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Panorama da Economia Mundial nº 20 - janeiro 1996

MERCOSUL

Argentina

O choque externo, originado pela crise mexicana de dezembro de 1994, gerou uma desconfiança sobre as economias que mantinham elevados déficits em conta corrente financiados por meio de capitais externos de curto prazo. Na economia argentina, este efeito provocou uma fuga de capitais que reduziu substancialmente o nível de liquidez. O sistema financeiro passou a enfrentar elevados graus de inadimplência, colocando dúvidas sobre a insolvência generalizada do sistema bancário. A elevação da taxa de juros e a falta de crédito afetaram o nível de atividade econômica principalmente no segundo e no terceiro trimestres. Como resultado final, pela primeira vez desde o início do Plano de Conversibilidade, o PIB argentino apresentou uma queda em torno de 2,5% em 1995, que só não foi mais acentuada devido ao crescimento das exportações favorecido pelo cenário internacional.

No entanto, a economia argentina encerrou o ano em clima de expectativas bastante favoráveis. No final de dezembro, as reservas internacionais, fundamentais para restabelecer a liquidez, retornaram ao patamar de US$ 15 bilhões, compatível com os níveis históricos de 1994, e o índice Merval (bolsa de valores) e a cotação dos títulos públicos aumentaram significativamente. As taxas de juros em pesos e em dólares se aproximaram, indicando a retomada da confiança na manutenção da paridade de um dólar por um peso.

A mudança de expectativas começou a ocorrer em novembro, quando um acordo político encerrou, ao menos provisoriamente, as desavenças públicas entre o ministro Cavallo e o presidente Menem e o Executivo apresentou dois projetos a serem enviados ao Congresso: o primeiro, denominado Segunda Reforma do Estado, solicita poderes extraordinários para extinguir, unificar e reformular a estrutura do governo, visando reduzir permanentemente os gastos públicos; e o segundo também pede poderes para efetuar uma reformulação fiscal, incluindo medidas tais como alterar alíquotas, ampliar a base tributável e eliminar as isenções, buscando obter receitas tributárias compatíveis com as despesas atuais. Com estas duas iniciativas, o governo procurou convencer os agentes privados de que as contas fiscais estariam definitivamente sob controle.

De fato, o anúncio destas medidas trouxe um impacto favorável às expectativas dos agentes econômicos. Por exemplo, a mudança de clima favoreceu a moratória tributária, em que os devedores reconhecem suas dívidas com o fisco e comprometem-se a pagá-las em parcelas mensais. As dívidas declaradas atingiram 4 bilhões de pesos, um resultado surpreendente até para o governo, que esperava uma receita de 1 bilhão de pesos.

Para alguns analistas econômicos, o "efeito tequila" contribuiu para consolidar o Plano de Conversibilidade como um instrumento de política econômica. A manutenção do câmbio fixo em um período recessivo serviu para comprovar que o Plano é sustentável frente aos ciclos econômicos, já que até então sua viabilidade estava vinculada apenas às fases de crescimento econômico.

NÍVEL DE ATIVIDADE

O índice do produto industrial dessazonalizado de novembro de 1995, último dado disponível, medido pela Fiel, apresentou um aumento de 1,4% em relação ao mês anterior e de 3,1% em relação a setembro, que registrou a menor taxa, confirmando assim a recuperação gradativa da atividade industrial no quarto trimestre do ano passado.

Entre janeiro e novembro de 1995, relativamente ao mesmo período do ano anterior, o produto industrial apresentou uma queda de 5,1%, o que significou um nível de atividade industrial similar ao registrado em 1992 (GRÁFICO 13).

Gráfico 13 - Argentina - Índice de Produção Industrial
Variação % em 12 meses do trimestre móvel

PEM 20 - Gráfico 13

Fonte: FIEL. Elaboração: IPEA/DIPES.

Para 1995, as estimativas do PIB e do produto industrial indicam uma queda, respectivamente, de 2,5 e 5,5%.

