Publicações

Panorama da Economia Mundial nº 21 - abril 1996

GRUPO DOS 7

NÍVEL DE ATIVIDADE

Um fato marcante na conjuntura internacional neste início de 1996, que já vinha se delineando desde o segundo semestre do ano passado, foi a forte desaceleração observada nas economias dos países industrializados (GRÁFICO 1), contrariando a maioria das expectativas, e que levantou a possibilidade de uma recessão em alguns destes países. Outro fato significativo é a expectativa de uma expansão sincronizada nos três principais blocos econômicos em 1997, o que não se via desde o final dos anos 80.

PEM 21 - Gráfico 1

O crescimento nos principais países europeus de moeda forte - Alemanha e França - estagnou-se desde o segundo semestre de 1995, enquanto a recuperação das demais economias européias que desvalorizaram suas moedas em relação à moeda desses países - com destaque para o Reino Unido e a Itália - continuou a apresentar uma performance relativamente melhor. As mudanças ocorridas nas taxas de câmbio neutralizaram, em parte, o impacto positivo sobre o nível de atividade das reduções das taxas de juros vivenciadas nos países de moeda forte, mas, por outro lado, ajudaram a melhorar o desempenho nos países que tiveram suas moedas desvalorizadas.

O desemprego, embora ligeiramente declinante, continua bastante elevado na União Européia - 10,5% aproximadamente nos primeiros meses de 1996 (o que representaria 17,4 milhões de trabalhadores desempregados) contra 11,5% em 1995 - apesar de dois anos de crescimento acima da taxa potencial de longo prazo, o que tem caracterizado uma verdadeira "recuperação sem emprego". O fato altamente preocupante é a possibilidade de uma reversão nessa trajetória em virtude de uma eventual recessão, o que levaria a um aumento nas tensões sociais que já se encontram bastante elevadas. As últimas projeções do Goldman Sachs de fevereiro/março para o crescimento do PIB na União Européia são de 1,7% em 1996 e de 2,6% em 1997 (o mesmo número estimado para a expansão em 1995). De uma maneira geral, esse aumento é fruto de uma esperada aceleração no crescimento do nível de atividade nessas economias a partir de meados de 1996 e que deverá se estender até meados de 1997.

O desaquecimento da economia dos Estados Unidos foi evidente ao longo de 1995, quando medido pela taxa anualizada de variação do PIB entre dois trimestres consecutivos. Segundo a metodologia antiga de pesos fixos, o PIB registrou seguidamente duas fortes desacelerações no início do ano passado. No primeiro trimestre cresceu 2,7% (contra 5,1% ao final de 1994) e no segundo caiu novamente para 1,3%. Ao final de 1995, após ter-se recuperado no terceiro trimestre (4,2%), voltou a desacelerar-se (1,3%). Se considerarmos o novo indicador, baseado em pesos móveis, verificamos pequenas modificações no padrão de comportamento. A primeira diferença está na queda bem menos acentuada da produção do primeiro para o segundo trimestre - apenas 0,1 ponto percentual contra um diferencial de 1,4 na série antiga. A segunda está na recuperação um pouco mais intensa pela nova metodologia no terceiro trimestre - mais 3,1 pontos de percentagem segundo a nova série e 2,9 na antiga (ver tabela no editorial). As estimativas para os dois primeiros trimestres de 1996 são de um crescimento de 1% e 2%, respectivamente, o que caracterizaria uma inflexão no comportamento da taxa de crescimento do PIB. Um ritmo mais forte somente deverá ser observado no segundo semestre (2,6% e 3%), quando o processo de ajustamento nos estoques observado na primeira metade deste ano já estiver sido completado.

Na Alemanha, ocorreram duas quedas consecutivas do PIB nos dois últimos trimestres de 1995 - 0,2% e 0,4%, respectivamente -, o que caracterizaria tecnicamente uma recessão. Ao que tudo indica, entretanto, o diagnóstico para esse quadro é de uma pausa de crescimento em vez de uma recessão propriamente dita. As projeções apontam para uma expansão no lado ocidental de 0,9% em 1996 e 1,9% em 1997. Para a Alemanha como um todo, os números são um pouco melhores, 1,5% este ano (7,3% relativos a ex-Alemanha Oriental) e 2,2% no próximo (5% para a ex-Alemanha Oriental).

A produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, reverteu a trajetória de queda registrada desde agosto de 1995, crescendo 1,6% em janeiro deste ano (GRÁFICO 2). A taxa de desemprego atingiu 11,1% em fevereiro de 1996, mais de um ponto percentual acima dos 10% no mesmo mês do ano anterior. A grande preocupação é a trajetória ascendente revelada por esse indicador desde março do ano passado (8,2%). No sentido de reverter esse quadro, o governo alemão, as diversas associações de empregadores e os principais sindicatos assinaram em janeiro de 1996 um acordo - denominado "Aliança para o Emprego e a Indústria Nacional" - com o objetivo de alcançar a redução do desemprego pela metade ao final do século e o aumento da competitividade da indústria alemã. Entretanto, as partes têm encontrado crescentes dificuldades devido a posições altamente divergentes. A dificuldade básica está em conciliar demandas salariais bem acima da taxa de inflação com a ampliação do número de postos de trabalho necessária para a redução dos 4 milhões de desempregados aproximadamente. A necessidade da indústria em melhorar sua competitividade internacional requer uma melhoria da produtividade. Uma forma de se conseguir esse resultado é manter o salário real constante ou mesmo declinante. No entanto, os sindicatos têm conseguido elevações salariais bastante acima da inflação, apesar do elevado desemprego. Um outro fator que merece destaque é o processo de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra, diminuindo a importância relativa do insumo trabalho no processo de produção. Em busca de reduções do custo médio de produção, as grandes empresas têm proposto constantemente a diminuição da carga fiscal e dos encargos previdenciários sobre a mão-de-obra. A opção de realizar investimentos no exterior, onde o custo médio de produção pode ser significativamente menor, é a alternativa que tem sido crescentemente considerada por diversas empresas alemãs.

