Boletim Conjuntural - nº 38, julho 1997

 

 

Panorama Conjuntural

O segundo trimestre do ano foi marcado pela recuperação do nível de atividade econômica — que, no primeiro trimestre, havia apresentado queda em relação ao trimestre anterior — e por uma melhoria na balança comercial a partir de maio, associada tanto a um melhor desempenho das exportações quanto a uma desaceleração da taxa de crescimento das importações. A combinação destes fatores, aos quais se poderia acrescentar o impulso tomado pelas privatizações, abriu espaço para uma relativa estabilidade no cenário macroeconômico, garantindo uma trajetória com poucas oscilações tanto para o câmbio quanto para os juros em maio e junho. Em julho, no entanto, o quadro voltou a a apresentar maior volatilidade, desta vez por conta de fatores externos (refletindo a instabilidade no sudeste asiático) e domésticos de natureza política. A instabilidade esteve restrita às bolsas de valores, sem afetar os fluxos de recursos externos que chegaram inclusive a bater recordes, permitindo que o mês se encerre com um ganho expressivo de reservas em relação a junho, restaurando novamente a posição do final do ano passado.

As estimativas do Indicador IPEA para a produção industrial em junho mostram uma recuperação em relação à queda de maio, com crescimento de 1,9% no dessazonalizado ante o mês anterior e de 8,9% em relação a junho do ano passado. Este crescimento elevado em comparação com junho do ano passado se explica pelo fato de, na indústria automobilística, ter-se observado naquela ocasião uma queda na produção em decorrência de férias coletivas, fenômeno não observado neste ano. A partir destas informações projeta-se para o ano um crescimento da indústria geral (transformação mais extrativa) de 4,1%, o que levaria o PIB a uma variação de 4%. Em termos de trajetória, esta projeção implica estabilidade para o restante do ano, em termos dessazonalizados, em relação aos níveis alcançados no segundo trimestre, os quais teriam sido 3,2% superiores ao observado entre janeiro e março deste ano. Dentre os componentes do PIB, o setor agropecuário deverá ter um crescimento de 6,4%, a construção civil de 4,2% e os serviços de 3,4%.

Estas projeções contrastam com as expectativas mais recentes que apontam no sentido de uma desaceleração da produção industrial no segundo semestre do ano. Com base no desempenho das vendas industriais de alguns setores (especialmente eletroeletrônicos) e do comércio, ganhou força a idéia de que tanto a indústria quanto o comércio estariam superestocados (em função de expectativas exageradas no início do ano quanto ao crescimento da produção e do consumo), o que exigiria agora um ajuste dos fluxos de produção. Os dados de faturamento real do comércio em São Paulo (exclusive materiais de construção) de fato indicam alguma retração no trimestre (-0,5% dessazonalizado em relação ao trimestre anterior), mas esta queda esteve concentrada basicamente nos duráveis: -2,3% nos automóveis e -2,6% nos demais. O segmento de semiduráveis apresentou crescimento de 5,7% e o de não-duráveis estabilidade nas vendas.

Do ponto de vista da demanda, no entanto, mesmo que alguma desova de estoques venha a ocorrer simultaneamente a uma redução dos fluxos de produção, não parecem existir sinais de que a desaceleração possa ocorrer de forma acentuada ou prolongada no tempo. A renda agrícola vem apresentando crescimento, principalmente em função de uma melhoria dos termos de troca do setor, e tem estimulado a produção de tratores, máquinas e implementos agrícolas, que, segundo a Anfavea, acumulam no ano, até junho, crescimento de 45% em relação a igual período de 1996. As condições de oferta de crédito, por outro lado, não se alteraram significativamente nos últimos meses: nem as taxas de juros se elevaram (embora tenham deixado de cair), nem o Banco Central restringiu as condições de crédito, embora tenha elevado o IOF sobre as operações mais longas de crédito para consumo. A inadimplência no comércio (como proporção do número de consultas ao SPC), que havia aumentado em março e abril, sem contudo atingir os níveis observados em março e abril de 1996, recuou em maio e junho para os níveis verificados no início do ano, mostrando que volta a se ampliar o espaço para o endividamento das famílias. Ainda assim, é importante notar que o comércio passou a adotar critérios mais rigorosos para a concessão de crédito, tendo restringido bastante a utilização dos cheques pré-datados diante do forte crescimento na proporção de cheques devolvidos (de 0,4% em abril/maio de 1996 para 0,7% em igual período de 1997). Por fim, mesmo no caso da massa dessazonalizada de rendimentos do trabalho, que desde o final do ano passado vinha se reduzindo em termos reais, a queda tem sido bastante lenta — 3,3% em relação ao pico observado em outubro último e sem configurar ainda uma tendência, já que em abril (último dado disponível) ela teria exibido crescimento.

