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Visor IPEA - ano I, nº 5 - outubro 1996

CONJUNTURA

Cresce o contingente de trabalhadores desempregados há mais de seis meses

ESTRATÉGIAS REGIONAIS

Especialistas internacionais repensam a questão regional

POPULAÇÃO

Violência aumenta diferença da esperança de vida ao nascer para homens e mulheres

TEXTOS PARA DISCUSSÃO

  • A Política de Importação no Plano Real e a Estrutura de Proteção Efetiva

  • Indicadores Ambientais no Brasil: Aspectos Ecológicos, de Eficiência e Distributivos

  • Privatização e Qualidade dos Serviços Públicos de Infra-Estrutura: Controle Social e Participação do Consumidor

OPINIÃO

Uma política regional para o Brasil

ENTREVISTA COM LUÍS FERNANDO TIRONI

"Há que compreender o desafio de competir no mercado globalizado"

CONJUNTURA

Cresce o contingente de trabalhadores desempregados há mais de seis meses

O desempenho do mercado de trabalho tem melhorado nos últimos meses. Prova disso é que o nível de emprego formal e a média da renda real voltaram a subir, a expansão da produtividade retomou o ritmo acelerado e as taxas de desemprego diminuíram na maioria das regiões metropolitanas, notadamente em São Paulo.

Mas o emprego com carteira assinada só tem aumentado fora das áreas metropolitanas especialmente na agropecuária, e as taxas de desemprego só estão em queda graças à capacidade do setor informal de absorver parcelas crescentes de contingentes de trabalhadores. Mais: tem crescido a participação dos que estão desempregados há mais de seis meses.

Mercado de Trabalho Conjuntura e Análise dá esse panorama geral na edição deste mês, com a opinião de representantes do Governo, dos empresários e dos trabalhadores.

Governo

"Num mundo em transformação, o Brasil tem hoje uma rara oportunidade histórica de implementar definitivamente seu sistema público de emprego", diz José Paulo Zeetano Chahad, do Ministério do Trabalho:

- Estrategicamente, sob a ótica econômica e social, ele virá num momento em que se acentua a questão do desemprego estrutural, onde ocorre uma elevação da informalidade, e existe a necessidade de geração de mais e melhores empregos, requerendo mecanismos mais eficientes de funcionamento.

Visor 5 - Gráfico 2

Empresários

Antonio Carlos Mendes Gomes, da Firjan e da Comissão Estadual de Emprego do Rio de Janeiro, enfatiza que o desemprego é um problema no mundo inteiro e que é possível e necessário transformar esse quadro num processo socialmente aceitável. Para tanto, sugere um "amplo consenso que coloque o trabalho como o valor e o vetor fundamental das estratégias de desenvolvimento, ao invés de considerá-lo como uma mera resultante do crescimento econômico e das exigências do mercado quanto à competitividade".

Trabalhadores

Para Carmem Lúcia Evangelho Lopes, da Força Sindical, trata-se de um aprendizado para todos: trabalhadores, empresários e governo.

"Certamente, a socialização desta discussão é o melhor caminho para que sejamos capazes de organizar o serviço público de emprego, como aquele que aprovamos ao ratificarmos a Convenção 88 da OIT no final dos anos 50", lembra, concluindo: "Há muito a construir!"

Reposicionamento do sistema público de emprego é urgente

As chances de um membro da População Economicamente Ativa obter um emprego formal se reduziram em quase dez pontos percentuais nas principais regiões metropolitanas. A contrapartida não foi uma explosão da taxa de desemprego (embora ela tenha subido), mas uma crescente precarização das relações de trabalho e, sobretudo, um aumento do trabalho por conta própria.

O perfil dos mais atingidos por este processo é traçado na edição de Mercado de Trabalho Conjuntura e Análise deste mês: homem, chefe de família, no mínimo 35 anos de idade, pouca instrução e muitos anos de experiência em um único setor. Com este perfil e desempregado, o trabalhador sabe serem raras as oportunidades de reemprego nas mesmas condições anteriores. Por isso, parte para o auto-emprego, que, na maioria das vezes, também não mantém a antiga situação.

Visor 5 - Gráfico 1

Ação articulada

O seguro-desemprego beneficiou cerca de 4,7 milhões de trabalhadores no ano passado. O sistema de formação profissional é competente para formar mão-de-obra que vai ingressar no mercado ou reciclar os que já estão empregados, mas tem pouca experiência com os que estão sendo "expulsos". Por isso mesmo, o sistema público de emprego terá necessariamente que articular as ações do seguro-desemprego, do retreinamento e da recolocação dos desempregados. Esta recolocação passa pela intermediação e pelo fornecimento de crédito e assistência técnica aos que têm que se tornar micro-empresários, por exemplo.

