Notícias
Ipea promove seminário preparatório para COP30
Evento marca etapa importante do diálogo preparatório para a Conferência de novembro, reunindo autoridades e especialistas do Brasil e exterior para discutir temas centrais à pauta climática
Publicado em 29/10/2025 - Última modificação em 13/11/2025 às 14h12
Rodrigo Andrade
Pesquisador-bolsista no Ipea
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) promoveu, nos dias 9 e 10 de outubro, em sua sede em Brasília, o seminário “Do Conhecimento à Ação – Diálogo Estratégico para a COP30”. O evento representa etapa importante das articulações e dos diálogos preparatórios para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), a ser realizada em novembro, em Belém, no Pará, reunindo representantes do governo federal, do setor acadêmico, de organismos internacionais e da sociedade civil para discutir temas centrais da agenda climática.
O primeiro dia do evento contou com a participação de Samara Farias, gestora executiva de Negócios Sustentáveis do Banco da Amazônia; Claudio Amitrano, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea, José Rafael Neto, representante do Banco de Desenvolvimento da América Latina; e Ivan Oliveira, subsecretário de Finanças para o Desenvolvimento Sustentável do Ministério da Fazenda. As discussões se concentraram nos desafios do financiamento climático e no papel dos bancos de desenvolvimento na transição para uma economia sustentável.
Moderado por Luis Claudio Kubota, técnico de Planejamento e Pesquisa do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) do Ipea, o segundo painel discutiu o papel da Inteligência Artificial (IA) na sustentabilidade e na governança democrática. Participaram do debate Sérgio Queiroz, técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea; Thomas Le Goff, professor de direito e tecnologia do Instituto Politécnico de Paris, na França; Affonso Nina, presidente da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom); e Cristiane Rauen, diretora do Departamento de Transformação Digital e Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Queiroz ressaltou que o Brasil possui instituições públicas de ponta em modelagem ambiental—como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)—que desenvolvem e usam ferramentas de código aberto, mas alertou para os riscos de dependência tecnológica e da captura privada dos benefícios gerados pela IA. “Mesmo com data centers e bases de dados instalados no Brasil, o país continuará vulnerável se a estrutura dos softwares que rodam neles for estrangeira”, destacou. “É fundamental assegurar autonomia tecnológica, por meio do domínio sobre esses softwares e dos dados, e transparência nos modelos de IA”, completou. O debate também abordou a necessidade de evitar vieses e práticas de greenwashing nas soluções digitais voltadas à agenda climática, de modo que a tecnologia atenda ao interesse público e não apenas a interesses privados.
Affonso Nina, da Brasscom, destacou que a questão dos data centers é fundamental para o Brasil do ponto de vista da infraestrutura, diante da crescente necessidade e demanda por processamento de informações. O país ainda importa grande parte dos serviços de processamento de dados. “Nossa balança comercial de serviços de TI passou de um déficit de US$ 3 bilhões em 2021 para US$ 7 bilhões em 2024, de modo que, hoje, cerca de 60% da nuvem brasileira opera fora do país”, afirmou. “É essencial buscar maior autonomia no processamento de dados.” Um dos principais entraves para isso, segundo ele, é o alto custo de implementação de novos data centers no Brasil, que chega a ser até 20% superior ao de outras nações.
Apesar dos desafios, o Brasil tem uma oportunidade de se consolidar como um ator global nesse mercado, graças à sua posição geográfica estratégica—que permite atender também mercados como Europa e Estados Unidos—, matriz energética limpa e renovável, infraestrutura elétrica bem desenvolvida e integrada, e robusta rede de comunicações, tanto interna quanto externa. Esses fatores criam condições favoráveis para trazer ao país uma maior capacidade de processamento de dados, atender à demanda interna com custos mais competitivos e, ao mesmo tempo, exportar determinados serviços para o exterior.
O terceiro painel discutiu os efeitos econômicos dos instrumentos de política climática sobre a economia e as emissões de carbono no Brasil, com base em modelos macroambientais. Participaram do debate Maria Nikolaidi, professora da Universidade de Greenwich, no Reino Unido; Marcelo de Carvalho Pereira, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e Cristina Fróes de Borja Reis, subsecretária de Desenvolvimento Sustentável do Ministério da Fazenda, que, em sua fala, ressaltou: “A transição climática precisa ser pensada como uma política de desenvolvimento.”
No segundo dia, representantes do Ipea, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) discutiram o papel dos dados na formulação de soluções para lidar com eventos climáticos no Brasil. De acordo com os participantes, sistemas de informação robustos podem fortalecer a governança climática em nível subnacional e aprimorar a capacidade de resposta do governo diante desses eventos.
Um exemplo nesse sentido vem do Cemaden, que, desde 2021, tem se estruturado para reduzir os riscos de desastres. “Para fazer essa gestão, é preciso primeiro conhecer onde estão as áreas de riscos, a vulnerabilidade das infraestruturas, da população, do território”, disse Regina Alvalá, diretora do Cemaden. O coordenador de Ciência de Dados do Ipea, Rafael Pereira, contou sobre a participação do instituto na resposta às enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. Em parceria com o IBGE, o Ipea identificou pessoas e empresas para integrar o programa emergencial de transferência de renda criado pelo Ministério do Trabalho. “Criamos o Geocode BR e, com ele, conseguimos geolocalizar 40 milhões de domicílios do Cadastro Único em 1 hora, sem custos. Encontramos cerca de 80% dessas famílias com precisão de até 500 metros”, disse.
O painel sobre gênero, raça e clima contou com a presença de Thaynah Gutierrez, assessora em Clima e Racismo Ambiental do Geledés – Instituto da Mulher Negra, e de Inamara Melo, diretora do Departamento de Políticas de Adaptação e Resiliência às Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. As participantes enfatizaram a necessidade de desenvolver indicadores de resiliência climática capazes de refletir as desigualdades de gênero, raça e renda.
No último painel, Arilson Favaretto, professor da Universidade de São Paulo (USP); Ernesto Galindo, diretor de Avaliação, Monitoramento, Estudos e Informação Estratégica da Secretaria-Executiva do Ministério do Desenvolvimento Agrário; e Susanna Hecht, professora do Instituto do Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos, discutiram os desafios para a implementação de políticas públicas que favoreçam a transição para sistemas alimentares sustentáveis.
Embora a maior parte da atenção no debate climático se concentre na transição energética, o sistema agroalimentar é responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. No Brasil, considerando os efeitos diretos e indiretos, essa participação chega a 75%.
A íntegra do primeiro e segundo dia do seminário "Do Conhecimento à Ação – Diálogo Estratégico para a COP30" encontra-se disponível aqui e aqui.
Com informações da Comunicação – Ipea.