Assim, pelo lado da demanda, os sinais parecem apontar mais para uma trajetória de estabilidade do que de queda da atividade econômica. Esta trajetória, por sua vez, é consistente com uma relativa estabilidade dos números da balança comercial. Após uma deterioração acentuada no último trimestre do ano passado e primeiro trimestre deste ano, as contas de comércio exterior parecem apontar para uma certa acomodação: o déficit acumulado em 12 meses alcançou quase US$ 10 bilhões em junho, não se prevendo alterações significativas deste resultado até o final do ano. Por um lado, as exportações do bimestre maio-junho apresentaram crescimento elevado em relação a igual período de 1996 (13,8%). Por outro, as importações, apesar de ainda apresentarem forte aumento em relação a igual período do ano passado (27,8%), vêm se desacelerando na margem com uma queda, em termos dessazonalizados, de 8,8% em relação ao bimestre março-abril.

A recuperação das exportações foi comandada pelos produtos básicos, fruto tanto da maior disponibilidade de produtos agrícolas para exportação quanto de uma conjuntura de preços externos extremamente favorável. No acumulado do ano, até junho, as exportações de produtos básicos cresceram quase 35% (e as exportações totais 8,2%). Além disso, em junho já foi possível observar uma reação nas exportações de manufaturados, com crescimento de 22,5% em relação a junho de 1996, embora no acumulado do primeiro semestre a variação tenha sido de apenas 1,3% em relação ao primeiro semestre do ano passado. Note-se que, para manter as exportações crescendo 8% em relação ao ano passado, as exportações de manufaturados teriam que crescer 8,6% no segundo semestre (relativamente a igual período de 1996), de modo a compensar a desaceleração esperada das exportações de básicos (para cerca de 7,5% na mesma comparação).

Pelo lado das importações, a desaceleração observada no último bimestre parece refletir um ajuste em relação aos primeiros quatro meses do ano, em que a média mensal dessazonalizada foi de US$ 5,1 bilhões (US$ 5,8 bilhões em abril), recuando no bimestre maio-junho para US$ 4,8 bilhões, possivelmente também como reflexo da medida de restrição ao financiamento de importações implementada no final de março. Em termos tendenciais, o que se observa é não só uma correlação elevada entre nível de atividade e importações, mas também uma gradual convergência entre as taxas de variação das duas variáveis. Isto quer dizer que o coeficiente de importações continua se elevando, mas, após o enorme salto que se seguiu à introdução do real, passou a fazê-lo a um ritmo mais lento. É preciso notar ainda, conforme já destacado no último Boletim, que o crescimento econômico recente vinha ocorrendo de forma bastante desequilibrada, com peso excessivo no setor de duráveis que tende, por sua vez, a carregar um componente bastante elevado de importações. Dadas as projeções que apontam para uma estabilidade do nível de atividade econômica nos próximos seis meses, assim como a perspectiva de um crescimento mais balanceado (recuperação da produção de bens de capital e novos estímulos à construção civil), o comportamento das importações não deve gerar surpresas, sustentando-se, em termos médios dessazonalizados, em patamar ligeiramente superior à média (US$ 5 bilhões) observada no primeiro semestre. Na mesma direção apontam ainda as medidas recentes destinadas a disciplinar a utilização dos "ex-tarifários" na importação de bens de capital.

