Desenvolvimento Social

Polarização e desinformação ameaçam coesão social e democracia na América Latina, alertam especialistas

Pesquisadores do Ipea e da Cepal e autoridades regionais destacaram em evento desafios da desigualdade, fragilidade institucional e desinformação para fortalecer a democracia

Foto: Helio Montferre/Ipea

O desenvolvimento social inclusivo e a coesão social foram temas de um debate realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Participaram do debate pesquisadores das duas instituições, além de autoridades de ministérios e áreas sociais de países da região.

O evento ocorreu de forma relacionada e paralela à Sexta Conferência Regional sobre Desenvolvimento Social da América Latina e do Caribe, organizada pela Cepal, pelo Governo do Brasil e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Além da baixa mobilidade e fraca coesão social, outros temas prioritários foram discutidos em mesas de trabalho paralelas, incluindo sistemas de proteção social e de cuidados e pobreza, fome e a armadilha da alta desigualdade.

A presidenta do Ipea, Luciana Mendes Santos Servo, ressaltou que a coesão social se apoia em pilares como solidariedade, confiança, pertencimento e valores compartilhados, fundamentais para a criação de um sistema capaz de sustentar o desenvolvimento. No entanto, destacou que a confiança nas instituições e no processo democrático tem sido abalada, fenômeno que não se restringe à América Latina, mas também atinge países com instituições antes consideradas sólidas, onde processos de polarização e o enfraquecimento da democracia se intensificaram.

“As instituições podem cair muito rapidamente com mudanças radicais de governo”, alertou, acrescentando que ainda há mais dúvidas do que respostas sobre os caminhos para recuperar a coesão social. Luciana Servo avaliou que, além das políticas públicas, é necessário enfrentar um desafio crescente: a desinformação, que dificulta a reconstrução da confiança coletiva.

Para Luseni Aquino, diretora de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest/Ipea), o contexto atual de crises, marcado pela desigualdade, pela emergência climática e pela desinformação no ambiente digital, recoloca a urgência do tema. “É o contexto crítico de múltiplas crises que a gente tem vivido que nos invoca a questão da coesão social. Como assim, estamos juntos? Qual futuro se apresenta para nós como comunidade política? É um contexto que compartilhamos na região e no mundo, que nos invoca a necessidade de retomar uma questão que já esteve mais presente, mas ressurge com novas demandas, novas perguntas, exigindo de nós novas respostas.”

Ela destacou ainda que a coesão social é um processo que se constrói em cada território. “O fato é que a pergunta sobre como a coesão se produz e se reforça é uma questão muito local. Remete à história, ao acúmulo de relações sociais que é muito específico, que se configura nos territórios”, disse. “No Brasil, é um tema ausente da agenda pública. Não discutimos coesão social no país ainda. Uma parte importante deste evento é colocar esse tema. É um desafio da primeira hora para nós, para o Ipea. Eu acho que temos muito conhecimento a respeito de vários desses mecanismos, mas ainda não estão elaborados a partir da visão da coesão social.”

O diretor da Divisão de Desenvolvimento Social da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Alberto Arenas de Mesa, destacou a importância do projeto de cooperação entre o Ipea e a Cepal, que dá continuidade a uma histórica parceria e se renova com uma agenda ambiciosa de investigação em desenvolvimento social.

“Sem coesão social, não há desenvolvimento social inclusivo”, disse. “Falar em desenvolvimento social inclusivo significa colocar as pessoas e seus direitos no centro, com foco em garantir uma vida livre de pobreza, fome e desigualdade”. Segundo ele, três fatores limitam o progresso na região: a baixa capacidade de crescimento, a persistência da desigualdade e da baixa mobilidade social, além da fragilidade institucional e da governança pouco efetiva.

