Boletim Conjuntural - nº 38, julho 1997

 

Emprego e Renda

Os resultados dos indicadores do mercado de trabalho para o primeiro semestre de 1997 apontam para uma melhoria em relação ao mesmo período do ano passado, embora se apresentem piores quando comparados aos últimos meses de 1996. A pesquisa domiciliar realizada pelo IBGE (PME), que engloba as seis principais regiões metropolitanas do país, tem apresentado, na média, uma taxa de desemprego menor este ano em relação ao mesmo período do ano passado. No entanto, a série dessazonalizada vem registrando elevação na taxa de desemprego aberto desde dezembro do ano passado.

Note-se que o desemprego continua concentrando-se na indústria. O nível de emprego industrial em São Paulo, segundo a pesquisa semanal da Fiesp, continua em declínio (embora venha mostrando diminuição no ritmo de queda). Além disso, os resultados da PIM-DG, para o Brasil, e da PME, com informações das seis regiões metropolitanas pesquisadas, continuam apontando para a diminuição do nível de ocupação na indústria.

Outro indicador que merece ser destacado é a massa salarial real, calculada a partir de dados da PME: após acumular crescimento contínuo e bastante expressivo desde o início do Plano Real em todos os setores e categorias pesquisadas, apresentando taxas de crescimento da ordem de 20% ou mais na comparação com o mesmo período do ano anterior, vem tendo crescimento bem mais modesto, em torno de 2% em relação ao mesmo período de 1996. Observando-se a série de massa salarial real dessazonalizada percebe-se que, na verdade, ela já mostra pequena queda desde o final do ano passado: - 3,3% na comparação abril de 1997 contra outubro de 1996 (último mês de crescimento).

EVOLUÇÃO DO EMPREGO

A taxa de desemprego aberto para as seis regiões metropolitanas pesquisadas pela PME continua registrando resultado melhor na média deste ano quando comparada ao mesmo período de 1996, mesmo com a elevação para 6% verificada no indicador de maio (Gráfico 2.2). Desta forma, a taxa média de janeiro a maio de 1997 foi de 5,7%, contra 5,9% registrado nos cinco primeiros meses de 1996 (Tabela II.1A na seção de indicadores). Por outro lado, a série dessazonalizada aponta para o crescimento da taxa de desemprego aberto desde dezembro de 1996, que era de 4,8%, alcançando 5,8% em maio desse ano.

BC 38B - Gráfico 1

BC 38B - Gráfico 2

O resultado positivo observado na comparação da taxa de desemprego nos cinco primeiros meses do ano com o mesmo período do ano passado também pode ser notado pela elevação no nível de ocupação. A média da população ocupada nos primeiros cinco meses de 1997 em relação ao mesmo período de 1996 cresceu 1%, representando a criação líquida de 160 mil postos de trabalho (Tabela 2.1). Desagregando-se por setor de atividades, o setor serviços foi responsável pela maior parte da criação de empregos, com 179 mil novos postos, enquanto comércio e construção civil colaboraram, respectivamente, com 29 mil e 6 mil, e a indústria de transformação registrou diminuição de 80 mil postos de trabalho em relação a 1996. Fazendo-se a mesma comparação para a posição na ocupação, percebe-se que a migração para o setor informal da economia continua, o que pode ser evidenciado pelo aumento da população ocupada sem carteira e por conta própria -- criação de, respectivamente, 117 mil e 97 mil novos postos de trabalho -- e pela diminuição de 58 mil postos de trabalho para os trabalhadores com carteira.

BC 38B - Tabela 1

Os resultados da pesquisa domiciliar da Fundação Seade para junho mostram estabilidade na taxa de desemprego total e pequena diminuição na taxa de desemprego aberto [1] na Região Metropolitana de São Paulo. A primeira atingiu 16% em junho, mesmo resultado verificado em maio (Gráfico 2.3), e a taxa de desemprego aberto foi de 10,5%, contra 10,7% em maio. Dessa forma, a média da taxa de desemprego total no primeiro semestre do ano (15,2%) mostra uma ligeira elevação quando comparada com o mesmo período do ano passado (15%), enquanto o desemprego aberto manteve-se estável: a média obtida no primeiro semestre deste ano foi de 10%, resultado idêntico ao do mesmo período do ano passado (Tabelas II.5A e II.5c na seção de indicadores).

BC 38B - Gráfico 3

Segundo a Fundação Seade, em junho o nível de ocupação na Região Metropolitana de São Paulo cresceu pelo terceiro mês consecutivo, com a criação de 34 mil postos de trabalho. Os serviços foram responsáveis pela criação de todos os empregos (46 mil), enquanto o comércio e o setor classificado sob a rubrica "outros" registraram decréscimo de 9 mil e 3 mil ocupações, respectivamente. O nível de ocupação na indústria manteve-se inalterado pelo segundo mês consecutivo, o que, de acordo com a Fundação Seade, explica-se pelo aumento do trabalho assalariado sem carteira, contrabalançando a demissão dos assalariados com carteira.