A perspectiva de uma reação das exportações e de uma certa acomodação das importações contribui para amenizar as incertezas ligadas ao balanço de pagamentos num momento em que, em nível internacional, estratégias de estabilização e/ou crescimento baseadas em alto grau de alavancagem de poupança externa (isto é, de elevados déficits em conta corrente) passam a ser crescentemente questionadas. O déficit em conta corrente previsto para este ano no Brasil (em torno de 4,5% do PIB) não é tão elevado quanto aquele exibido pelos países do sudeste asiático cujas moedas foram atacadas ao longo de julho. Além disso, a posição de reservas do Brasil o torna menos vulnerável (mas não totalmente imune) a ataques especulativos. O aspecto decisivo, contudo, parece ser a capacidade que o país vem apresentando de mobilizar recursos externos, inclusive sob a forma de investimentos diretos. O Brasil, ao contrário de quase todos os países emergentes (com a possível exceção das ex-economias socialistas), ainda dispõe de um conjunto amplo de privatizações a serem efetivadas, incluindo setores com elevado poder de atração para o investidor externo. O investimento externo direto tem respondido de forma positiva, acumulando até junho um fluxo líquido de US$ 7,4 bilhões, 52% a mais do que em igual período do ano passado. Nos 12 meses encerrados em junho, os investimentos diretos líquidos corresponderam a 38,5% do déficit em transações correntes acumulado no período.

As receitas das privatizações, por sua vez, na medida em que forem utilizadas para abater dívida pública, asseguram, juntamente com um esforço fiscal moderado, uma trajetória sustentável para a dívida interna, abrindo assim espaço para uma redução da taxa de juros. Dessa forma, através da geração de superávits primários não muito elevados, torna-se possível elevar a poupança pública e estimular o investimento sem com isso aumentar a pressão sobre as necessidades de poupança externa. A formação bruta de capital fixo, a preços constantes, cresceu 2,9% no último trimestre, em termos dessazonalizados, acumulando uma variação de quase 14% desde o início de 1996. Como proporção do PIB, no entanto, manteve-se estável nos 16,4% estimados para o primeiro trimestre, demonstrando que ainda é necessário um esforço consideravelmente maior no sentido de recuperar taxas de investimento que garantam tanto o crescimento sustentado quanto a transformação da base produtiva, de modo a adequá-la aos padrões de eficiência requeridos por uma economia mais aberta.

Na perspectiva do ajuste fiscal, o problema atual encontra-se em avançar de forma mais decisiva no sentido de ampliar os superávits primários — que deveriam situar-se em torno de 1,5% do PIB —, a fim de dar início ao círculo virtuoso. A meta inicial do governo federal de obter neste ano um resultado primário de cerca de 0,8% do PIB (diante de um superávit de 0,4% em 1996) pode se frustrar tanto pelo desempenho abaixo do esperado da arrecadação (excluída a CPMF, a arrecadação real do primeiro semestre foi 0,4% inferior à obtida em igual período do ano passado) quanto pela elevação dos gastos em outros custeios e investimentos (embora estes estejam refletindo, majoritariamente, o aumento dos repasses para a saúde propiciados pela própria arrecadação da CPMF). Nos estados, a recente crise gerada por insatisfações salariais nas polícias estaduais revela que, na ausência de ajustes mais profundos nos quadros de pessoal, que por sua vez dependem da reforma administrativa, a situação continuará complicada em termos de se alcançar a meta de equilíbrio no resultado primário. Assim, percebe-se que permanecem os entraves institucionais a uma ação mais efetiva do governo na área fiscal, o que tende a prolongar o período necessário para que se possa retomar, de forma sustentada, taxas de crescimento mais elevadas.

 

Resumo das Projeções

BC 38 - Quadro 1 

 

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