ENTEVISTA
Encontro com editores de economia expõe novos cenários
VISOR IPEA apresenta A Economia Brasileira em Perspectiva 1996. O lançamento - junto
com esta edição motivou a promoção de um encontro do presidente Fernando Rezende, do
diretor de pesquisa, Claudio Considera, e de autores de artigos da publicação com editores de
economia, no Rio de Janeiro.
A Economia Brasileira em Perspectiva 1996 traz 33 artigos, com a assinatura de 42
especialistas nos diversos assuntos tratados. A publicação, que sai de dois em dois anos, desta vez
é apresentada em dois volumes e está dividida em cinco partes.
MACROECONOMIA
A primeira parte trata de estudos macroeconômicos e de comércio exterior, em dez capítulos:
desde o impacto da estabilização, demanda por moeda, PIB, inflação, desigualdades e meios de
pagamento até a globalização, o Mercosul, o Nafta, a concorrência e as perspectivas.
SETOR PÚBLlCO
Na seção sobre economia do setor público são sete capítulos. Fala-se da transformação do setor
público a ser promovida pelas reformas, dos limites impostos à descentralização pelas
desigualdades regionais, do papel do consumidor diante das privatizações, de tributos e de uma
nova proposta de organização do sistema de saúde.
DISTRIBUIÇÃO DE RENDA
Seis artigos compõem a parte dedicada a políticas sociais, distribuição de renda e pobreza. Aí são
abordados o impacto da inflação, os determinantes das desigualdades, a qualidade do ensino, a
relação entre educação e salários, a política salarial, o trabalho infantil e a pobreza.
ANÁLISES SETORIAIS
As análises de política econômica constituem o tema de nove estudos: desde tendências na
estrutura industrial e no lucro das firmas, reestruturação produtiva, produtividade industrial, prática
antitruste e política tarifária para os serviços públicos até aspectos da gestão ambiental, impactos
do Pólo Siderúrgico de Carajás sobre o desflorestamento da Amazônia e a proposta de um
imposto ambiental sobre combustível, passando pela integração viária do Mercosul.
INDICADORES ECONÔMICOS
Na quinta e última seção, estão publicadas séries trimestrais e anuais das principais estatísticas e
indicadores econômicos do País. Entre eles, as contas nacionais, a produção industrial, salários e
variáveis monetárias e financeiras, nacionais e internacionais.
Mudam Perspectivas da Economia Brasileira
Aloisio Barboza de Araujo, Claudio Considera, Paulo Mansur Levy, Regis Boneili e Ricardo
Varsano, da Diretoria de Pesquisa do IPEA, falam sobre Economia Brasileira em Perspectiva
1996
Regis Bonelli Sem inflação há mais espaço para pensar e agir em direção ao crescimento,
melhor utilização dos recursos na economia, privatização, distribuição de renda, melhoria na
eficiência do sistema econômico como um todo e nas reformas econômicas necessárias para isso.
Antes, de certa forma, tudo isso estava sob a máscara da inflação. Esta é a tônica da maioria dos
artigos em todas as seções de A Economia Brasileira em Perspectiva 1996: está havendo um
ganho de eficiência enorme na economia por conta do fim da inflação.
Ricardo Varsano Não é por acaso que a expressão "custo Brasil" se tornou tão popular.
Tantas distorções se escondiam sob a máscara da inflação que é difícil entender como o
desempenho da economia não foi ainda pior nos últimos quinze anos.
Paulo Mansur Levy Pelo menos um dos textos apresenta evidência contundente, em linha com
trabalhos feitos no Exterior, de que a inflação tem efeitos negativos sobre o crescimento no longo
prazo.
Claudio Considera A publicação coloca em pauta a questão do Estado na economia, a questão
social, as restrições ao crescimento e os dilemas da política macroeconômica. E mais: a
participação do País na economia mundial, a questão da produtividade e a do emprego.
Regis É também importante se ter análises bem fundamentadas como as decorrentes de
estudos desenvolvidos ao longo dos últimos dois anos sobre o fato de a inflação se constituir em
dispositivo de concentração de renda. E é justamente um estudo que faz parte desta coletânea que
está sendo lançada o primeiro a mostrar com clareza que, à medida que a inflação cai, ocorre uma
redistribuição de renda em favor dos mais pobres.
Varsano Outra questão que é objeto de vários artigos em A Economia Brasileira em
Perspectiva 1996 é a da reforma do Estado. Na seção sobre o setor público fica claro quantas
reformas necessárias são resumidas sob o título reforma do Estado. É importante e, ao mesmo
tempo, muito difícil promovê-las, pois qualquer mudança no status quo implica conflitos de
interesses. Sem elas, fica dificil resolver de vez o problema do déficit público.
