Panorama da Economia Mundial - nº 24, janeiro 1997

Grupo dos 7

NÍVEL DE ATIVIDADE

As perspectivas em 1997 para os principais países industrializados são de um comportamento mais uniforme do nível de atividade, em praticamente todas as economias, ao contrário do ano passado, quando se verificou uma desaceleração em várias delas. Esse fato auspicioso para o corrente ano, e inédito desde 1985, está refletido nas projeções realizada pelo Fundo Monetário Internacional - World Economic Outlook de outubro último (ver QUADRO a seguir).

PEM 24 - Quadro B

Nos Estados Unidos, o PIB, sazonalmente ajustado e medido pela taxa anualizada, cresceu 2,2% no terceiro trimestre de 1996, compatível com a estabilidade de preços. No período anterior, o ritmo de expansão, nitidamente não sustentável, foi de 4,8%. O consumo, com grande peso nesse comportamento, cresceu somente 0,4% entre julho e setembro (contra 3,4% nos três meses anteriores). Por outro lado, a produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, que se havia desacelerado de 4% em julho do ano passado para 3,4% em agosto, recuperou-se desde então e atingiu 4,4% em novembro. A taxa de desemprego, entretanto, elevou-se ligeiramente de 5,1% em agosto para 5,3% em dezembro (GRÁFICO 2).

A desaceleração verificada em 1995 foi necessária para diminuir o risco de superaquecimento, após a excelente performance de 1994, mas, em seguida, no primeiro semestre de 1996, em função de uma política monetária menos restritiva praticada desde meados de 1995, verificou-se uma aceleração do crescimento (GRÁFICO 1). As perspectivas para a economia norte-americana em 1997 são de manutenção de sua longa trajetória de crescimento sustentado, com expansão do PIB de 2,3%, igual ao ano passado, segundo projeção do Consensus Forecasts de dezembro.

PEM 24 - Gráfico 1

PEM 24 - Gráfico 2

A dívida pública líquida norte-americana está situada na casa dos 50% do PIB corrente, bem acima do índice mais baixo registrado no pós-guerra de 24%, mas inferior ao pico de 120% atingido em 1946. O déficit do último ano fiscal foi de US$ 107,3 bilhões ou de 1,4% do PIB e o crescimento da economia em 1996 foi de 2,3%, superior ao da dívida. A exigência de um orçamento cada vez mais próximo do equilíbrio ajuda bastante na manutenção da confiança dos mercados financeiros na capacidade do governo em administrar as taxas de inflação em patamares reduzidos. A necessidade de um maior índice de poupança nacional também seria um bom motivo para esse zelo fiscal. A grande crise do déficit público, típica dos anos 80 e início dos 90, ao que tudo indica, chegou a um bom termo com o Congresso e o Executivo tentando equilibrar o orçamento via "appropriations process" (ato do legislativo que autoriza a saída de recursos orçamentários do Tesouro para propósitos específicos). A economia norte-americana está chegando ao ponto em que o governo poderá novamente utilizar tanto a política fiscal como a monetária como instrumentos de estímulo à demanda em uma eventual recessão. Todavia, um aspecto preocupante dessa emenda constitucional refere-se à perda da eficiência dos estabilizadores automáticos em uma eventual recessão. Os gastos públicos propiciam uma flexibilidade contracíclica que amortece os ciclos automaticamente. Nas recessões, as receitas caem e a demanda por gastos públicos aumentam. Com esse novo dispositivo legal, o governo central, os estados e municípios teriam que reduzir seus dispêndios para fazer frente a receitas reduzidas, tornando a política fiscal procíclica ao invés de anticíclica.

No Japão a projeção do Consensus Forecasts de dezembro aponta para uma desaceleração na taxa de crescimento do PIB de 3,6% em 1996 para 1,4% em 1997. O ano passado foi o de melhor desempenho desde 1992 quando se iniciou um período de lento crescimento. O excelente desempenho dos primeiros três meses do ano - expansão de 12% pela taxa anualizada - foi seguido por uma queda de 3% no segundo trimestre, mas já revertida pelo crescimento de 0,4% do período seguinte. A produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, após se contrair 0,6% em junho, passou a ter um desempenho bastante satisfatório (cresceu 4% em novembro, 6% em outubro e 3,4% em setembro), com reflexos sobre a taxa de desemprego que passou a declinar a partir do pico de 3,6%, em maio do ano passado, já atingindo 3,2% em novembro.