PEM 21 - Gráfico 2

No Japão, o PIB, sazonalmente ajustado, apresentou um bom desempenho no último trimestre do ano passado, quando cresceu 3,6%, medido pela taxa anualizada. A estimativa para o primeiro trimestre de 1996 é de manutenção desse bom desempenho (3,1%), devendo arrefecer nos períodos seguintes. A produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, após desacelerar-se no segundo semestre do ano passado, voltou ao ritmo de maior expansão (2,8%) em janeiro e fevereiro de 1996. A taxa de desemprego, embora relativamente baixa, continua crescendo, atingindo 3,4% em fevereiro. O último grande ciclo de expansão vivenciado pela economia japonesa foi de 1977 a 1991, com uma taxa média anual de crescimento de 4,4%. A partir de 1992, entretanto, verificou-se um período de forte desaceleração, que se estendeu até 1995. As perspectivas para 1996 e 1997 são de um crescimento real do PIB de apenas 2,1% em cada ano.

A recuperação da economia japonesa pode ser explicada pela adoção de políticas fiscal e monetária expansionistas. O governo, que já adotou sucessivos planos de estímulo à demanda agregada nos últimos anos, conseguiu aprovar o orçamento para o ano fiscal, que começou em abril de 1996, da ordem de US$ 692 bilhões e deverá utilizar cerca de US$ 6,5 bilhões para ajudar na liquidação de sete empresas hipotecárias praticamente falidas, embora ainda esteja em negociação política a forma de implementação. O plano de liquidação de uma série de empresas que desempenhavam papel de intermediação financeira é fundamental para restabelecer a confiança no sistema bancário e, assim, estimular um crescimento mais significativo da liquidez e ajudar na recuperação da economia. A política monetária ainda continua voltada para a consolidação desse processo.

Na França, o PIB, sazonalmente ajustado, apresentou uma queda de 1,2% (taxa anualizada) no último trimestre de 1995, mantendo uma trajetória de desaceleração e resultando em um crescimento de 2,4%, 0,5 ponto percentual inferior ao de 1994 (2,9%). O melhor desempenho ocorreu no primeiro trimestre, quando houve uma expansão de 2,7%, mas logo nos dois trimestres seguintes ocorreu uma significativa desaceleração para 0,7%. Todavia, as estimativas para o primeiro trimestre de 1996 são de um crescimento próximo a 1%, com uma aceleração nos trimestres subseqüentes (3,1% e 4,1%, respectivamente), revertendo, assim, o processo de desaquecimento em curso. Em 1996, a expansão do PIB deverá ficar próxima a 1,4%, acelerando-se para 2,9% em 1997, um resultado acima da média de crescimento de 2,4% dos últimos 15 anos antes da recessão de 1993.

A produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, desde outubro de 1995 vem declinando como resultado do desaquecimento da economia francesa. No último trimestre do ano contraiu-se em todos os meses (-0,9% em outubro, -0,7% em novembro e -2,2% em dezembro) e, em janeiro deste ano, registrou nova queda de 1,3%. A taxa de desemprego, que vinha em trajetória suavemente declinante desde o início de 1995, após ter atingido os preocupantes 12,6% ao final de 1994, passou a crescer a partir do início do segundo semestre do ano passado (11,4% em julho), atingindo em fevereiro deste ano 11,8%.

No Reino Unido, o PIB, ajustado sazonalmente, manteve a trajetória de desaceleração iniciada ao final de 1994 e observada ao longo de 1995, crescendo no quarto trimestre a uma taxa anualizada de 1,9%, ante 2,1% no período anterior. As projeções apontam para a continuidade desse processo nos dois primeiros trimestres de 1996 (taxa de expansão de 1,6%) e a partir daí uma nova aceleração. As estimativas mais recentes, segundo o Goldman Sachs, apontam para um crescimento de 2,6% em 1995 e 1,8% em 1996, prevendo uma recuperação em 1997 (3,2%), mas ainda abaixo do desempenho de 1994 (4,1%). A produção industrial, medida pela taxa de 12 meses, desacelerou-se bastante a partir do primeiro trimestre de 1995. Em janeiro de 1996, cresceu 1,3%, depois de 1,9% em novembro e 1,7% em dezembro. A taxa de desemprego manteve a trajetória declinante atingindo em fevereiro deste ano 7,9% ante 8,4% há um ano.

