Artigo

Inovação no setor farmacêutico

Análise do esforço e dos resultados no Brasil e em países selecionados

Priscila Koeller[1]

Francisco Levy[2]

A produção de medicamentos inovadores e a incorporação de novas tecnologias em saúde têm sido objeto de atenção em diversos países. Identificado pela literatura, esse movimento se intensificou nos últimos anos, sobretudo em decorrência da pandemia de Covid-19 (Aitken et al, 2015; Congregacional Budget Office, 2021; Queiroz, 2024; Vargas, 2024). A crise sanitária desencadeada pelo novo coronavírus e a necessidade de novos medicamentos e vacinas para combatê-la destacou a importância da inovação na indústria farmacêutica para a sociedade.

Ocorre que a participação dos países na produção e, principalmente, na inovação em medicamentos não se dá de forma homogênea. Surgem daí as perguntas: quais países se destacam na produção de medicamentos e quais são os padrões e os resultados em inovação observados na indústria farmacêutica? Como não existe uma medida única para identificar quais países se destacam na produção e inovação nesse setor, este estudo se debruçou sobre dados selecionados de comércio internacional e indicadores de esforço inovador e de resultados em inovação da indústria farmacêutica.

Para mapear a importância dos países na produção de produtos farmacêuticos, considerou-se sua capacidade de inserção internacional, tendo como principal indicador o volume de exportações de produtos farmacêuticos. A escolha deste indicador reflete, em alguma medida, o desenvolvimento da capacidade produtiva dessa atividade em cada um deles. A Tabela 1 mostra o Brasil e os 14 países com maior volume de exportações de produtos farmacêuticos em ordem decrescente, considerando o último ano disponível (2023).

Tabela 1 — Volume de exportações de produtos farmacêuticos por país, de 2015 a 2023 (em milhões de dólares correntes)

Tabela 1

Fonte: OMC. Disponível em: https://stats.wto.org/. Extraído em: 14 de maio de 2025.

O dado da Organização Mundial do Comércio (OMC) para a exportação de produtos farmacêuticos evidencia a concentração dos principais países exportadores na Europa, à exceção de Estados Unidos, Índia e China. Indica também certa estabilidade no ranking no período 2015-2023, exceto no caso da Eslovênia, que passou da 22ª posição, em 2015, para a 13ª, em 2023. As informações evidenciam ainda que os cinco primeiros países no ranking responderam por mais da metade (53,2%) do total das exportações mundiais desses produtos em 2023, ao passo que os dez primeiros representaram 75,6% — à exceção dos Estados Unidos, todos são países europeus. O Brasil ficou na 35ª posição em termos do volume de exportações de produtos farmacêuticos em 2023.

Os dados de exportação, no entanto, não são suficientes, visto que alguns países atuam como porto de entrada de produtos farmacêuticos, o que pode ser o caso daqueles que fazem parte da União Europeia. Para complementá-los, considerou-se também as estatísticas de valor adicionado incorporado à demanda final estrangeira (OECD, 2023, p. 32) na fabricação de produtos químicos e farmacêuticos.

Tabela 2 — Valor adicionado incorporado à demanda final estrangeira na fabricação de produtos químicos e farmacêuticos, de 2015 a 2020 (em milhões de dólares correntes)

Tabela 2

Fonte: OECD (2023) — Trade in Value Added (TiVA) 2023 edition: Principal Indicators. Disponível em: https://data-explorer.oecd.org/?pg=0&bp=true&snb=15&tm=TIVA. Extraído em: 9 de junho de 2025.

Conforme mostra a Tabela 2, a China ocupou a primeira posição no valor adicionado incorporado à demanda final estrangeira no período 2015-2020, para o qual há estatísticas disponíveis, seguida dos Estados Unidos. Os países europeus (8) se destacaram no conjunto dos 15 primeiros, seguidos dos países asiáticos (6). Em 2020, o Brasil ocupou a 24ª posição.

