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Boletim Conjuntural - nº 37, abril 1997

Nível de Atividade

Nível de Atividade

De acordo com nossas estimativas, a atividade econômica desacelerou-se no primeiro trimestre deste ano, com o PIB caindo cerca de 1% em relação ao último trimestre do ano passado, confirmando nossas previsões feitas ainda no Boletim de janeiro. O declínio é comum a todos os setores de atividade: a agropecuária apresenta queda de 2,3%, a indústria de 1,5% e os serviços de 0,4%.
Esta dinâmica está associada a diversos fatores. O principal parece ser dado pelos limites de endividamento das famílias, conforme se pode deduzir do aumento recente da inadimplência, e que acarretou uma desaceleração do consumo, já que mesmo o setor de duráveis, que crescia a elevadas taxas nos últimos três trimestres do ano passado, apresenta um crescimento mais modesto (0,8%) no primeiro trimestre deste ano. Também se observa desaceleração no setor da construção (-0,5%) como decorrência da redução do ritmo das obras públicas no âmbito das administrações municipais após o período eleitoral e a assunção das novas administrações.
A despeito disto, as taxas de crescimento do início deste ano, quando a base de comparação é dada por iguais trimestres de 1996, ainda são bastante positivas: o PIB, segundo nossas estimativas, teria crescido 4,1%, com a perspectiva de que saia da taxa dos 2,9% acumulados até dezembro para chegar em junho com a taxa acumulada de quatro trimestres em torno de 5%.
Este bom desempenho do período que conjuga o segundo semestre de 1996 e o primeiro de 1997, compreendendo o terceiro ano da economia brasileira sob a égide do Real, embora não tão elevado quanto os 7,2% de crescimento do primeiro ano, reflete a recuperação cíclica da economia estimulada pela continuidade do crescimento da renda (conforme revelado pelos dados de rendimentos do trabalho na PME) e pela expansão do crédito de consumo. Em menor medida, ele também reflete a recuperação do investimento após o forte declínio observado em 1995: a taxa de investimento cresceu continuamente ao longo do ano passado, saindo dos 15,5% do último trimestre de 1995 para 16,3% do primeiro trimestre deste ano.
A continuidade do crescimento às taxas observadas no ano passado, além dos fatores anteriormente apontados, vem esbarrando também em limites determinados pelas dificuldades de curto prazo no âmbito da balança comercial. Isto decorre do caráter desequilibrado deste crescimento. Em 1996, embora a indústria geral (transformação + extrativa) tenha crescido apenas 1,5%, observou-se em sua composição um forte crescimento da produção de bens duráveis (+11,2%), moderado crescimento de bens intermediários (+2,8%) e ainda uma brutal recessão do setor de bens de capital (-14,2%). Todos estes elementos apontam na mesma direção em termos de balança comercial: déficits. No caso de bens de capital, a produção nacional está cedendo lugar a importados mais avançados tecnologicamente. No caso de bens duráveis, sua produção doméstica depende de componentes modernos ainda não produzidos internamente.

BC 37 - Tabela 1.1


Portanto, embora o crescimento agregado seja modesto, a composição desse crescimento é extremamente prejudicial à balança comercial no curto prazo. Entretanto, a adoção de políticas de cunho macroeconômico global poderá ser ainda mais prejudicial. Qualquer medida deve de fato procurar reduzir o consumo doméstico e estimular a exportação e os investimentos, mais do que simplesmente reduzir a produção. A solução, conforme discutido no Panorama Conjuntural, está na contenção do consumo público, através do ajuste fiscal, e de medidas localizadas que reduzam o forte crescimento do consumo de bens duráveis.

BC 37 - Grafico 1.1


Evidentemente, medidas de restrição ao consumo de duráveis terão algum impacto sobre o desempenho global, pois este tem sido o setor mais dinâmico da economia. Isto nos leva a crer que dificilmente o desempenho econômico do corrente ano será muito diferente daquele do ano passado.

 

Produção Industrial

A indústria brasileira (extrativa + transformação) apresentou, no primeiro trimestre deste ano, queda de 1,4% no indicador dessazonalizado quando comparado com o último trimestre de 1996. Esta queda dá continuidade à desaceleração que já tinha sido observada no último trimestre do ano passado, após dois trimestres de forte crescimento (Tabela 1.2). Desagregando a indústria segundo as categorias de uso (e utilizando o resultado do Indicador IPEA de março), todas as categorias apresentam queda, com exceção dos bens duráveis de consumo, que apresentam crescimento de 0,8%.

 

   

BC 37 - Tabela 1.2


As comparações com igual período do ano anterior apresentam, para a indústria geral, crescimento de 4,3%. Observam-se taxas positivas para os bens intermediários (5,2%) e para os bens de consumo duráveis, enquanto os bens de consumo não-duráveis e os bens de capital apresentam queda de 2,2%. No caso destes últimos, a taxa é menos negativa do que aquela que vinha sendo observada a cada trimestre de 1996.

