Cooperação Internacional. Relações Internacionais

Com foco no BRICS, Ipea lança a 38ª edição da Revista Tempo do Mundo

Edição reúne análises sobre governança global, multilateralismo e a atuação do Brasil no cenário internacional

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou a 38ª edição da Revista Tempo do Mundo. Ao longo de 21 artigos, o dossiê reúne um amplo conjunto de reflexões sobre o papel e os desafios do BRICS na governança global contemporânea, em um contexto internacional marcado por fragmentação geopolítica, crise do multilateralismo e redefinição da ordem internacional. A publicação aborda desde fundamentos teóricos da reforma institucional global até os desafios concretos da presidência brasileira do bloco em 2025.

Em 2025, o Brasil exerceu a presidência rotativa do BRICS, com o lema Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável. A presidência reafirmou o compromisso com o fortalecimento do grupo e com sua atuação na ordem internacional em defesa dos interesses dos países em desenvolvimento.

O BRICS vem se consolidando como um fórum essencial para a articulação de políticas econômicas, comerciais e diplomáticas entre seus membros. Desde sua criação, o bloco conta com mecanismos de diálogo voltados ao intercâmbio de visões estratégicas e ao debate acadêmico, entre os quais se destacam o Conselho de Think Tanks do BRICS (BTTC) e o Fórum Acadêmico do BRICS.

Com o Brasil na presidência do BRICS, o Ipea foi o responsável pela coordenação das atividades do conselho e pela organização do encontro científico. Além disso, desde a formalização da Rede de Think Tanks dos BRICS para Finanças (BTTNF), em 2024, o instituto passou a atuar também como representante nacional brasileiro nesse espaço.

A 38ª edição da RTM foi coordenada por Ya Tan, diretora adjunta do BRICS Research Center da University of International Business and Economics (Pequim, China), e por Jafar Bedru Geletu, diretor executivo do Ethiopian Institute of Foreign Affairs. Ambos os coordenadores e suas instituições integram o BTTC.

Pedro Silva Barros, editor da RTM, destacou ainda a centralidade do tema para a política externa brasileira. Segundo ele, “o BRICS, diferentemente da COP e do G20, é uma prioridade explicitamente presente no plano de governo, ao lado da integração regional”. Ele avaliou também que o dossiê alcançou resultados expressivos ao reunir “um conjunto muito relevante de autores brasileiros, com textos que tratam diretamente da presidência brasileira e dos desafios contemporâneos da inserção internacional do país”.

Na apresentação do dossiê, os editores ressaltam que o fortalecimento do BRICS é prioridade do governo brasileiro e destacam que 2025 não se trata de um ano qualquer, diante da presidência simultânea do Brasil no BRICS, no G20 e no Mercosul, além da realização da COP30 no país. Segundo o texto, o cenário atual, marcado por mais turbulências e incertezas do que há duas décadas, exige constante atualização analítica para a defesa do multilateralismo.

Destaques da edição - Lillie Ferriol Prat, autora do primeiro artigo, BRICS e a reforma da governança global: realismo ontológico para uma ordem mundial equitativa, construiu um índice de realismo ontológico (IRO), a partir da análise de dezessete declarações de cúpula do BRICS, e o correlacionou a um índice de resultados em equidade (IRE), composto por mudanças nas cotas do Fundo Monetário Internacional (FMI), empréstimos do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e comércio em moedas locais. Os resultados indicam que, especialmente após 2023, os avanços no realismo ontológico do bloco antecederam ganhos mensuráveis em reformas institucionais, financiamento e uso de instrumentos alternativos ao sistema financeiro tradicional.

Apesar das assimetrias internas, o bloco é apresentado pela autora como um ator capaz de impulsionar mudanças graduais e não confrontacionais na ordem internacional. Prat sustenta ainda que o foco em neutralidade, pluralismo e paz ontológica oferece um modelo viável de reforma e que o BRICS pode atuar como força transformadora, desde que avance na institucionalização de mecanismos capazes de traduzir princípios em práticas duradouras. Entre as recomendações, estão a reconsideração das cotas do FMI com base em um índice de equidade ontológica e a institucionalização de fóruns cívicos no BRICS e na Organização das Nações Unidas (ONU).

No artigo BRICS como um “parceiro para o desenvolvimento” em um período de fragmentação geopolítica, Mikatekiso Kubayi avalia o potencial do BRICS como parceiro para o desenvolvimento do Sul global em um contexto de fragmentação geopolítica e enfraquecimento das formas tradicionais de cooperação internacional.

Kubayi argumenta que esse potencial decorre da ênfase do bloco em soberania, não intervenção e benefício mútuo. No entanto, o texto ressalta que esse papel não é automático e depende de maior clareza conceitual, institucionalização e coerência política interna. O autor destaca ainda que as assimetrias entre os membros e a ausência de mecanismos robustos limitam a efetividade do BRICS como parceiro para o desenvolvimento.

Juliana Nascimento e Marcos Constant Bastos Tigre analisam a presidência brasileira do BRICS e a comparam com o Grupo dos Sete (G7) e o G20. No artigo A presidência brasileira do BRICS: desafios e potencialidades para a agenda econômico-financeira, os autores apontam que a cooperação econômico-financeira se consolida como o pilar central do BRICS, embora persistam desafios relacionados ao fortalecimento de suas instituições e de seus mecanismos permanentes de governança.

A presidência brasileira ocorre em um momento de expansão e crescente heterogeneidade do bloco, o que amplia tanto os desafios de coordenação quanto as possibilidades de atuação. Os autores sustentam que o BRICS adota uma estratégia gradualista e não confrontacional de reforma da governança global e, nesse cenário, o Brasil é apresentado como ator com capacidade de articulação política e diplomática para fortalecer a coesão institucional do grupo.

A RTM – A Revista Tempo do Mundo é uma publicação quadrimestral do Ipea e tem como propósito apresentar e promover debates sobre temas contemporâneos. Atuando no campo da economia e da política internacional, com abordagens plurais sobre dimensões essenciais do desenvolvimento — como questões econômicas, sociais e relativas à sustentabilidade —, a revista é divulgada em abril, agosto e dezembro e publica artigos em português, inglês e espanhol.

O conjunto de artigos, que soma mais de quinhentas páginas deste dossiê da RTM sobre o BRICS, seus desafios e a presidência rotativa brasileira, será complementado por outros trabalhos a serem publicados no Boletim de Economia e Política Internacional (Bepi). Ambos os periódicos são vinculados à Diretoria de Estudos Internacionais (Dinte) do Ipea.

Chamada aberta – Até 15 de março, a RTM recebe submissões para a sua edição sobre integração regional sul-americana. As normas e orientações para submissão podem ser acessadas na página da revista.

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(21) 3515-8704 / (21) 3515-8578
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