A taxa de desemprego em outubro atingiu 16,4%, contra 12,2% no mesmo mês do ano anterior. Quando comparada a maio de 1995, que registrou 18,4%, verificou-se uma pequena melhora, desempenho que, para o governo, confirma a reativação da economia. Entretanto, esta queda é explicada basicamente pela diminuição da população economicamente ativa (PEA) e não por um aumento dos postos de trabalho.

Os prognósticos sobre a evolução futura da taxa de desemprego são bastante controversos. O governo afirma que a retomada da atividade econômica e a flexibilização das leis trabalhistas, tais como a negociação coletiva descentralizada ao nível da empresa e a substituição do regime de indenizações e de seguro-desemprego por um fundo de capital formado pelos próprios trabalhadores, serão suficientes para proporcionar uma redução substancial da taxa de desemprego. Entretanto, outros estudiosos asseguram que a criação de cerca de 12 mil novos empregos ocorrida no período maio-outubro de 1995 é insignificante, frente ao crescimento vegetativo da população, e não vislumbram uma perspectiva animadora para o problema.

INFLAÇÃO

No quarto trimestre, a taxa de inflação mensal, medida pelo IPC, manteve-se reduzida: 0,3% em outubro, 0,2% negativo em novembro e 0,1% em dezembro. Em 1995, a variação acumulada dos preços ao consumidor atingiu 1,6%, a mais baixa desde o início do Plano de Conversibilidade e também inferior à verificada nos Estados Unidos (2,6% de variação acumulada nos 12 meses terminados em novembro). O IPA também manteve uma variação pequena de 0,1% em outubro, 0,2% negativo em novembro e 0,2% em dezembro, de modo que a variação em 1995 atingiu 6% (ver no GRÁFICO 14 a inflação acumulada nos últimos 12 meses do IPC e IPA).

Gráfico 14 - Argentina - Taxas de Inflação
Variação % em 12 meses

PEM 20 - Gráfico 14

Fonte: Indec (Ambito Financiero). Elaboração: IPEA/DIPES.

A taxa de inflação mensal entre 0,1 e 0,2%, à exceção de meses atípicos em que se registraram variações negativas ou valores superiores a 0,5%, vem ocorrendo desde novembro de 1993. Em 1995, a recessão econômica contribuiu para manter baixa a variação de preços.

TAXA DE CÂMBIO E CONTAS EXTERNAS

Em 1995, a taxa de inflação argentina, inferior à americana em cerca de um ponto de percentagem, ambas calculadas pelo IPC, gerou, pela primeira vez desde o início do Plano de Conversibilidade, uma desvalorização real equivalente do câmbio.

No período janeiro/outubro de 1995, as exportações alcançaram US$ 17.503 milhões, contra US$ 12.946 milhões no mesmo período do ano anterior, o que representou um incremento de 35,2%. As importações atingiram US$ 16.432 milhões, contra US$ 17.729 milhões, sinalizando uma queda de 7,3%. Assim, a balança comercial passou de um déficit de US$ 4.783 milhões para um superávit de US$ 1.071 milhões.

O crescimento das exportações ocorreu em todas as categorias: 32% em produtos primários, 30% em manufaturados de origem agropecuária, 47% em manufaturados de origem industrial e 30% em combustíveis. Quanto ao destino, as exportações para o Mercosul tiveram um papel preponderante, com crescimento de 54%, enquanto as dirigidas ao Nafta caíram 6%, à União Européia aumentaram 16% e ao resto do mundo aumentaram 51%.

O superávit comercial atingido nos primeiros 10 meses do ano pode ser atribuído, em certa medida, à queda das importações provocada pela recessão econômica e ao aumento dos preços internacionais de commodities, que tradicionalmente compõem a pauta de exportações argentinas. No período janeiro/outubro, a balança comercial, após apresentar déficit nos três primeiros meses, passou a mostrar superávits. Nos dois últimos meses (setembro e outubro), voltou a assinalar novamente déficits. Assim, não há ainda informações suficientes para afirmar que ocorreu um ajuste permanente no comércio de mercadorias, que implique um déficit em transações correntes sustentável no longo prazo.

