Arquivos da categoria: Setor Externo

Setor externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

A pandemia da Covid-19, que atinge o mundo inteiro, teve consequências devastadoras sobre a produção, o comércio mundial e os mercados financeiros globais. Como sempre ocorrem em momentos de grande estresse econômico, os investidores correm na direção da moeda americana, provocando desvalorização das taxas de câmbio na maioria dos países. No Brasil, apenas entre o início de março e o início de maio, o real sofreu desvalorização de cerca de 23%, mas a volatilidade dos mercados financeiros tem sido muito alta, o que significa que essa porcentagem pode flutuar bastante nas próximas semanas. Todavia, as taxas efetivas reais de câmbio nos doze meses até março desvalorizaram-se 20%, quando ponderadas tanto pelas exportações como pelas importações.

Até março, os efeitos da crise sobre os fluxos de exportação e importação do Brasil ainda foram tímidos – entretanto, em abril, já começaram a se fazer sentir. Com base nas médias diárias, o valor de abril das exportações foi de US$ 18,3 bilhões, praticamente igual ao do mesmo mês do ano passado, com uma queda de apenas 0,3%. No entanto, esse número deve ser olhado com mais detalhe para se compreender melhor o resultado, como será feito em seguida. Com base nas médias diárias dessazonalizadas, percebe-se que as exportações caíram 1,7% em abril, pelo segundo mês consecutivo, e esse valor varia muito quando se observam os fatores agregados. Enquanto os básicos tiveram alta de 6,6% na mesma base de comparação, os semimanufaturados sofreram queda de 7,9%, e os manufaturados, de 23,3%. O aumento das exportações de básicos deveu-se principalmente a uma grande elevação das exportações de soja, com crescimento de 73,5% com relação ao mesmo mês do ano passado, e de café e algodão em bruto, com aumentos de 13,2% e 18,7% na mesma base, entre os produtos agropecuários. Entre os demais produtos, destacam-se as elevações das vendas externas de minério de ferro, com 49%, e alguns outros com crescimentos elevados – entretanto, a maioria teve queda no mesmo período. As importações, por sua vez, já começam a apresentar queda. O valor de US$ 11,6 bilhões ficou abaixo dos US$ 13,6 bilhões registrados em abril do ano passado e, com base nas médias diárias, significou queda de 10,5%. Com base nas médias diárias dessazonalizadas, houve uma queda de 13,7% com relação ao mês anterior. O superavit comercial em abril, portanto, foi de US$ 6,7 bilhões no mês e de US$ 12,3 bilhões no acumulado do ano.

O deficit em conta corrente, nos três primeiros meses do ano, ficou em US$ 15,2 bilhões, praticamente igual ao valor observado no mesmo período do ano passado. Em termos de participação no produto interno bruto (PIB), houve um aumento de 3,38% para 4,03%. No acumulado dos doze meses terminados em março deste ano, os investimentos diretos no país, como proporção do PIB (4,49%) continuarem superando o deficit em conta corrente no mesmo período (2,8%). Entretanto, considerando apenas os últimos três meses até março, o financiamento do deficit em conta corrente dependeu de dois fatores que não devem ser recorrentes no tempo. Em primeiro lugar, um regresso de investimentos diretos no exterior extremamente elevado (especialmente em março); em segundo, uma queda de reservas de valor expressivo. Apesar de nossas reservas internacionais ainda estarem num nível bastante elevado, não se pode deixar de notar que, do final de junho do ano passado até o final de março, esse valor já foi reduzido em US$ 45 bilhões.

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Comércio exterior, política comercial e investimentos estrangeiros: considerações preliminares sobre os impactos da crise do Covid-19

Por Ivan Oliveira, Fernando Ribeiro, Renato Baumann, Glauco Avelino Oliveira, Luís Felipe Giesteira, Luís Fernando Tironi e André Pineli Alves

O mundo atravessa um período de grande conturbação em função da pandemia do Covid-19 e o comércio internacional é um candidato óbvio a enfrentar grandes dificuldades neste período de crise, seja em função da redução da demanda mundial de bens (e também os prováveis efeitos sobre o preço dos bens comercializados, especialmente as commodities), seja por conta de restrições na capacidade de oferta em diversos setores e países em razão das medidas de isolamento social e restrição de movimentação de pessoas adotadas em grande número de países. Em um mundo globalizado, marcado pela grande importância das cadeias globais de valor em importantes setores industriais, há grande interconexão entre as estruturas produtivas dos diversos países, cujo bom funcionamento depende do trânsito de mercadorias (e pessoas) pelas fronteiras nacionais, hoje sujeitas, em sua maioria, a controles rigorosos.