Nos próximos três meses, com o fim do recesso parlamentar, o atual governo, do primeiro ministro Ryutaro Hashimoto, discutirá uma série de decisões cruciais sobre a prometida reforma administrativa e financeira que poderá a médio prazo trazer de volta um crescimento mais vigoroso da economia japonesa. Em destaque, a aprovação do novo orçamento para o próximo ano fiscal, que se iniciará em abril - de cerca de US$ 700 bilhões, que representa a adoção, pela primeira vez desde a virada da década, de uma política contracionista com o intuito de reduzir o déficit dos atuais 4,1% do PIB para 2,6% em 1997 - constitui o primeiro avanço em direção ao equilíbrio fiscal desde 1990.

A dívida pública, estimada em US$ 4,8 trilhões - governo central e administrações regionais, além de um pesado acúmulo de dívidas da extinta JNR (Japan National Railways, as ferrovias privatizadas ao final dos anos 80) -, vem crescendo rapidamente nos últimos anos, em função da própria crise bancária que tem drenado vultosos recursos públicos. Além disso, desde 1992, o governo Japonês produziu seis grandes programas de gastos, equivalentes a US$ 540 bilhões. A falta de eficácia dessa política fiscal expansionista para impulsionar mais firmemente o crescimento econômico coloca a necessidade de se buscar uma forma alternativa de aumentar a arrecadação. Sendo assim, a programação de elevação do imposto sobre o consumo dos atuais 3% para 5% a partir de abril deste ano deverá ser mantida, apesar do impacto desfavorável sobre a demanda interna.

Os investimentos ainda estão dominados por um clima de pessimismo. As baixas taxas de juros vigentes não têm conseguido reverter essa situação. Com o valor dos papéis dos maiores bancos em constante queda, as fontes de financiamento para esses investimentos, normalmente bolsa de valores, são cada vez mais escassas. Segundo estimativas, uma queda prolongada no índice Nikkei abaixo dos 17 mil pontos pode significar uma redução em 0,5% no PIB durante o próximo ano fiscal.

Na Alemanha, a desaceleração do nível de atividade em fins de 1995 e inícios de 1996 foi revertida no segundo e terceiro trimestres, com o PIB crescendo, respectivamente, em 6,4 e 3,3% em uma base trimestral e anualizada. As projeções do Consensus Forecasts de dezembro é de uma aceleração no crescimento de 1,4% em 1996 (1,3% lado ocidental) para 2,2% em 1997 (2,1% no lado ocidental). Entretanto, a produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, apresentou um fraco desempenho, alternando expansão e queda consecutivamente ao longo de 1996. Em novembro se contraiu em 0,2% depois de já ter caído em 0,7% no mês anterior. A taxa de desemprego em contínua trajetória de alta atingiu 10,9% em dezembro.

O governo de coalizão alemão anunciou em dezembro que cortes de impostos em 1998 serão levados a cabo com intuito de estimular o consumo e o crescimento econômico, propiciando um melhor ambiente para novos investimentos e mais empregos. Em 1996, dois indicadores ficaram acima da meta exigida por Maastricht: o déficit fiscal (em percentagem do PIB) foi de 3,3% (3%) e a dívida bruta do governo (em percentagem do PIB) ficou em 60,8% (60%). Todavia, a meta traçada para esse ano é de reduzir o déficit para 2,5%. A necessidade de financiamento foi reduzida em US$ 3,2 bilhões, mas está sendo considerada insuficiente para reduzir nessa magnitude o déficit público. O corte do "imposto de solidariedade" - extremamente impopular de 7,5% sobre a renda - representará uma diminuição de US$ 4,8 bilhões na receita tributária, mas que poderá ser compensada pela eliminação de incentivos fiscais às empresas. Existe uma forte disposição política do governo de Bonn em promover não só este tipo de ajuste, mas em implementar uma reforma tributária mais ampla.