O governo da Grã-Bretanha formalizou na reunião de ministros da Agricultura da União Européia (UE), em início de abril, uma proposta que prevê a eliminação do rebanho com mais de 30 meses e, eventualmente, de animais mais novos que tenham sido contaminados com a BSE (popularmente conhecida como a doença da "vaca louca") e um pedido de financiamento de 80% do plano por parte da UE. As estimativas para o impacto sobre o produto e contas públicas do abate parcial do gado bovino variam de uma redução de um ponto percentual na taxa de crescimento do PIB e aumento de 9 bilhões de libras esterlinas no déficit público a uma diminuição de 0,2% no PIB e impacto de 1 bilhão nas contas públicas.

INFLAÇÃO

A acentuada desaceleração do ritmo de crescimento dos países do G-7 - com exceção do Japão, que apresentou desde o quarto trimestre de 1995 uma suave recuperação -, ocorrida principalmente a partir do segundo semestre de 1995 e que se estendeu ainda até o primeiro trimestre de 1996, manteve ausente as pressões inflacionárias nesses países. Como se pode observar no GRÁFICO 3, a variação do índice de preços ao consumidor dos países do G-7, no acumulado de 12 meses, apresentou, a partir de junho de 1995 (2,7%), um ligeiro movimento de queda, alcançando 2,3% em fevereiro último.

PEM 21 - Gráfico 3

Nos Estados Unidos, a taxa de inflação, medida pela variação do índice de preços ao consumidor, no acumulado de 12 meses, depois de apresentar um ligeiro repique em abril e maio de 1995, quando alcançou 3,2%, voltou a registrar um movimento de queda, oscilando, nos últimos seis meses, entre um mínimo de 2,5% e um máximo de 2,8%, atingindo 2,7% em janeiro e fevereiro e 2,8% em março. Ao nível do atacado, no entanto, após apresentar um movimento de queda entre maio e agosto de 1995 (1,2%), voltou a se mostrar em alta, alcançando 2,4% em março último.

Apesar da não existência de sinais de reaceleração inflacionária nos Estados Unidos no primeiro trimestre do ano, a alta dos preços das commodities agrícolas já começa a pressionar a inflação norte-americana, tendo o índice de preços por atacado, em março, apresentado uma taxa de inflação de 0,5%, acima da taxa estimada de 0,2%. Adicionalmente, alguns indicadores mais recentes, apontando uma retomada mais intensa do ritmo de crescimento do nível de atividade, deram origem a uma preocupação maior com o comportamento futuro do nível de preços. Em primeiro lugar, destaca-se o fato de o custo unitário da mão-de-obra, pela primeira vez desde a última recessão, estar crescendo acima da inflação, de tal forma que o custo da hora trabalhada tem superado os ganhos de produtividade. Em segundo lugar, a economia norte-americana está trabalhando em níveis próximos de seu produto potencial. Na medida em que as mais recentes estimativas apontam para um acréscimo do produto potencial de 2% a.a., uma expansão que supere este limite certamente deverá trazer de volta as pressões inflacionárias. As previsões do Consensus Forecasts de março, que não incorporam ainda em sua análise os indicadores mais recentes da economia - criação de 650 mil postos de trabalho não agrícolas em fevereiro e de 140 mil em março -, que indicam uma recuperação mais vigorosa, apontam para uma inflação de, respectivamente, 2,7 e 2,9% em 1996 e 1997. Já o banco de investimento Goldman Sachs, baseado em indicadores mais atualizados, prevê para 1996 e 1997 taxas de inflação de, respectivamente, 2,8 e 3,4%.

Quanto à Alemanha, a variação em 12 meses do índice de preços ao consumidor, após ter permanecido estável no primeiro semestre de 1995 em 2,3% - significativamente inferior aos valores observados em 1994 -, apresentou a partir de então um nítido movimento de queda, alcançando 1,6% em fevereiro último. Ao nível do atacado, após apresentar uma elevação no primeiro semestre, voltou, no entanto, a registrar movimento de queda a partir de então, atingindo 1,6% em fevereiro último. A forte desaceleração do ritmo de crescimento da economia, que já se delineava desde o segundo semestre de 1995, e que se aprofundou no primeiro trimestre de 1996, explica o bom comportamento da inflação no período. A perspectiva de uma lenta retomada do crescimento ao longo de 1996, que só deverá se tornar mais vigorosa em 1997, e a elevada taxa de desemprego, que neste ano deverá alcançar 11%, justificam as previsões do Consensus Forecasts de março, que indicam taxas de inflação de 1,7 e 2,1%, respectivamente, em 1996 e 1997.

No Japão, a taxa de inflação, medida pela variação do índice de preços ao consumidor no acumulado de 12 meses, manteve-se muito próxima de zero, e até mesmo negativa em muitos meses de 1995. A partir de outubro, no entanto, tem-se mantido consistentemente negativa, alcançando -0,2% em fevereiro último. Ao nível do atacado, manteve-se negativa ao longo de todo o ano de 1995 e, em janeiro de 1996, atingiu -0,8%.

A previsão de uma recuperação mais vigorosa da economia em 1996 e 1977, porém ainda em níveis relativamente baixos para os padrões japoneses, e as taxas de desemprego ainda elevadas deverão contribuir para manter a inflação em 1996 próxima de zero, com uma ligeira elevação em 1997. As projeções do Consensus Forecasts de março apontam para uma inflação de 0,1% em 1996 e de 1,3% em 1997.