Paulo O déficit público é o tema central da primeira seção da publicação. Houve avanços
importantes na questão da estabilização, mas ainda há problemas sérios para enfrentar nesta área
ligada ao déficit público. O enfoque que, de alguma forma, permeia a maioria dos artigos que está
na primeira parte deA Economía Brasileira em Perspectíva 1996 é exatamente a inflação
refletindo uma questão mais profunda: o esgotamento de um modelo de crescimento. A superação
da inflação a estabilização da economia só será realizada plenamente quando este modelo antigo
for efetivamente substituído por um novo modelo de crescimento: uma economia mais aberta e
com menos intervenção direta do Estado, com menos déficit público. Basicamente, este é o
enfoque. Mesmo os artigos que tratam da questão de comércio e de integração, por exemplo, de
alguma forma contrastam a situação de hoje com a do passado: uma economia extremamente
fechada, que persistiu até o início dos anos 80, quando entrou em crise. Tentativas de substituir o
modelo de crescimento podem ser obervadas ao longo dos últimos doze anos.
Claudio O modelo anterior se tomou ainda mais anacrônico, com a globalização da economia.
Isto, embora o seu esgotamento preceda todo esse movimento.
Paulo Este desgaste precede, pelo menos, a fase mais intensa do processo de globalização. A
inflação é um expressão dele. Ela aparece exatamente no momento em que se insiste em sustentar
um modelo que já não produz mais crescimento.
Claudio A tentativa de sustentar o mesmo modelo, ao longo dos anos 80, com o Estado
intervindo maciçamente, o País sem recursos do setor externo, como antigamente ... acarretou
déficit, inflação. A manutenção de uma economia fechada não estimula o aumento da
produtividade e gera inflação; não aumentando a produtividade, o câmbio é desvalorizado e
provoca-se mais inflação.
Paulo O comércio passa a ser fundamental no momento em que a abertura comercial passa a
ser utilizada como instrumento bastante importante da estabilização e, também, como alavanca de
crescimento.
Regis Isto coloca o problema de como melhorar a internacional da industrial e agrícola
brasileira. Para se importar e incorporar tecnologia é preciso exportar mais, aumentar a inserção
internacional. E se torna necessário melhorar a competitividade para importar produtos que tenham
conteúdo tecnológico mais alto, que contribuam para melhorar a eficiência da produção e para o
avanço tecnológico do parque industrial e da agricultura.
Paulo Estamos vivendo a transição para um novo modelo de crescimento: a economia mais
exposta à concorrência externa e com menos interferência do Estado, que, por sua vez, força os
agentes econômicos a buscarem maior produtividade, a serem mais racionais em suas decisões.
Em vez de ir buscar renda no Estado por meio de subsídios, transferências etc., tem que buscar
renda em maior eficiência, seja como trabalhador, buscando mais educação etc., seja como
empresário. Este novo modelo é menos dependente da atuação direta do Estado ou mesmo
dirigindo os investimentos e tem mais exposição ao comércio internacional. Quer dizer, o modelo
antigo teve a sua razão de ser em determinado momento, quando a base industrial estava sendo
construída. Isto se justifica em períodos nos quais é preciso ganhar escala para poder competir. A
tentativa de sustentar, por um tempo maior, um modelo que já se esgotou exige intervenção
constante do Estado para suprir a economia daquilo que ela não consegue produzir por meio dos
seus próprios incentivos.
Claudio Houve um momento na década de 70 em que o investimento do Estado, contando as
companhias estatais mais a própria administração pública, chegou a representar 60% do total do
investimento do País. O desafio é ser capaz de atrair capital estrangeiro para explorar de forma
eficiente os recursos do País.
Regis Além disso, a criação de um ambiente de estabilidade atrai o investimento estrangeiro e
aumenta a poupança privada e o investimento privado nacional.
Claudio Os agentes econômicos deixariam de querer auferir ganhos no curto prazo, recebendo
juros da dívida pública, e passariam a pensar mais a longo prazo, possibilitando investimentos. Um
exemplo disso é a mudança de comportamento do investidor estrangeiro, que, no início do Plano
Real, trouxe principalmente capitais de curto prazo para o País. Este ano, o investimento direto
estrangeiro deve chegar a um montante recorde na história da economia brasileira.
Regis O investimento direto estrangeiro está dando um salto. Deve chegar este ano a
aproximadamente US$ 10 bilhões, contra US$ 3,5 bilhões no ano passado.
Claudio Isto mostra o que está acontecendo. Evidentemente, já foi registrado percentual mais
alto, em relação ao tamanho do PIB. Mas se ficarmos apenas com esta dimensão de percentagem
do PIB, vamos esquecer que nunca haviam sido injetados na economia US$ 10 bilhões em um
ano.
Paulo Muitos outros temas são contemplados em artigos publicados no livro: a indústria neste
novo cenário, o emprego ...
