Inflação
Os principais índices de preços apresentaram no primeiro trimestre de 1997 variações superiores
às do último trimestre de 1996. A trajetória ao longo do trimestre foi de alta dos índices em
janeiro, principalmente devido aos aumentos de matrículas e mensalidades escolares e dos
alimentos in natura, seguida de uma queda em fevereiro, com o fim dessas pressões, e nova alta em
março, ainda que para níveis inferiores aos de janeiro (ver Tabela 3.1). O IPC-Fipe teve variação
de 0,21% em março, após ter ficado em 1,23% em janeiro e apenas 0,01% em fevereiro. O
grande responsável pelo aumento do índice em março foi novamente o item alimentos in natura,
que teve alta de 7,97%, elevando a variação do grupo alimentação para 1,59%. Os demais grupos
permaneceram praticamente estáveis em relação a fevereiro.
O INPC do IBGE se comportou de maneira mais estável ao longo do trimestre, com taxas de
0,81% em janeiro, 0,45% em fevereiro e 0,68% em março. Os grupos que mais pressionaram o
índice em março foram alimentação, principalmente tubérculos, raízes e legumes, e habitação,
devido ao impacto do aumento do preço do gás de botijão.
O IGP foi o índice que apresentou maior crescimento em março, passando para 1,16%, contra
0,42% em fevereiro e 1,58% em janeiro. Dentre os seus componentes, o maior responsável por
essa subida, conforme já ocorrera em janeiro, foi o IPA, que teve variação de 1,59%, pressionado
pelos produtos agrícolas, cujo índice foi de 4,55%, contra apenas 0,32% em fevereiro. O
IPC-FGV teve pequena alta em relação a fevereiro (0,63%, contra 0,53%), também com o grupo
alimentação sendo o de maior variação. O INCC, por sua vez, apresentou trajetória crescente ao
longo do trimestre, passando de 0,32% em janeiro para 0,48% em fevereiro e 0,73% em março,
pressionado nesse último mês pelo aumento do componente mão-de-obra (1,14%).
Deve-se notar que o aumento dos alimentos verificado em março se concentrou em um grupo
relativamente pequeno de produtos, que apresentaram variações muito grandes de preços, como
tomate (70,62%, segundo dados da Fipe), cebola (54,65%), batata (17,34%), café (12,04%) e
mamão (6,43%), não podendo, portanto, ser considerado um aumento generalizado dos produtos
alimentícios.
Acumulado em 12 meses
Os índices acumulados em 12 meses apresentaram em março uma pequena alta, quando
comparados com o acumulado até fevereiro, não só devido ao crescimento dos índices em março
deste ano, mas principalmente porque os índices haviam sido extremamente baixos em março de
1996. Comparando com o acumulado até dezembro de 1996, verifica-se que o único índice que
apresenta aumento é o IGP-DI, puxado pelo aumento do IPA, principalmente dos produtos
agrícolas. Nessa base de comparação, o INPC cai de 9,12% até dezembro para 8,56% até
março e o IPC-Fipe cai de 10,04% para 8,96%, enquanto o IGP-DI sobe de 9,34% para 9,76%,
o que leva o índice combinado (média dos três) de 9,50% em dezembro para 9,08% em março
(Tabela 3.1).
Entre os grupos que compõem os índices de preços ao consumidor, o único que apresenta
crescimento significativo na taxa de 12 meses entre dezembro e março é alimentação (de 2,57%
para 5,81% no IPC-FGV e de 2,11% para 4,66% no índice da Fipe). Os demais grupos
apresentam estabilidade ou queda na taxa de 12 meses, sendo que o grupo educação continua
aparecendo com maior destaque, caindo de 22,38% para 11,72% no IPC-FGV e de 26,68%
para 10,48% no IPC-Fipe.
Preços no Atacado
Os preços no atacado, medidos pelo IPA-OG, apresentaram aceleração no primeiro trimestre de
1997, em relação ao quarto trimestre de 1996, com variações de 1,67% em janeiro, 0,34% em
fevereiro e 1,59% em março (Tabela 3.2). Essa trajetória foi determinada pelo comportamento
dos preços agrícolas, que tiveram variação de 4,40% em janeiro, 0,32% em fevereiro e 4,55% em
março. Nesse último mês, os aumentos foram concentrados nos itens legumes e frutas (10,07%) e
lavouras para exportação (14,82%), este último influenciado pelos aumentos dos preços
internacionais do café e da soja. Com isso, o acumulado em 12 meses do IPA-agrícola teve alta
significativa no trimestre, passando de 17,30% em dezembro para 22,05% em março.
O IPA-industrial teve comportamento bem mais favorável no trimestre, caindo de 0,36% em
janeiro para 0,35% em fevereiro e apenas 0,15% em março. O acumulado em 12 meses do
IPA-industrial subiu de 3,88% em dezembro para 4,69% em março, índice ainda bem inferior à
variação cambial no período, que foi de 7,22%.
Preços Relativos
Os dados da Tabela 3.3 mostram a continuidade do processo de convergência das variações de
preços. Tomando-se as variações "reais" (deflacionadas pelo índice geral) acumuladas em 12
meses, verifica-se que os produtos dos setores competitivos e oligopolistas apresentaram taxas
menos negativas que nos 12 meses encerrados em dezembro de 1996. A variação "real" dos
competitivos passa de -8,09% em dezembro para -5,06% em março, enquanto a dos oligopolistas
passa de -6,61 para -5,16%, tendo apresentado inclusive variação "real" positiva no primeiro
trimestre de 1997, concentrada nos itens de maior peso, alimentos industrializados (+2,02%) e
fumos e bebidas (+1,69%), este último com aumento localizado no mês de janeiro (+1,97%).