Já no Reino Unido, a taxa de inflação, após apresentar uma elevação de 0,6 ponto percentual entre abril e setembro de 1995, quando alcançou 3,9%, explicada em parte por um aumento dos impostos indiretos e pela desvalorização da libra, voltou a cair a partir de então, atingindo 2,7% em fevereiro último. Esse movimento é explicado pela desaceleração do ritmo de crescimento da economia, já observada a partir do segundo trimestre de 1995 e que se estendeu até o primeiro trimestre de 1996. Coerentemente com a previsão de uma lenta retomada do crescimento ao longo do ano, as projeções do Consensus Forecasts de março apontam para uma inflação em 1996 de 2,3%, contra 3,5% em 1995.

Na França, a taxa de inflação manteve-se bastante baixa em 1995 e nos dois primeiros meses de 1996, oscilando entre um mínimo de 1,5% em julho e um máximo de 2% em outubro de 1995 e janeiro e fevereiro de 1996. As projeções do Consensus Forecasts de março apontam para uma inflação em 1996 de 1,9%. A ausência de pressões inflacionárias na França é explicada tanto pelo lento ritmo de crescimento da economia como pelas elevadas taxas de desemprego.

POLÍTICA MONETÁRIA E MERCADOS FINANCEIROS

Após o abrandamento da política monetária nos países do G-7 observado em 1995, como reflexo do desaquecimento de suas economias, as taxas de juros de curto prazo dos Estados Unidos e do Japão mantiveram-se inalteradas nos primeiros quatro meses de 1996, enquanto a Alemanha reduziu sua taxa de redesconto em 0,5 ponto percentual no final de abril.

Nos Estados Unidos, o FED promoveu, no início de julho de 1995, uma mudança significativa na condução da política monetária, reduzindo, pela primeira vez em quase três anos, a taxa de juros dos Federal Funds em 0,25 ponto percentual, levando-a para 5,75%. Em meados de dezembro, diante do bom comportamento da inflação e da desaceleração da economia, o FED realizou um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa de juros dos Federal Funds, levando-a para 5,5%. A expectativa mais ou menos generalizada no mercado de um novo corte ainda no início deste ano viu-se frustrada com a divulgação dos dados de emprego de fevereiro e março, que indicam uma recuperação da economia muito mais vigorosa do que a prevista. A percepção de que a taxa de juros deverá manter-se inalterada a curto prazo e o receio de uma reaceleração inflacionária resultaram em uma elevação das taxas de juros de longo prazo. O banco de investimento Goldman Sachs prevê que as taxas dos Federal Funds a médio prazo (três a seis meses) mantenham-se no atual patamar, enquanto a longo prazo (12 a 18 meses) deverão elevar-se para 6% (GRÁFICO 4). Com relação às taxas de juros dos títulos do Tesouro de 10 anos, as últimas projeções do banco de investimento Goldman Sachs são de que estas se mantenham no atual patamar de 6,5% em um horizonte de seis meses, subindo para 6,8% em um horizonte de 12 meses (GRÁFICO 5). A previsão do Consensus Forecasts, para um horizonte de 12 meses, é de uma taxa bem inferior (6,1%).

PEM 21 - Gráfico 4

PEM 21 - Gráfico 5

Na Alemanha, o receio de um desaquecimento mais acentuado da economia levou o Bundesbank a reduzir a taxa de redesconto no final de março de 1995 em 0,5 ponto percentual e em agosto em mais 0,5%, levando-a para 3,5%. A queda da inflação nos últimos meses e a forte desaceleração da economia ocorrida principalmente a partir do último trimestre de 1995 levaram o Banco Central alemão a promover na primeira quinzena de dezembro um novo corte de 0,5 ponto percentual nas taxas de juros de curto prazo, levando a taxa de redesconto para 3%. No final de abril deste ano, o Bundesbank realizou um novo corte na taxa de redesconto, levando-a para 2,5%, devido aos claros sinais de desaquecimento da economia e dos níveis recordes de desemprego. As últimas projeções do banco de investimento Goldman Sachs para as taxas de juros dos títulos do governo de 10 anos em um horizonte de seis meses são de que estas se mantenham no patamar registrado em março, de 6,5%. Em um horizonte de 12 meses, as previsões do banco são de que estas se elevem para 6,9%. As previsões do Consensus Forecasts para um horizonte de 12 meses apontam para uma taxa de juros um pouco inferior (6,7%).

Também o Japão, diante da forte apreciação do iene frente ao dólar e da estagnação da economia, promoveu ao longo de 1995 um corte de 1,25 ponto percentual na sua taxa de redesconto, que estava fixa em 1,75% desde setembro de 1993, levando-a para 0,5%. Apesar dos boatos de que o Banco Central japonês estaria inclinado a aceitar taxas de juros de curto prazo mais elevadas, as expectativas são de que a taxa de redesconto permaneça inalterada enquanto a economia não der sinais claros de uma recuperação vigorosa. As projeções do banco de investimento Goldman Sachs para as taxas de juros dos títulos de 10 anos do governo são, a curto prazo, de 3,3%, devendo elevar-se em um horizonte de seis e 12 meses para 3,4 e 4%, respectivamente. Para um horizonte de 12 meses, a previsão do Consensus Forecasts é de uma taxa de juros de 3,6%.

Após sofrer forte desvalorização frente ao marco e ao iene em 1994 e nos primeiros meses de 1995, o dólar, a partir de maio do ano passado, voltou a apresentar tendência de valorização: entre abril de 1995 e março de 1996, sua valorização foi de 7% em relação ao marco e de 26,6% em relação ao iene (GRÁFICO 6).