O futuro do mercado de trabalho no final destes anos 90 depende fundamentalmente desta integração. Há pressa.

ESTRATÉGIAS REGIONAIS

Especialistas internacionais repensam a questão regional

Diante da perspectiva de retomada de desenvolvimento, torna-se inadiável repensar a questão regional. É bom lembrar que a reviravolta no processo de descentralização começou na segunda metade dos anos 80 e estas duas questões - descentralização e regionalização tomaram novo fôlego, agora.

Por isso mesmo, tornou-se oportuna a realização, pela primeira vez no Brasil, do Labor tório Integrado de Desenho de Estratégia Regionais (Lider), programa do Instituto Latino-Americano e do Caribe de Planejamento Econômico e Social (Ilpes).

O IPEA em conjunto com o Ilpes, promove o Lider-Brasil 96 no seu Centro de Trein mento para o Desenvolvimento Econômico Social (Cendec). Do curso, participaram técnicos do MPO, IPEA, Sudam, Sudene Suframa, Banco do Brasil, Iplance e dos Governos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais Pernambuco, Pará e Distrito Federal.

O próximo Lider será realizado no Chile, no ano que vem.

POPULAÇÃO

Violência aumenta diferença da esperança de vida ao nascer para homens e mulheres

No Brasil, a esperança de vida ao nascer aumentou de 41 anos, em 1935, para 65 anos, em l991. A queda da mortalidade de crianças com menos de cinco anos pode explicar este ganho. Mas ele seria bem maior se não tivesse surgido, na última década, uma nova realidade estatística: o aumento da mortalidade de homens entre 15 e 29 anos de idade. Isto por conta de mortes violentas, principalmente homicídios, suicídios e acidentes de trânsito, cuja proporção se elevou em todos os grupos etários, notadamente na faixa que vai dos 15 aos 19 anos. O aumento da diferença da esperança de vida ao nascer para homens (61,1 anos) e mulheres (69,8 anos) é uma das conseqüências deste novo quadro, que se encontra em "Avaliação do padrão etário da mortalidade brasileira por sexo: 1979-1994", artigo assinado por Kaizô Beltrão, Marly dos Santos Pinto e Ana Amélia Camarano na nova edição de Como Vai? População Brasileira.

Visor 5 - Gráfico 3

TEXTOS PARA DISCUSSÃO

A Política de Importação no Plano Real e a Estrutura de Proteção Efetiva

No texto para discussão A Política de Importação no Plano Real e a Estrutura de Proteção Efetiva, Honório Kume destaca que a demanda por mais proteção não requer a existência de condições inadequadas ou injustas de competição. Lembra, ainda, que a indústria brasileira passou a ser exposta gradualmente à concorrência internacional a partir de 1988, mas só foi realmente afetada com a implementação do Plano Real, em março de 1994.

A liberalização das importações chegou ao ápice em setembro daquele ano, com forte contribuição da conjugação de três fatores: reduções tarifárias para aumentar a competição externa em diversos segmentos, desproteção cambial promovida pela valorização do real frente ao dólar e antecipação da tarifa externa comum do Mercosul.

As importações mensais se expandiram de US$ 2,6 bilhões para US$ 4,2 bilhões, entre junho e dezembro, provocando déficit na balança comercial de US$ 624 milhões neste último mês. A tarifa nominal média caiu de l3,2%, em julho de 1993, para 11,2%, em dezembro de 1994, enquanto a efetiva (l4,4%) diminuiu 4,5 pontos percentuais no mesmo período.

Visor 5 - Gráfico 4

Reflexo da crise mexicana

A crise mexicana, as perspectivas de elevados déficits e as pressões de setores afetados levaram o Governo, depois de sete anos, a novamente impor restrições às importações. Algumas das atividades que mais sofreram impacto negativo com a política de 1994 recobraram seus níveis de proteção nominal. É o caso de automóveis, caminhões e ônibus, açúcar e produtos químicos. Outros aumentaram este nível, no ano passado, sem que estivessem entre os mais atingidos anteriormente: calçados, artigos plásticos e equipamentos eletrônicos, por exemplo.

Indicadores Ambientais no Brasil: Aspectos Ecológicos, de Eficiência e Distributivos

Estas duas questões vinham sendo tratadas como antagônicas. Prova disso são as perdas ambientais causadas pelo crescimento das nações mais ricas. Mas, agora, o enfoque se volta para uma alternativa viável: o desenvolvimento sustentável. É a partir deste enfoque que Ronaldo Seroa da Motta apresenta Indicadores Ambientais no Brasil: Aspectos Ecológicos, de Eficiência e Distributivos.

