aparente de Bens Industriais, divulgado nesta quarta-feira (19). O resultado ocorreu em razão do avanço de 6,3% das importações de bens industriais e da produção interna destinada ao mercado nacional, com crescimento de 1,8%.

O crescimento na série dessazonalizada interrompeu uma sequência de duas quedas, fazendo com que o trimestre móvel encerrado em setembro registrasse alta de 0,2%. Na comparação interanual, tanto o indicador mensal quanto a média trimestral apresentaram avanço. Setembro registrou taxa de 3,5% em relação ao mesmo mês de 2024, enquanto o indicador em médias móveis trimestrais apresentou 0,6% de taxa.
No acumulado em doze meses, a demanda por bens industriais registrou alta de 3,6% em setembro, contrastando com a elevação de 1,5% da produção interna, medida na Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PIM-PF/IBGE).
A desagregação em grandes grupos econômicos revelou que o segmento da indústria extrativa apresentou queda de 7,6% na margem, devolvendo parte do forte crescimento de agosto (19,1%) e fazendo com que o trimestre móvel registrasse crescimento de 6,2%. O consumo aparente da indústria de transformação, por sua vez, avançou 4% na série dessazonalizada, após queda de 2% no mês anterior.
Com isso, o setor permaneceu praticamente estagnado, com avanço de apenas 0,1% no trimestre móvel encerrado em setembro. Em termos interanuais, a indústria extrativa teve retração de 12,1%. Já a transformação registrou alta de 4,1%. Na comparação em médias móveis, os resultados foram -6,8% e 0,7%, respectivamente.
Entre os grupos econômicos, com exceção da demanda por bens intermediários, que recuou 0,3%, todos os demais grupos registraram alta na margem. O grande destaque positivo ficou por conta do consumo aparente de bens de capital, que registrou alta de 23,8% na margem, impactado fortemente pela importação de uma plataforma de petróleo.
A desagregação setorial indica que 19 segmentos da indústria de transformação avançaram na margem, de um total de 22, o que aumentou o índice de difusão – que mede a porcentagem dos segmentos da indústria de transformação com aumento em comparação ao período anterior, após ajuste sazonal – para 86,4%, ante 27,3% em agosto.
A importação de uma plataforma de petróleo exerceu forte impacto nos resultados de setembro, especificamente no setor outros equipamentos de transporte, no qual é contabilizada. Entre os outros setores de peso relevante, os destaques positivos foram os segmentos farmoquímicos e informática, com altas de 8,6% e 5,1% na margem, respectivamente.
Em relação ao trimestre móvel, 13 segmentos registraram crescimento na comparação dessazonalizada. Além do já mencionado segmento outros equipamentos de transporte (35,5%), destacou-se também o consumo aparente de farmoquímicos, com alta de 7,7%.
Na comparação interanual, 15 segmentos da indústria de transformação apresentaram crescimento em setembro, em relação ao mesmo período de 2024. Além de outros equipamentos de transporte, os aparelhos farmoquímicos se destacaram (28,0%), seguidos pelo consumo aparente de têxteis (11,1%). No trimestre móvel, 11 setores registraram aumento em comparação a setembro de 2024.
Já no acumulado em doze meses, 15 segmentos tiveram crescimento, sobressaindo-se o consumo aparente de outros equipamentos de transporte, têxteis e máquinas e equipamentos, com altas de 42,7%, 11,3% e 10,3%, respectivamente.
O consumo aparente de bens industriais é uma medida da demanda interna por bens industriais. Ele é definido como a parcela da produção industrial doméstica destinada ao mercado interno, acrescida das importações.
Acesse a íntegra do indicador no blog da Carta de Conjuntura
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O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou o livro Monitoramento e Avaliação da Política Externa, com foco em bases normativas, questões teóricas e metodológicas relacionadas ao tema e nas particularidades do caso brasileiro. A obra é apresentada pelos debatedores como divisor de águas, defendendo que a política externa deve ser avaliada como as demais políticas públicas, com instrumentos e indicadores que permitam acompanhar metas, aferir resultados e apoiar decisões com foco no aprendizado e melhoria da ação do Estado.
A obra, segundo o coordenador de Estudos em Relações Econômicas Externas da Diretoria de Estudos Internacionais (Dinte/Ipea), Walter Desiderá, é um esforço de sistematização teórico-metodológico inédito e pioneiro sobre monitoramento e avaliação para o caso da política externa. “No Ipea, foi uma etapa necessária para o projeto que pretende construir ferramentas avaliativas e estabelecer rotinas que permitam dar suporte ao Ministério das Relações Exteriores, aprimorar as estratégias e prover legitimidade democrática”, detalhou.