PEM 21 - Gráfico 6

Os fundamentos continuam favoráveis a uma trajetória de valorização do dólar ao longo de 1996, basicamente por duas razões: em primeiro lugar, observou-se, recentemente, uma melhoria significativa da balança comercial norte-americana, que teve como contrapartida uma queda do superávit comercial japonês; e, em segundo, os movimentos nas taxas de juros deverão continuar favoráveis ao dólar, com o recente corte da taxa de juros de curto prazo alemã, e a expectativa de que, pelo menos a médio prazo, a taxa de redesconto japonesa se mantenha nos atuais patamares.

As projeções do banco de investimento Goldman Sachs apontam para alguma recuperação do dólar em um horizonte de seis meses, projetando uma valorização frente ao marco do nível atual de 1,48 por dólar para 1,60 e frente ao iene dos atuais 106 por dólar para 116. Em um horizonte de um ano as previsões são de que o dólar volte para a relação de 1,50 marcos por dólar, próxima da atual, e recue um pouco frente ao iene para uma cotação de 110 ienes por dólar.

Com relação às principais bolsas de valores internacionais, observou-se nos primeiros quatro meses de 1996 a continuidade da trajetória ascendente que se iniciou no terceiro trimestre de 1995 (GRÁFICO 7). Os centros financeiros de Nova Iorque e Londres deverão continuar em movimento de alta em resposta às projeções de aceleração do crescimento dessas economias nos próximos trimestres de 1996. Um aspecto importante é que, mesmo durante a desaceleração vivenciada por esses países nos últimos meses, esses mercados mantiveram-se em ascensão. A novidade, entretanto, é o bom desempenho da Bolsa de Tóquio que a partir do terceiro trimestre de 1995 passou a mostrar uma trajetória firme de recuperação, semelhante à experimentada no final de 1992, mas que durou somente um ano aproximadamente. Desde então, apresentou um comportamento oscilante, chegando, inclusive, a atingir uma segunda depressão em meados de 1995.

PEM 21 - Gráfico 7

O índice Nikkei 225 está próximo de romper a barreira dos 22 mil pontos. A expectativa é de que a atual trajetória de crescimento da economia japonesa - a melhor dos últimos quatro anos - se mantenha e, com isso, ao gerar uma elevação nos lucros (antes dos impostos) das principais corporações japonesas, continue a estimular o mercado acionário. A dissipação dos temores de uma eventual elevação nas taxas de juros pelo Banco do Japão no curto prazo também contribui para manter o otimismo no mercado.

BALANÇA COMERCIAL E CONTA CORRENTE

O déficit comercial dos Estados Unidos continuou a declinar nos meses finais de 1995, passando de US$ 40,5 bilhões, registrados no terceiro trimestre do ano, para US$ 34,7 bilhões, no quarto trimestre (GRÁFICO 8). Tal queda (de 14,3%) permitiu um déficit anual de US$ 159,7 bilhões, resultado 5,5% superior ao de 1994.

PEM 21 - Gráfico 8

A forte queda do déficit comercial no quarto trimestre foi obtida através de um aumento das exportações, que alcançaram US$ 151,3 bilhões, valor 2,7 e 10,6% superior, respectivamente, ao do período outubro/dezembro de 1995 e ao do último trimestre do ano anterior. As importações apresentaram uma pequena redução de menos de 1% relativamente ao trimestre anterior, embora ainda fossem 5,2% mais elevadas do que em outubro-dezembro de 1994.

Cabe destacar o bom desempenho das exportações norte-americanas de bens ao longo de 1995, com um crescimento de 14% sobre a média do ano anterior.

O déficit dos Estados Unidos em conta corrente no quarto trimestre caiu 23% (de US$ 40,2 bilhões no período julho/setembro para US$ 31,1 bilhões), o mais baixo resultado trimestral em quase dois anos. Com isso, o saldo negativo em conta corrente em 1995 situou-se em US$ 152,9 bilhões, bastante próximo ao observado nos 12 meses anteriores e abaixo das expectativas de muitos analistas econômicos, como as do Goldman Sachs (fevereiro/março de 1996), de US$ 159 bilhões (GRÁFICO 9). Estima-se que o déficit norte-americano em conta corrente continue a contrair-se em 1996, para algo em torno de 1,4% do PIB.

PEM 21 - Gráfico 9

O superávit comercial do Japão prosseguiu em declínio no último trimestre de 1995: após cair de US$ 38,3 bilhões para US$ 32,9 bilhões entre o segundo e o terceiro trimestres do ano, o saldo atingiu US$ 28,5 bilhões nos últimos três meses de 1995, resultado que só foi possível graças a uma redução das exportações, as quais, nos períodos mencionados, passaram de US$ 115,3 bilhões para US$ 105,7 bilhões e US$ 103,6 bilhões, respectivamente. As importações, que haviam alcançado um pico de US$ 77 bilhões em abril/junho de 1995, caíram para US$ 72,8 bilhões no trimestre seguinte, recuperando-se para US$ 75,1 bilhões no quarto trimestre do ano.

