Foto: Helio Montferre/Ipea
Em cenário de recorde de ocupação e de transformações nas relações de trabalho, a 80ª edição do Boletim Mercado de Trabalho (BMT) traz reflexões sobre os caminhos para proteger o trabalhador brasileiro, dos jovens em busca do primeiro emprego às pessoas que enfrentam o desemprego, entre outros temas. Além da análise da conjuntura do mercado de trabalho no Brasil e das seções Notas Técnicas, Política em Foco, Economia Solidária e Políticas Públicas, o número traz o Dossiê: 35 anos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).
Fatores que condicionam a trajetória do egresso de programas de aprendizagem no mercado de trabalho brasileiro foram investigados em um dos artigos. Ana Tereza Pires, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea e uma das autoras do trabalho, detalhou os dados analisados e trouxe a reflexão sobre os desafios dessa faixa etária. “Por que é tão difícil ter resultados positivos no início da carreira? Os jovens enfrentam esse ciclo vicioso, que é uma dificuldade de encontrar um emprego de qualidade porque não têm experiência risco profissional”, avalia.
O levantamento, com base na RAIS (2008–2018), mostra que a intensidade da aprendizagem é o principal determinante da trajetória pós-programa. Jovens que permanecem mais tempo como aprendizes (3º tercil de duração) têm 36,8% mais chance de conseguir o primeiro emprego formal e risco 4,2% menor de desligamento desse primeiro emprego, em comparação aos que ficam menos tempo (1º tercil). Entre os demais fatores, homens ingressam um pouco mais rápido no primeiro emprego (chance 4,3% maior) e jovens de 19 a 24 anos apresentam 40,1% mais probabilidade de admissão do que os mais novos. Durante o contrato de aprendizagem, homens e indivíduos mais velhos têm menor risco de desligamento, enquanto ocupações industriais exibem maior chance de encerramento do vínculo.
O outro destaque da edição é o artigo A proteção econômica ao trabalhador desempregado no Brasil, que defende que políticas de proteção econômica ao trabalhador desempregado sejam integradas institucionalmente, evitando sobreposições e aumentando a eficiência e efetividade do sistema. O trabalho propõe um modelo em duas linhas de proteção: a primeira composta por recursos privados — como a multa rescisória, o FGTS e o aviso prévio – e a segunda, acionada apenas após o esgotamento desses recursos, financiada com recursos públicos do FAT.
“Quando a gente olha a constituição histórica dessas políticas percebemos que não há relações, interdependências e complementaridades entre elas. São evoluções institucionais independentes entre si. Cria-se a multa rescisória, depois tem o aviso prévio e o seguro-desemprego. São políticas que, embora tratem de alguma forma do mesmo fenômeno, não têm nenhuma ponte entre si, são políticas que não conversam”, argumenta Tiago Oliveira, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Esse arranjo permitiria prolongar a duração da proteção ao desempregado, possibilitando adotar taxas de reposição salarial decrescentes, em sintonia com práticas internacionais. Como ajuste adicional, o autor sugere reservar parte do saldo do FGTS (cerca de três salários) para uso exclusivo na proteção econômica ao desempregado, mantendo o restante para os saques já previstos em lei.
Mercado de trabalho atinge recorde de ocupação no segundo tri de 2025
O Brasil vive um cenário de forte dinamismo no mercado de trabalho. A força de trabalho (total de pessoas acima de 14 anos que estão empregadas ou procurando emprego) alcançou 108,6 milhões de pessoas, o equivalente a 62,4% da população em idade ativa, enquanto o número de ocupados chegou a 102,3 milhões, correspondendo a 94,2% da força de trabalho.
A taxa de ocupação — proporção de pessoas empregadas em relação à população em idade ativa — atingiu 58,8% no segundo trimestre de 2025, o maior nível para o período em toda a série histórica e três pontos percentuais acima do patamar pré-pandemia. A taxa de participação – parcela da força de trabalho na população em idade ativa – também cresceu, registrando 62,4%, com alta de 0,3 ponto percentual na comparação anual.
O crescimento do emprego foi generalizado entre as categorias, com destaque para os trabalhadores com carteira assinada (3,7%), militares e estatutários (3,3%) e por conta própria (3,1%). Apenas o emprego sem carteira apresentou leve queda (-0,5%). O movimento recente inverte a tendência dos trimestres anteriores, com o emprego formal crescendo mais rapidamente que o informal, embora ambos tenham atingido os maiores contingentes da série histórica: 50,0 milhões e 46,9 milhões de trabalhadores, respectivamente.
Entre os setores, o comércio manteve a maior participação nas ocupações, com 19% do total, seguido pela indústria de transformação, que apresentou ligeira alta de 11,4% para 11,6%. A renda média mensal chegou a R$ 3.477, alta real de 3,3% em relação ao mesmo período de 2024 e o maior valor já registrado.
Confira a edição nº 80 do BMT
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