Na França, o PIB, sazonalmente ajustado, voltou a crescer 3,7% no terceiro trimestre de 1996, depois da queda de 1,5% no período anterior. A desaceleração da economia ao longo de 1995, inclusive com retração do nível de atividade ao final do ano, acabou se estendendo para o primeiro semestre de 1996. Mas, a partir de então, já se observa claramente um movimento de recuperação. A produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, acompanhou essa tendência revertendo o movimento de queda do primeiro semestre de 1996 e passou a registrar um crescimento médio de 1,4% entre julho e outubro. A taxa de desemprego, entretanto, não tem mostrado sinais de queda e, pelo contrário, elevou-se ao longo do ano passado de 12,1% em janeiro para 12,7% em novembro. As projeções, segundo o Consensus Forecasts de dezembro, apontam para um fortalecimento do nível de atividade em 1997 com uma taxa de 2,1%, um ponto de percentagem acima do ano passado.

No Reino Unido, o PIB sazonalmente ajustado, em uma base trimestral anualizada, cresceu 2,6% no terceiro trimestre de 1996, mantendo aproximadamente o mesmo nível dos trimestres anteriores (2,7 e 2,4%, respectivamente). Sendo assim, o crescimento em 1996 deverá ficar muito próximo ao de 1995, cerca de 2,4%. As projeções para 1997, do Consensus Forecasts de dezembro, são de uma aceleração da economia britânica para uma taxa de 3,2%. A produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, manteve a trajetória de desaceleração iniciada desde 1995, crescendo 1,3% em outubro, após estar praticamente estagnada nos dois meses imediatamente anteriores (expansão de apenas 0,3%). A taxa de desemprego continua em trajetória suavemente declinante quando atingiu em novembro 6,9% ante 8% um ano atrás.

INFLAÇÃO

O lento crescimento dos países da Europa continental e a desaceleração da economia japonesa no segundo semestre de 1996 contribuíram para manter ausentes as pressões inflacionárias nos países industrializados. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, que apresentaram um maior ritmo de crescimento, não se observou até o momento movimento significativo de alta da inflação.

Como se pode observar no GRÁFICO 3, a variação do índice de preços ao consumidor dos países do G-7, no acumulado de 12 meses, manteve-se praticamente estável desde o início de 1996, oscilando entre um mínimo de 2,2% e um máximo de 2,5% registrado em novembro último. As perspectivas para a inflação em 1997 permanecem bastante favoráveis, levando-se em conta que as economias da Europa continental e do Japão deverão continuar crescendo a taxas moderadas, e que não se espera uma reaceleração inflacionária nos Estados Unidos e na Inglaterra.

PEM 24 - Gráfico 3

Nos Estados Unidos, apesar do bom desempenho da economia em 1996 e da baixa taxa de desemprego, a taxa de inflação, medida pela variação do índice de preços ao consumidor, no acumulado de 12 meses, manteve-se relativamente estabilizada ao longo de 1996: partindo de 2,7% em janeiro, alcançou 3,3% em novembro e dezembro último. Em nível de atacado, esta apresentou um ligeiro movimento de alta entre janeiro (2,3%) e agosto (3%), permanecendo estável a partir de então.

Apesar do nervosismo com que os mercados aguardam a divulgação dos novos indicadores do nível de atividade e da inflação, as expectativas, de maneira geral, são de que a economia norte-americana cresça a uma taxa próxima a de seu produto potencial, sem maiores pressões inflacionárias. A taxa de desemprego, apesar de extremamente baixa, caiu em dezembro e, segundo dados divulgados pelo Departamento do Trabalho, o número de trabalhadores que solicitaram auxílio-desemprego aumentou pela primeira vez nos últimos meses, na última semana de dezembro. Os índices de preços no atacado, descontados os efeitos dos preços voláteis (energia e alimentos), a chamada core inflation, cresceram 0,1% em novembro e em dezembro, sugerindo que, pelo menos no curto prazo, não existem riscos de uma elevação da inflação. As previsões do Consensus Forecasts de dezembro apontam para uma inflação de 2,9% em 1997, igual à estimada para 1996.

Quanto à Alemanha, a variação, em 12 meses, do índice de preços ao consumidor apresentou a partir do segundo semestre de 1995 um nítido movimento de queda, alcançando 1,4% em dezembro último. Em nível de atacado, observa-se também um movimento de queda, ainda mais acentuado, desde setembro de 1995, tendo a taxa de inflação, no acumulado de 12 meses, caído de 2,5% para -0,2% em outubro último. As elevadas e crescentes taxas de desemprego, que em dezembro atingiu 10,9%, têm levado os sindicatos a aceitarem reajustes salariais ainda mais moderados do que no ano passado, o que deverá ajudar a manter sob controle a inflação, mesmo que se concretize a expectativa de uma recuperação mais vigorosa da economia a partir do segundo semestre do ano. As previsões do Consensus Forecasts de dezembro apontam para uma taxa de inflação de 1,7% em 1997, com relação a uma taxa estimada de 1,5% em 1996.