Por outro lado, os preços administrados e os serviços apresentam em março variações "reais"
acumuladas em 12 meses bem inferiores às de dezembro. A variação "real" dos administrados cai
de 12,37% em dezembro para 8,40% em março, em conseqüência de uma taxa de apenas 0,09%
no primeiro trimestre de 1997, e apesar do aumento "real" de 4,89%, no trimestre, do item
manutenção de veículo, o qual se deveu ainda ao efeito dos aumentos dos combustíveis ocorridos
em dezembro e janeiro.
A taxa relativa aos serviços caiu de 10,95% no acumulado até dezembro para 7,41% até março,
com o item aluguel continuando a apresentar taxa "real" bem superior à dos demais itens (17,50%
em março contra 19,60% em dezembro). O destaque positivo é o item educação, cuja taxa "real"
caiu de 15,12 % para apenas 1,41%, na mesma base de comparação.
Tradables X Non-Tradables
A Tabela 3.4 mostra a evolução dos índices de preços de bens tradables e non-tradables, bem
como da relação entre eles. Esses índices foram construídos a partir de uma reclassificação dos
produtos que compõem o IPC-Fipe, em função de características que determinam o grau de
exposição ao comércio internacional. Assim, cada um dos índices é calculado a partir da média
ponderada da variação dos preços dos bens classificados em cada grupo, utilizando para
ponderação os pesos dos produtos no índice da Fipe. Os pesos dos dois grupos de produtos em
relação ao total do índice da Fipe são 50,19% para os tradables e 49,81% para os non-tradables.
Foram calculados índices para tradables e non-tradables a partir de janeiro de 1993. Os
resultados mostram, conforme se pode ver na Tabela 3.4 e nos Gráficos 3.3 e 3.4, que há uma
mudança significativa na relação entre os preços dos dois grupos, a partir da implantação do Plano
Real.
No período de janeiro de 1993 a junho de 1994 (Gráfico 3.3), há uma certa alternância. Em
alguns meses, a variação dos tradables era superior à dos non-tradables e, em outros, ocorria o
inverso. Apesar disso, os tradables apresentaram variações maiores no período como um todo,
conforme se pode ver pela evolução do índice da 3a coluna da Tabela 3.4.
A partir do Plano Real (Gráfico 3.4), observa-se um comportamento bem distinto. Os
non-tradables apresentam quase sempre variação superior à dos tradables, fazendo com que a
relação entre os índices caia continuamente ao longo do período. Essa evolução evidencia o papel
fundamental da abertura comercial e da política cambial, principalmente na fase inicial do Plano
Real, no sentido de conter os aumentos dos bens tradables e, conseqüentemente, as taxas de
inflação.
A análise da evolução desses índices permite identificar também o comportamento do processo de
convergência das variações de preços entre os dois grupos. No primeiro ano do Plano Real, de
julho de 1994 a junho de 1995, os non-tradables subiram cerca de 27% a mais que os tradables.
Nos nove meses seguintes, de julho de 1995 a março de 1996, os non-tradables voltaram a subir
cerca de 24% a mais. A partir de abril de 1996, porém, os índices passaram a evoluir de forma
cada vez mais próxima, com a variação dos non-tradables superando a dos tradables em apenas
12% nos últimos 12 meses.
Perspectivas para 1997
O índice da Fipe apresenta aceleração em abril, tendo atingido 0,69% na terceira quadrissemana.
A maior pressão é do item vestuário, que passa a ter variação fortemente positiva (+4,46%),
devido ao lançamento das coleções de outono-inverno. Outra importante pressão altista ocorre no
item serviços públicos residenciais (0,57%, contra 0,38% em março), devido ao aumento de
tarifas telefônicas e de energia elétrica, que entraram em vigor no início do mês. Por outro lado,
observa-se redução na taxa do grupo alimentação (1,59% para 0,47%), com a variação dos
produtos in natura caindo de 7,97% para apenas 1,36%.
Para os próximos meses, esperam-se o fortalecimento dessa pressão do grupo vestuário e um
impacto maior dos aumentos de tarifas, que se deve prolongar até o mês de junho (parte dos
aumentos de tarifas telefônicas entra em vigor apenas em 19 de maio) e deverá significar um
aumento total de cerca de um ponto percentual no índice da Fipe, 0,34 ponto no IGP-DI e 0,48
ponto no INPC, segundo estimativas do Ministério da Fazenda.
Além disso, é possível que surja alguma pressão altista em decorrência das restrições impostas em
abril ao financiamento das importações, que podem provocar aumentos de preços de bens
tradables.
Por outro lado, espera-se uma evolução mais favorável dos preços agrícolas, com o fim da
pressão exercida em março por alguns produtos e, principalmente, com a colheita da safra 96/97,
que deve superar até a safra recorde de 1994, segundo estimativas da Conab.
Com isso, pode-se ter índices próximos de 1% ao mês no segundo trimestre, os quais seriam, de
qualquer forma, menores que os verificados no segundo trimestre de 1996, mantendo-se então a
tendência de queda dos índices acumulados em 12 meses. Não havendo grandes pressões
adicionais de aumentos de tarifas no segundo semestre, são boas as possibilidades de se confirmar
a nossa previsão de inflação inferior a 8% para 1997.
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