ENTREVISTA com Fernando Rezende, presidente do IPEAO Brasil na virada do milênio
Trajetória do crescimento e desafios do desenvolvimento
Visor IPEA Por que o documento traça uma trajetória e não projeções e cenários?
Fernando Rezende Não faz sentido projetar tendências baseadas em comportamentos do
passado se o Brasil está vivendo um processo de ruptura com esse passado. Quanto aos cenários,
procuramos fugir do convencional: apresentar hipóteses sem tomar posição. O que queremos é
definir um parâmetro, uma possibilidade que pressupõe ações e não uma meta. É importante
levar a discussão para este campo e reforçar a mobilização em torno das mudanças.
V Quer dizer que projeções e cenários estão saindo de moda?
FR Continua sendo um trabalho válido, mas não é o nosso objetivo.
V Qual é o objetivo específico?
FR Definir uma trajetória realista, cuja consolidação faz algumas exigências. O País precisa
continuar avançando nos ajustes estruturais para que a economia brasileira possa se adaptar a
nova realidade. Daí, a ênfase nas pré-condições, das quais se destaca a questão de ganhos mais
rápidos na competitividade, tendo em vista o reequilíbrio das contas externas ao longo desse
processo.
V Isto significa aumentar a taxa de investimento?
FR Certamente. Para modernizar a infra-estrutura, incorporar tecnologias, resolver problemas
que ainda estão sendo discutidos, do ponto de vista das reformas constitucionais, no campo das
relações de trabalho e da previdência social
Reduzir o custo Brasil, que, por sua vez, significa
mais crescimento das exportações e menos das importações
Tudo isso permite que se vá
consolidando uma situação na qual, daqui a uns três anos, o desequilíbrio das contas externas
possa estar equacionado.
V O custo Brasil remete à questão da competitividade agrícola e às perspectivas de setores
industriais.
FR As oportunidades do desenvolvimento do agribusiness, que já contribui hoje em dia com
cerca de 1/3 do PIB brasileiro, são extremamente importantes para a integração econômica
internacional. O documento levanta questões sobre alguns produtos selecionados que enfrentam
barreiras crescentes. No mundo inteiro, as tarifas alfandegárias estão sendo substituídas por outras
formas de proteção comercial, cada vez mais sofisticadas. Agora, passam por questões
fitossanitárias e ambientais, selo verde, dumping social
Isto afeta, em particular, a exportação
de produtos da agropecuária, a agroindústria, o agribusiness. O documento aponta, também, a
necessidade de a indústria superar rapidamente a distância do padrão tecnológico, onde se
destacam bens de capital e de consumo durável, os setores mais vulneráveis aos impactos da
abertura.

V A segunda pré-condição seria o equilíbrio fiscal?
FR O equilíbrio fiscal depende de fatores também indispensáveis para a competitividade. Por
exemplo: depende da continuidade da trajetória descendente da taxa de juros da mesma forma,
importante para o aumento dos investimentos do setor produtivo e para a redução do custo da
dívida pública. Por outro lado, o ajuste fiscal requer o avanço das reformas constitucionais, da
administrativa em particular, e da previdência para abrir espaço e para recuperar os investimentos
do setor público, principalmente na área social, em educação e saúde, que são fundamentais para a
competitividade. Ou seja, no fundo, essas duas pré-condições se complementam e contribuem
para as mudanças estruturais e para gerar um ciclo virtuoso de expansão.
V Estas pré-condições acabam por desembocar na chamada agenda social.
FR À medida que se materializam, aumentam as chances de enfrentar com sucesso os desafios
do desenvolvimento social, que depende de uma rota de crescimento sustentado.
V Depende, também, do acompanhamento das mudanças no padrão demográfico?
FR Cada vez mais. As demandas sociais estão sofrendo um forte impacto da queda muito
rápida das taxas de fecundidade. O número médio de filhos das famílias brasileiras declinou de 6,1
nos anos 40 para 2,9 no final dos anos 80. As mudanças no ritmo de crescimento de cada grupo
etário estão alterando o perfil da população brasileira. Já não somos um país tão jovem assim.
Estamos envelhecendo. Isto aumenta e muito o desafio para a previdência, por exemplo.
Projeções apontam para cerca de 20 milhões de pessoas com mais de 65 anos, em 2020. Daqui a
pouco mais de 20 anos, o número de aposentados poderá corresponder à população de um país
como a Venezuela. Isto acontece ao mesmo tempo em que a população em idade escolar reduz a
pressão sobre o número de estabelecimentos de ensino e em que aumenta a necessidade de
investir em qualidade
Há ainda questões espaciais
Algumas mudanças demográficas afetam
de tal forma as demandas sociais que, para evitar novos desequilíbrios, o governo terá que fazer
ajustamentos profundos na ação social.