Para o ano de 1995, o governo estima que as exportações tenham alcançado cerca de US$ 21 bilhões e as importações US$ 20 bilhões, com um saldo comercial, portanto, de US$ 1 bilhão. Porém, reconhece a possibilidade de novos déficits, em virtude da reativação da economia e do maior acesso ao financiamento externo.

As reservas internacionais líquidas disponíveis no Banco Central argentino, que variaram entre US$ 14 bilhões e US$ 15 bilhões em 1994, caíram para US$ 10.898 milhões no final de maio, recuperando-se posteriormente, embora com oscilações em virtude das crises políticas, para alcançar no final de novembro US$ 12.279 milhões. No final de dezembro, as reservas internacionais atingiram US$ 15.477 milhões, nível recorde no Plano de Conversibilidade.

SISTEMA FISCAL E MONETÁRIO

O governo argentino terminou o ano de 1995 com um déficit fiscal em torno de US$ 2,2 bilhões. No entanto, os financiamentos obtidos foram suficientes para manter em dia os compromissos públicos.

Para 1996, o déficit fiscal a ser financiado é de US$ 3 bilhões, o que poderá ser reduzido através da Segunda Reforma do Estado e das mudanças tributárias, ainda em discussão no Congresso. Apesar do déficit público, correspondente a 1% do PIB, ser perfeitamente financiável nas atuais condições do mercado financeiro, duas advertências podem ser colocadas: primeiro, é necessário atingir um superávit que permita o uso de política fiscal quando o mercado se encontrar em condições adversas; e, segundo, o financiamento através de capitais externos de curto prazo torna extremamente volátil o nível de reservas internacionais, com fortes repercussões sobre o grau de liquidez monetária no mercado doméstico.

O pacote fiscal apresentado pelo governo baseia-se nos seguintes pontos:

a) prorrogação da alíquota provisória de 21% do IVA (cujo término estava previsto para o próximo mês de abril) até o final de 1996 e permissão para o executivo aplicar reduções de até 50% e eliminar as isenções vigentes do IVA sobre produtos como livros e revistas e sobre serviços como transporte de passageiros e educação;

b) extensão da aplicação do Imposto sobre Bens Pessoais a ativos não-declarados e aumento da alíquota de 0,5 para 1%;

c) elevação, até o limite de 20%, das alíquotas de impostos sobre bens supérfluos, como cigarros, bebidas alcoólicas, perfumes e cosméticos, e extensão de sua aplicação a novos bens, e

d) eliminação das isenções do imposto de renda.

A base monetária, que atingiu 11.010 milhões de pesos em abril, medida pela média diária, alcançou 11.129 milhões de pesos, em novembro, enquanto o total de depósitos bancários passou de 37.664 milhões de pesos em fins de abril para 42.942 milhões de pesos no final de novembro. Os depósitos em pesos argentinos aumentaram mais significativamente em dezembro, com a maior confiança sobre a continuidade do Plano de Conversibilidade. Assim, a remuneração dos depósitos a prazo fixo em pesos atingiu cerca de 9% ao ano, enquanto os depósitos em dólares alcançaram uma taxa de juros ao redor de 7% ao ano. A diferença de aproximadamente 2 pontos de percentagem é substancialmente inferior à vigente em março passado, no auge da crise mexicana, quando alcançou 10 pontos.

A taxa de juros em pesos para empresas de primeira linha, que chegou no final de março a 27% ao ano, com pico de 33,6%, caiu gradativamente, mantendo-se em torno de 12,4% em dezembro passado. Entretanto, ainda está distante da taxa verificada em novembro de 1994 (10,1%), principalmente se considerarmos que a expectativa de inflação hoje é menor.

Como resultado positivo da crise mexicana, ocorreu um fortalecimento do sistema bancário argentino e foram criadas as condições políticas para que os bancos estaduais sejam privatizados.