“A coesão social é um meio para alcançar a implementação de múltiplas ações que nos permitem gerar um ambiente de conexão”, disse a ministra de Desenvolvimento Humano e Inclusão Social da Costa Rica, Yorleny León. “Temos que induzi-la. Quem induz? O Estado? A sociedade? É uma pergunta que temos que analisar mais profundamente”.

Para a ministra, a confiança da população precisa ser construída a partir de respostas concretas às suas demandas. “Um Estado precisa gerar confiança, dar respostas à gente que precisa”.

“Não se pode pensar um processo desse tipo verticalmente, a partir do Estado. É imperioso reivindicar a sociedade como protagonista. Não quer dizer que o Estado não tenha responsabilidade, mas há necessidade de apelar à potência da sociedade, incluindo o coletivo mais castigado pela desigualdade”, afirmou o ministro do Desenvolvimento Social do Uruguai, Gonzalo Civila.

INCLUSÃO E DESENVOLVIMENTO – O desenvolvimento social na América Latina se dá em um contexto político regional marcado pela polarização e mudanças constantes. Para Carlos Maldonado, oficial de Assuntos Sociais da Cepal, a fraqueza da coesão social pode se manifestar em um aumento da desconfiança interpessoal e institucional, na sensação de vulnerabilidade e injustiça percebida, em baixas expectativas de mobilidade social futura, e no apego limitado à democracia como forma de governo.

“Se não confiamos nas instituições políticas, partidárias e eleitorais, é difícil ter uma convivência democrática e pacífica”, alertou. Para ele, políticas de desenvolvimento inclusivo fortalecem a vida democrática, aumentam a legitimidade do Estado, fomentam a participação cidadã e podem limitar o surgimento de lideranças autoritárias. No entanto, a fragmentação social e a polarização dificultam a construção de consensos sobre quais políticas implementar e como financiá-las, enquanto a desinformação e o acesso desigual à informação geram mal-entendidos sobre os objetivos das políticas sociais.

A implementação dessas políticas é um desafio. Félix Lopez, técnico de planejamento e pesquisa da Diest/Ipea, abordou o apoio da elite econômica às políticas redistributivas, um fator decisivo para viabilizar politicamente medidas capazes de reduzir desigualdades.

Segundo ele, 46% da população apoia que os mais ricos financiem políticas contra a pobreza e a desigualdade, mesmo que o Estado seja responsável por implementá-las. Entre o 5% mais rico, o apoio cai para 41%, e no top 1% chega a apenas 35%, mostrando que o apoio diminui significativamente entre os grupos mais abastados. “A confiança no Estado e o sentimento de pertencimento social influenciam diretamente a disposição desses grupos a financiar políticas redistributivas”, disse.

E a confiança nas instituições de Estado são abaladas pela desinformação. Antônio Brito, especialista em políticas públicas e gestão governamental da Diest, apontou que as redes sociais, algoritmos de personalização e mecanismos de engajamento ampliam conteúdos emocionais e polarizadores.

Em parceria com a Universidade Federal da Bahia, o pesquisador monitora os principais grupos de disseminação de desinformação em redes sociais, identificando menções a temas de políticas públicas, que permanecem elevadas mesmo após o período eleitoral. Exemplos recentes incluem debates sobre o Pix em janeiro de 2025 e sobre previdência em abril e maio do mesmo ano, mostrando que a circulação de informações distorcidas persiste em patamares significativos.

Para reconstruir confiança e legitimidade democrática, Brito defende a necessidade de enfrentar a desinformação. “Isso envolve desde mecanismos de escuta qualificada e análise de riscos informacionais até instrumentos de governança capazes de identificar, neutralizar e responder a campanhas desinformativas de forma coordenada e baseada em evidências”, concluiu.

Assista à mesa Coesão Social, Desenvolvimento Social Inclusivo e Democracia.

2025\9\1 Coesão Social, Desenvolvimento Social Inclusivo e Democracia: Subsídios e Desafios para a Implementação de Políticas Sociais de Qualidade

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