Trabalhadores do conhecimento

Leonor Pais
É consensual a ideia de que um dos desafios das organizações passa pela excelência na gestão dos knowledge workers ou, na língua portuguesa, dos “trabalhadores do conhecimento”. De fato, no atual contexto, em que o conhecimento e a sua gestão são valorizados, torna-se admissível e compreensível o argumento de que os aspectos técnicos do trabalho podem ser encarados como mais facilmente “imitáveis ou copiáveis” e que os “trabalhadores do conhecimento”, porque escassos e mais difíceis de imitar ou de transferir, sejam especialmente valorizados e devam ser gerenciados estrategicamente e alvo de particular atenção.

Já em 2003 Darr referia que o maior desafio então colocado aos gestores era (e previa que continuasse a ser no futuro) encontrar formas de lidar com as mudanças no comportamento das novas gerações de trabalhadores. Para o autor, estes, apesar de jovens, detinham já, frequentemente, mais conhecimento e competências do que os gestores responsáveis pela criação dos seus contextos de trabalho e a quem eles reportavam. Não raramente, estes trabalhadores exibiam uma atitude face ao trabalho diferente da dos trabalhadores tradicionais (maioritariamente manuais) e as organizações que pretendiam aumentar os seus níveis de eficácia e eficiência procuravam motivá-los em vez de os controlar. Por outro lado, tratava-se de trabalhadores que representavam (e representam) um segmento cada vez maior da força de trabalho, facto que tornava (e torna) determinante a capacidade de adequadamente os gerenciar.

Pelas razões referidas, é frequente a alusão aos trabalhadores do conhecimento e consensual a ideia de que estes devem ser entendidos como um ativo e não como um custo para as organizações.

Mas o que são e quem são, de facto, os trabalhadores do conhecimento?

Não existe uma “resposta correta” a esta questão, antes coexistindo, desde 1959 (altura em que o conceito foi proposto por Drucker), múltiplos e diversos entendimentos. Nessa primeira concepção, o autor destacava o fato de os trabalhadores do conhecimento estarem essencialmente vocacionados e habilitados para lidar com a informação e o conhecimento. Posteriormente, em 1966, Druker dizia que estávamos perante um trabalhador do conhecimento se este era responsável por uma contribuição que afectava significativamente a capacidade da organização para funcionar e para obter resultados.

Na sequência deste argumento, faz sentido expressar o entendimento de Davenport que em 2005 definia os trabalhadores do conhecimento como pessoas com elevado grau de formação e especialização, cujo principal trabalho é fazerem algo com o conhecimento (criá-lo, compartilhá-lo, aplicá-lo). Salientava que esta categoria não integra todos os profissionais que usam conhecimento, na medida em que nela apenas se devem integrar aqueles que têm o conhecimento como primeiro propósito do seu trabalho.

Nor e Daud, em 2011, afirmaram ser possível integrar a maioria das definições de trabalhadores do conhecimento em duas perspectivas. A primeira caracterizaria, sobretudo, os anos 90 e privilegiaria as profissões tecnológicas relacionadas com a informação/comunicação. A segunda, emergente nos anos 2000, centra-se no profissional e na consideração de que todos os trabalhadores, em maior ou menor grau, podem ser trabalhadores do conhecimento.

No nosso entendimento, nunca definitivo nem acabado, o conceito de trabalhadores do conhecimento é um conceito não consensual, difuso nas suas fronteiras, estando ainda por esclarecer os critérios com base nos quais se distingue um trabalhador do conhecimento dos demais. No entanto, parece-nos que, de fato, se trata muito mais de um continuum entre menos e mais trabalho do conhecimento do que de uma categoria que permita distinguir os que nela estão incluídos (trabalhadores do conhecimento) dos que nela não estão (trabalhadores que não são trabalhadores do conhecimento).

Será importante quer para a pesquisa quer para a prática evoluir neste entendimento…

*Leonor Pais
Doutorada em Psicologia (área de especialização em Psicologia do Trabalho e das Organizações) pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, instituição onde igualmente se licenciou e obteve o grau de mestre e na qual, como pesquisadora e docente, desempenha actualmente funções. Docente convidada da Porto Business School (PBS) da Universidade do Porto, intervindo ao nível da formação e desenvolvimento de executivos. Coordenadora em Portugal do Mestrado Europeu em Psicologia das Organizações, do Trabalho e dos Recursos Humanos, que envolve um consórcio de cinco Universidades (Barcelona, Bolonha, Coimbra, Paris e Valência), se insere no Programa Erasmus + e é apoiado pela União Europeia. Nos últimos 10 anos tem realizado pesquisas, orientado teses de doutoramento e mestrado e publicado livros, capítulos de livros e artigos, nacional e internacionalmente. Tem, ainda, apresentado comunicações em congressos, seminários e encontros científicos, em Portugal e no estrangeiro. É responsável por uma linha de pesquisa centrada na gestão do conhecimento, decent work, gestão de recursos humanos, cooperação e desempenho organizacional.

 

Referências citadas:

Darr, A. (2003). Control and autonomy among knowledge workers in sales: An employee perspective. Employee Relations, 25(1): 31-41.

Davenport, T. (2005). Thinking for a Living: How to Get Better Performance and Results from Knowledge Workers. Cambridge: Harvard Business School Press.

Drucker, P. F. (1959). The landmarks of tomorrow: A report on the new “pot modern” world. New York: Harper & Row

Drucker, P. F. (1966). The Effective Executive. New York: Harper & Row

Nor, N. M., & Daud, N. M. (2011). The Relationship between Human Resource Management and Knowledge-Based Economy in Malaysian Multimedia Super Corridor (MSC) Status Companies. Australian Journal of Basic and Applied Sciences, 5(8): 240-257.


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