Em termos anuais, as exportações japonesas cresceram em média 11,6% em 1995, ao passo que as importações aumentaram a uma taxa de 22,9%, em relação ao ano anterior. Dessa forma, o superávit comercial declinou 7,2% (para US$ 134,7 bilhões), a primeira queda em cinco anos. A menor demanda norte-americana e o contínuo deslocamento de bases produtivas da indústria japonesa para países asiáticos com custos de produção mais baixos sugerem que parte desse declínio deverá ser permanente. Adicionalmente, o persistente crescimento das importações japonesas ao longo de 1995, a despeito da fragilidade do consumo no país, indica uma mudança estrutural da demanda.

Em conta corrente, o superávit japonês reduziu-se pelo segundo ano consecutivo, situando-se em US$ 111,6 bilhões, valor 13,3% inferior ao registrado em 1994. Tal resultado, não obstante, ficou próximo às previsões (US$ 108,8 bilhões, segundo o Goldman Sachs), levando a participação do saldo em conta corrente no PIB a 2,1%, em comparação com os 2,8% no ano anterior. Para 1996, prevê-se que esse coeficiente continue a reduzir-se, chegando a 1,7%.

Já o saldo comercial da Alemanha apresentou um impressionante crescimento de 48% em 1995, relativamente ao ano anterior, atingindo perto de US$ 65 bilhões. Essa expansão foi sustentada pela firmeza das exportações, que, a despeito da valorização do marco, ampliaram-se em 20%, totalizando cerca de US$ 507 bilhões, ao passo que as importações tiveram um aumento de 16,8%, subindo para US$ 442 bilhões.

O superávit comercial alemão havia atingido seu pico de US$ 91,3 bilhões em 1989, caindo drasticamente para aproximadamente US$ 21 bilhões em 1991, como resultado da unificação e do conseqüente desvio de parte das exportações da antiga Alemanha Ocidental para o comércio com a ex-República Democrática da Alemanha.

O forte crescimento das exportações em 1995 ajudou a reduzir o déficit alemão em conta corrente para US$ 18,5 bilhões, a partir de um patamar de US$ 22,2 bilhões em 1994. Esta queda manteve-se dentro das previsões, levando a uma redução do déficit, como proporção do PIB, de 1 para 0,8%, que deverá manter-se em níveis semelhantes em 1996.

Apesar do aumento do déficit comercial do Reino Unido - passou de US$ 16,6 bilhões em 1994 para US$ 18,2 bilhões em 1995 -, o resultado foi parcialmente atenuado por uma melhor performance do comércio com os demais países da União Européia nos dois últimos meses do ano: em novembro, o déficit havia encolhido para seu mais baixo nível em mais de dois anos, transformando-se, em dezembro, em um superávit, após uma queda abrupta das importações provenientes do continente.

Tanto as exportações como as importações britânicas cresceram a uma taxa pouco superior a 16% em 1995. No entanto, essa taxa de expansão das exportações é inferior à do ano anterior e teme-se que o impacto da desaceleração na Europa ainda esteja por vir.

A perspectiva de uma ampliação do déficit comercial britânico em 1996 tem sido reforçada pela possibilidade de abate de parte do rebanho bovino acima de 30 meses, afetado pela "encefalopatia espongiforme bovina" (doença da vaca louca). Neste caso, mais do que os efeitos adversos sobre as exportações de carne, haveria a necessidade de grandes importações de laticínios.

Em conta corrente, o déficit do Reino Unido mais do que triplicou em 1995, ultrapassando US$ 10 bilhões, o que superou em mais de US$ 3 bilhões as expectativas de analistas como o Goldman Sachs.

O superávit comercial da França, que havia sofrido um declínio no terceiro trimestre de 1995, recuperou-se nos últimos meses do ano, permitindo um resultado recorde de US$ 21,5 bilhões, quase 40% mais elevado que o do ano anterior. As exportações e importações cresceram a taxas de, respectivamente, 21,1 e 19,8%, atingindo US$ 286 bilhões e US$ 264,4 bilhões.

Em conta corrente, o superávit francês mais do que dobrou em 1995, passando a US$ 17 bilhões, pouco abaixo das previsões do Goldman Sachs (US$ 19 bilhões). Para 1996, o saldo em conta corrente da França deverá manter-se em 1,1% do PIB.

COMÉRCIO MUNDIAL

O relatório OECD Economic Outlook, publicado em dezembro do ano passado, estima para este grupo de países uma taxa de crescimento, em 1996, de 7,5% do volume de importação de bens, equivalente à verificada no ano anterior. Quanto ao volume de exportação de mercadorias, é esperado um aumento de 7,7%, inferior em cerca de um ponto de percentagem ao ocorrido em 1995, mantendo a tendência declinante iniciada em 1994, mas nitidamente superior aos respectivos incrementos anuais verificados nos quatro primeiros anos da década de 90. Para o volume de comércio mundial, a OCDE estima uma variação de 8,2% em 1996, inferior aos 9,2% observados em 1995.

Para o Brasil, a "demanda dirigida" - medida pela taxa de crescimento do volume de importações dos principais parceiros comerciais mais industrializados, ponderada pelas respectivas participações na pauta de exportação brasileira - deverá atingir 7,7% em 1996 (GRÁFICO 10).