PERSPECTIVAS

Segundo os analistas consultados pelo Latin American Consensus Forecasts de dezembro passado, as estimativas para 1996 são as seguintes: o PIB deverá aumentar 2,8%, o produto industrial 2,9%, o consumo 1,6% e o investimento 5,8%. Quanto à taxa de inflação (IPC), a expectativa é de 2,4%. As exportações são estimadas em US$ 22,6 bilhões e as importações em US$ 21,4 bilhões, o que gerará um saldo comercial de US$ 1,2 bilhão. O déficit em transações correntes é calculado em US$ 3,1 bilhões, compatível com as disponibilidades de financiamento externo.

Por último, vale enfatizar que, se as expectativas favoráveis de dezembro passado forem mantidas, é possível uma retomada mais firme da atividade econômica, propiciando, conforme esperado pelo governo, um incremento do PIB de 5% em 1996.

Paraguai

Em 1995 o Paraguai apresentou um desempenho macroeconômico marcado pela queda consistente de inflação, com uma taxa anual provavelmente inferior a 11%, conjugada à continuação do crescimento econômico a um nível estimado em cerca de 4,2% e à preservação de um superávit fiscal em torno de 2% do PIB. O aspecto mais desfavorável pode ser localizado na evolução das exportações, que apresentaram um baixo crescimento, em grande parte atribuível à evolução da economia brasileira - que absorve aproximadamente 45% das vendas externas paraguaias - a partir do segundo trimestre do ano passado.

NÍVEL DE ATIVIDADE

A despeito das expectativas iniciais, que previam uma forte retração econômica no país, devido à crise financeira iniciada no segundo trimestre do ano passado, segundo estimativas preliminares do Banco Central do Paraguai a economia deverá apresentar um crescimento de 4,2% em 1995. Tal expansão foi liderada pelo comportamento do setor agropecuário - responsável por cerca de 26% do PIB do país -, que teria registrado um aumento de 7,3%, após uma queda de 0,6% em 1994.

No entanto, outros setores tenderam a um menor ritmo de crescimento, como o comércio, mais afetado pela falta de crédito observada no terceiro trimestre do ano passado.

INFLAÇÃO

O terceiro trimestre de 1995 apresentou índices mensais de inflação baixos: 1% em julho, -0,2% em agosto e 0,2% em setembro, acumulando uma taxa de 8,3% nos nove primeiros meses do ano e de 12,3% nos últimos 12 meses (GRÁFICO 15).

Gráfico 15 - Paraguai - Preços ao Consumidor
Variação em 12 meses

PEM 20 - Gráfico 15

Fonte: Banco Central de Paraguay. Elaboração: IPEA/DIPES.

Os reduzidos níveis de inflação recentes podem ser atribuídos à queda da demanda, em especial do consumo, resultante da contração da liquidez provocada pelo aperto ao crédito a partir da crise do sistema financeiro. Foram igualmente importantes o superávit fiscal e a política monetária restritiva.

Segundo informações veiculadas pelo jornal Ambito Financiero, a inflação acumulada nos 11 meses até novembro teria ficado em 9,6%, o que significaria uma queda em 12 meses para 10,6%. Confirmados estes números, a taxa de variação dos preços de 1995 no Paraguai deverá situar-se entre 10,2 e 10,5%, o mais baixo nível alcançado desde 1982.

TAXA DE CÂMBIO E CONTAS EXTERNAS

Em termos nominais, a taxa de câmbio manteve-se praticamente estável durante o terceiro trimestre do ano passado (cerca de 1.972 guaranis por dólar, para venda), tendo sofrido uma pequena desvalorização de 1,3% no período janeiro/setembro. Em termos reais, a moeda paraguaia registrou uma valorização de pouco mais de 4% nos nove primeiros meses de 1995.

Naquele período, o déficit na balança comercial alcançou US$ 1.478 milhões, resultante de exportações registradas no valor de US$ 646 milhões e importações de US$ 2.124 milhões (dados preliminares), respectivamente 3,3 e 46,5% superiores aos valores observados nos três primeiros trimestres de 1994. Tal evolução reflete a apreciação da taxa de câmbio real paraguaia, especialmente em relação à moeda brasileira, a desaceleração da atividade econômica no Brasil e na Argentina e as medidas destinadas a conter os déficits comerciais adotadas pelo Brasil desde o segundo trimestre do ano passado.

