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Com queda de homicídios, facções expandem atuação e redesenham geografia do crime no Brasil

Atlas da Violência indica presença das facções em todos os estados e destaca políticas de segurança baseadas em inteligência como caminho para conter o crime organizado

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom /Agência Brasil

O Brasil vive um processo de desconcentração da violência letal, com a interiorização das dinâmicas criminais e o avanço das facções para cidades médias e pequenas. É o que revela o Atlas da Violência 2025 – Retrato dos municípios brasileiros e dinâmica regional do crime organizado, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Segundo o documento, a desconcentração dos homicídios tem ocorrido por dois motivos. Em primeiro lugar, as cidades que eram mais violentas há dez anos conseguiram reduzir a letalidade. Por outro lado, em face da interiorização do crime, muitas cidades menores passaram a vivenciar em maior número a violência letal.

Capitais como Fortaleza, São Luís, Goiânia, Cuiabá e o Distrito Federal registraram reduções superiores a 60% nas taxas de homicídios entre 2013 e 2023. Essa diminuição nas grandes cidades contrasta com o avanço da criminalidade e das disputas entre facções em municípios médios e interiores, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, que passaram a concentrar episódios de violência antes restritos às metrópoles.

Apesar da expansão territorial do crime, o relatório identifica continuidade na redução dos homicídios no país, tendência observada desde 2018. Em alguns estados, o processo começou muito antes, como é o caso de São Paulo, local onde as mortes por causas violentas vêm diminuindo de forma contínua há mais de duas décadas.

As facções criminosas estão presentes em todas as Unidades Federativas, mas de maneira desigual. Em alguns estados, a presença de vários grupos alimenta disputas territoriais intensas e letais, como ocorre na Bahia, onde atuam o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em aliança com facções locais, como o Bonde do Maluco e o Comando da Paz. 

Outro exemplo é Pernambuco, que abriga pelo menos 12 facções em conflito, responsáveis por impulsionar as altas taxas de homicídios no estado. No Amazonas e no Amapá, as guerras entre CV, PCC e organizações regionais, como a Família Terror do Amapá e o Cartel do Norte, têm provocado escaladas de violência em cidades médias e portuárias estratégicas.

Já em outras regiões, as disputas assumem caráter de baixa intensidade, com convivência relativamente estável entre grupos rivais. É o caso de São Paulo, onde prevalece uma espécie de “pax monopolista” – pacificação resultante do domínio de mercados ilegais por uma única e poderosa organização criminosa – imposta pelo PCC. Outros exemplos são os de Minas Gerais, que também abriga diversas facções fragmentadas, mas com menor grau de conflito aberto, e Santa Catarina, cuja atuação do Primeiro Grupo Catarinense (PGC) ocorre em um cenário de violência mais controlada e pontual.

O Atlas também chama atenção para a diversidade de estratégias entre os grupos criminosos. As facções com estruturas mais estáveis e voltadas ao lucro tendem a conter o uso da violência ostensiva, enquanto organizações menores e fragmentadas recorrem com mais frequência a confrontos armados para afirmar poder e manter o controle territorial.

O documento também alerta para a infiltração do crime organizado em atividades produtivas lícitas e na gestão pública, fenômeno que, segundo o relatório, ameaça o Estado Democrático de Direito, com expansões na política, nas atividades produtivas lícitas e na gestão e contratos das administrações públicas. Essa expansão econômica e institucional das facções, segundo os autores, representa uma das faces mais perigosas do crime organizado contemporâneo.

Na contramão desse avanço do crime organizado, o Atlas identifica avanços em políticas públicas qualificadas de segurança, fenômeno que os autores chamam de “revolução invisível na segurança pública”. A partir da década de 2010, essa transformação tem englobado cada vez mais estados e municípios, combinando ações preventivas, qualificação policial e o uso de inteligência integrada. 

Números

Enquanto os municípios grandes (mais de 500 mil habitantes) tiveram, em 2023, taxa média de 23,6 homicídios por 100 mil habitantes, as cidades médias (entre 100 mil e 500 mil habitantes) apresentaram taxa média de 24,2 por 100 mil e as pequenas (até 100 mil habitantes) de 20 homicídios por 100 mil habitantes.

Os dados mostram que os 20 municípios mais violentos do país possuíam, em média, população de 330 mil habitantes e uma média das taxas de homicídio estimadas de 65,4, o que é quase três vezes da média nacional. Por outro lado, a média das taxas de homicídio estimadas no grupo dos 20 municípios com menor letalidade era de 3,8. Portanto, comparando os 20 municípios mais e menos violentos do país, a prevalência de homicídio no primeiro grupo foi 17 vezes maior do que no último grupo – uma diferença maior do que aquela entre a taxa de homicídio do Brasil e da Europa, em que essa relação é de 10,4 vezes.

Em 1.548 (29,6%) dos 5.237 municípios classificados como pequenos não houve nenhum homicídio estimado (registrado ou oculto). Entre os municípios de tamanho médio, foram encontrados 10 com taxas acima de 60 homicídios por 100 mil habitantes. No outro extremo, 51 municípios médios apresentaram taxas menores de 10 homicídios estimados por cem mil habitantes. Já entre os 46 municípios classificados como grandes, oito apresentaram taxas abaixo de 10.

Acesse aqui o Atlas da Violência - Retrato dos municípios brasileiros e dinâmica regional do crime organizado

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