Com foco nas desigualdades de longo prazo e nas oportunidades socioeconômicas, a edição 2025 da Escola de Inverno do Ipea foi realizada na última semana, em Brasília. Organizado em parceria com o Stone Center on Wealth Inequality da Universidade de Chicago e o International Inequalities Institute da London School of Economics, o evento reuniu jovens pesquisadores de doutorado e professores em início de carreira para uma imersão multidisciplinar sobre as causas e dinâmicas da desigualdade.
Na abertura do encontro, o coordenador-geral de Ciência de Dados e Tecnologia da Informação do Ipea, Lucas Mation, destacou a importância de sediar a escola em uma instituição pública de pesquisa e planejamento. “Acreditamos que é essencial ter esse ponto de interação entre a pesquisa de fronteira e a aplicação em políticas públicas”, afirmou. “Ao longo da história do Ipea, essa ponte tem sido o nosso ‘molho secreto’: contribuímos para muitas políticas com o rigor no uso de dados, na modelagem e na preocupação com os impactos concretos para a população”.
A presidenta do Ipea, Luciana Servo, também reforçou o papel do instituto no enfrentamento das desigualdades sociais. “O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e estamos buscando avançar na redução dessas desigualdades. Para isso, precisamos entender quais instrumentos são mais eficazes para formular políticas públicas transformadoras”, afirmou. Ela acrescentou: “Hoje temos um foco forte nas questões de gênero e na desigualdade racial, sempre articulando essas agendas do ponto de vista micro e macroeconômico”.
Aulas especiais
O Ipea realizou a transmissão de duas aulas especiais ministradas durante o evento. No primeiro dia de transmissão ao público externo, o economista Steven Durlauf, da University of Chicago, apresentou a palestra New Ways to Measure Intergenerational Mobility, na qual propôs uma nova abordagem para entender os vínculos entre a posição socioeconômica dos pais e dos filhos. “O que queremos medir não é apenas mobilidade, mas imobilidade, ou seja, quanto da condição dos pais é transmitida ao longo das gerações”, explicou. Segundo Durlauf, métodos tradicionais, como a elasticidade intergeracional da renda, impõem limites importantes à análise: “Esses modelos lineares não capturam adequadamente a persistência das desvantagens, especialmente nos grupos de menor renda”.
A partir de uma estrutura baseada em cadeias de Markov, o pesquisador argumentou que é possível construir “curvas de memória” para diferentes categorias sociais, permitindo estimar quantas gerações são necessárias para que uma condição inicial deixe de influenciar os descendentes. “Nos dados dos EUA, encontramos que a mobilidade entre ocupações leva cerca de três gerações, mas, nos estratos mais baixos, esse número pode chegar a quatro”, destacou. “Isso não é exatamente um retrato animador da mobilidade americana.”
Já no segundo dia do evento, foi a vez de o economista Francisco Ferreira, da London School of Economics, apresentar a palestra Inequality in Latin America: Outcomes and Opportunities. A exposição abordou os padrões históricos e persistentes de desigualdade na região, com ênfase no Brasil. “A América Latina é, historicamente, uma das regiões mais desiguais do planeta, e essa desigualdade é herdada, reproduzida e muitas vezes institucionalizada”, apontou Ferreira. Para ele, compreender os mecanismos de transmissão intergeracional é fundamental: “Não basta olharmos para a desigualdade estática, precisamos entender as trajetórias e as oportunidades, ou a falta delas, ao longo do tempo.”
Ferreira também destacou a importância da mobilidade como instrumento de justiça social: “Se quisermos uma sociedade mais justa, precisamos garantir que a origem social não determine o destino econômico das pessoas”. Segundo o economista, políticas públicas com foco em educação de qualidade, redistribuição fiscal e inclusão produtiva são algumas das chaves para quebrar o ciclo da desigualdade na América Latina.
Com uma programação intensa, a Escola de Inverno ofereceu aulas, debates e espaços de mentoria entre especialistas e pesquisadores. Ao transmitir parte das atividades ao público externo, a edição de 2025 ampliou o alcance das discussões e reforçou o compromisso do Ipea com a produção de conhecimento voltado à formulação de políticas públicas mais justas e inclusivas.
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