Dessa forma, as exportações do Paraguai destinadas ao Brasil - seu maior parceiro comercial -, embora tenham aumentado significativamente no acumulado do ano até setembro, reduziram-se em quase 50% a partir de agosto, a despeito do ritmo crescente das vendas externas globais paraguaias desde julho, lideradas pelas maiores exportações de algodão (107%), beneficiadas pelos altos preços da fibra no mercado internacional. Os demais itens tradicionais da pauta paraguaia - soja em grão, madeira e óleo de soja - registraram queda de vendas, em 1995 até setembro.

Neste período, as importações provenientes dos sócios do Mercosul aumentaram 32%, levando, portanto, a uma diminuição da participação dos países daquele bloco econômico no mercado paraguaio. O Brasil liderou as vendas, com US$ 441 milhões, seguido pela Argentina (US$ 332 milhões) e pelo Uruguai (US$ 24 milhões).

Em setembro do ano passado, o saldo das reservas internacionais líquidas do Paraguai mantinha-se ligeiramente acima de US$ 1,1 bilhão.

SISTEMA FISCAL

Nos nove primeiros meses de 1995, o superávit fiscal do governo central do Paraguai elevou-se para US$ 194 milhões, equivalente a cerca de 2% do PIB e 9% superior ao obtido em idêntico período do ano anterior. As receitas fiscais aumentaram 22%, com destaque para o incremento da arrecadação tributária (40%). Por outro lado, os gastos correntes elevaram-se em 17%, sendo que os investimentos em capital fixo registraram uma expansão de 84%.

Nos últimos meses, porém, observou-se uma reversão da tendência crescente apresentada pela arrecadação fiscal ao longo do primeiro semestre do ano, como conseqüência da desaceleração da atividade econômica que se seguiu à crise financeira instalada em maio, controlada por operações de salvamento patrocinadas pelo Banco Central, que já somam US$ 332 milhões.

A receita proveniente do IVA, por exemplo, caiu em setembro (-2,1%) pelo terceiro mês consecutivo, embora ainda 17% superior ao valor obtido no mesmo mês em 1994. Um movimento semelhante foi registrado pelos impostos aduaneiros: arrecadação em setembro 18,8% inferior à de agosto, mas 56,7% mais elevada que a de setembro de 1994.

PERSPECTIVAS

Segundo informações do Banco Central paraguaio, a provável manutenção do ritmo de crescimento da economia a uma taxa de 4,2% em 1995 permite estimar um crescimento superior a 5% para 1996, desde que se cumpram os programas de privatização e racionalização de gastos por parte do governo. A taxa de inflação projetada para o ano que se inicia é de 9%.

Uruguai

O programa econômico do governo uruguaio, lançado em março de 1995, vem atingindo suas principais metas no que tange à redução da inflação e dos déficits fiscal e comercial, bem como à diminuição do ritmo de valorização do peso. No entanto, a queda do Produto Interno Bruto superou bastante as expectativas, devendo ficar entre 1,8 e 2% em 1995, enquanto a taxa de desemprego já era superior a 11% no trimestre agosto-outubro de 1995.

NÍVEL DE ATIVIDADE

No terceiro trimestre de 1995, a economia uruguaia contraiu-se em 5,6%, fazendo com que a queda no nível de atividade tenha acumulado 1,9% no ano (até setembro). Neste período, os principais setores negativamente afetados foram construção (-16,6%), comércio incluindo hotéis e restaurantes (-9,8%) e indústria (-8,7%). Dentre os setores que lograram obter algum crescimento destacam-se pesca (17,9%), agropecuária (5,9%) e transportes e comunicação (4,9%).

O processo recessivo, resultante das medidas fiscais do programa econômico lançado no final de março de 1995, que levaram à queda do consumo interno, e da forte contração da demanda argentina, levou a um aumento da taxa de desemprego ao nível de 11,1% no trimestre agosto-outubro (GRÁFICO 16).

