Mudam os Sinais
Em números anteriores desta Carta, assinalamos que o mercado de trabalho brasileiro vinha
registrando, até julho:
- um aumento do nível de emprego formal (com carteira assinada) concentrado fora das
principais regiões metropolitanas;
- uma diminuição das taxas de desemprego nas regiões metropolitanas, graças à crescente
capacidade dos segmentos informais (sem carteira e por conta própria) de absorver os
crescentes contingentes de mão-de-obra expulsos do formal; e
- uma elevação dos rendimentos reais mais expressiva para os trabalhadores formais que para
os informais.
Os últimos dados disponíveis, relativos ao mês de agosto, apontam para movimentos em direções
opostas:
- segundo o Caged, o nível de emprego formal no Brasil como um todo voltou a cair (uma
perda de quase 14 mil postos de trabalho deste tipo), após ter registrado saldos positivos
por quatro meses consecutivos;
- não obstante, segundo a PME, ele voltou a aumentar nas principais regiões metropolitanas;
- foi devido a este aumento - e não ao inchaço dos segmentos informais - que a taxa de
desemprego aberto nestas regiões continuou caindo significativamente; e
- finalmente, apesar disto, a renda real média dos empregados com carteira assinada voltou a
subir, ao passo que a dos sem carteira e dos trabalhadores por conta própria diminuiu.
Ainda é cedo, evidentemente, para se saber se estes movimentos indicam uma reversão de
tendência, mas eles são fortes o suficiente para serem ressaltados.
A retração do nível de emprego formal apontada pelo Caged se concentrou:
- nas regiões Sul e Sudeste, onde apenas Santa Catarina registrou uma ligeira variação no
sentido contrário. No Norte e Nordeste, a maioria das unidades da Federação continuou
com saldos positivos - os melhores dos quais se deram no Rio Grande do Norte, em
Pernambuco e na Paraíba;
- na agropecuária (que até então vinha sendo o setor que mais contribuía para a geração de
empregos formais ao longo deste ano), na construção civil (cujos desligamentos superaram
as admissões pela primeira vez em 1996), na indústria de transformação e nos serviços
industriais de utilidade pública. Apenas os serviços e (em proporções muito menores) a
administração pública registraram saldos positivos;
- para os homens; para as mulheres, de fato, ele continuou aumentando (+5.911 empregos);
- nas faixas etárias acima de 25 anos;
- nos níveis de escolaridade mais baixos (primeiro grau incompleto).
No que diz respeito ao aumento do nível de emprego com carteira assinada nas regiões
metropolitanas registrado pela PME em agosto, ele teria sido de quase 110 mil postos de trabalho.
Com isto, a participação deste segmento na ocupação total voltou a crescer, inclusive para níveis
superiores aos registrados no mesmo mês do ano assado (o que não ocorria faz tempo). A do
segmento formado pelos empregados sem carteira, por sua vez, diminuiu em todas as regiões
metropolitanas, exceto as do Nordeste, ao passo que a dos trabalhadores por conta própria só
não cresceu em Recife. O mais curioso, como já foi assinalado, é que esta maior formalização das
relações de trabalho se deu a despeito do fato de o salário médio dos com carteira ter aumentado
(0,92%) e o dos sem carteira diminuído (0,21%).
A tendência à diminuição do diferencial de rendimentos entre empregados formais e informais, que
foi um dos mecanismos que provocou a redução da pobreza durante a primeira fase do Plano
Real, parece ter se esgotado. O diferencial médio nos oito primeiros meses deste ano, de fato, já
resulta ser ligeiramente superior ao do mesmo período do ano passado, exceto no Rio de Janeiro e
em Salvador.
Graças ao bom desempenho do mercado de trabalho formal, enfim, a taxa de desemprego aberto
caiu de 5,55% em julho para 5,24% em agosto, um patamar praticamente idêntico ao registrado
12 meses antes. Comparando-se agosto de 1996 com agosto de 1995, todavia, podemos
observar importantes diferenças no tocante à composição do desemprego:
- o peso das mulheres cresceu de 40,23% para 44,26%;
- diminuiu a participação dos trabalhadores com menos de oito anos de estudo em prol de um
aumento da dos mais escolarizados; e
- a proporção de trabalhadores desempregados há mais de seis meses passou de 31,72%
para 40,42%.
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