Mães solo recebem menos e ocupam empregos mais precários
Pesquisa publicada no BMT revela que mães solo ganham pouco mais da metade da renda de pais com cônjuge
Publicado em 08/05/2026 - Última modificação em 08/05/2026 às 08h22
Pesquisa publicada no BMT revela que mães solo ganham pouco mais da metade da renda de pais com cônjuge
Publicado em 08/05/2026 - Última modificação em 08/05/2026 às 08h22
Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília
Mães solo enfrentam uma dupla desvantagem no mercado de trabalho: recebem menos e ocupam empregos de pior qualidade. A conclusão é do artigo “Inserção das mães solo no mercado de trabalho brasileiro”, que integra a edição nº 81 do Boletim Mercado de Trabalho (BMT), publicada nesta quarta (6) com análises sobre inteligência artificial, pejotização, emergência climática e intermediação de mão de obra.
O artigo é assinado por Mariene Ramos, assistente técnica da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), Carlos Henrique Corseuil, técnico de planejamento e pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc), e Marcos Hecksher, assessor especializado da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset).
O texto é baseado na dissertação de mestrado de Mariene Ramos, defendida no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em novembro de 2025.
Os autores analisam como a penalidade da maternidade afeta mães solo no mercado de trabalho brasileiro. Os resultados mostram que os impactos vão além da renda e atingem também a qualidade das ocupações.
Com base em dados da PNAD Contínua de 2022, foram analisados dados de 55,5 milhões de brasileiros, divididos em cinco grupos: mães solo, mães com cônjuge, pais com cônjuge, mulheres sem filhos e pais solo. A inclusão de mulheres sem filhos permitiu isolar os efeitos da maternidade e comparar diferentes situações de parentalidade.
Em 2022, o Brasil tinha 10,9 milhões de mães solo responsáveis pelo domicílio, o equivalente a 86,5% das famílias monoparentais. No mesmo período, havia 1,7 milhão de pais solo. Entre as mães solo, seis em cada dez (61,5%) se autodeclaravam pretas ou pardas, proporção superior à observada nos demais grupos analisados.
“Essa sobrerrepresentação de mulheres negras entre as mães solo evidencia como as desigualdades se interseccionam, articulando gênero, raça e estrutura familiar em vulnerabilidades específicas e potencializando as desvantagens no mercado de trabalho”, observam os autores.
A maior vulnerabilidade racial das mães solo se soma às desvantagens educacionais enfrentadas por esse grupo. Mais da metade (55,2%) tem, no máximo, o ensino médio incompleto, a segunda maior proporção entre os grupos analisados. O percentual supera o registrado entre pais com cônjuge (46,6%), mães com cônjuge (39,9%) e mulheres sem filhos (47,9%).
Segundo o estudo, a diferença de escolaridade ajuda a explicar parte das desigualdades salariais enfrentadas pelas mães solo, mas não é suficiente para justificar toda a diferença de renda observada. Apenas 13,7% das mães solo haviam concluído o ensino superior. O percentual é cerca de um terço menor que o registrado entre mulheres sem filhos (22,1%) e também inferior ao das mães com cônjuge (19,9%).
O estudo mostra ainda que as mães solo estão mais concentradas em setores historicamente desvalorizados e de baixa remuneração, como o trabalho doméstico. Nesse segmento, elas representam 21,9%. O percentual é superior ao das mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes maior que o dos pais com cônjuge (0,8%).
Esse padrão de inserção no mercado de trabalho ajuda a explicar as diferenças de renda entre os grupos analisados. As mães solo têm o menor rendimento médio entre os arranjos familiares: R$ 2.322 mensais. O valor é R$ 1.547 inferior ao registrado entre pais com cônjuge (R$ 3.869), uma diferença de cerca de 40%.