Gráfico 16 - Uruguai - Taxa de Desemprego - Montevidéo
% da PEA - trimestre móvel

PEM 20 - Gráfico 16

Fonte: Cepal. Elaboração: IPEA/DIPES.

Estima-se para 1995 uma queda do PIB de cerca de 2% e que a fase recessiva se estenda até meados de 1996.

INFLAÇÃO

O ano de 1995 registrou uma inflação de 35,4%, a menor dos últimos 13 anos, resultado da política econômica implementada pelo governo do presidente Sanguinetti empossado em março, que previa uma redução gradual da inflação. De fato, o IPC de 1995 ficou quase nove pontos percentuais abaixo da taxa do ano anterior, de 44,1% (GRÁFICO 17).

Gráfico 17 - Uruguai - Taxas de Inflação
Variação % em 12 meses

PEM 20 - Gráfico 17

Fonte: INE e Banco Central del Uruguay (Búsqueda). Elaboração: IPEA/DIPES.

Mantendo a tendência dos últimos anos, os setores produtores de bens não-comercializáveis apresentaram aumentos acima da média, como educação (45,8%), habitação (41,5%) e saúde (40,8%), enquanto variações inferiores à média foram registradas por vestuário (33,7%) e alimentos (29,4%).

O Índice de Preços no Atacado também revelou-se em queda, passando de 40,9% em 1994 para 27,7% em 1995. Os produtos agropecuários acumularam um aumento de 18,4% e os manufaturados 31,3%.

A trajetória declinante da inflação nos últimos meses de 1995 possibilita uma revisão da projeção feita à época do lançamento do Programa de Mejora de la Competitividad y Reordenamiento Tributario, de 34% para o período abril de 1995 a março de 1996. As previsões mais recentes indicam uma taxa de 30% para o "ano-programa" e de 20% para 1996.

TAXA DE CÂMBIO E CONTAS EXTERNAS

O peso uruguaio teve sua cotação frente ao dólar aumentada em 26,9% em 1995, o que acarretou uma valorização real de aproximadamente 3,8%, dadas as inflações uruguaia (35%) e americana (2,6%).

No período de nove meses encerrado em setembro, as exportações alcançaram US$ 1.576 milhões e as importações US$ 2.083 milhões, respectivamente 13,6 e 4,1% superiores aos valores registrados no mesmo período de 1994. O déficit comercial, de US$ 506,6 milhões, foi, portanto, 17,4% inferior ao dos nove meses até setembro de 1994.

A menor demanda argentina resultou em uma queda de quase US$ 100 milhões nas exportações uruguaias (-33,85%), compensada principalmente pelo aumento de US$ 200 milhões nas vendas ao Brasil.

SISTEMA FISCAL

Ao longo de 1995, no período de 12 meses encerrado em setembro, o déficit fiscal uruguaio reduziu-se acumulando US$ 350 milhões, equivalente a 2,1% do PIB em comparação aos 3% observados no ano anterior, enquanto em março e junho tais valores alcançavam, respectivamente, US$ 542 milhões e US$ 427 milhões, correspondentes a 3,4 e 2,6% do PIB.

A redução do desequilíbrio fiscal vem sendo obtida a despeito do crescimento do déficit do governo, que, de acordo com dados do Banco Central e medido por fontes de financiamento, atingiu US$ 160,1 milhões no período janeiro-setembro, sendo composto por déficits do governo central e parafiscal de, respectivamente, US$ 241,1 milhões e US$ 73,7 milhões e por um superávit de US$ 154,7 milhões das empresas estatais.

Estima-se que o déficit fiscal em 1995 situou-se em 2% do PIB, em comparação com os 3% no ano anterior.

PERSPECTIVAS

Segundo o programa atualmente em negociação com o Fundo Monetário Internacional, para 1996 são previstos uma taxa de inflação e uma desvalorização da moeda nacional de 20%, um modesto crescimento da economia de 1% e uma redução do déficit público a um nível entre 0,9 e 1,3% do PIB. Projeta-se um crescimento de 3% nas exportações de bens e serviços e a manutenção do nível de importações de 1995.