No Japão, a taxa de inflação, medida pela variação do índice de preços ao consumidor no acumulado de 12 meses, apresentou um ligeiro movimento de alta desde o início do ano: de -0,4% em janeiro, esta alcançou 0,4% em novembro. Esse resultado pode ser explicado pela forte recuperação da economia no início de 1996 - já revertida no segundo semestre do ano - e pela acentuada desvalorização do iene. Em nível de atacado, a inflação tem se mantido estável entre -0,9 e -0,7% nos 11 primeiros meses do ano, alcançando -0,8% em novembro último. A elevada taxa de desemprego para os padrões japoneses bem como a expectativa de uma lenta retomada do ritmo de crescimento da economia - em virtude, não apenas dos problemas que ainda afligem o sistema financeiro, mas também da adoção de uma política fiscal contracionista no ano fiscal de 1997 - justificam as previsões do Consensus Forecasts de dezembro, que apontam para uma inflação em 1997 de 1,2%.

No Reino Unido, a taxa de inflação - que havia apresentado um movimento de queda ao longo dos nove primeiros meses de 1996, atingindo 2,1% em setembro último - aumentou 0,6 ponto de percentagem em outubro, reduzindo-se ligeiramente para 2,5% em dezembro. O repique da taxa de inflação em outubro e a expectativa de um crescimento mais vigoroso da economia em 1997 sugerem que o risco de uma reaceleração da inflação não pode ser descartado. A valorização mais acentuada da libra verificada em novembro e dezembro, após a elevação da taxa básica de juros pelo Banco da Inglaterra, no entanto, deverá contribuir, a curto prazo, para conter os preços no atacado, o que deverá se refletir posteriormente na evolução dos preços ao consumidor. As projeções do Consensus Forecasts de dezembro apontam para uma inflação em 1997 de 3,1%, 0,6 ponto de percentagem mais elevada do que a observada para 1996, de 2,4%.

Na França, a taxa de inflação apresentou um movimento de queda a partir de maio de 1996, atingindo 1,6% em novembro. Esse movimento é explicado pela desaceleração da economia a partir do primeiro trimestre do ano passado e pela taxa recorde de desemprego, que em novembro último alcançou 12,7%. Apesar da previsões de uma recuperação da economia em 1997, principalmente a partir do segundo semestre, as elevadas taxas de capacidade ociosa e de desemprego deverão permitir uma recuperação do crescimento com a inflação estável. As projeções do Consensus Forecasts de dezembro apontam para uma inflação em 1997 de 2,1%, praticamente igual à estimada para 1996, de 2%.

POLÍTICA MONETÁRIA E MERCADOS FINANCEIROS

O moderado crescimento da economia norte-americana ao longo de 1996 com ausência de pressões inflacionárias, o lento crescimento da Alemanha e a acentuada desaceleração da economia japonesa no segundo semestre do ano levaram os Bancos Centrais desses países a manterem inalteradas as taxas de juros de curto prazo, nos dois últimos meses do ano. As baixas taxas de inflação e a ênfase colocada no ajustamento fiscal na Alemanha e no Japão deverão contribuir para manter baixas as taxas de juros nesses países. Nos Estados Unidos, uma elevação da taxa de juros de curto prazo só deverá ocorrer se a economia apresentar sinais de um crescimento mais vigoroso.

Nos Estados Unidos, o crescimento moderado da economia, principalmente no segundo semestre de 1996, conjugado com inflação estável, levou o FED a manter inalterada a taxa dos Federal Funds em 5,25%. As baixas taxas de inflação tanto no atacado como no varejo, que, se descontados os efeitos dos itens energia e alimentos, foram de 0,1% em dezembro, deixaram os mercados bastante otimistas no curto prazo. No entanto, o crescimento das vendas em dezembro (0,6%), avaliado com outros indicadores do nível de atividade, sugere que o crescimento no quarto trimestre de 1996 pode ter sido até mais de um ponto percentual superior ao crescimento anteriormente estimado em 2%. Caso se confirme o maior aquecimento da economia norte-americana, é possível que o FED venha a endurecer a política monetária nos próximos meses, elevando as taxas dos Federal Funds (GRÁFICO 4). As taxas de retorno dos títulos do governo de longo prazo, que se haviam elevado significativamente nos primeiros meses do ano, recuaram a partir de agosto - após a decisão do FED de manter inalterada a taxa de juros -, apresentando, no entanto, alta volatilidade a cada divulgação das estatísticas de inflação e nível de atividade, diante das incertezas do mercado com relação ao grau de aquecimento da economia . As últimas projeções do Consensus Forecasts de dezembro para as taxas de juros dos títulos de 10 anos do governo para os próximos 12 meses, são de que estas se situem em 6,3%, nível bastante próximo do vigente atualmente (GRÁFICO 5).

