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Carta Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise - nº 1, agosto 1996

Dicotomização na Dinâmica do Mercado de Trabalho

Os últimos indicadores disponíveis sugerem que continua se acentuando a dicotomização entre a dinâmica do mercado de trabalho nas principais regiões metropolitanas e fora delas - já assinalada na Carta de julho.

Por um lado, no Brasil metropolitano a taxa de desemprego, grosso modo, tem-se mantido constante graças à capacidade dos segmentos informais - sobretudo daquele formado por trabalhadores por conta própria - de absorverem os crescentes contingentes de mão-de-obra que têm sido forçados a se desligar do emprego com carteira assinada. Por outro, o emprego formal prossegue sua trajetória ascendente nas areas não metropolitanas, o que permitiu que se registrasse - segundo o Caged/MTb - um numero maior de admissões do que de desligamentos para o Brasil como um todo pelo terceiro mês consecutivo.

Com os mais de 50 mil novos empregos criados em junho, o saldo positivo acumulado durante o primeiro semestre como um todo subiu nara mais de 73 mil, ao passo que, segundo a PME, cerca de 90 mil empregos formais teriam sido desativados, no mesmo período, nas seis maiores regiões metropolitanas do país.

Os dados do Caged mostram que a recuperação do nível de emprego tem-se verificado em todos os setores de atividade (exceto os serviços industriais de utilidade pública e na maioria das unidades da Federação. Em junho, apenas Sergipe, Bahia, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e o Distrito Federal registraram saldos negativos. Tomando-se a primeira metade do ano como um todo, porém, nota-se que as regiões Sul (exceto Paraná) e Nordeste (exceto Piauí e Ceará) ainda não aderiram à retomada do nível de emprego.

Merece ser assinalado que o aumento do nível de emprego registrado nos últimos meses foi acompanhado por uma certa diminuição da taxa de rotatividade, contrariando a tendência normalmente verificada no mercado de trabalho brasileiro. Ainda é cedo para se falar numa "quebra de regime", mas esta relação entre variação do emprego formal e rotatividade merece ser acompanhada de perto.

Um outro fenômeno que chama a atenção é a brusca redução do número de requerentes do seguro-desemprego - de mais de 400 mil em maio para menos de 320 mil em junho. Até porque, como já assinalado, as taxas de desemprego pouco têm variado. Segundo a PME, a taxa calculada para o conjunto das regiões metropolitanas passou de 5,91% em abril para 5,93% em maio. Embora ela tenha crescido em São Paulo e Belo Horizonte, houve diminuição nas demais regiões. Com isto, São Paulo voltou a ter a maior taxa de desemprego aberto do país (Gráfico 1).

Carta Mercado de Trabalho 1 - Gráfico 1

Estes mesmos dados revelam que a taxa de desemprego aberto tem:

  • diminuído para os homens e aumentado para as mulheres;
  • crescido para os chefes de domicílios e os seus cônjuges e se reduzido para os filhos;
  • aumentado na indústria de transformação, na construção civil e no comércio e decrescido nos serviços; e
  • subido para os graus de instrução mais baixos e caído para os mais altos.

A permanência da taxa de desemprego da PME nos mesmos patamares registrados em abril se deu também graças ao estancamento do crescimento da PEA que vinha se verificando nos primeiros meses do ano. O nível de ocupação, de fato, também permaneceu constante, ainda que o emprego sem carteira assinada tenha diminuído: é o segmento formado por trabalhadores por conta própria que tem funcionado como "colchão" (Gráfico 2).

Carta Mercado de Trabalho 1 - Gráfico 2

Os dados da PED, por sua vez, apontam para um leve aumento da taxa de desemprego total em todas as regiões metropolitanas, exceto Belo Horizonte. Continua, no entanto, a queda do desemprego aberto, a qual tem sido mais do que compensada pelo aumento do desemprego oculto pela precariedade.

Voltando à PME, a renda real média no conjunto das seis regiões metropolitanas cresceu I,09% em maio, após dois meses de estabilidade.

Este dado, entretanto, oculta importantes diferenças:

  • ela aumentou significativamente no Rio de Janeiro (6,17%) e em menor proporção em Porto Alegre (2,23%) e Be Horizonte (2,84%), ao passo que diminuiu ligeiramente nas demais regiões;
  • os empregados com carteira assinada e trabalhadores por conta própria tiveram pequenos ganhos, enquanto os empregadores e. sobretudo, os trabalhadores sem carteira tiveram um aumento mais significativo (3,14 e 4,74%, respectivamente); e
  • a indústria de transformação, a extrativa mineral, a construção civil e os serviços industriais de utilidade pública apresentaram perdas de renda real, ao passo que os demais setores registraram ganhos.

Carta Mercado de Trabalho 1 - Gráfico 3

Carta Mercado de Trabalho 1 - Gráfico 4

Carta Mercado de Trabalho 1 - Gráfico 5