No lançamento do livro, a presidenta Luciana Mendes Santos Servo salientou que o Ipea criou recentemente uma unidade para a coordenar todos os processos de avaliação e monitoramento para os quais a instituição contribui. “A recolocação do Brasil no cenário de cooperação internacional, de forma muito diferente do que foi feito nos anos anteriores, traz uma demanda que o Ipea já atendia, mas em um volume muito maior, quando o Brasil assume presidências consecutivas do G20, do BRICS e agora da COP 30”, reforça Luciana. Para a presidenta, são papeis que levam a instituição a ter o olhar do monitoramento e da avaliação em relação à política externa, indicando a importância da nova obra.
Antônio Lassance, técnico de planejamento e pesquisa, enfatizou a originalidade da metodologia. “A ideia de pensar as relações exteriores como política, como policy, não é nova. O fato de dar tratamento a isso no escopo de monitoramento e avaliação é recente, algo que não é o padrão e não é trivial de ser feito”, afirmou.
Durante o debate, foi defendido que planejamento, monitoramento, avaliação, accountability, transparência e prestação de contas integrem a análise da política externa, sempre com atenção às suas especificidades. “Um dos aspectos singulares da política externa enquanto política pública é exatamente o ambiente da implementação. Parte da política externa é implementada no âmbito internacional, no âmbito sistêmico, em um contexto em que o Estado e os tomadores de decisão têm controle relativo menor”, comentou Haroldo Ramanzini Júnior, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), que assina um dos capítulos do livro do Ipea.
A obra reúne sete capítulos que estruturam uma proposta inédita de aplicação do monitoramento e avaliação à política externa brasileira e sua importância democrática. Neles, é possível examinar o tratamento científico e multidisciplinar da política externa, incorporando lições de áreas como segurança, cooperação e diplomacia pública.
A publicação também aborda o uso de ciência de dados e tecnologias digitais para aprimorar o acompanhamento das ações internacionais do Estado, bem como destaca as particularidades do caso brasileiro e o papel do planejamento diplomático como base de uma política mais sistemática e transparente. Por fim, propõe um roteiro para os próximos passos deste projeto de pesquisa, com o objetivo de estabelecer as etapas a serem executadas para construir uma rotina de monitoramento e avaliação no campo da política externa no Brasil.
Foto: Tony Oliveira/ Agência Brasília
A participação das motos nas mortes por acidentes de trânsito passou de 3% no fim dos anos 1990 para quase 40% em 2023. É o que indicam dados do estudo Mortalidade e morbidade das motocicletas e os riscos da implantação do mototáxi no Brasil, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nesta quarta-feira (26). As motocicletas também concentram aproximadamente 60% das internações por acidentes de transporte terrestre e consumiram, em 2024, mais de R$ 270 milhões das despesas públicas hospitalares.
A nota também apresenta alertas sobre os riscos da regulamentação do serviço de mototáxi. Fragilidades apontadas, associadas com as estatísticas trágicas de mortalidade de motociclistas em geral, colocam as motos como não apropriadas para realização de serviços de transporte de passageiros remunerados.
O estudo reconstrói a evolução da frota de motocicletas e discute os impactos da disseminação do mototáxi e de aplicativos de transporte por moto em municípios de diferentes portes. A região Nordeste é a que concentra atualmente maior quantidade de municípios com serviços de mototáxi, de forma ilegal ou amparada por legislação local.
A frota de motocicletas cresceu de cerca de 2,7 milhões de unidades (1998) para mais de 34 milhões (2024), passando de menos de 10% para cerca de 30% da frota motorizada nacional. O aumento da mortalidade foi ainda mais intenso: as mortes de usuários de moto se multiplicaram 15 vezes no período e, após um período de queda observado desde 2014, a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes voltou a atingir recentemente o pico ocorrido naquele ano que antecedeu o início de crise econômica no país. Assim, a moto se tornou o veículo que mais mata no trânsito brasileiro.
Perfil das vítimas
A carga da violência associada às motos é desigual, considerando o perfil social das vítimas: cerca de 70% das mortes e internações por sinistros de motos atingem pessoas de 20 a 49 anos, com destaque para o grupo de 20 a 29 anos, que representa cerca de um terço das vítimas, embora represente parcela bem menor da população.
Mais da metade das vítimas de acidentes fatais com motos tem ensino fundamental incompleto. Além disso, aproximadamente 90% têm, no máximo, ensino médio, o que aponta para forte concentração das ocorrências entre grupos de menor escolaridade. Em termos de raça/cor, pessoas pardas são maioria entre os mortos e internados, indicando vulnerabilidade maior da população negra. Os homens seguem sendo o principal grupo de risco, respondendo por quase 90% das mortes e mais de 80% das internações.
Em duas décadas, as internações por sinistros com motocicletas no SUS se multiplicaram, superando 160 mil internações e representando cerca de 60% de todas as internações por acidentes de transporte terrestre. Os gastos hospitalares com vítimas de motos passaram de R$ 41 milhões para aproximadamente R$ 273 milhões (em valores reais), o que corresponde a quase dois terços do total despendido com sinistros de trânsito.
Riscos de regulamentação do mototáxi
Considerando a combinação de alta mortalidade, gravidade das lesões, dificuldade de garantir equipamentos de segurança adequados para condutor e passageiro, ausência de seguros e impacto negativo sobre o equilíbrio econômico do transporte público coletivo leva os autores a desaconselhar a regulamentação ampla do mototáxi.
“O ideal é que as cidades pequenas implementem e melhorem o transporte público ou de automóveis em vez de regulamentar um serviço de mototáxi muito perigoso”, argumenta Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho, técnico de planejamento e pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (Dirur/Ipea).
Para ele, nas cidades grandes os serviços de mototáxi deveriam atender apenas as localidades em que há dificuldade de passagem de veículos maiores, como as favelas com pouca infraestrutura viária. “A regulamentação da mototáxi de forma indiscriminada nos grandes centros pode aumentar bastante os riscos de ocorrência de sinistros fatais ou com lesões graves”, argumenta Carvalho.
Leia aqui a nota técnica na íntegra.
Acesse a planilha com os gastos do SUS relacionados a acidentes com motociclistas em 2024.
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Foto: Agência Brasília
O Brasil alcançou em 2024 os melhores resultados de renda, desigualdade e pobreza de toda a série histórica de pesquisas domiciliares. A conclusão está em nova nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que analisa os levantamentos feitos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 1995. O estudo, publicado nesta terça-feira (25), é assinado pelos pesquisadores Pedro Herculano Souza e Marcos Dantas Hecksher.
Segundo os autores, ao longo dessas três décadas a renda domiciliar per capita aumentou cerca de 70%, enquanto o coeficiente de Gini caiu quase 18% e a taxa de extrema pobreza recuou de 25% para menos de 5%. Eles destacam que o progresso não foi linear: concentrou-se sobretudo entre 2003 e 2014 e voltou a ganhar força entre 2021 e 2024. Em 2024, todos os indicadores — renda média, desigualdade e pobreza — alcançaram os melhores níveis já registrados pelas pesquisas domiciliares do país.
O texto da nota técnica relembra ainda que o Brasil enfrentou um ciclo prolongado de crises entre 2014 e 2021, marcado por recessão, lenta recuperação e forte impacto da pandemia. Em 2021, a renda per capita atingiu o menor patamar em uma década. A partir de então, o movimento se inverteu: entre 2021 e 2024, a renda média cresceu mais de 25% em termos reais — o maior avanço em três anos seguidos desde o Plano Real — acompanhado por reduções expressivas nos indicadores de desigualdade.
"Os resultados mostram que é possível reduzir intensamente a pobreza e a desigualdade, mas que esses movimentos também podem ser interrompidos ou mesmo revertidos por vários fatores. E que é importante combinar diferentes meios para alcançar esses objetivos fundamentais do país", destacou Hecksher, um dos autores do estudo.
Trabalho e assistência impulsionam melhora social
As decomposições realizadas pelos pesquisadores mostram que a melhora entre 2021 e 2024 foi impulsionada por dois fatores equivalentes: o aquecimento do mercado de trabalho e a expansão das transferências assistenciais. Ambos responderam, cada um, por quase metade da redução da desigualdade e da queda da extrema pobreza no período. Os autores apontam que as políticas de transferência, incluindo Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada, Auxílio Brasil e Auxílio Emergencial, tornaram-se mais efetivas na redução das desigualdades, sobretudo após 2020.
O estudo observa que, apesar desse impacto, o efeito dinâmico das transferências diminuiu no biênio 2023–2024, refletindo o fim do ciclo recente de expansão. Ainda assim, o mercado de trabalho manteve forte influência sobre a melhora dos indicadores, respondendo pela maior parte da redução adicional da pobreza e da desigualdade nesse período.
"As desigualdades precisam ser combatidas por meio de todas as políticas públicas. Não apenas por melhor direcionamento de gastos sociais aos mais pobres, mas também por uma distribuição mais justa dos impostos. É importante promover a produtividade do trabalho dos mais pobres e, ao mesmo tempo, reduzir a fatia dos recursos públicos que precisa ser destinada ao pagamento de juros da dívida pública aos mais ricos˜, completa Hecksher.
Menores níveis de pobreza da série histórica
Com a combinação de crescimento econômico e queda da desigualdade, o país atingiu em 2024 os menores níveis de pobreza já registrados pelas pesquisas domiciliares. Apesar disso, 4,8% da população ainda vivia abaixo da linha de extrema pobreza (US$ 3 por dia), e 26,8% estava abaixo da linha de pobreza (de US$ 8,30 por dia). A redução acumulada desde 2021 foi especialmente intensa no primeiro ano da retomada pós-pandemia, mas manteve ritmo elevado até o final da série analisada.
Esses avanços foram resultado tanto do aumento da renda média quanto da mudança na própria distribuição de renda. No caso da extrema pobreza, mais de 60% da queda entre 2021 e 2024 decorreu da melhora distributiva, segundo a decomposição utilizada pelos autores.
Perspectivas e limites
A nota técnica aponta que, diante do fim do ciclo de expansão das transferências assistenciais, o ritmo de avanço observado no pós-pandemia tende a arrefecer, tornando o mercado de trabalho ainda mais determinante para os resultados sociais nos próximos anos. Os autores também reforçam que pesquisas domiciliares costumam subestimar rendimentos muito altos e parte das transferências sociais, motivo pelo qual os números devem ser interpretados com cautela.
Mesmo com essas limitações, a análise conclui que o período recente representa uma mudança estrutural importante: depois de anos de retrocesso ou estagnação, os indicadores sociais voltaram a melhorar de forma simultânea e acelerada.
Acesse aqui o estudo completo.
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O Ipea apresentou no dia 19/11, em Brasília, o IpeaPro, nova versão do sistema institucional de gestão de projetos. A plataforma substitui o antigo Ipea Projetos e amplia suas funcionalidades, com foco em simplificação de processos, qualificação de informações e integração de fluxos de planejamento, monitoramento e gestão de desempenho. O acesso é feito diretamente pelo PGD Petrvs: pgd.ipea.gov.br.
Desenvolvido entre 2024 e 2025 por equipes da CGPLA, CGDTI, CGPEs e outras unidades, o sistema adota interface web, campos padronizados, listas suspensas revisadas e fluxo de aprovação remodelado. Também permite integração com o Petrvs, facilitando a vinculação entre projetos, entregas e registros de execução. Entre as novidades estão recursos para copiar projetos, registrar percentuais de conclusão, identificar atividades de assessoramento governamental e incluir etapas de avaliação da qualidade antes da aprovação final.
Durante a abertura, a presidenta Luciana Servo avaliou a iniciativa como estratégica para o Instituto. “O IpeaPro é estruturante para o que estamos construindo. Uma informação organizada muda a forma como planejamos e discutimos prioridades”, afirmou. Ela observou que a melhoria nos registros já permitiu reuniões colegiadas mais qualificadas, com maior clareza sobre o cumprimento do planejamento institucional.
A técnica de planejamento e pesquisa Fábia Avila Guimarães, que coordenou o desenho funcional e conduziu oficinas, testes e harmonização de conceitos, reforçou o caráter colaborativo do projeto. “O IpeaPro foi feito por nós e para nós. Ele só existe porque tanta gente testou, criticou, sugeriu e ajudou a construir”. Entre as mudanças, destacou o fim da obrigatoriedade de criar projetos para solicitação de eventos e a inclusão da nova função de copiar projetos, que elimina registros antigos e desatualizados. Ela explicou que a plataforma incorpora um fluxo de aprovação mais claro, uma etapa de avaliação técnica para garantir qualidade do cadastro e maior liberdade de edição durante o andamento do projeto “O objetivo é evitar retrabalho, corrigir inconsistências e ajudar as unidades a registrar projetos de forma mais simples e coerente”, indicou.
Responsável pela análise do sistema anterior, o coordenador de Sistemas da Informação, Fernando Brustolin, apontou que a padronização trazida pelo IpeaPro melhora a qualidade dos dados, fortalecendo a governança. “Quando analisamos o uso do antigo Ipea Projetos, constatamos campos vazios, justificativas incompletas e práticas muito diferentes entre unidades. Isso prejudicava relatórios, planejamento e avaliação”, avaliou.
A coordenadora-geral de Gestão de Pessoas, Anna Carolina Ribeiro, ressaltou o esforço coletivo na construção do sistema. “Integrar normas, equipes e rotinas tão diferentes foi um trabalho de muitas mãos”, disse. Ela lembrou que a integração entre gestão de desempenho, planejamento e projetos era uma demanda antiga: “A Casa precisava de uma solução mais unificada, menos fragmentada e o IpeaPro nasce desse esforço”.
O coordenador-geral de Ciência de Dados e TI, Lucas Mation, pontuou o diálogo permanente da equipe de TI com as áreas demandantes. Segundo ele, o IpeaPro mantém a lógica robusta do sistema original, mas supera limitações como tabelas desatualizadas e falta de padronização entre unidades.
Já o coordenador-geral de Planejamento Estratégico, Helder Ferreira, realçou a integração com o Petrvs como avanço para reduzir duplicidades de registros e retrabalho. “O Ipea sempre foi uma casa de projetos, mas faltava uma estrutura compatível com essa realidade. O IpeaPro permite olhar para portfólios, equipes e entregas de forma mais alinhada à nossa prática”, completou.
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