PEM 24 - Gráfico 4

PEM 24 - Gráfico 5

Na Alemanha, o Bundesbank promoveu, em outubro, um corte na taxa de juros praticada nos leilões de recompra de títulos do governo (repo rate), levando-a para 3%, mantendo, no entanto, inalterada a taxa de redesconto em 2,5%. Com a inflação sob controle, a economia crescendo lentamente e com uma política fiscal contracionista, tendo em vista atender aos critérios do Tratado de Maastricht, a expectativa do mercado era a de que o Banco Central promovesse um novo corte nas taxas de juros de curto prazo. No entanto, recente declaração do presidente do Bundesbank, negando a necessidade de um abrandamento da política monetária, sinaliza que as autoridades monetárias, pelo menos a curto prazo, não deverão promover novos cortes nas taxas de juros. Com relação às taxas de juros dos títulos do governo de 10 anos, as projeções do Consensus Forecasts de dezembro, são de que estas subam do atual patamar de 5,8% para 6,8% em 12 meses.

No Japão, apesar de a economia não estar tecnicamente em recessão, o crescimento no segundo semestre de 1996 apresentou forte desaceleração, após o extraordinário crescimento observado no primeiro trimestre, o que levou o Banco Central do Japão (BOJ) a manter inalterada a sua taxa de redesconto em 0,5%, a mais baixa entre os países industrializados. A perspectiva de uma lenta recuperação da economia em 1997, bem como a decisão de reduzir o déficit fiscal, após vários anos de política fiscal expansionista, não permitem prever, em um horizonte de tempo amplo, uma elevação das taxas de juros de curto prazo. Com relação às taxas de juros dos títulos de 10 anos do governo, o Consensus Forecasts de dezembro prevê que estas se elevem do atual patamar de 2,4% para 3,2% no final de 1997.

O dólar continuou a apresentar uma firme trajetória de valorização diante do iene e do marco, iniciada em maio de 1995, e apenas interrompida em curtos intervalos de tempo: com relação ao iene, a valorização do dólar acumulada entre abril de 1995 e dezembro último foi de 26,4%, enquanto diante do marco foi de 11%. Esse movimento manteve-se nos 15 primeiros dias de janeiro, quando o marco foi cotado a 1,59 por dólar e o iene a 116,93 (GRÁFICO 6). Apesar de os fundamentos continuarem favoráveis a uma trajetória de valorização do dólar ao longo de 1997 - a economia japonesa se encontra estagnada e a Alemanha apresenta lento crescimento, enquanto a economia norte-americana apresenta sinais de crescimento mais vigoroso -, as previsões do Consensus Forecasts até o final do ano são de uma desvalorização, ainda que suave, do dólar diante do marco e do iene, projetando a paridade do marco ante o dólar no final do ano de 1,545 e do iene diante do dólar de 108. Uma explicação para a expectativa de uma ligeira desvalorização do dólar estaria na ocorrência de um possível overshooting no processo de realinhamento dessas moedas a partir de maio de 1995, principalmente do dólar em relação ao iene, que, entre a cotação mínima do dólar ocorrida em abril de 1995 e sua cotação em 15 de janeiro desse ano, sofreu uma valorização de 31,8%. Uma outra razão para se esperar que a valorização do dólar ocorrida nesse período não seja sustentada estaria no fato de o fortalecimento do dólar no período ter sido explicado, em grande parte, por uma significativa elevação das reservas em dólares dos Bancos Centrais dos países industrializados.