PEM 21 - Gráfico 10

Commodities

O índice dos preços em dólar das commodities elaborado pela revista The Economist manteve-se relativamente estabilizado no primeiro trimestre de 1996, atenuando o movimento de queda que vinha sendo observado desde inícios do ano passado (GRÁFICO 11). Este movimento resulta da conjugação de preços deprimidos para produtos como alumínio, cobre e café (que respondem por mais de 36% da cesta, elaborada a partir das importações da OCDE em 1989/91) com a forte alta que vem sendo verificada nas cotações de alguns produtos agrícolas.

PEM 21 - Gráfico 11

O mercado internacional das commodities vem assistindo desde meados de março a uma intensificação no movimento de alta no preço dos grãos, que levou as cotações a patamares recordes de todos os tempos. Simultaneamente, no entanto, para a grande parte dos demais produtos, após terem sido cotados em níveis bastante elevados no início de 1995, observam-se preços significativamente inferiores, alguns ainda delineando movimento de queda.

A alta nas cotações internacionais dos grãos (soja, milho e trigo), de fato, vem-se verificando desde o começo de 1995, com o aumento da demanda sobre esses produtos, em função de eventos generalizados de quebras na safra 1994/95 na África, CEI e Austrália. O movimento foi posteriormente magnificado devido às enchentes que atingiram em meados do ano passado as lavouras no meio-oeste norte-americano - a que se seguiram um inverno anormalmete rigoroso e uma seca que já dura cinco meses na região -, acarretando uma forte redução na oferta de grãos do país (ver QUADRO ). Adicionalmente, ainda com respeito à oferta, observaram-se a substantiva redução da produção sul-americana de soja (24% na Argentina e 11% no Brasil), problemas climáticos na China e no Canadá e econômicos na Rússia, onde a safra de grãos deverá ser a menor em quase três décadas.

PEM 21 - Quadro

Paralelamente a essas restrições, a demanda asiática por grãos apresenta-se muito aquecida, principalmente na China. Adicionalmente, o rigor e a duração extraordinária do inverno no Hemisfério Norte acarretaram, além dos impactos efetivos sobre as lavouras, uma demanda adicional por esses produtos para elaboração de ração animal, uma vez que são significativos os seus prejuízos sobre as pastagens. Esse mesmo fenômeno foi novamente observado muito recentemente em decorrência da doença conhecida como "vaca louca", que atinge o rebanho inglês. A possibilidade de sua transmissão aos humanos acarretou perspectivas de aumento generalizado da demanda mundial de frangos e suínos, que, por seu turno, consomem mais ração.

A conjunção de todos esses fatores (inclusive a quebra da safra não-americana no ano passado) implicou níveis de estoques dessas mercadorias historicamente baixos e forte pressão nos mercados à vista de grãos, o que, por seu turno, eleva o grau de volatilidade dos preços e de vulnerabilidade ante choques na oferta. A tendência de redução dos estoques mundiais de produtos agrícolas, na verdade, é um fenômeno que tem sido observado há alguns anos, e relaciona-se com as reformas de 1985 e 1990 na gestão da política agrícola norte-americana (diminuindo o volume e a importância dos estoques governamentais) e a utilização de modernas técnicas gerenciais por parte das indústrias de processamento, que têm requerido níveis de estocagem cada vez menores.

Aproveitando-se da alta dos preços, após longos debates, foi aprovada a nova lei agrícola a vigorar nos Estados Unidos. Conhecida como Liberdade para a Agricultura, a legislação fundamentalmente reduz a capacidade de gerência do governo sobre o setor, no que diz respeito à área e aos produtos a serem plantados. Tradicionalmente, os agricultores norte-americanos são estimulados, através de indenizações, a deixar improdutivas por vários anos longas extensões de terra, à guisa de promover o descanso dos solos e conferir alguma estabilidade aos preços. A nova lei também limita significativamente o volume de recursos de incentivos e subsídios a serem destinados aos produtores, desvinculando-os ainda da evolução dos preços realizados nos mercados. Com isso, alguma expansão da área a ser plantada para a próxima safra tem sido de fato esperada - em resposta inclusive à própria alta dos preços -, mas, na realidade, ainda são controversos os verdadeiros impactos no médio e longo prazos da nova legislação sobre a oferta norte-americana de produtos agrícolas. Algumas medidas também têm sido implementadas na União Européia (onde foram aumentados os impostos sobre as exportações para garantir o suprimento interno), visando a expandir no curto prazo em até 5% a sua área cultivada no continente.

Os preços do café, por outro lado, têm-se mantido relativamente estabilizados desde meados de fevereiro de 1996 (ao redor de US$ 1,20 por libra-peso), após terem sido cotados a mais de US$ 2,40 em julho de 1994 (quando ocorreram as geadas e a seca nas lavouras brasileiras) e pouco mais de US$ 0,85 em fins do ano passado. O mercado internacional de café tem sido alvo de intensa especulação, com forte presença dos fundos de investimentos. A recuperação das cotações neste ano vem sendo creditada a alguns problemas climáticos que atingiram as lavouras centro-americanas e aos baixos estoques em poder das indústrias de torrefação. O produto, de fato, tem sido escasso tanto no mercado doméstico quanto internacional, a despeito da forte queda verificada no consumo norte-americano e do aumento da oferta dos produtores não pertencentes à Associação dos Países Produtores de Café (APPC), que agrega 29 membros, responde por 80% da produção mundial e implementa desde julho do ano passado um sistema de ordenamento e retenção das exportações dos seus associados, cuja eficácia tem sido por vezes questionada, embora alguns produtores africanos venham pressionando por maiores restrições na oferta.