Ainda em relação a São Paulo, o nível de emprego industrial no Estado, calculado pela pesquisa semanal da Fiesp apresentou retração de 0,23% em relação a maio, com a dispensa de 4.278 trabalhadores. Mesmo com este novo declínio no nível de emprego, a variação acumulada até junho deste ano, de -2,2%, é 2,6 pontos percentuais menor do que a verificada ano passado, de -4,8%, evidenciando a diminuição do ritmo de queda no nível do emprego industrial em São Paulo. (Gráfico 2.1).

EVOLUÇÃO DOS SALÁRIOS

A PME, que apresenta informações para as seis maiores regiões metropolitanas do país, continua apontando para o crescimento do salário médio real das pessoas ocupadas quando comparado ao mesmo período do ano passado, embora tal crescimento venha se desacelerando (Tabela 2.1). Comparando-se o rendimento real do pessoal ocupado em abril de 1997 com o mesmo mês do ano passado, o crescimento verificado é de 0,9%, resultado semelhante ao acumulado no ano, de 1%. Considerando a posição na ocupação, o crescimento acumulado no ano se distribuiu da seguinte forma: 4,6% para os empregados sem carteira assinada, 1,5% para os com carteira assinada e 0,9% para os trabalhadores por conta própria, enquanto os empregadores acumularam queda de 4,2% em seus rendimentos. Segundo os setores de atividade, o rendimento cresceu 6,6% na construção civil e 2,8% nos serviços, enquanto o comércio e a indústria de transformação registraram retração de 1,8 e 2,3%, respectivamente.

A pesquisa mensal da Fiesp também continua apresentando crescimento em seu índice salarial. O salário médio real do pessoal ocupado na indústria paulista mostrou um crescimento de 7,7% em maio deste ano contra o mesmo mês de 1996; considerando-se o resultado acumulado no ano, o crescimento alcança 5,8% (Gráfico 2.4).

BC 38B - Gráfico 4

Com relação ao salário mínimo real, em junho tem-se um crescimento de 1,2% em relação ao mesmo mês do ano passado, encerrando o primeiro semestre do ano com uma expansão de 2,4% em relação ao mesmo período de 1996.

Segundo a pesquisa mensal da Fiesp, a massa salarial, em termos reais, do pessoal ocupado na indústria paulista, cresceu 3,6% em relação a maio do ano passado, enquanto o resultado acumulado no ano até maio acumulou crescimento de 1,1%. Da mesma forma, a massa salarial real calculada a partir de informações da PME continua apresentando expansão quando comparada ao mesmo período do ano passado, embora na série dessazonalizada já se perceba queda desde novembro do ano passado. Para o total das pessoas ocupadas, o crescimento acumulado no ano até o primeiro quadrimestre foi de 2,2% (Tabela 2.1). Considerando-se o setor de atividade, apresentaram crescimento a construção civil (8%) e serviços (5,3%), enquanto no comércio e na indústria de transformação houve retração de 0,9% e 4,6%, respectivamente. Desagregando-se por posição na ocupação, os maiores ganhos continuam direcionando-se para os empregados sem carteira assinada, que acumularam crescimento de 7,9% em sua massa salarial real este ano, enquanto os empregados por conta própria e os com carteira tiveram crescimento de 4,6% e 0,7%, respectivamente. Os empregadores foram a única categoria a apresentar retração na massa salarial, de 2,9%.

EVOLUÇÃO DA MOBILIDADE DA POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO

O Grupo de Acompanhamento Conjuntural do IPEA resolveu a partir deste número do boletim dedicar o final da seção de empregos e rendimentos à análise de um aspecto mais estrutural do mercado de trabalho brasileiro. Optamos aqui por analisar a evolução recente da mobilidade da posição na ocupação no Brasil. Esta questão é relevante por pelo menos três motivos: no lado positivo, maior mobilidade implica menor prazo de ajuste do mercado de trabalho em relação a choques. Em contrapartida, maior mobilidade ocupacional está ligada a uma maior rotatividade e consequentemente num menor incentivo de as firmas investirem na formação da sua força de trabalho. Finalmente, maior mobilidade ocupacional implica, em geral, um maior risco de renda percebido pelos indivíduos.