Fluxos Comerciais e Paridades Cambiais

A corrente de comércio (a soma das exportações com as importações) do Brasil com os demais parceiros do Mercosul totalizou US$ 10,9 bilhões nos primeiros 10 meses de 1995, valor 33% superior aos US$ 8,2 bilhões observados no mesmo período do ano anterior. A despeito desse forte crescimento, a participação da região na corrente total do comércio brasileiro tem-se mantido relativamente estabilizada e um pouco inferior à marca de 14%.

Esses números também são resultado de um incremento de mais de 70% das importações com origem no Mercosul - que somaram US$ 5,7 bilhões no período - e de menos de 6% nas exportações, o que, por seu turno, acarretou um déficit de cerca de US$ 560 milhões ante o quase US$ 1,6 bilhão de superávit acumulado entre janeiro e outubro de 1994.

Em termos tendenciais, considerando uma média móvel de 12 meses, o saldo negativo do Brasil com a Argentina parece ter-se recentemente estabilizado, com a taxa de crescimento das importações começando a apresentar perda de fôlego (GRÁFICO 18). O comércio com o Uruguai, por outro lado, tem-se mostrado relativamente equilibrado desde meados de 1995, enquanto o superávit brasileiro com o Paraguai mantém uma ligeira tendência de expansão (GRÁFICO 19).

Gráfico 18 - Comércio Brasileiro com a Argentina
Média mensal de 12 meses (US$ milhões)

PEM 20 - Gráfico 18

Fonte: DTIC-Secex. Elaboração: IPEA/DIPES.

Gráfico 19 - Comércio Brasileiro com Uruguai e Paraguai
Média mensal de 12 meses (US$ milhões)

PEM 20 - Gráfico 19

Fonte: DTIC-Secex. Elaboração: IPEA/DIPES.

Os recentes sinais de relativa melhora do desempenho comercial do Brasil na região apresentam-se, de certa forma, como reflexo do comportamento das respectivas taxas de câmbio ao longo de 1995. Em termos reais e utilizando-se os preços ao consumidor (IPC) como deflator, observa-se, principalmente no segundo semestre do ano, uma evidente atenuação dos intensos movimentos de apreciação que vinham sendo observados em todas as moedas, com exceção da moeda argentina (GRÁFICO 20). Em relação aos preços no atacado (IPA), no entanto, a divisa brasileira vem-se depreciando em termos reais, enquanto os pesos uruguaios e argentinos ainda apresentam alguma tendência à valorização (GRÁFICO 21).

Gráfico 20 - Paridade em Relação ao Dólar
Base: 1º trim. 1991 = 100 - Deflatores: IPC e IPC EUA

PEM 20 - Gráfico 20

Elaboração: IPEA/DIPES.

Gráfico 21 - Paridade em Relação ao Dólar
Base: 1º trim. 1991 = 100 - Deflatores: IPA e IPA EUA

PEM 20 - Gráfico 21

Elaboração: IPEA/DIPES.

Como resultado, se, com respeito ao IPC, as paridades bilaterais da moeda brasileira com as demais apresentam-se aproximadamente estáveis - embora ainda com ligeira tendência à apreciação em relação ao peso argentino -, é possível se observar, no entanto, quando se utiliza o IPA como deflator, que em 1995 a divisa do Brasil logrou resgatar quase a metade da relativa valorização que havia acumulado nos primeiros meses de vigência do Plano Real (GRÁFICOS 22 e 23).

Gráfico 22 - Paridades Cambiais Bilaterais
Base: 1º trim. 1991 = 100 - Deflator: IPC

PEM 20 - Gráfico 22

Elaboração: IPEA/DIPES.

Gráfico 23 - Paridades Cambiais Bilaterais
Base: 1º trim. 1991 = 100 - Deflator: IPA

PEM 20 - Gráfico 23

Elaboração: IPEA/DIPES.

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