Esta nota se dedica a fazer uma avaliação preliminar dos impactos da atual crise mundial de saúde pública sobre o comércio internacional de mercadorias, e também tecer considerações acerca de seus efeitos sobre a política comercial e sobre os investimentos estrangeiros diretos, incluindo aí a questão das cadeias globais de valor.

Trata-se, naturalmente, de um esforço de caráter bastante especulativo − uma vez que se trata de um evento de características inéditas nos últimos 100 anos e ainda paira grande incerteza sobre a duração da crise sanitária – e de alcance limitado, visto que há, sem dúvida, muitos outros elementos que mereceriam se analisados. O exercício feito aqui estima uma queda de 20% do comércio mundial em 2020, no cenário básico, em que o PIB mundial tem queda de 2,0%. No cenário otimista, a queda seria de 15% e, no cenário pessimista, de 25%. Em 2021, os cenários indicam que o crescimento do comércio poderia ser de 4,0%, 7,0% ou 10,0%.

A combinação dos cenários para 2020 e 2021 resultou em nove resultados possíveis para a evolução do comércio mundial no acumulado do biênio 2020-2021.No melhor cenário, o comércio mundial acumula queda de 6,5% no biênio, e no pior cenário, de 22,0%. Na maioria dos casos, a queda acumulada fica entre 11% e 20%.

A eclosão da pandemia do Covid-19 ocorre em um momento delicado para as relações comerciais entre os países, marcado por conflitos comerciais de vários tipos − como o que envolve Estados Unidos e China. Tais conflitos, na verdade, são reflexo movimentos de caráter estrutural, associados a uma descrença na importância das instituições multilaterais e nos próprios benefícios da globalização para os países, em especial para grupos importantes de trabalhadores e empresas. É possível prever que, superada a crise sanitária, a economia mundial, e o Brasil em particular, se depare com um ambiente de negócios internacionais mais propenso à imposição de restrições de vários tipos aos fluxos de comércio e talvez, também, aos fluxos de investimento direto estrangeiro.

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Setor externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

As taxas efetivas reais de câmbio (TERCs), tanto baseadas nas exportações quanto nas importações, quando deflacionadas pelo Índice de Preços por Atacado (IPA), experimentaram uma valorização nos doze meses encerrados em dezembro. No entanto, quando o deflator utilizado é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), observa-se uma desvalorização, porém inferior à registrada pela taxa nominal real/dólar.

As exportações, em janeiro, atingiram US$ 14,430 bilhões e as importações, US$ 16,175 bilhões, gerando um deficit de US$ 1,745 bilhão, o primeiro resultado negativo desde fevereiro de 2015. Em doze meses, as exportações totalizaram US$ 220,4 bilhões e as importações, US$ 177,1 bilhões, ainda um resultado superavitário. Os dados recentes apontam para uma perda de dinamismo das exportações brasileiras de dimensão semelhante à que se observou em 2014 e 2015, quando se registrou, pela última vez, deficit na balança comercial. Note-se que, em 2015, o saldo comercial se recuperou rapidamente em razão de uma queda ainda mais acentuada das importações, provocada pela recessão. Atualmente, o que se observa é uma retomada da atividade econômica, que deverá continuar a impulsionar positivamente as importações.

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Setor externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

As variações recentes da taxa de câmbio ilustram a importância de se atentar para o desempenho das taxas efetivas reais para analisar o comportamento dos fluxos de comércio exterior. Entre setembro deste ano e setembro do ano passado, enquanto os indicadores Ipea de taxa efetiva real de câmbio (TERC) ponderados pelas exportações tiveram valorização de cerca de 3,2%, a taxa nominal real/dólar se desvalorizou em apenas 0,1%. Quando se examinam as taxas efetivas reais ponderadas pelas importações totais, verifica-se uma valorização um pouco maior, de cerca de 3,7%. Já entre setembro do ano passado e setembro de 2017, enquanto a taxa real/dólar desvalorizou-se 31%, a TERC ponderada pelas exportações e deflacionada pelo Índice de Preços por Atacado (IPA) teve desvalorização de apenas 15,6%.