Mais especificamente, objetivamos neste número discutir as mudanças recentes observadas na estabilidade das diversas posições na ocupação. Como indivíduos de diversos níveis educacionais possuem diferentes perfis ocupacionais, restringimos a amostra aos indivíduos em idade ativa com quatro ou menos anos completos de estudo. Esta subamostra propiciará um experimento melhor controlado, além de nos permitir fazer inferências sobre a instabilidade ocupacional dos indivíduos situados na cauda inferior da distribuição de salários.

As probabilidades de saída das diversas posições na ocupação foram calculadas com um refinamento, a fim de minimizar os efeitos de erros de reportagem [2]. Estas probabilidades estão apresentadas na Tabela 2.2 subdivididas nos períodos imediatamente anterior e posterior ao lançamento do Plano Real.

A comparação entre esses subperíodos revela que, enquanto os empregados com carteira mantiveram inalterada a probabilidade de mudança de posição na ocupação no patamar de 3,2%, esta estatística sobe cerca de 25% no caso dos funcionários públicos (de 3,2 % para 4%). A evolução destas estatísticas tomadas a valor de face revela que não existe mais um prêmio à estabilidade dos funcionários públicos em relação aos demais empregados formais.

A maior deterioração de estabilidade na posição por ocupação observada se deu entre os empregadores. A probabilidade de saída deste estado aumenta de 9,8% para 15,3% perfazendo um crescimento da ordem de 56%. Este resultado indica a ocorrência um aumento de incertezas no bojo do segmento de pequenos negócios. Cabe ressaltar que este resultado é robusto entre as seis regiões metropolitanas e entre diversas faixas de educação.

Por outro lado, a Tabela 2.2 aponta reduções nas probabilidades de saída dos chamados segmentos informais da economia: de 12,5% entre os sem carteira (de 20,4% para 17,9%) e de 14,7% entre os trabalhadores por conta-própria (de 9,4% para 8%). O resultado destas mudanças observadas recentemente é que o diferencial de estabilidade entre ocupações formais e informais cai fortemente. Cabe enfatizar que atualmente a mobilidade entre os informais é ainda quatro a cinco vezes superior àquela observada entre os segmentos formais. [3] [4]

BC 38B - Tabela 2

A probabilidade de saída de estados considerados mais precários, como o trabalho não-remunerado, a inatividade e o desemprego, ou aumentou ou ficou estável. A probabilidade de saída dos trabalhadores não-remunerados cai de 27,7% para 23%, situando-se ainda como a segunda mais alta entre todos os estados. No caso dos inativos, observamos uma constância da probabilidade de saída em torno de 2,5%. Finalmente, constatamos um forte aumento da probalidade de saída do desemprego, que passa de 59,8% para 63,3%. Este resultado mostra que as consequências do aumento observado nas taxas de desemprego aberto são em parte amenizadas por esta queda de duração do desemprego pelo menos no âmbito dos trabalhadores não-qualificados.

Notas

1 A Fundação Seade trabalha com duas taxas de desemprego: total e aberto. Define-se como desemprego aberto "as pessoas que procuraram trabalho de maneira efetiva nos últimos 30 dias anteriores ao da entrevista e não exerceram nenhuma atividade nos últimos sete dias". Já a taxa de desemprego total engloba o desemprego aberto e o oculto, este último definido como "as pessoas que realizaram de forma irregular algum trabalho remunerado ou pessoas que realizaram trabalho não-remunerado em ajuda a negócios de parentes e que procuraram trabalho nos 30 dias anteriores ao da entrevista ou que, não tendo procurado neste período, o fizeram até 12 meses atrás (desemprego oculto pelo trabalho precário)" e "as pessoas que não possuem trabalho e nem procuraram nos últimos 30 dias, por desestímulo do mercado de trabalho ou por circunstâncias fortuitas, mas apresentaram procura efetiva de trabalho nos últimos 12 meses (desemprego oculto pelo desalento e outros)". [Voltar]

2 As probabilidades de saída das diversas posições na ocupação são calculadas a partir de um conjunto de quatro observações individuais consecutivas geradas a partir do caráter de painel rotativo da PME. Estimamos as probabilidades de saída das diversas posições na ocupação entre a segunda e a terceira observação condicionadas a não terem havido transições entre as duas primeiras e as duas últimas observações do conjunto de quatro observações consecutivas. Este refinamento visa minimizar os efeitos de erros de classificação que tendem a viesar para cima as medidas de mobilidade ocupacional. [Voltar]

3 Este ponto revela que a altíssima taxa de rotatividade brasileira que tem sido citada na literatura está na verdade subestimada. Pois as taxas de rotatividade reportadas são em via de regra calculadas a partir dos registros administrativos do Ministério do Trabalho (Rais e Caged) que excluem os trabalhadores informais. [Voltar]

4 A nota técnica apresentada ao final deste boletim analisa em detalhe esta questão. [Voltar]

 

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