O Brasil, ainda sob o impacto da quebra da safra de 1994, após extrapolar suas quotas mensais no segundo semestre do ano passado, atualmente não as vem cumprindo em função da escassez do produto também no mercado interno, o que tem levado o governo brasileiro, fortemente criticado pela falta de uma política mais bem definida para o setor, a leiloar periodicamente parte dos seus estoques. De fato, ante os preços internacionais deprimidos, tem sido justamente o aquecimento do mercado doméstico que tem garantido alguma rentabilidade aos produtores nacionais.

Com respeito aos demais produtos agrícolas, as cotações do cacau têm apresentado desde julho de 1994 intensas oscilações e uma ligeira tendência de queda. Desde o começo de março, no entanto, alguma recuperação tem sido verificada em função de restrições voluntárias anunciadas na oferta da Costa do Marfim (maior produtor mundial) e de alguns sinais de aquecimento do consumo nos Estados Unidos e na Europa. Os preços internacionais do algodão e do açúcar, por fim, têm apresentado um comportamento semelhante: após atingirem um pico no começo de 1995 (devido a quebras na oferta), despencaram fortemente até o terceiro trimestre do ano e hoje encontram-se em níveis comprimidos, uma vez que suas demandas não se apresentam aquecidas.

Esta também tem sido a trajetória dos preços da maioria dos metais e demais produtos de utilização industrial, cujo consumo tem sofrido substancial impacto com o desaquecimento das principais economias industrializadas desde o início do segundo semestre do ano passado, principalmente no que se refere ao setor de construção civil. As previsões para a evolução futura das cotações dessas mercadorias, no entanto, não têm apontado para recuperações significativas (a exemplo do que ocorreu em 1994). Além de uma retomada mais vigorosa no nível de atividade desses países estar sendo esperada apenas para 1997, um aumento na oferta desses produtos no curto prazo tem sido projetado em função das baixas taxas de utilização da capacidade recentemente atingidas e da suspensão das restrições voluntárias na produção que vinham sendo realizadas. Também estima-se que as fundições tenham-se aproveitado dos preços reduzidos e encontrem-se atualmente com seus estoques em níveis satisfatórios.

Petróleo

O preço do barril de petróleo (tipo Brent) vem-se elevando fortemente desde fins de janeiro, quando se situava ao redor de US$ 16, tendo sido cotado, em meados de abril, acima de US$ 23 no mercado à vista (GRÁFICO 12).

PEM 21 - Gráfico 12

O movimento tem sido fundamentalmente creditado ao inverno no Hemisfério Norte (anormalmente rigoroso, nevoento e longo) e aos excessivamente reduzidos níveis dos estoques tanto de petróleo quanto de derivados (nos Estados Unidos, os menores desde o segundo choque). A compressão dos estoques originou-se ainda em meados de 1995, em função do elevado consumo de gasolina no verão norte-americano. Ao longo do segundo semestre do ano passado, a sua recomposição, no entanto, foi prejudicada devido à redução da oferta no Mar do Norte, Oriente Médio e Golfo do México, acarretada por problemas climáticos e serviços de manutenção.

A partir da metade de janeiro de 1996, deu-se início a uma série de reuniões entre autoridades iraquianas e representantes das Nações Unidas com vistas ao retorno do país ao mercado. Embora até meados de abril não se tenha chegado a um consenso, essas negociações mais uma vez desestimularam a aquisição de grandes volumes de petróleo por parte das refinarias (para estocagem), que temem uma queda drástica das cotações, caso, ou quando, o acordo se efetivar. Essa situação levou a uma explosão dos preços no mercado à vista, enquanto os preços futuros apresentam-se significativamente inferiores.

A produção da Opep no primeiro trimestre do ano situou-se em mais de um milhão de barris por dia (Mbd) acima do teto de 24,52 Mbd fixado desde setembro de 1993. O retorno do Iraque ao mercado, nos termos que têm sido negociados, significará um acréscimo de cerca de 0,7 Mbd. Nesse sentido, representantes da Organização têm procurado discutir uma fórmula para acomodar esse virtual incremento e evitar uma espiral deflacionária dos preços. A Venezuela, que há meses mostra-se o mais indisciplinado dos membros no que diz respeito ao cumprimento das quotas, e a Arábia Saudita, que, de fato, "herdou" a produção iraquiana em 1990/91, são apontadas como fortes candidatas a cederem o espaço necessário.

Adicionalmente, os temores acerca dos impactos nos preços do reingresso do Iraque têm possibilitado que os apelos da Opep aos demais países produtores no sentido de uma maior coordenação da oferta mundial de petróleo sejam pela primeira vez efetivamente considerados. Até muito recentemente, esses países, cuja produção (à exceção dos Estados Unidos), graças a inovações tecnológicas e medidas de desregulação e incentivos governamentais, tem-se incrementado substantivamente nos últimos anos, vinham rechaçando qualquer aproximação do cartel nesse sentido.

Não obstante, e a despeito de a demanda na Ásia (exclusive Japão) e nos países em desenvolvimento ainda se manter bastante aquecida - em contraste com o que se observa e projeta para a OCDE -, os analistas mostram-se unânimes em afirmar que a recente alta dos preços não se sustenta e que a curto prazo as cotações deverão se acomodar em um patamar significativamente inferior.

Outras seções: