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Análise dos dados preliminares do comércio mundial em 2020

Por Fernando Ribeiro

As incertezas e os efeitos econômicos trazidos pela irrupção da pandemia de Covid-19 no início de 2020 geraram um rápido movimento de revisão de projeções para o desempenho da economia mundial. As preocupações se estenderam ao comércio mundial, criando expectativas de uma queda forte das exportações e importações ao redor do mundo. Felizmente, as piores previsões não se confirmaram, e o desempenho do comércio mundial tem sido surpreendentemente favorável em vista da gravidade do cenário. Na verdade, nesta crise, o comércio vem tendo um desempenho bem diferente do observado em outros momentos de recessão mundial.

A fim de contribuir para o debate sobre o impacto da Covid-19 no comércio mundial, esta nota avalia como os fluxos de importação e exportação vêm se comportando em 2020 diante da crise pandêmica, lançando mão de indicadores mensais agregados para um conjunto representativo de países, com dados disponíveis até agosto. De fato, o que se vê até aqui é uma rápida recuperação dos fluxos de comércio a partir de maio – ainda que tal recuperação venha se dando em ritmos diferentes entre os países e regiões. Os números disponíveis sugerem que a queda do quantum de comércio este ano possa ser ainda menor do que as previsões mais recentes indicam. A nota também analisa se há alguma correlação entre a variação dos fluxos de comércio e alguns indicadores específicos referentes aos países analisados, como a incidência da Covid-19 ou a importância que as cadeias globais de valor têm no comércio de cada país. Além disso, discute as perspectivas para o comércio mundial nos últimos meses de 2020 e em 2021, levando em conta as previsões disponíveis atualmente e também o balanço de riscos.

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Comércio exterior, política comercial e investimentos estrangeiros: considerações preliminares sobre os impactos da crise do Covid-19

Por Ivan Oliveira, Fernando Ribeiro, Renato Baumann, Glauco Avelino Oliveira, Luís Felipe Giesteira, Luís Fernando Tironi e André Pineli Alves

O mundo atravessa um período de grande conturbação em função da pandemia do Covid-19 e o comércio internacional é um candidato óbvio a enfrentar grandes dificuldades neste período de crise, seja em função da redução da demanda mundial de bens (e também os prováveis efeitos sobre o preço dos bens comercializados, especialmente as commodities), seja por conta de restrições na capacidade de oferta em diversos setores e países em razão das medidas de isolamento social e restrição de movimentação de pessoas adotadas em grande número de países. Em um mundo globalizado, marcado pela grande importância das cadeias globais de valor em importantes setores industriais, há grande interconexão entre as estruturas produtivas dos diversos países, cujo bom funcionamento depende do trânsito de mercadorias (e pessoas) pelas fronteiras nacionais, hoje sujeitas, em sua maioria, a controles rigorosos.

Esta nota se dedica a fazer uma avaliação preliminar dos impactos da atual crise mundial de saúde pública sobre o comércio internacional de mercadorias, e também tecer considerações acerca de seus efeitos sobre a política comercial e sobre os investimentos estrangeiros diretos, incluindo aí a questão das cadeias globais de valor.

Trata-se, naturalmente, de um esforço de caráter bastante especulativo − uma vez que se trata de um evento de características inéditas nos últimos 100 anos e ainda paira grande incerteza sobre a duração da crise sanitária – e de alcance limitado, visto que há, sem dúvida, muitos outros elementos que mereceriam se analisados. O exercício feito aqui estima uma queda de 20% do comércio mundial em 2020, no cenário básico, em que o PIB mundial tem queda de 2,0%. No cenário otimista, a queda seria de 15% e, no cenário pessimista, de 25%. Em 2021, os cenários indicam que o crescimento do comércio poderia ser de 4,0%, 7,0% ou 10,0%.

A combinação dos cenários para 2020 e 2021 resultou em nove resultados possíveis para a evolução do comércio mundial no acumulado do biênio 2020-2021.No melhor cenário, o comércio mundial acumula queda de 6,5% no biênio, e no pior cenário, de 22,0%. Na maioria dos casos, a queda acumulada fica entre 11% e 20%.

A eclosão da pandemia do Covid-19 ocorre em um momento delicado para as relações comerciais entre os países, marcado por conflitos comerciais de vários tipos − como o que envolve Estados Unidos e China. Tais conflitos, na verdade, são reflexo movimentos de caráter estrutural, associados a uma descrença na importância das instituições multilaterais e nos próprios benefícios da globalização para os países, em especial para grupos importantes de trabalhadores e empresas. É possível prever que, superada a crise sanitária, a economia mundial, e o Brasil em particular, se depare com um ambiente de negócios internacionais mais propenso à imposição de restrições de vários tipos aos fluxos de comércio e talvez, também, aos fluxos de investimento direto estrangeiro.

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Exportações brasileiras de carnes

Carta de Conjuntura nº 34

 Por Marcelo José Nonnenberg

As recentes denúncias envolvendo a produção de carnes do Brasil podem afetar as exportações brasileiras e alguns grandes importadores já anunciaram medidas preliminares de suspensão das compras. Mas qual o dano potencial sobre as exportações brasileiras? Qual o peso das carnes no total das nossas exportações? Essa nota busca fornecer algumas informações sobre o assunto.

