Notícias

Novo fármaco contra a malária obtém sucesso em ensaio clínico na África

Produzida pela farmacêutica suíça Novartis, o KLU156 provou ser tão eficaz contra a doença quanto a terapia combinada à base de artemisinina mais utilizada no mundo

Rodrigo Andrade
Pesquisador-bolsista no Ipea
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Por muito tempo, o tratamento da malária se apoiou em terapias combinadas à base de artemisinina (ACTs). Mas o parasita que causa a forma mais grave da doença (Plasmodium falciparum) vem se tornando cada vez mais resistente a essa estratégia. Agora, o mundo pode finalmente contar com uma nova arma contra uma das doenças mais mortais. Em um amplo ensaio clínico realizado na África, uma nova combinação de medicamentos desenvolvida pela farmacêutica suíça Novartis, e conhecida como KLU156, mostrou ser tão eficaz contra a malária quanto a terapia combinada à base de artemisinina mais utilizada no mundo.

A artemisinina foi isolada na China em 1971 a partir da erva Artemisia annua, há séculos usada na medicina tradicional chinesa. Já o novo medicamento tem uma origem distinta: seu principal componente, o ganaplacide, foi desenvolvido por pesquisadores da Novartis após a triagem de mais de 2 milhões de compostos em busca de atividade antimalárica em laboratório.

O ganaplacide demonstrou ser capaz de eliminar os parasitas da malária com alta eficácia, aparentemente interferindo em etapas de controle de qualidade da síntese de proteínas, mas seu mecanismo exato ainda não está totalmente claro. O KLU156 combina o ganaplacide com a lumefantrina, um antimalárico mais antigo usado na ACT mais empregada no mundo, conhecida pela marca Coartem.

O novo estudo tratou mais de 1.600 pacientes com malária em 12 países africanos por três dias, usando KLU156 ou Coartem. Na semana passada, durante a reunião anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, em Toronto, Canadá, os pesquisadores relataram que 99,2% dos pacientes que receberam a nova combinação foram curados, em comparação com 96,7% dos que receberam a terapia com artemisinina.

O KLU156 também se mostrou mais rápido que o Coartem na eliminação de gametócitos, os estágios sexuais do parasita que os mosquitos adquirem do sangue humano ao picar. A Novartis pretende obter a aprovação regulatória para o KLU156 o mais rápido possível. A empresa não anunciou quanto o novo medicamento irá custar, mas afirmou que pretende disponibilizá-lo em um regime majoritariamente sem fins lucrativos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar as ACTs como tratamento de primeira linha contra a malária em 2001 nos países que enfrentavam resistência a medicamentos mais antigos, e, globalmente, em 2006. A África é a região mais afetada pela doença, tendo registrado cerca de 246 milhões de casos e 569 mil mortes em 2023.

Os estudos clínicos permitem que novos medicamentos e terapias sejam testados de forma rigorosa, garantindo segurança e eficácia antes de chegarem ao público. Eles aceleram o acesso da população a tratamentos inovadores para doenças graves ou negligenciadas e ajudam a identificar quais abordagens funcionam melhor em diferentes grupos. Quando um país participa mais ativamente desses ensaios, seus pacientes podem receber terapias experimentais promissoras antes da aprovação oficial, e o sistema de saúde ganha experiência, infraestrutura e conhecimento científico.

A África tem sido a principal área de testes para novas estratégias contra a malária e outras doenças nos últimos anos. Já o Brasil, embora figure entre os 20 países no ranking global de estudos clínicos, responde por menos de 2% da pesquisa clínica mundial.

O país tem potencial para figurar entre os 10 mais relevantes do mundo nessa área. A expectativa agora é que a Lei da Pesquisa Clínica, regulamentada no início de novembro, impulsione esse crescimento e coloque o Brasil em sintonia com modelos internacionais, ampliando o potencial de crescimento de investimentos de indústrias, universidades e cooperação internacional para esses estudos no país, bem como o desenvolvimento e produção de novos medicamentos e diagnósticos.