BC 37 - Tabela 1.3

Perspectivas da Produção Industrial

Incorporando as estimativas do Indicador IPEA de março, prevê-se que a indústria geral (extrativa mineral + transformação) no segundo trimestre deste ano continuará apresentando queda (-1%) na comparação com o primeiro trimestre, mantendo a tendência de esfriamento da economia que já se havia iniciado no último trimestre de 1996. É possível que nossos modelos de séries temporais estejam exagerando este declínio, mas o resultado será certamente negativo, em razão do elevado nível de endividamento das famílias, a julgar pelos níveis de inadimplência revelados pela crescente onda de devolução de cheques, associado ao menor crescimento do salário médio real e da massa de rendimentos na economia.

 

BC 37 - Gráfico 1.2


Na comparação com igual período do ano anterior, nossas novas previsões ainda indicam taxas positivas de crescimento da produção industrial no segundo trimestre (1,7%), fazendo com que a taxa acumulada de 12 meses, que até o primeiro trimestre apontava para um crescimento de 4,8%, avance em junho para 5,3%.
Segundo as categorias de uso, nossas previsões para o segundo trimestre apontam, na comparação com o trimestre anterior após ajuste sazonal, para queda em todas as categorias: -2% para os bens de capital, -2,4% para os intermediários, -1,9% para os duráveis e -0,7% para os não-duráveis. (Tabela 1.2).

Evolução do Consumo

Informações sobre comércio na região metropolitana de São Paulo, obtidas a partir de pesquisa da FCESP e utilizadas pelo GAC como proxy de consumo interno, reforçam a percepção de que o consumo está em declínio desde o quarto trimestre do ano passado. O índice de faturamento real revela uma queda, após ajuste sazonal, de 1% no primeiro trimestre do ano relativamente ao período anterior. Caso as vendas de veículos sejam excluídas do total, a queda se amplia para 2,8%. As vendas de veículos cresceram 5,2% no mesmo período. No acumulado do ano, o faturamento real cresceu 1,9%, e as vendas físicas 10,4%. Excluindo os veículos, que tiveram aumento de 30%, este desempenho se reduz para 1,6%. Esta discrepância entre os resultados de faturamento real e vendas físicas pode estar refletindo ou uma eventual redução de margens no comércio ou a comercialização de bens de menor valor unitário (Tabelas 1.4 e I.3 na seção de Indicadores).

BC 37 - Tabela 1.4

 

Pib e Investimento

Nossas estimativas do PIB para o primeiro trimestre apontam, na série dessazonalizada, para um declínio de 1% quando comparado com o quarto trimestre do ano passado. Esta queda é observada para todos os setores de atividade: -2,3% na agropecuária, -1,5% na indústria e -0,4% nos serviços (Tabela 1.5).

 

BC 37 - Tabela 1.5


A despeito desse resultado negativo na comparação com o trimestre imediatamente anterior, a comparação com igual trimestre do ano passado mostra um forte crescimento (+4,1%), em razão da baixa base de comparação. Com isto, a taxa acumulada em quatro trimestres sai dos 2,9% do final do ano passado para 4,5% até primeiro trimestre deste ano (Tabela 1.6).

 

BC 37 - Tabela 1.6


As expectativas para o segundo trimestre, na série dessazonalizada, são de recuperação, com crescimento de 1,1% em relação ao primeiro trimestre. Concorrerá para isso a recuperação das atividades agropecuária (com o esperado crescimento da renda agrícola) e de serviços. A despeito disso, como a base de comparação se eleva, o crescimento do primeiro semestre (+3,8%) será ligeiramente inferior ao que se observou no primeiro trimestre.
Os resultados para o ano são ainda de difícil previsão, mas, mantida a atual tendência, pode-se esperar uma taxa de crescimento para o PIB próxima ao observado no ano passado.

BC 37 - Grafico 1.3


A taxa de investimento apresenta recuperação a partir do primeiro trimestre de 1996 (15,6%) após trajetória decrescente ao longo de 1995. Estima-se que a taxa do primeiro trimestre deste ano tenha sido de 16,3%. A maior contribuição advém das importações de bens de capital, já que todos os outros compontentes foram negativos (Tabela VIII.4 na seção de Previsões).
As perspectivas para o investimento a médio prazo, no entanto, são bastante favoráveis. A construção civil cresceria em função do maior investimento em infra-estrutura estimulado pelas privatizações e concessões de serviços públicos e da ampliação dos financiamentos habitacionais, seja pela CEF, seja pelo próprio setor privado diante do significativo aumento das captações em cadernetas de poupança. Adicionalmente, espera-se para breve o início das operações do sistema de securitização de créditos do setor imobiliário, reforçando assim a capacidade de produção das empresas do setor via maior disponibilidade de capital de giro.

 

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