As exportações em outubro alcançaram US$ 18,2 bilhões, enquanto as importações foram de US$ 17,0 bilhões, um superavit de US$ 1,2 bilhão. No acumulado do ano, o saldo é de US$ 164,3 bilhões, uma queda de 27,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Em termos de médias diárias dessazonalizadas, o superávit comercial continua apresentando uma tendência e queda desde maio deste ano. Esse resultado se deve, especialmente, à tendência de queda das exportações. Com a atividade econômica se recuperando, é possível esperar que, dentro e alguns meses, a tendência de alta das importações, iniciada em meados deste ano, acentue se e que, por conseguinte, a balança comercial volte a ter resultados negativos. Examinando-se por produtos com base na Classificação Internacional Normalizada Industrial de Todas as Atividades Econômicas (International Standard Industrial Classification of All Economic Activities – ISIC), no acumulado do ano, verifica-se que a queda das exportações vem sendo disseminada, atingindo praticamente todos eles. E, pelo lado das importações, também a grande maioria dos produtos vem mostrando queda.

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Setor Externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

Entre junho deste ano e junho do ano passado, enquanto o Indicador Ipea de Taxa Efetiva Real de Câmbio (TERC) ponderada pelas exportações e deflacionada pelo Índice de Preços por Atacado (IPA) sofreu valorização de 6% e a deflacionada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), de 2%, a taxa nominal real/dólar se desvalorizou em 2,3%. Quando se examinam as TERCs ponderadas pelas importações totais, verifica-se uma valorização de 6% quando deflacionadas pelo IPA e de 2% quando deflacionadas pelo INPC.

Tabela 2 - Setor externo Tabela 1 - Setor externo

Esta seção analisa também o desempenho recente da balança comercial; dos índices de preços e de volume do comércio exterior; e do balanço de pagamentos.



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Análise preliminar do acordo Mercosul-União Europeia

Por Marcelo José Braga Nonnenberg e Fernando José Ribeiro

No dia 28 de junho de 2019 foi anunciada a conclusão da negociação do acordo entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE), após um longo processo iniciado há vinte anos. Trata-se muito mais que simplesmente um acordo de livre comércio. Engloba diversos temas econômicos, além dos pilares político e de cooperação. Portanto, além do aumento do comércio de bens entre as duas regiões, pode-se esperar crescimento dos investimentos externos − atraídos pela maior estabilidade de regras, convergência regulatória, mecanismos de solução de controvérsias e transparência –, do comércio de serviços e maior integração e convergência nos campos econômico, político, regulatório, de meio ambiente, de tecnologia etc.

Até que os termos do acordo sejam divulgados, não será possível fazer uma avaliação mais profunda sobre seu impacto global. No entanto, o presente trabalho apresenta as informações disponíveis até o momento referentes às alterações tarifárias negociadas bem como às quotas (com e sem tarifas) concedidas para diversos produtos do agronegócio e uma avaliação dos possíveis impactos por categoria de produto a partir do fluxo atual de comércio.

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Setor Externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

A taxa de câmbio desvalorizou-se ligeiramente nos últimos meses, acompanhando as incertezas do processo de tramitação da proposta de reforma da previdência. Mas deve-se notar também que, quando se mede a taxa de câmbio pela taxa efetiva real, para o conjunto das exportações e importações, nos últimos anos, a variação foi bem inferior ao da taxa real/dólar.