V O documento fala em programas sociais com ação sobre gerações futuras
FR Aí está implícita a questão da mobilidade social. O Estado precisa investir mais pesadamente
na igualdade de oportunidades, no que diz respeito à saúde inclusive saneamento , educação e
alimentação. Desde logo, está comprometida a mobilidade social das crianças que nascem e vivem
o seu primeiro ano em condicões precárias de habitação, de nutrição e de acesso a serviços de
saúde.
V Este não é um discurso antigo?
FR A diferença é que, agora, a prática tem a ver com o discurso. A qualidade dos recursos
humanos é, hoje, a base de sustentação do desenvolvimento. Antes, tinha mais a ver com o social
e não com o econômico. Apostar na qualidade dos recursos humanos para promover o
desenvolvimento é um enfoque distinto.
V Quais são as perspectivas do mercado de trabalho nesses próximos dez anos?
FR A trajetória traçada mostra um quadro bem favorável. Principalmente, se comparado com a
Europa, pois o mercado de trabalho brasileiro é mais flexível. É certo que, nos próximos dez anos,
questões demográficas ainda vão pressionar a demanda por trabalho. Apesar disso e do
aumento da produtividade provocar deslocamentos de um setor para o outro o crescimento
econômico que a trajetória contempla torna viável não só que o País cresça em torno de 6% ao
ano, mas que isto ocorra com redução do desemprego e aumento do salário médio real.
V O desemprego estrutural está aconte-cendo mesmo em países desenvolvidos.
FR Com a expansão do setor terciário, a natureza das relações de trabalho mudou e, em
conseqüência, também as regras que regulam o mercado. Hoje, o mercado informal já ocupa mais
do que o formal. No entanto, há muito pouco conhecimento sobre esta informalidade. Com
certeza, ela não é toda constituída de "rejeitados do mercado formal". Por isso mesmo, acabamos
de promover um workshop internacional sobre este tema, onde ficou evidente a heterogeneidade
de situações e a necessidade de repensarmos essa questão.
V Na situação macroeconômica, a ênfase fica com os financiamentos externos?
FR Para crescer mais, a taxa de investimento deve chegar a cerca de 25% do PIB, no final
desses 10 anos. O aumento da poupança interna não será suficiente e pressupõe a recuperação da
poupança do setor público, que praticamente desapareceu entre o final dos anos 80 e o início dos
anos 90. Eis porque será preciso atrair mais investimentos estrangeiros. Do ano passado para cá,
os investimentos diretos já aumentaram bastante, o que foi um grande avanço. E a expectativa é de
que aumentem bem mais, mesmo porque agora começam as privatizações que mais atraem a dos
setores elétrico e de telecomunicações.

V Para tanto, a estabilidade das normas tem que ser mantida.
FR Claro. A estabilidade, o avanço das reformas ... O Brasil tem uma grande vantagem,
inclusive em relação a outros países latino-americanos que avançaram na consolidação econômica:
a nossa estabilidade política já tem reconhecimento internacional.
V A carga tributária diminui com as privatizações?
FR Os países da OECD não baixaram a carga tributária depois das privatizações, nos anos 80.
No caso brasileiro, também não é recomendável a redução dos índices atuais em torno dos
30%.
V Qual o papel do sistema financeiro nessa trajetória?
FR Vai ter que readquirir sua capacidade de atuar como intermediário dessa poupança para
investimento de longo prazo e não apenas para aplicações de curto prazo. O seu papel é muito
importante.
V E os fundos de pensão? Ganharam um destaque antes impensado.
FR Há uma grande expectativa em torno dos fundos de pensão. Tudo depende da reforma da
previdência. De qualquer forma, o potencial é grande. O patrimônio, da ordem de US$ 67 bilhões,
em agosto do ano passado, segundo cálculos atuariais, poderá ser elevado para mais de US$ 200
bilhões no primeiro qüinqüênio do próximo século.
V Em resumo, quais são as estratégias para consolidar a trajetória de longo prazo?
FR Brasil na virada do milênio considera indispensável, por exemplo, reduzir o custo Brasil e
promover o crescimento com estabilidade de preços, acompanhando o quadro macroeconômico
global. O desafio para um país como o Brasil é como se beneficiar dessa nova onda de
prosperidade e estabilidade internacional. A trajetória está traçada.
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