São 11 os países que compõem a interseção entre esses dois grupos — 15 principais exportadores de produtos farmacêuticos e 15 principais em termos do valor adicionado incorporado à demanda final estrangeira: Alemanha, Bélgica, China, Estados Unidos, França, Holanda, Índia, Irlanda, Itália, Reino Unido e Suíça. Para estes países, analisou-se o esforço inovador e os resultados em inovação, em contraposição ao desempenho do Brasil.

Esforço inovador e resultados

A análise do esforço inovador e dos resultados em inovação desses 11 países e do Brasil esbarra na dificuldade de encontrar indicadores comparáveis para os mesmos anos. Optou-se, então, por utilizar duas proxies, cuja seleção teve como critério a disponibilidade de informação para o maior número possível desses 11 países e do Brasil. A primeira mede o esforço inovador a partir das informações relativas à intensidade em pesquisa e desenvolvimento (P&D), definida como dispêndios em P&D[3] em relação ao valor adicionado total no setor farmacêutico.[4] Para a segunda proxy, a fim de analisar os resultados em termos de inovação, considerou-se o número de patentes depositadas por esses países no Escritório Europeu de Patentes (EPO, na sigla em inglês). A utilização das informações do EPO foi motivada pela disponibilidade de informações sobre patentes depositadas por campo tecnológicos e pelo fato deste ser um dos escritórios mais importantes do mundo. Contudo, espera-se encontrar algum grau de sobrerrepresentação dos países da União Europeia.    

O Gráfico 1 mostra que, entre os países selecionados, as indústrias mais intensivas em P&D estão nos Estados Unidos, onde cerca de 48% do valor adicionado foi destinado a essas atividades em 2021. Ainda no mesmo ano, as farmacêuticas da Bélgica se destacaram no bloco europeu, despendendo 32% do valor adicionado na indústria farmacêutica. Esse nível é superior aos dispêndios observados na Alemanha (19%), na França (17%) e na Suíça (15%). 

Gráfico 1 — Dispêndios em P&D como proporção do valor adicionado na indústria farmacêutica 2017, 2020-2022

Imagem1

Fonte: OECD - Analytical Business Enterprise R&D (ANBERD); STAN Database for Structural Analysis; Pintec 2017; PIA 2017; Annual Survey of Industries (ASI); S&T Indicators Tables. Extraído em: 31 de julho de 2025. Obs.: Para o Brasil, a última informação disponível desagregada por atividade econômica, comparável com as estatísticas apresentadas, é a da Pesquisa de Inovação de 2017 (Pintec 2017).

Quanto ao Brasil, os dados de 2017 apontam para uma baixa intensidade em P&D na indústria farmacêutica local, com dispêndios correspondendo a 2,75% do valor adicionado. Chama a atenção o fato de os países selecionados terem feito esforços em P&D superiores a 5% do valor adicionado na atividade em 2017. Por sua vez, as firmas do mesmo setor na Índia — outro país de renda média, segundo a classificação por faixas de renda do Banco Mundial para o ano calendário de 2023 — atuam mais intensivamente em P&D, com o indicador em 10% tanto em 2017 quanto em 2020.

Como medida de resultado dos dispêndios em P&D, foi adotada a participação de patentes farmacêuticas de cada país no total de patentes farmacêuticas depositadas no EPO. Para tanto, foram identificadas as patentes depositadas no campo tecnológico pharmaceuticals — produtos farmacêuticos em português (Schmoch, 2008). Esse é um indicador amplamente utilizado na literatura sobre inovação, ainda que apresente limitações, visto que nem todas as atividades de P&D resultam em patente e nem toda patente resulta em inovação (Koeller e Miranda, 2021, p. 589). Como ressalta o Manual de Patentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), patentes têm relação próxima, ainda que imperfeita, com inovação (OECD, 2009, p. 27), sendo particularmente relevantes na indústria farmacêutica, seja pela associação com dispêndios em P&D, seja pela associação com inovação (Grabowski, 2002; Lehman, 2003; Cockburn, Long, 2015).