Regis O desempenho da indústria tem duas fases mais ou menos distintas. A primeira coincide
com a recessão Collor 90/92, quando se desempregou mão-de-obra maciçamente. Depois vem a
fase 93/95, de crescimento relativamente rápido, na qual se continua eliminando alguns postos de
trabalho, mas a uma taxa muito menor, na comparação com o triênio anterior. Isto por conta de
vários fatores, como a competição dos importados, dada pela abertura comercial, a terceirização
de atividades, maiores compras de matériasprimas importadas e os resultados do downsizing das
empresas.
Paulo Tudo isso tem feito com que a indústria se ajuste.
Regis Pode-se supor que a indústria nunca mais será a grande geradora de novos postos de
trabalho, como ocorreu nas décadas de 60 e 70. Dada a matriz tecnológica, é difícil imaginar a
indústria como grande empregadora de mão-de-obra direta. No entanto, todas as atividades
periféricas à indústria são grandes empregadoras de mão-de-obra. É aí que estão as novas
oportunidades de emprego.
Claudio Os acréscimos de emprego têm ocorrido justamente fora da indústria de transformação
e predominantemente em serviços. Novos postos devem sur gir, também, em segmentos com
empresas privatizadas, em vias de privatização ou que passaram a ser exploradas pelo setor
privado por meio de concessão.
Regis Tudo está estreitamente relacionado a esse movimento de reestruturação industrial. O
problema é que estes empregos que estão sendo criados recentemente são, na média, de
qualidade inferior ao emprego industrial. Entendendo-se por qualidade de emprego o valor
adicionado, por exemplo.
Claudio Existe uma idéia disseminada de que a qualidade do posto de trabalho está associada à
existência de benefícios sociais.
Paulo A qualidade pode ser medida também pela perspectiva de receber treinamento no
trabalho, ter uma escala de ascensão e segurança.
Aloisio Barboza Araujo É bom lembrar que todo este cenário dá mais visibilidade para as
questões sociais. A parte da publicação que trata destas questões difere das demais no que diz
respeito a conclusões sobre a intervenção do Estado, por exemplo. Neste caso, não dá para dizer
que o Estado tem que se afastar. Ao contrário, há necessidade da sua presença, no mínimo para
gerar condições de reverter as desigualdades. Pode ser que o principal seja realmente tentar
universalizar as condições de acesso à educação, à saúde ... Vários tratam disso. De certa
maneira, é uma intervenção mais importante do Estado para diminuir as desigualdades a longo
prazo.
Varsano Em um país onde o acesso à informação e à comunicação é ainda restrito às classes
mais favorecidas, se não houver intervenção forte do Estado na questão distributiva, a
desigualdade vai se aprofundar.
Aloisio Há necessidade de criar condições que possibilitem oferecer educação e saúde para
todos, sobretudo educação, para que o ingresso no sistema possa ter base no mérito. De tal forma
que estas desigualdades diminuam, ainda que a longo prazo.
Regis Além do acesso, a qualidade da educação, especialmente a básica, é fundatnental. Mas
deve-se pensar, também, em ações emergenciais, desde a distribuição de leite até o programa de
renda mínima, por exemplo.
Aloisio No Brasil, a proporção de 10 a 14 anos de idade na força de chega quase a 20%. É
muita alta.
Claudio É uma das maiores da América Latina.
Aloisio Até aqui, só tínhamos literatura e extensa relacionando o trabalho da criança no
Brasil à pobreza. Agora, o quadro muda. Um novo estudo, que está em Economia Brasüeira em
Perspectiva 1996, mostra que as disparidades regionais e as variações temporais não oferecem
evidência de que o trabalho infantil seja causado pela pobreza. Analisando as diferenças do
trabalho infantil entre famílias pobres e ricas da mesma região metropolitana, encontra-se
justamente uma relação negativa entre o trabalho da criança e o nível de renda per capita familiar.
Paulo A causa tem que ser buscada em outras dimensões.
Aloisio A pobreza não e a causa predominante dos altos índices de participação de crianças no
mercado de trabalho. Esta causa está fortemente associada à atração exercida pelo mercado de
trabalho e à falta de atratividade da escola.
Regis Para atacar as conseqüências, a direção correta é melhorar as condições de acesso,
como o Aloísio falou. O Estado, em seus diversos níveis, tem que ampliar substancialmente seus
gastos com saúde e educação. Educação, saúde e regulação das concessões de serviços públicos
devem ser as principais atribuições do Governo na nova fase de crescimento da economia
brasileira.
Claudio Esta pPosição está bem clara nos artigos de Economia Brasileira em Perspectiva
1996. Em termos de regulação, por exemplo: serviços de infraestrutura que o Governo pode
conceder têm que ser regulados. Pode cobrar qualquer preço? Se não pode, qual o nível de
intervenção do Estado na regulação do serviço?
Aloisio Isto envolve, pelo menos, duas variáveis: o preço do serviço e o montante de
investimento desejado. Variáveis que, na verdade, se contrapõem.
Claudio A Inglaterra, por exemplo, está discutindo há muitos anos a tarifação de água, energia,
e ainda não chegou a uma solução definitiva.
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