Até junho de 2026, o resultado primário do governo central foi inferior ao registrado no mesmo período de 2025. No acumulado de janeiro a junho, o déficit de R$ 9,8 bilhões do ano anterior ampliou-se para déficit de R$ 92,3 bilhões, a preços constantes de junho de 2026. Em doze meses, o resultado também se deteriorou, passando de superávit de R$ 16,2 bilhões para déficit de R$ 145,2 bilhões. Essa reversão, na comparação interanual, refletiu o crescimento real da despesa primária, de 12,2%, bem acima do avanço da receita líquida, de 5,5%, em um contexto de expansão das despesas discricionárias e de antecipação do pagamento de precatórios, concentrados em março de 2026.
Pelo lado das receitas, o crescimento concentrou-se nas administradas pela Receita Federal do Brasil (RFB) e na arrecadação líquida do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), com alta real de 6,8% e 5,9%, respectivamente, até junho. Entre as receitas administradas, destacaram-se os aumentos de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), outras receitas administradas, Imposto de Importação, Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto de Renda, enquanto o PIS/Pasep registrou retração. As receitas não administradas caíram 5,5%.
Em perspectiva mais ampla, a trajetória das contas públicas desde 2008 revela recuperação importante da receita no pós-pandemia, especialmente das receitas administradas pela RFB, que atingiram cerca de 14,9% do PIB em junho de 2026, além de crescimento gradual da arrecadação líquida do RGPS, para aproximadamente 5,6% do PIB. Ao mesmo tempo, as transferências por repartição de receitas voltaram a subir e passaram a operar em nível elevado, enquanto a despesa primária acumulada em doze meses chegou a cerca de 19,6% do PIB, pressionada pela expansão das transferências sociais, pelo aumento recente dos gastos com precatórios e sentenças judiciais e pela volatilidade dos componentes discricionários e extraordinários. Nesse contexto, as despesas discricionárias continuam a desempenhar papel central como variável de ajuste fiscal.
No que se refere ao endividamento, a dívida pública federal alcançou cerca de R$ 9,0 trilhões em maio de 2026, em ambiente de custo ainda elevado e maior participação de títulos pós-fixados e indexados à inflação. No mesmo período, a dívida bruta do governo geral e a dívida líquida do setor público atingiram 81,07% e 67,91% do PIB, respectivamente, enquanto as taxas implícitas de juros seguiram em patamares elevados, reforçando a pressão do serviço da dívida sobre a dinâmica fiscal.
No Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias (RARDP) do segundo bimestre de 2026, a projeção do resultado primário do governo central permaneceu dentro do intervalo de tolerância da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) 2026, afastando a necessidade de limitação de empenho por meta fiscal. Ainda assim, a projeção das despesas sujeitas ao limite da Lei Complementar no 200/2023 apontou excesso de R$ 23,7 bilhões em relação ao teto do exercício, exigindo bloqueio adicional. Já o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) 2027 projeta superávit primário de R$ 8,0 bilhões em 2027, com possibilidade de compensação de até R$ 65,66 bilhões em despesas excepcionalizadas para o cumprimento da meta.
A comparação entre os PLDOs de 2026 e 2027 para o exercício de 2027 aponta ampliação do espaço para despesas discricionárias. Esse resultado reflete o aumento da receita líquida projetada, a redução das transferências por repartição de receitas, a queda das despesas obrigatórias e uma meta de resultado primário menos restritiva, em razão dos abatimentos admitidos em seu cálculo. O PLDO 2027 projeta trajetória ascendente da dívida bruta do governo geral até 2029, quando alcançaria 87,8% do produto interno bruto (PIB), com recuo gradual nos anos seguintes.
No que se refere às expectativas de mercado, as projeções mais recentes apontam relativa estabilidade do resultado primário em 2026 relativamente a 2025. A partir de 2027, espera-se gradual melhora desse resultado, mas este se manteria deficitário até 2029. Para a relação dívida/PIB, projetam-se aumentos mais significativos do que aqueles projetados nos relatórios oficiais, com essa razão atingindo entre 89% e 90% em 2028. No caso do boletim Focus, a dívida bruta do governo geral (DBGG) continuaria a crescer em proporção do PIB pelo menos até 2030, quando atingiria 94,1% do produto.
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