PEM 24 - Gráfico 6

O índice Dow Jones da bolsa norte-americana, após manter-se relativamente estável no primeiro semestre de 1996, voltou a apresentar novo fôlego na segunda metade daquele ano, atingindo o patamar recorde de cerca de 6.600 pontos em janeiro de 1997 (GRÁFICO 7) e acumulando uma alta de 23% em 1996 (33% em 1995). A decisão do Federal Reserve de não alterar as taxas de juros em setembro eo resultado das eleições de novembro - um presidente não comprometido com reduções de impostos e um Congresso fortemente disposto a cortes orçamentários, uma combinação considerada interessante para Wall Street - ajudam a entender esse bom desempenho. Um outro fator pontado como importante seria o processo de fusões e aquisições que contribuiu para manter o mercado aquecido. Existe, entretanto, temores de que o mercado acionário americano possa estar vivenciando o conhecido fenômeno da "bolha" (uma espécie de alta especulativa), a semelhança do que ocorreu com o mercado acionário japonês na segunda metade da década de 80.

PEM 24 - Gráfico 7

O índice Nikkei da bolsa de Tóquio declinou constantemente ao longo do quarto trimestre de 1996, após oscilar em torno de 21 mil pontos no trimestre anterior. A fraqueza da recuperação da economia japonesa, em grande parte devida à atual crise do sistema financeiro, tem impedido um desempenho mais firme do mercado acionário do país. Por outro lado, o índice FT-SE da bolsa de londres manteve-se estável nos últimos meses do ano passado, mas já apresentando novo movimento de alta no início de 1997. Também neste mercado, a semelhança do norte-americano, 1995 e 1996 foram anos de excelente desempenho em linha com o processo de recuperação já claramente observado desde 1993.

BALANÇA COMERCIAL E CONTA CORRENTE

O superávit comercial dos países industrializados totalizou no terceiro trimestre de 1996, segundo estimativas preliminares (dados dessazonalizados), US$ 17,3 bilhões, não muito distinto dos US$ 16,5 bilhões observados no mesmo período do ano passado, mas muito superior à média trimestral de US$ 8,3 bilhões verificada no primeiro semestre do ano. A recuperação recente do saldo externo em mercadorias das economias da OCDE tem sido possível graças ao aumento dos superávits da Alemanha e da França e à redução do déficit comercial do Reino Unido no período, que mais do que compensaram o crescimento do déficit norte-americano na balança comercial.

O déficit dos Estados Unidos no seu comércio externo de mercadorias apresentou-se em expansão ao longo do ano passado, atingindo US$ 46 bilhões no terceiro trimestre, um recorde histórico (GRÁFICO 8). A despeito da ligeira redução observada nos dois meses seguintes, graças ao significativo crescimento das exportações do país, os números do terceiro trimestre suscitaram duas preocupações: em primeiro lugar, após mais de um ano se reduzindo, o déficit comercial com o Japão voltou a recrudescer, em resposta ao movimento de desvalorização do iene que vem-se observando desde maio de 1995. Nesse sentido, têm-se reaquecido as pressões americanas por uma abertura maior do mercado japonês aos produtos importados. Além disso, tem merecido consideração o vultoso aumento do déficit dos Estados Unidos com os seus parceiros do Nafta - que deverá ter totalizado US$ 40 bilhões em 1996, um crescimento de mais de 300% em relação ao resultado de 1993 -, suscitando no Congresso norte-americano resistências crescentes às propostas de ampliação da região aos demais países da América Latina.

PEM 24 - Gráfico 8

No terceiro trimestre do ano passado, estancou-se aparentemente o movimento de redução do superávit externo do Japão, que, nos três meses anteriores, acumulara uma queda de 50% em relação ao mesmo período de 1995. Dados para os últimos meses do ano passado, inclusive, já vêm apontando para um crescimento das exportações pouco superior ao das importações. Segundo o Consensus Forecasts de dezembro de 1996, o saldo japonês em conta corrente em 1997 deverá ser de US$ 65 bilhões, valor ligeiramente inferior ao que vem sendo estimado para 1996 (GRÁFICO 9).

PEM 24 - Gráfico 9

O superávit comercial da Alemanha elevou-se de US$ 13,8 bilhões para US$ 18,2 bilhões entre o segundo e o terceiro trimestre de 1996, totalizando US$ 63 bilhões nos 12 meses terminados em setembro. O saldo alemão vem apresentando nítida tendência de expansão desde fins de 1991, já logrando mais que triplicar a sua magnitude, mas ainda se encontra em nível significativamente inferior ao megassuperávit de US$ 80 bilhões acumulado pela ex-Alemanha Ocidental em 1989, às vésperas da unificação. Em conta corrente, no entanto, o país mantém um déficit (acumulado em quatro trimestres) de cerca de US$ 20 bilhões desde fins de 1994, que, segundo o Consensus Forecasts de dezembro de 1996, deverá se reduzir para cerca de US$ 13 bilhões em 1997.