Tabela 3 — Participação (%) de Patentes em Produtos Farmacêuticos por país no Total de Patentes Farmacêuticas aplicadas no EPO, de 2017 a 2024

Tabela 3

Fonte: EPO. Disponível em: https://www.epo.org/en/about-us/statistics/statistics-centre#/customchart. Extraído em: 1º de agosto de 2025. Obs.: As informações disponíveis não permitem selecionar apenas empresas depositantes, sendo relativas, portanto, ao conjunto de depositantes.

O indicador de patentes (Tabela 3) mostra uma concentração de depósitos pelos Estados Unidos (37,0%), seguido da Alemanha (7,3%) e da França (5,9%), considerando o conjunto dos 11 países selecionados em 2024. Importante ressaltar que esses países respondem por aproximadamente 75% de todas as patentes depositadas no campo tecnológico de produtos farmacêuticos. A China se destaca pela mudança de posição: da 8ª posição, em 2015, para a 4ª, em 2024, mais que dobrando a sua participação em uma década. Quanto à Índia, país de renda média-baixa, nota-se perda de posição no ranking, passando da 10ª posição, em 2015, para a 11ª, em 2024. Mesmo assim, manteve o nível de participação entre 1,0% e 1,5% ao longo do período, resultado que merece destaque, quando considerada a sobrerrepresentação dos países da União Europeia.

O Brasil, em contraposição, praticamente manteve sua participação percentual no período, variando de 0,2% (2015) para 0,1% (2024), muito distante dos 5% ou mais de participação apresentados pelos primeiros cinco países do ranking. Seu desempenho também é fraco em relação ao da Índia, cujo resultado ficou um ponto percentual acima do brasileiro em 2024.

Desafios e perspectivas para o Brasil

A análise do esforço inovativo e dos resultados associados da indústria farmacêutica nos países que concentraram as exportações e o valor adicionado incorporado à demanda final estrangeira na fabricação de produtos químicos e farmacêuticos pode ser vista como balizadora para o comportamento desse setor no Brasil.

Os indicadores de dispêndios em P&D mostram que o esforço brasileiro ainda é tímido quando comparado ao dos 11 países que se destacaram no setor farmacêutico nos últimos anos. Da mesma forma, os indicadores de patentes também sinalizam que os resultados, medidos por essa estatística, estão, possivelmente, refletindo esse nível de esforço.

Por fim, para além dos países europeus e dos Estados Unidos, a China chama a atenção, não só pelo indicador de valor adicionado incorporado à demanda final estrangeira na fabricação de produtos químicos e farmacêuticos, mas também pelo crescimento de sua participação nas estatísticas de patentes, apesar de ser um país de renda média-alta como o Brasil. A Índia também se destaca, pois, embora ocupe a 11º posição na participação de patentes entre os países selecionados, figura nesse ranking e apresenta, durante todo o período considerado, percentuais acima daqueles apresentados pelo Brasil, apesar de ser um país de renda média-baixa.

[1]Analista de planejamento e orçamento do Centro de Pesquisa Ciência, Tecnologia e Sociedade do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (CTS-Ipea).

[2]Pesquisador bolsista do Subprograma de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) no CTS/Ipea.

[3]Para as pesquisas de dispêndios em P&D, considerou-se o período de 2015 a 2022. Os dados não estavam disponíveis para China e Irlanda.

[4]Para o dado extraído da OECD, a atividade econômica considerada é a NACE 21 — Manufacture of basic pharmaceutical products and pharmaceutical preparations; para o Brasil, a atividade econômica é CNAE 21 — fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos; para a Índia, a classificação é a NIC, código 21 — Manufacture of pharmaceuticals, medicinal chemical and botanical products — todas compatíveis entre si.

Este trabalho foi financiado pelo Ministério da Saúde (MS), por meio do Termo de Execução Descentralizada (TED) no 6, de 2022.

As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do Ministério do Planejamento e Orçamento.