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Panorama da Economia Mundial nº 21 - abril 1996

Editorial

Revisão das Contas Nacionais Americanas

As contas nacionais americanas de produto e renda têm sido objeto de constantes revisões com o intuito de dar um embasamento cada vez mais consistente à análise do comportamento da economia. O aperfeiçoamento da mensuração de importantes variáveis macroeconômicas, tais como o consumo e o investimento, que juntas representam cerca de 80% do PIB americano (dados relativos a 1990), visa, sobretudo, compreender como suas variações se refletem na duração e profundidade dos ciclos econômicos. Existem basicamente dois tipos de revisões: uma menor, realizada anualmente, e outra mais significativa que ocorre em intervalos maiores, diferindo basicamente no escopo das mudanças incorporadas e no número de anos sujeitos à revisão.

As principais modificações que foram incorporadas na revisão de dezembro de 1995 foram: a introdução de uma nova metodologia de mensuração para o produto real e para o nível de preços; a implementação de uma melhor estimativa dos estoques de capital nas empresas e dos gastos com depreciação; e uma mudança no tratamento das contas governamentais que passaram a computar os dispêndios em equipamento e infra-estrutura como investimento.

Na base das mudanças ocorridas nas últimas estimativas das contas nacionais, especialmente as denominadas em dólar corrente, do produto real e do nível de preços, estão as novas e revisadas fontes de dados - tais como as tabelas de insumo-produto de 1987, dados do censo econômico de 1992 e vários estudos efetuados entre 1993 e 1994. As mudanças no padrão de medida dessas duas últimas variáveis referem-se à adoção de índices com ponderações encadeadas anualmente (ou simplesmente índices de base móvel), ao contrário dos índices construídos utilizando uma base fixa (ano-base), que tomam como referência os pesos de um determinado ano e que são atualizados por ocasião de revisões periódicas mais extensas. Esta mudança é bastante importante e reflete a necessidade de estimação de quantidades e preços utilizando pesos mais apropriados para os anos que estão sendo analisados.

Pela nova metodologia as contas nacionais serão calculadas usando-se pesos dos anos adjacentes. Sua principal vantagem será permitir que os índices de base móvel utilizados na construção das séries de preços e quantidades reflitam alterações dos preços relativos e mudanças na composição do produto ao longo do tempo, em contraste com a metodologia anterior que se baseava em um conjunto de pesos fixos para todas as séries ao longo do tempo. Na literatura sobre números índices, já há algum tempo se conhecem as distorções na medição do PIB baseadas na metodologia de preços fixos para um único ano, que tende a estabelecer erroneamente um crescimento adicional após o período-base. Esta tendência, denominada viés substituição, reflete o fato de que os setores que crescem acima da média tendem a ter seus preços crescendo abaixo da média ou, em certos casos, até decrescendo. Isto posto, o processo de recalcular as estimativas do PIB, utilizando pesos de anos mais recentes, gera resultados mais consistentes na medida em que atribui pesos, ou seja, participações, menores para os setores mais dinâmicos, refletindo, assim, sua verdadeira participação relativa no produto. Entretanto, para os anos mais distantes do ano-base, o problema persiste, pois os preços não refletem com exatidão o peso do setor na economia como um todo. Um exemplo desse tipo de problema está no atual ciclo de expansão vivenciado pela economia americana, onde a média anual de crescimento do PIB real está superestimada em 0,5 ponto de percentagem. Nos ciclos passados - antes do ano-base -, ocorre justamente o inverso, com uma subestimativa da mesma magnitude.

Um exemplo da necessidade de se desenvolver, a partir dos anos 80, uma nova metodologia pode ser identificada no comportamento do setor de informática. Os preços dos computadores declinaram a uma taxa média anual de 17% entre 1982 e 1987, quando o produto do setor de informática, por sua vez, aumentou a uma taxa de 34%. O resultado dessas duas mudanças causou significativas revisões nas estimativas do PIB, quando os pesos e o ano-base se alteraram (de 1982 para 1987), por ocasião da grande revisão ao final de 1991.