O saldo comercial do Reino Unido apresentou uma significativa redução no terceiro trimestre do ano passado, atingindo cerca de US$ 4,7 bilhões. Esse resultado, no entanto, tem sido fundamentalmente explicado pelos impactos da alta dos preços do petróleo nas exportações do país. O movimento recente de apreciação da libra e o aquecimento da economia esperado para o ano que vem sugerem que o déficit comercial britânico voltará a se expandir nos próximos trimestres.

De acordo com o Consensus Forecasts de dezembro de 1996, o saldo negativo em conta corrente do Reino Unido deverá mais que triplicar em 1997, atingindo US$ 7,7 bilhões.

Na França, por fim, observa-se desde o início de 1994 um claro movimento de elevação do superávit comercial do país, em função de um crescimento das exportações mais vigoroso que o das importações (31 e 22%, respectivamente, entre o primeiro semestre de 1994 e o primeiro semestre do ano seguinte). Desde meados de 1995, no entanto, a expansão do saldo francês tem sido proporcionada por uma redução relativamente maior das suas importações em função do desaquecimento econômico do país.

COMÉRCIO MUNDIAL

Após ter crescido em quantum 9,5 e 9,1% em 1994 e 1995, respectivamente, o comércio mundial de mercadorias deverá mostrar uma desaceleração e expandir-se a taxas de 6,4 e 7,1% nos dois anos seguintes, segundo o World Economic Outlook de 1996, do FMI.

Esse desaquecimento, segundo o relatório, foi notadamente mais acentuado nos países industrializados, particularmente na Europa Continental, que experimentou uma forte desaceleração econômica no período. Os países em desenvolvimento, por seu turno, deverão manter em 1997 a taxa de crescimento de aproximadamente 10% tanto no volume das suas exportações quanto nas importações.

A demanda dirigida pelas exportações brasileiras (em quantum), estimada a partir da evolução esperada das importações dos nossos principais parceiros comerciais, deverá ainda apresentar uma ligeira desaceleração em 1997 (GRÁFICO 10).

PEM 24 - Gráfico 10

Em dezembro do ano passado, realizou-se em Cingapura a primeira conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), com representantes de 128 países. Criada em janeiro de 1995, no lugar do Gatt, a pauta de discussões da OMC apresenta-se mais abrangente, englobando temas como serviços, investimentos e propriedade intelectual.

Além disso, ao substituir as antigas rodadas de negociações, que duravam anos, por encontros em nível ministerial a cada dois anos, a nova organização deverá mostrar que dispõe de mecanismos relativamente mais ágeis para solucionar as controvérsias comerciais internacionais.

Nessa primeira conferência, dois temas mereceram maior destaque pelos participantes:

O ITA (Information Technology Agreement), apresentado pelos Estados Unidos e apoiado por vários países da Apec e pela União Européia, a ser firmado em março, que propõe a redução progressiva até o ano 2000 de todas as tarifas incidentes sobre produtos de informática e eletrônicos. Os países em desenvolvimento manifestaram grande resistência ao acordo.

Cláusula social, proposta pelos Estados Unidos, França e Noruega, através da qual exigir-se-ia a observância e o cumprimento de padrões trabalhistas internacionalmente reconhecidos na produção dos bens comercializados entre os países. As economias em desenvolvimento lograram redirecionar o tema da OMC para a OIT (Organização Internacional do Trabalho), reduzindo a possibilidade da sua utilização nas alegações de dumping social por parte dos países industrializados.

Em relação a outros temas, como liberalização dos serviços de telecomunicações, regulação dos investimentos internacionais e redução dos subsídios agrícolas, no entanto, observaram-se avanços muito tímidos.