As exportações e importações estão apresentando claramente uma tendência de­clinante nos primeiros quatro meses do ano, tanto em comparação com os meses anteriores como com o mesmo período do ano anterior, ainda que o saldo comer­cial venha se mantendo relativamente constante desde setembro do ano passado. Em abril, as exportações cresceram 3% com relação ao mês anterior, ao mesmo tempo que as importações tiveram queda de apenas 0,3%. Ambas as variáveis, entretanto, caíram quando comparadas com os valores atingidos no segundo se­mestre do ano passado. No acumulado do ano até abril, as exportações sofre­ram queda de 2,7%, apesar da elevação de 5,8% dos básicos. Em compensação, os manufaturados tiveram queda de 7,3% e os semimanufaturados, redução de 1,1%. A recessão na Argentina vem cobrando um preço alto especialmente no que concerne à queda das exportações de produtos manufaturados. As importações nos primeiros quatro meses do ano caíram 0,8%, devido a reduções de bens de consumo semiduráveis e não duráveis (-1%), bens de consumo duráveis (-16%) e combustíveis e lubrificantes (-10%). Em compensação, as de bens de capital (2%) e bens intermediários (1,6%) experimentaram elevação.

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Setor Externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

A taxa de câmbio vem se mantendo razoavelmente constante desde o início de novembro, graças à redução dos riscos associados ao cenário político e também ao movimento dos fundamentos econômicos. Enquanto a taxa DI manteve-se constante, o spread do credit default swap (CDS) caiu recentemente, compensando a elevação das taxas de alto rendimento dos Estados Unidos (high yield) entre o início de outubro e o final de dezembro.

Nos últimos anos, a desvalorização das taxas efetivas de câmbio real tem sido bem inferior à da taxa real/dólar. Apenas entre dezembro de 2017 e dezembro de 2018, enquanto a taxa real/dólar mostrou desvalorização de 18%, as taxas efetivas deflacionadas pelo índice de preços por atacado (IPA), tanto com base nas exportações como nas importações, mostraram desvalorização de 7,3%.

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Esta seção analisa também a trajetória recente das contas externas brasileiras.

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Setor Externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

Desde o início de setembro, o risco país, medido pela taxa de Credit Default Swaps (CDS), caiu significativamente, contribuindo de forma decisiva para a valorização da taxa de câmbio real/dólar. Nos próximos meses, é possível que haja reduções adicionais desse indicador, com o cenário interno ficando mais claro. Em contrapartida, a esperada elevação das taxas de juros externas encurta a distância com relação às taxas domésticas. As variações do Indicador Ipea de Taxa Efetiva Real de Câmbio (TERC) para as exportações se alteram substancialmente de acordo com o indexador utilizado. No caso das exportações totais baseadas no Índice de Preços por Atacado (IPA), a desvalorização entre setembro de 2017 e setembro de 2018 foi de 15,4%, enquanto o cálculo baseado no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) indica variação de 25,8%. A desvalorização para as importações totais baseada no IPA é de 15,7%, ao passo que a baseada no INPC é de 25,8%. No caso específico da TERC das importações dos bens de consumo não duráveis, a desvalorização foi de 27,7%, enquanto, no mesmo período, a TERC das importações de combustíveis e lubrificantes valorizou-se 4,1%.

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Setor Externo

Por Marcelo José Braga Nonnenberg

Os indicadores Ipea de taxa efetiva real de câmbio (TERC) seguiram o movimento de desvalorização da taxa de câmbio nominal real/dólar, que se desvalorizou em mais de 20% no ano. As TERCs ponderadas pelas exportações, no período de julho de 2017 a julho de 2018, apresentam uma grande diferença de acordo com as categorias de produtos. Para o total das exportações, utilizando-se os índices de preços ao consumidor, a desvalorização foi de 18,2%, quase a mesma observada para os manufaturados. No entanto, no caso dos básicos, a desvalorização foi de apenas 7,7%, e de 9,4% no caso dos semimanufaturados. No mesmo período, taxas ponderadas pelas importações com base no Índice de Preços por Atacado (IPA) sofreram desvalorização de 10%, ao passo que se usando como deflator o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), essa desvalorização é de 17,5%.

O saldo da balança comercial atingiu US$ 37,8 bilhões no acumulado do ano em agosto, abaixo dos US$ 48,1 bilhões alcançados no mesmo período de 2017. O superavit comercial, medido pelas médias diárias dessazonalizadas, vem caindo sistematicamente desde maio deste ano, na medida em que as importações crescem mais do que as exportações. Boa parte dessa queda (US$ 7,3 bilhões), no entanto, deve-se à nova forma de contabilização de plataformas de petróleo, iniciada neste ano em função de mudanças na legislação tributária.

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