Uma das grandes vantagens desta alteração metodológica será eliminar os inconvenientes e as confusões normalmente associadas à atualização dos pesos e períodos-base (a cada cinco anos) e, com isso, reescrever a história econômica. É justamente através da minimização do viés substituição que se permitirá uma análise mais acurada de vários temas importantes, tais como produtividade, retorno dos gastos de investimento e medição do potencial de crescimento de longo prazo da economia. A análise da tendência da expansão do PIB potencial, bem como suas alterações, ficará livre das distorções das medidas de peso fixo.

Com respeito aos ciclos econômicos, a utilização de índices de base móvel nos fornece um quadro mais preciso da extensão das expansões e da profundidade das contrações. A principal conclusão a que se chega é que desde o primeiro trimestre de 1991, período mais crítico da recessão, a taxa média anual de crescimento do PIB real tem estado superestimada, em média, em 0,5 ponto percentual, sugerindo que o atual ciclo de expansão vivenciado pela economia americana tem sido relativamente menos intenso. De fato, os excelentes resultados obtidos nos últimos trimestres de 1992 a 1994 (série antiga) - períodos de mais forte crescimento em cada ano - foram reduzidos na série nova em aproximadamente 1,3 ponto de percentagem (ver QUADRO ).

PEM 21 - Quadro do Editorial

A utilização da nova metodologia nos ajuda não só a ter uma melhor visão geral do ciclo econômico, mas também da contribuição individual que os componentes do PIB desempenham no processo. Por exemplo, a contribuição do setor de bens duráveis (que inclui a indústria de informática) para o crescimento do PIB real na atual expansão foi reduzida de 38,9% para 32,4%. Por outro lado, sua contribuição nos ciclos passados elevou-se de 10,7% para 13,3%, entre 1960 e 1990.

Com relação ao investimento, a utilização do método de pesos fixos tem gerado uma superestimativa do impacto dos investimentos recentes na indústria de computação, se comparado aos gastos de capital em outros setores, devido ao fato de o peso de seu produto ter estado superdimensionado em relação ao do resto da economia. Em 1987, as inovações tecnológicas no setor de informática já haviam permitido uma redução de um mainframe (computador de grande porte) para algo em torno de US$ 80 mil, menos do que os US$ 102 mil de custo médio de uma casa equivalente. Em 1995, o preço de um computador de capacidade equivalente ao dos anos anteriores de comparação reduziu-se para cerca de US$ 30 mil, menos de 1/4 do custo residencial equivalente. Esses dados demonstram como os preços relativos variaram entre esses dois setores e como, a partir de medidas dos seus respectivos produtos, utilizando o método de pesos fixos, se podem gerar expressivas distorções no valor relativo do impacto dos investimentos em cada setor sobre o total da economia. Além disso, a revisão das contas nacionais revelou simultaneamente dois outros fatos: o investimento bruto das empresas tem crescido menos rapidamente e o estoque de capital tem-se depreciado a um ritmo maior do que se pensava anteriormente. Observa-se, portanto, uma expansão mais modesta do investimento devido ao efeito estatístico da alteração metodológica e não a uma forte desaceleração de fato do nível de atividade econômica. Outro aspecto bastante importante refere-se à análise da produtividade - medida pelo PIB real por horas trabalhadas -, que sofreu uma dedução nas suas estimativas a partir de 1993, mostrando agora um crescimento mais lento. Esse fato, por sua vez, levou a uma reestimativa do custo unitário da mão-de-obra. As novas medidas parecem mais consistentes com os resultados da amostra ampliada referente à mensuração do produto e das horas trabalhadas. A principal conclusão desta releitura é o crescente sinal de que o fim do longo período de crescimento das margens de lucro poderia estar próximo. As novas informações sobre o crescimento da renda, oriundas da última grande revisão estatística das contas nacionais, em geral, não alteraram o padrão de comportamento da poupança pessoal. O grande declínio observado no início dos anos 80 até 1986 foi mantido. Entretanto, de 1987 até 1992, pela nova metodologia de pesos móveis, a taxa de poupança pessoal reduziu-se relativamente mais e, a partir de então, as duas séries voltaram a ficar bastante próximas e crescentes.