Commodities

O índice dos preços em dólar das commodities da revista The Economist vem apresentando acentuada queda, com algumas oscilações, desde meados do segundo trimestre do ano passado. O movimento vem sendo acarretado fundamentalmente pelo forte declínio observado nas cotações internacionais dos produtos agrícolas (grãos), que em abril de 1996 haviam atingido cotações recordes, e pela intensificação do movimento de contração dos preços dos metais - recentemente revertido -, em função do escândalo Sumitomo no mercado de cobre (GRÁFICO 11). Adicionalmente, a valorização da moeda norte-americana, observada de fato desde maio de 1995, vem contribuindo para comprimir as cotações denominadas em dólar dos principais produtos negociados internacionalmente.

PEM 24 - Gráfico 11

Os preços dos metais, que ao longo do último trimestre de 1996 esboçaram alguma recuperação, continuam cotados em patamares bastante reduzidos. Essa recente alta tem sido, em parte, creditada ao retorno dos fundos de investimentos a esses mercados. Não obstante, uma recuperação mais vigorosa das cotações não tem sido esperada no curto prazo. Se, de fato, os estoques disponíveis à comercialização de alguns desses produtos já se encontram em níveis comprimidos, e o consumo por parte dos países da Ásia (exclusive Japão) mantém-se aquecido, pelo lado da oferta, no entanto, têm-se observado significativos incrementos, graças a novos investimentos e aumento da utilização da capacidade instalada. Adicionalmente, a demanda dos principais países industrializados ainda se mostra bastante tímida: de maneira geral, apenas nos Estados Unidos e no Japão as previsões para 1997 têm apontado para um pequeno crescimento no consumo de metais.

Com respeito ao grupo dos alimentos, após se comprimir em cerca de 3,5% no ano passado (mais de 20% nos Estados Unidos, devido às enchentes no Meio-Oeste do país), a safra mundial de grãos para o período 1996/97, segundo o Departamento de Agricultura norte-americano, deverá crescer 8% aproximadamente, permitindo alguma elevação nos níveis de estoques finais que haviam atingido patamares historicamente reduzidos. Além da recuperação das lavouras norte-americanas, apontam-se incrementos substantivos nas produções agrícolas da China, do Canadá, da Argentina e da Europa. Dessa maneira, o preço dos principais produtos agrícolas, que atingiram cotações recordes no segundo trimestre de 1996, vem, desde então, comprimindo-se aceleradamente (ver QUADRO abaixo).

PEM 24 - Quadro C

Petróleo

O preço do petróleo (tipo Brent) apresentou no segundo semestre de 1996 uma acentuada elevação, ainda que com fortes oscilações, atingindo cotações inéditas desde o conflito do Golfo, em janeiro de 1991 (GRÁFICO 12).

PEM 24 - Gráfico 12

Esse movimento, de certa forma observado desde fins de 1995, tem sido creditado aos reduzidos níveis de estoques de derivados e óleo cru, principalmente nos Estados Unidos. Esse fenômeno originou-se com o inverno anormalmente rigoroso no Hemisfério Norte no ano passado - final de 1995 e início de 1996 - e foi acentuado em função das perspectivas de retorno do Iraque ao mercado ao longo de 1996, cujos impactos possivelmente deflacionantes sobre os preços vinham sendo aguardados pelas refinarias, que só então recomporiam os seus estoques.

Efetivamente, após inúmeras exigências por parte dos Estados Unidos, agravadas em função das operações militares norte-americanas (intervindo nos conflitos entre o governo iraquiano e facções curdas no norte do país), em setembro de 1996, o retorno do Iraque ao mercado só foi autorizado pelas Nações Unidas em meados de dezembro. Os esperados impactos sobre os preços, no entanto, ainda não se concretizaram e provavelmente não deverão ocorrer na magnitude que vinham sendo estimados, ao menos no curto prazo. De fato, embora o teto acordado de produção da Opep até fins do primeiro semestre de 1997 - de 25,03 milhões de barris por dia (Mbd), incluindo a oferta iraquiana de cerca de 0,7 Mbd - venha sendo sistematicamente ultrapassado em cerca de 1 Mbd, principalmente pela Venezuela, a declinante oferta norte-americana e o aquecido e crescente consumo de petróleo nos países em desenvolvimento (particularmente na Ásia) deverão manter as cotações elevadas, principalmente enquanto não se normalizar a situação dos estoques.

As exportações do Iraque, entretanto, deverão contribuir para estancar o movimento ascendente dos preços, principalmente se se confirmar o abrandamento do atual inverno no Hemisfério Norte, que, no final de dezembro e início de janeiro de 1997, mostrara-se bastante rigoroso.

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