O texto para discussão está dividido em cinco seções: aspectos econômicos e distributivos da poluição (água e atmosfera), padrão de uso dos recursos florestais, resíduos sólidos e reciclagem, degradação do solo e gestão ambiental.

Os indicadores retratam aspectos ambientais, econômicos e de distribuição dos custos e benefícios do uso dos recursos. O objetivo maior não é apontar limites do crescimento, mas contribuir para uma reflexão sobre os limites da sustentabilidade.

Duas correntes

A corrente da "fraca sustentabilidade" defende a possibilidade tecnológica de crescimento contínuo desde que parte da renda econômica seja reinvestida para manter o nível total de capital - natural e material - de uma economia. Garantiria-se, assim, à gerações futuras o equivalente ao que hoje temos disponível.

A isto se contrapõe o padrão de "forte sustentabilidade", argumentando que o bem estar de gerações futuras só estaria garantido se o estoque de capital natural fosse mantido intacto. De qualquer forma, o nível de consumo de capital natural se constitui importante índice de sustentabilidade.

Os mais pobres

Quase 60% do consumo de água no país são destinados à irrigação, sendo que este percentual chega a 80,9% no Sul e a 69,9% no Nordeste. Por falta de saneamento,os mais pobres são os que mais contribuem para a poluição hídrica urbana e, também, os que mais sofrem com ela. O autor ressalta que apenas 1% a mais de acesso da população pobre (renda familiar até cinco salários mínimos) aos serviços de saneamento significaria queda de 6,1% da mortalidade infantil.

Privatização e Qualidade dos Serviços Públicos de Infra-Estrutura: Controle Social e Participação do Consumidor

A primeira coisa que o bom senso manda que se cobre de toda e qualquer política pública é, que ela faça sentido. Para isso, é indispensável que haja bastante clareza nos sinais emitidos pelo governo. Está em Privatização e Qualidade dos Serviços Públicos de Infra-Estrutura: Controle Social e Participação do Consumidor, texto para discussão que leva a assinatura de Hamilton Nonato Marques.

Poder ao consumidor

O controle da qualidade dos serviços tem que privilegiar a opinião dos usuários. Mas a questão não pode se reduzir ao simples conhecimento de sua satisfação ou decepção. Suas avaliações, que, logicamente, têm que ser somadas a outras, devem gerar conseqüências práticas.

A avaliação sempre foi um desafio para o governo. Principalmente agora com a desestatização de serviços públicos e de generalização dos contratos de gestão na administração indireta.

Integração de pesquisas

O autor recomenda a integração de pesquisas sociais realizadas pelos órgãos oficiais com as pesquisas de mercado dos institutos privados, tendo o consumidor como elo de ligação: "Não há lugar para o monopólio do conhecimento e da informação em assuntos de interesse público ... o que se preconiza é a complementaridade ... os institutos de pesquisas de opinião dariam ao governo a perspectiva de mercado ... os institutos oficiais dariam ao setor privado a dimensão social ..."

Tempos de transição

O texto faz um resumo da história da intervenção estatal no Brasil; acompanha a transição do regime autoritário - no qual o Estado era o protagonista - para a democracia, que coloca o foco no indivíduo, no cidadão; reflete sobre as conseqüências da mudança das empresas estatais para empresas privadas, e, ainda, sobre a passagem do controle governamental, de rígido para flexível. Em resumo, destaca a necessidade da pesquisa, também em tempos de transição, pois sempre importa saber de onde viemos e para onde estamos indo.


As publicações do IPEA podem ser obtidas no:

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Livrarias do IBGE em todo o país.

OPINIÃO

Uma política regional para o Brasil

Sérgio Boisier (Diretor de Políticas e Planejamento Regional do Ilpes e diretor do Líder.)

Uma política regional tem que contribuir para que cada território ou região se posicione da melhor forma possível nos cenários da globalização, ainda que isto não garanta um posição de destaque.

A questão é que, no contexto atual, toda política pública requer não apenas uma vontade política. Requer, também, mais e mais conhecimento científico sobre o problema no qual se quer intervir.

Então, uma dificuldade adicional reside no fato de ser esse um conhecimento novo, a ser criado. Isto porque o que existe,deixou de ter utilidade, à medida que se trocaram as bases do paradigma regional, como resultado da revolução científica e tecnológica, isto é, territorialidade, a especialidade e a distância. O desafio para o Brasil neste campo é, por tanto, dobrado: voltar a motivar no Estado vontade do desenvolvimento regional e cria um novo conjunto de conhecimentos científicos, tarefa esta que, naturalmente, excede as fronteiras nacionais.

ENTREVISTA COM LUÍS FERNANDO TIRONI

Estudos indicam caminhos para economia na era da globalização

O desempenho competitivo de um setor da economia envolve qualidade de produto, de processos e métodos, produtividade e custos, tecnologia, qualificação da mão-de-obra, investimentos ... É também importantíssimo o ambiente institucional, no qual assumem papel relevante as regras de práticas saudáveis de mercado, como as que se referem aos direitos dos consumidores e de defesa da concorrência.

É justamente sob a ótica da competitividade em um mercado aberto que o IPEA acompanha, analisa e avalia o impacto das políticas governamentais nos setores agrícola, industrial e de infra-estrutura. A partir daí, faz sugestões e, se for o caso, propõe alternativas para a ação do Estado. Sua diretoria de planejamento e políticas públicas tem essa incumbência e é com o seu titular, Luís Fernando Tironi, a entrevista desta edição.

Política de Defesa Econômica

Ao longo deste ano, o IPEA realizou painéis sobre alguns dos segmentos da economia mais sensíveis à questão da defesa da concorrência. O objetivo: dar um quadro de referências setoriais para o julgamento dos processos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE.

Esta promoção IPEA/CADE incluiu as indústrias siderúrgica, de autopeças e química, bem como o segmento das seguradoras e planos de saúde. Destes painéis participaram técnicos dos dois órgãos e representantes de entidades de defesa do consumidor, dos empresários e especialistas nos diversos temas.

Tironi destaca transformações profundas no setor de autopeças, por exemplo, em conseqüência da globalização e de novos conceitos de produção e de estruturação dos mercados: "O número de fornecedores locais deve diminuir. Permanecerão os que se especializarem. É uma forma de enfrentar a tendência das empresas montadoras recorrerem aos seus fornecedores no exterior".

Política comercial

Dos técnicos que entraram para o IPEA no primeiro concurso público deste ano, um grupo está sendo preparado para trabalhar em política comercial - uma das áreas que mais importância adquiriu com a abertura. O IPEA tem sido requisitado para apoiar os ministérios em análises de danos à economia causados por práticas desleais de comércio, bem como avaliação econômica das medidas de defesa comercial e a viabilidade de novos acordos de livre comércio. "O IPEA faz a análise técnica em apoio a tomadas de decisão e, ao mesmo tempo, se capacita tecnicamente", diz Tironi, concluindo: "Há também o trabalho de análise de perspectivas da economia para o médio e longo prazo. É preciso conhecer como as empresas e os setores evoluem diante da globalização e como este novo contexto interfere na sua postura."

"Há que compreender o desafio de competir no mercado globalizado"

Visor IPEA -Aspectos da competitividade da economia brasileira têm sido enfatizados em diagnósticos do IPEA. E a indústria, por exemplo, diante desse desafio?

Tironi - A reestruturação que está acontecendo dentro das empresas e no relacionamento de umas com as outras é mais nítida justamente na área industrial.

V - Mudança de dono ...

T - Há um movimento de transferência de propriedade entre empresas nacionais e, também, envolvendo empresas estrangeiras.

V - O movimento maior é o de compradores estrangeiros?

T - Os dados não são suficientes para sustentar esta afirmação. Eu diria que as duas modalidades têm sido expressivas.

V - Quais as principais mudanças na forma de uma empresa relacionar-se com outras?

T - Posso citar a tendência de "terceirização". O relacionamento entre fornecedores e empresas torna-se muito mais articulado. No novo contexto, há um compromisso de parte a parte, do produtor final e da empresa supridora, no âmbito da cadeia produtiva. Isto tem gerado parcerias que abrem o acesso à tecnologia para uns e fecham para outros. Esta terceirização acontece em um segmento da produção: partes e componentes do processo industrial. É aí que, com este procedimento, as empresas adquirem competitividade. E também nos serviços de apoio, como os administrativos.

V - O senhor está incluindo neste caso a indústria automobilística?

T - Sim. A indústria automobilística chegou num ponto tão adiantado na fase de parcerias que alguns fornecedores já estão trabalhando dentro das instalações da montadora, ao lado da linha de montagem.

V - Do ponto de vista das políticas públicas, quais as linhas de atuação consideradas necessárias à competítividade?

T - Em primeiro lugar, formação de recursos humanos e suporte em termos de desenvolvimento tecnológico. O Governo deve estimular as empresas a investirem mais, e oferecer algumas modalidades de financiamento para acelerar a reestruturação. Deve, igualmente; identificar áreas onde o apoio surta efeitos de competitividade no curto prazo.

V - E esta é uma missão do IPEA, até mesmo em apoio ao trabalho do BNDES?

T - Sim. Além disso, é missão nossa apoiar a consolidação de uma política de concorrência que seja coerente com a globalização. Isto porque há uma forte preocupação do Governo com o fato de que, por falta de concorrência, as empresas acabem perdendo competitividade.

V - Um trabalho diretamente relacionado com o CADE e a Secretaria de Defesa Econômica do Ministério da Justiça.

T - Neste caso, trabalhamos em parceria.

V - E a defesa comercial?

T - Trata-se de outro ponto importante. Os órgãos têm que ser fortalecidos para aplicarem instrumentos legais, como as medidas antidumping. Tudo em consonância com a Organização Mundial do Comércio. O Poder Público tem que estar preparado para tratar dessas questões. A abertura implica o uso criterioso desses instrumentos.

V - Quanto às providências de redução do custo-Brasil ...

T - Envolve vários aspectos. Por exemplo, é esperado impacto positivo da privatização da infra-estrutura no sentido de desonerar o Estado e liberar recursos para áreas prioritárias. Assim, através da educação e capacitação da mão-de-obra haverá melhores condições para a competitividade.

V - O senhor está falando em melhorar portos e estudar alternativas ferroviárias, rodoviárias ...

T - Tudo que tem impacto imediato sobre os preços dos produtos agrícolas, se quisermos citar apenas um dos inúmeros benefícios.

V - E a regulamentação da atividade econômica?

T - De tão excessiva acaba gerando custos desnecessários. Vai ter que ser revisada.

V - Tem ainda a reforma tributária.

T - Vai redefinir a carga tributária de maneira tal que os setores produtivos ganhem competitividade sem que o Estado perca receita fiscal.

V - O que pode ser feito para obter produtividade média mais elevada e produto melhor, no curto prazo?

T - Iniciando por um diagnóstico de como estão sendo usados os recursos produtivos, melhorando este uso e utilizando melhor tecnologia. É importante estimular a disseminação e o acesso a essas tecnologias, bem como promover o outro elemento básico: a educação e capacitação da mão-de-obra. A força de trabalho deve estar mais preparada, o que inclui especialização em alguns casos, mas significa, principalmente, elevar conhecimentos em termos de educação básica mesmo.

V - Especificamente quanto à produção regionalizada ...

T - É correto respeitar e potencializar vocações regionais. No quadro atual têm sido observadas ocorrências de industrializações localizadas. Pesquisas começam a se voltar para estudos sobre como surgem e se consolidam, ou desaparecem, distritos, condomínios industriais ...

V -Eles são geralmente pequenos, não é?

T - A maioria sim. Normalmente se unem para obter vantagens econômicas na aquisição de matérias-primas, campanhas de marketing... Podem beneficiar-se, também, com a mão-deobra, que acaba desenvolvendo especializações que dão vantagens competitivas.

V - O senhor está se referindo a novas estruturas industriais, as que envolvem novos relacionamentos, parcerias?

T - Isto está relacionado ao fato de se poder fazer políticas industriais descentralizadas. Cada estado, município, às vezes agrupamento de municípios, tem seus incentivos. Quanto mais local o incentivo, melhor a chance de ser adequadamente definido e administrado.

V - Quais seriam as melhores condições para o aproveitamento dessas vocações

T - Esta é uma discussão até internacional. Temos que estudar, pesquisar, descobrir essas vocações e potencializá-las. Conseguir compreender esse processo. Atuando no nível nacional é mais difícil a detecção destes fatores de ordem local, que se justificam em determinada localidade, mas não em outra. Sobre esta temática o IPEA realizará um seminário internacional nos próximos dias 11 e 12 de novembro.

Luís Fernando Tironi é diplomado em engenharia pela Universidade de São Paulo e mestre em Economia pela Unicamp. Ingressou no IPEA há 22 anos e, neste período, passou cinco no Ministério da Ciência e Tecnologia. Há dois anos é diretor de Planejamento e Políticas Públicas do IPEA: "Nos dias de hoje, o planejamento adquire, crescentemente, o sentido de políticas públicas que, por sua vez, são cada vez mais imprescindíveis no ambiente de transformaçãono qual estamos vivendo"

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Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

© 1996, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

E-mail para contato, sugestões ou comentários: visor@ipea.gov.br

Editado em: 21 outubro 1996

URL: http://www.ipea.gov.br/pub/visor/v005.html 

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