Sumário e Projeções

O panorama econômico mundial no primeiro trimestre de 1996 foi marcado pela continuidade do movimento generalizado de desaceleração do crescimento observado no âmbito dos países do G-7 (as sete nações industrializadas mais importantes), iniciado principalmente a partir do segundo semestre de 1995 - com exceção do Japão, que vem apresentando desde o quarto trimestre do ano passado uma suave recuperação -, e que tem logrado manter sob relativo controle as pressões inflacionárias nessas economias. As previsões correntes apontam para uma taxa de crescimento do produto agregado da OCDE da ordem de 2% em 1996 e 2,7% em 1996 (TABELAS 1 a 4).

PEM 21 - Tabela 1

PEM 21 - Tabela 2

PEM 21 - Tabela 3

PEM 21 - Tabela 4

A desaceleração do ritmo de crescimento desses países, por seu turno, permitiu um maior abrandamento das respectivas políticas monetárias: desde o início de 1995 até abril último, as taxas da juros de curto prazo caíram 0,25 ponto percentual nos Estados Unidos, 1,5 na Alemanha e 1,25 no Japão. Com relação às taxas de longo prazo, as projeções do banco de investimento Goldman Sachs apontam para uma elevação dos juros dos títulos de 10 anos dos governos desses três países.

Com relação ao comércio internacional, segundo as últimas estimativas da OCDE, o crescimento do volume das importações dos países industrializados deverá atingir 7,7% em 1996, inferior em quase um ponto de percentagem ao de 1995. A taxa de crescimento do comércio mundial (incluindo as economias em desenvolvimento, além das industrializadas), segundo o Projeto Link das Nações Unidas, apresentará a mesma magnitude, representando entretanto uma desaceleração mais significativa se comparada à taxa de 1994 (9,9%). Para o Brasil, a "demanda dirigida" - medida pela taxa de crescimento do volume de importações dos principais parceiros comerciais, ponderada pelas respectivas participações na pauta de exportações brasileiras - deverá também alcançar 7,7% em 1996.

Após sofrer uma forte desvalorização frente ao iene e ao marco em 1994 e nos primeiros quatro meses de 1995, o dólar, a partir de maio do ano passado, voltou a se recuperar ante essas moedas, movimento que deve perdurar ao longo de 1996.

O índice da média dos preços das commodities manteve-se relativamente estabilizado no primeiro trimestre de 1996, atenuando o movimento de queda que se vinha observando desde o início do ano passado. Este movimento, entretanto, resulta da conjugação de preços deprimidos para produtos como alumínio, cobre e café, com a forte alta que vem sendo observada nas cotações de alguns produtos agrícolas, principalmente grãos.

As cotações do petróleo (tipo Brent) experimentaram uma forte recuperação desde fins de janeiro, quando se situavam ao redor de US$ 16, ultrapassando em meados de abril os US$ 23. Apesar de a demanda na Ásia (exclusive Japão) e nos países em desenvolvimento ainda se manter bastante aquecida - em contraste com o que se observa para a OCDE -, os analistas mostram-se unânimes em afirmar que a recente alta dos preços não se sustenta e que a curto prazo as cotações deverão se acomodar em um patamar significativamente inferior.

Com relação aos parceiros do Brasil no Mercosul, na Argentina, uma vez debelado o quadro recessivo que se instalou no país no ano passado (de fato, os sinais de recuperação ainda são tênues), o produto deverá apresentar razoáveis taxas de expansão em 1996 e 1997, com um possível e ligeiro recrudescimento da inflação. Estima-se também que as exportações do país manterão seu bom desempenho e que, por isso, o déficit argentino em conta corrente permanecerá em patamares reduzidos (TABELA 5).

PEM 21 - Tabela 5

No biênio 1996/97, a economia paraguaia, segundo o Consensus Forecats, continuará expandindo-se a taxas relativamente elevadas, sem que, entretanto, seja comprometido seu programa de combate à inflação. No Uruguai, por fim, alguma recuperação do PIB também tem sido esperada nesses anos, após o fraco desempenho observado em 1995.