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Diversidade na liderança científica ainda enfrenta obstáculos no Brasil

Embora representem a maioria da população, as mulheres ocupavam apenas 45,6% das posições de liderança científica no país em 2023, segundo estudo publicado na Scientometrics

Apesar dos avanços na representação de mulheres e pessoas negras, indígenas e amarelas em grupos de pesquisa, a diversidade na liderança científica no Brasil ainda enfrenta obstáculos significativos, segundo estudo publicado em julho na revista científica Scientometrics por pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa do país.

Sob coordenação do pesquisador Tulio Chiarini, analista em ciência e tecnologia do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (CTS-Ipea), o grupo analisou dados de 2023 do Diretório dos Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), investigando a diversidade nas lideranças científicas e se, e como, ela influencia a capacidade de colaboração externa das equipes de pesquisa no Brasil.

Os pesquisadores constataram que, em 2023, 75,6% dos líderes de grupos de pesquisa no país eram brancos. As mulheres, embora representem a maioria da população, ocupavam apenas 45,6% das posições de liderança científica no país. Essa desigualdade era ainda mais acentuada nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês), dominadas por homens brancos.

O grupo também observou que equipes científicas com liderança compartilhada têm maior probabilidade de estabelecer colaborações externas. As equipes com dois líderes apresentaram 19,8% mais parcerias externas do que as com liderança única—indicativo de que a diversidade de perspectivas e a divisão de responsabilidades proporcionadas pela liderança coletiva podem ampliar a capacidade de interação com o ambiente externo.

No entanto, os dados mostram que a presença de mulheres na liderança de grupos de pesquisa está associada a uma redução de 2,7% nas colaborações externas. Essa diferença, ainda que pequena, é estatisticamente significativa e sugere que barreiras  sistêmicas ainda dificultam o acesso de mulheres a redes de colaboração e a oportunidades de parceria.

“Pesquisas anteriores indicam que as mulheres enfrentam obstáculos maiores para alcançar cargos de liderança, acessar recursos e serem reconhecidas como colaboradoras legítimas, especialmente em áreas tradicionalmente dominadas por homens”, destaca Chiarini. “Além disso, lideranças femininas tendem a receber menos financiamento e ter menor visibilidade em redes acadêmicas, fatores que influenciam diretamente sua capacidade de colaboração.”