Resposta do Brasil à pandemia foi semelhante às de outros países, diz estudo

Resposta do Brasil à pandemia foi semelhante às de outros países, diz estudo


País deve enfrentar novos desafios quando enfrentar o período pós-pandemia

No início do ano passado, o mundo passou a enfrentar a maior crise sanitária da história recente, o que obrigou países a se organizarem de muitas formas para assegurar o enfrentamento da Covid-19. A resposta de vários governos foi imediata e o Brasil foi responsável por desenvolver um pacote fiscal que, em termos de tamanho, foi o segundo maior entre os países emergentes, chegando a 14% do Produto Interno Bruto (PIB), o que mostra que a atuação brasileira, na primeira fase, foi semelhante à de países desenvolvidos.

Buscando entender como se deu esse processo e qual o alcance dessas ações, o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Rodrigo Orair analisou a política fiscal adotada pelo Brasil tanto do ponto de vista histórico, quanto em comparação com as respostas dadas por outros países diante da crise sanitária, no estudo intitulado ‘Política Fiscal e Resposta Emergencial do Brasil à Pandemia’, publicado na última edição do Boletim de Políticas Sociais (BPS). Além disso, o pesquisador procurou avaliar a efetividade das ações que vão reverberar em outro período que se aproxima: a fase pós-pandemia.

Orair ponderou que, sob o prisma histórico, não resta dúvida de que a flexibilização implementada pelo governo em 2020, durante a primeira fase da pandemia, foi sem paralelos. “Estamos falando de um pacote fiscal que chega a 14% do PIB, medidas agressivas de gastos, de redução de receitas, de postergação de pagamentos do governo, além da adoção de ações creditícias e financeiras bastante enérgicas. Foi um pacote grande”, destacou.

O levamento feito pelo estudo mostra que somente as despesas primárias executadas a partir de créditos extraordinários totalizaram R$ 520,6 bilhões ou 7% do PIB em 2020. Os recursos dos créditos extraordinários foram ainda destinados às áreas de suplementação de recursos para emergência de saúde pública; de suporte de renda para as famílias; de suporte de liquidez e crédito para as empresas; e de auxílio financeiro para os governos estaduais e municipais. Como resultado, segundo o estudo, as despesas primárias do governo central apresentaram um salto brusco em 2020, saindo de 19,5% para 26,1% do PIB, que representa o nível mais elevado na série histórica.

Orair observou que, não apenas em termos de tamanho, mas, sobretudo, em escopo das medidas, as ações brasileiras também encontram paralelo com as de outros países, principalmente de ocidentais. “Isso traz uma ideia de que os países, quando confrontados com um problema comum e grave, como a pandemia, fizeram ações mais ou menos parecidas. Então, o Brasil não fugiu à regra e adotou medidas semelhantes àquelas empregadas por outras nações”, afirmou.

Um dos questionamentos que balizou o estudo foi para saber se as medidas adotadas foram efetivas. Na avaliação do economista, os dados da pesquisa mostram que, nesse quesito, a causalidade se inverte, ou seja, os países que não controlaram bem a pandemia acabaram por sofrer mais consequências danosas em seus sistemas sociais e econômicos.

O pesquisador explicou que, como as consequências foram mais graves, foi necessário ampliar os gastos para mitigar esses efeitos. “Em um dos gráficos do estudo, é possível identificar que o Brasil foi um dos poucos com mais de mil mortes por milhão de habitantes de Covid-19. Em geral, onde a crise de saúde foi mais grave também coincidiu com aqueles que mais tiveram perdas econômicas, em termos de prejuízos relativos do PIB, e também coincidiu com aqueles que mais tiveram que gastar, fazer pacotes fiscais maiores”, concluiu.

A comparação com a experiência de outros países também levou o estudo a um alerta sobre medidas que serão empregadas no período pós-pandemia. Orair analisou que é preciso distinguir muito bem o período de controle da pandemia do período pós-pandêmico. “Controlar a pandemia é controlar a crise sanitária. Há incertezas enormes no horizonte, segundas ondas, mutações, eficácias das vacinas, mas, ainda assim, há indícios de que o mundo está caminhando para um mundo pós-pandêmico. No entanto, os sistemas econômicos e sociais estão saindo muito danificados. Os países estão saindo com um problema de desemprego muito alto, de desestruturação de cadeias produtivas. Diante disso, grande parte dos países está construindo pacotes de estímulo fiscal com objetivo de acelerar a recuperação pós-pandêmica”, disse.

De acordo com o pesquisador, os países também estão aproveitando a janela de oportunidade para conciliar objetivos estratégicos de longo prazo, o exemplo mais claro é o Plano Biden – que propõe um grande plano de investimentos em infraestrutura, cadeias estratégicas, tecnologia, economia ambiental, serviços sociais, entre outros. “O Brasil parece apostar na estratégia de que isso não será necessário, que seria possível retomar a normalidade de maneira mais automática. O estudo alerta justamente para o fato de que restabelecer, de forma muito rápida, um regime fiscal rígido será uma aposta muito arriscada”, examinou.  

Leia a íntegra do estudo.

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