As carnes estão entre os principais produtos exportados pelo Brasil. Tomando em conta os cinco anos terminados em fevereiro de 2017, as carnes estão em terceiro lugar. Os dois principais produtos exportados pelo Brasil são a carne bovina e a carne de frango. A TABELA 1 apresenta as exportações brasileiras nos cinco últimos períodos de 12 meses encerrados em fevereiro. Considerando o período mais recente, as exportações de carnes de frango foram de US$ 6,2 bilhões (3% do total exportado), as de carnes bovinas, de US$ 4,3 bilhões (2%) e as carnes suínas de US$ 1,4 bilhão (1%). No total, as exportações passaram de US$ 14,4 bilhões nos 12 meses encerrados em fevereiro de 2013 para US$ 13,3 bilhões no período encerrado em fevereiro de 2017, representando 6,9 % das exportações totais do país.

As exportações brasileiras de carnes representam uma parcela importante de nossas exportações totais, e são relativamente concentradas tanto em termos de estados produtores quanto em termos de destinos. E o Brasil é um dos maiores exportadores mundiais destes produtos. Uma suspensão prolongada das vendas externas brasileiras não teria um impacto macroeconômico muito significativo. Entretanto, do ponto de vista das regiões produtoras, possivelmente constituiria um golpe bastante importante. Ademais, por ser o país um dos maiores exportadores mundiais, em especial de carnes bovinas e de frangos, haveria um efeito considerável sobre os preços desses produtos, afetando os maiores consumidores.

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Indicador de Consumo Aparente Industrial – novembro de 2016

Por Leonardo Mello de Carvalho

Cenário de recessão segue restringindo a demanda interna por bens industriais

O cenário de contração da demanda interna segue se refletindo no comportamento dos indicadores de consumo aparente (CA) da indústria, definidos como sendo o volume da produção industrial doméstica, acrescida do quantum das importações e diminuída do quantum das exportações. Além da forte queda da produção até novembro de 2016, a oferta final de bens industriais na economia brasileira (outra definição possível para os indicadores de CA) tem sido negativamente afetada pelo desempenho do comércio exterior.

Enquanto a trajetória das importações segue negativa, a recuperação exibida pelo setor exportador, em termos das quantidades vendidas ao longo de 2016 também vem contribuindo para a redução do consumo aparente. Se, por um lado, o fraco desempenho do CA de bens industriais evidencia os efeitos negativos da recessão sobre a demanda interna, por outro, o ajuste do setor externo normalmente associado a cenários envolvendo deterioração da atividade econômica e movimentos defasados de desvalorização cambial tem ocorrido como esperado.

Neste contexto, a oferta final de bens industriais (CA) recuou 1,5% na comparação entre novembro e outubro, na série com ajuste sazonal, deixando um carry-over de -2,2% para o último trimestre do ano. Por sua vez, este resultado implicaria uma queda de 10,0% no acumulado de 2016, muito superior à queda estimada para a produção, de 6,7%, segundo o boletim Focus mais recente.

Ainda que a produção industrial doméstica tenha crescido na margem em novembro, o desempenho do comércio exterior contribuiu negativamente para o consumo aparente, tendo havido queda de -4,6% nas importações de bens industriais e um robusto crescimento de 21% das exportações (impulsionadas pela venda de uma plataforma de petróleo). Já na comparação com novembro de 2015, a queda de 6,8% registrada pelo consumo aparente da indústria geral representou a 33ª variação negativa seguida. No acumulado do ano, a contribuição negativa do comércio exterior fica mais evidente. Enquanto a produção doméstica registrou queda de 6,6%, o consumo aparente retraiu-se 10,2%, na mesma base de comparação. Por sua vez, a taxa de crescimento em 12 meses chegou a -10,9% (veja a tabela).

170116_tabela_ca_industria_nov_16

Considerando-se o consumo aparente por grandes categorias econômicas, com exceção do setor de bens de capital, que recuou 4,3%, todos os demais avançaram entre os meses de outubro e novembro, na série dessazonalizada. Conforme comentado na publicação do Indicador Ipea de FBCF, por trás da queda no setor de bens de investimento está a forte contribuição negativa proveniente da exportação de uma plataforma de petróleo no período. No acumulado do ano, o setor registra queda de 19,0%. Nesta base de comparação, as exportações líquidas também contribuíram para reduzir o CA. Enquanto a produção doméstica retraiu-se 15,3%, o volume exportado registrou alta expressiva de 36,5%. Em direção contrária, o total importado recuou 19,6%.

O destaque positivo referente ao resultado de novembro ficou por conta da categoria bens de consumo duráveis, que apresentou alta de 2,7% na margem. Apesar disso, o setor exibe o pior resultado no acumulado do ano, com retração de 20,6%. Assim como na categoria  bens de capital, o setor de duráveis registrou forte elevação do volume exportado ao longo de 2016, que avançou 27,5% nesta base de comparação. Por sua vez, as importações de duráveis retraíram-se 38,3%. Ainda no comparativo acumulado no ano, o consumo aparente do setor de bens de consumo semi e não duráveis registrou o melhor resultado entre as grandes categorias, com queda de 3,8%.

O CA de bens de consumo como um todo registrou em novembro o terceiro crescimento consecutivo na comparação mensal dessazonalizada, acumulando variação de 4,3% desde agosto. Por fim, a categoria de uso de bens intermediários cresceu 0,9% na passagem entre outubro e novembro, na série com ajuste sazonal. Acumulando no ano uma queda de 6,5% da produção doméstica, o setor sofreu um impacto relativamente menor do comércio exterior sobre o resultado do seu consumo aparente, que registrou queda de 8,7% no mesmo período. Enquanto as exportações cresceram 2,2%, as importações apresentaram recuo 11,8%.

Acesse aqui a planilha completa com os dados de Consumo Aparente Industrial novembro de 2016.



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