As mães solo também apresentam o menor rendimento mediano, de R$ 1.600. Isso significa que metade delas vivia com até esse valor em 2022, quantia próxima ao salário mínimo da época, de R$ 1.212. Segundo o estudo, o dado revela a situação de forte vulnerabilidade econômica enfrentada por grande parte dessas mulheres.
Desigualdade vai além da renda
A análise buscou responder se a penalidade salarial enfrentada pelas mães solo permanece mesmo quando comparadas a pessoas com características semelhantes. Para isso, os pesquisadores utilizaram um modelo de regressão multivariada, que permite estimar a relação entre renda e fatores como escolaridade, idade, raça e região.
Os resultados mostram que sim: mesmo após o controle dessas variáveis, as mães solo continuam sendo o grupo mais penalizado em termos salariais. A diferença de rendimento chega a 43,3% em relação aos demais grupos analisados. Na prática, isso significa que, mesmo com as mesmas qualificações formais, as mães solo recebem pouco mais da metade da renda de um pai com cônjuge.
O estudo mostra ainda que a penalidade salarial enfrentada pelas mães solo (-43,3%) é muito superior à observada entre pais solo (-10,4%). Os resultados indicam que a monoparentalidade afeta de forma mais intensa as mulheres, que já enfrentam desigualdades de gênero no mercado de trabalho.
“Essa pressão econômica as leva a buscar ocupações que, frequentemente, oferecem a flexibilidade necessária para conciliar trabalho e cuidado, ainda que isso signifique aceitar empregos mais instáveis e em setores desvalorizados, o que explica em parte uma sobrerrepresentação dessas trabalhadoras nos serviços domésticos”, argumentam os autores.
A soma dessas desvantagens aumenta a vulnerabilidade das mães solo no mercado de trabalho. Para medir o nível de precariedade enfrentado por esse grupo, o estudo analisou diferentes dimensões da qualidade do emprego: concentração no trabalho doméstico, acesso à proteção previdenciária, e grau de formalização no mercado de trabalho.
Foram levados em conta fatores como escolaridade, idade, raça e região. Para isolar os efeitos de ser mãe solo sobre esses indicadores, os pesquisadores utilizaram um modelo de regressão multivariada, capaz de estimar simultaneamente a relação entre as condições de trabalho e as características dos indivíduos, incluindo o arranjo familiar.
Os resultados mostram que as mães solo enfrentam desvantagens em diferentes dimensões do mercado de trabalho. Na alocação setorial, a probabilidade de uma mãe solo trabalhar em serviços domésticos é 22,8 pontos percentuais maior que a de pais com cônjuge e 7,1 pontos maior que a de mães com cônjuge. Segundo o estudo, essa diferença é principalmente associada à desigualdade de gênero, já que entre pais solo a diferença é de apenas 1,1 ponto percentual.
Na proteção social, as mães solo também apresentam o pior resultado. A probabilidade de contribuir para a Previdência é 11,5 pontos percentuais menor em relação aos demais grupos analisados.
Já na formalização do trabalho, a penalidade é menor, de 1,7 ponto percentual, em nível semelhante ao observado entre pais solo. Ainda assim, os pesquisadores apontam que, combinada à baixa cobertura previdenciária, essa diferença indica que as mães solo estão concentradas em ocupações informais mais precárias e desprotegidas.
“A combinação entre baixa escolaridade, segregação ocupacional e reduzida contribuição previdenciária aponta para um ciclo de vulnerabilidade persistente, no qual a necessidade imediata de geração de renda leva as mães solo a aceitarem posições de menor qualidade”, afirmam os autores. “Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados sugerem que estratégias voltadas exclusivamente à ampliação da participação feminina no mercado de trabalho podem ser insuficientes para enfrentar as desigualdades associadas à maternidade solo”.
“Políticas de cuidado infantil, mecanismos de conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares e instrumentos de proteção social para vínculos atípicos mostram-se particularmente relevantes para esse grupo, ao passo que políticas de qualificação profissional podem contribuir para ampliar o acesso a ocupações de melhor qualidade”, completam.
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