Boletim Conjuntural - nº 37, abril 1997

 

Panorama Conjutural

O debate recente sobre os rumos da política macroeconômica voltou a concentrar-se em torno das questões de curto prazo, especialmente sobre o comportamento das contas externas. O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos dobrou no primeiro trimestre do ano relativamente a igual período do ano passado, passando de US$ 3,4 bilhões para US$ 6,8 bilhões. Este crescimento refletiu não apenas a deterioração da balança comercial, mas também a pressão crescente da balança de serviços, cujo déficit aumentou de US$ 3,8 bilhões para US$ 4,4 bilhões.
O aumento dos déficits da balança comercial a partir de meados do ano passado, em que se combinaram crescimento acelerado de importações e ausência de dinamismo das exportações, foi conseqüência, principalmente, embora não exclusivamente, do crescimento da atividade econômica então observado. Em termos dessazonalizados, o PIB cresceu, relativamente ao trimestre imediatamente anterior, 1,7% no segundo trimestre, 2,7% no terceiro e 0,7% no quarto. Para a indústria, estas taxas foram ainda mais expressivas: 2,7% no segundo trimestre, 4,8% no terceiro e 0,4% no quarto. As importações dessazonalizadas acompanharam este movimento, crescendo 5,4% no segundo trimestre, 18,3% no terceiro e 4,5% no quarto. Em sentido contrário, as exportações, que ao longo de 1995 haviam exibido taxas de crescimento expressivas na margem, voltam a apresentar em 1996 tendência de queda nas comparações trimestre a trimestre. O gráfico abaixo ilustra estes movimentos.

BC37 - Panorama - grafico 1


A relação entre déficits da balança comercial e crescimento econômico no curto prazo fornece uma referência sobre as tendências futuras -- evidenciando, em particular, o risco de se extrapolar linearmente o comportamento recente. As projeções do GAC para a atividade econômica mostram que a tendência de crescimento da segunda metade do ano passado, e que no quarto trimestre já mostrava sinais de arrefecimento, daria lugar no primeiro semestre de 1997 a uma acomodação (na realidade, uma pequena queda de 0,5%) em relação aos níveis observados no último trimestre daquele ano. O comportamento das importações dessazonalizadas no primeiro trimestre, de forma consistente com a análise acima esboçada, também exibiu queda (de 2,2%) diante do último trimestre do ano passado, enquanto as exportações, também em termos dessazonalizados, cresceram 3,6%.
A estes movimentos de curto prazo, obviamente, deve-se adicionar o fato de que, em termos tendenciais, as importações ainda apresentam uma trajetória de crescimento, enquanto o desempenho das exportações vem sendo inferior ao esperado. A dinâmica da abertura comercial envolve necessariamente um processo de aprendizado e o estabelecimento de contatos e redes comerciais de distribuição que avançam de forma relativamente lenta. Isto significa que, ainda que respondendo às flutuações da atividade econômica, as importações vão progressivamente consolidando novos patamares, expressos no aumento do coeficiente importações em relação à produção. Dessa forma, mesmo que os déficits comerciais não apresentem uma trajetória explosiva, como se poderia antecipar extrapolando o crescimento do final do ano passado, o resultado para o ano será certamente pior do que em 1996. Estes déficits, estimados por consultores independentes entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões, ainda são plenamente compatíveis com as perspectivas de financiamento do balanço de pagamentos, conforme reveladas pelos dados mais recentes de fluxos de capital. Os investimentos líquidos em moeda (basicamente, investimentos diretos e em portfolio) aumentaram, no primeiro trimestre deste ano, quase 80% em relação a igual período do ano passado, mostrando que até mesmo a perspectiva de se chegar a um déficit em conta corrente no balanço de pagamentos de cerca de 4% do PIB (aproximadamente US$ 30 bilhões) não apresentaria maiores dificuldades de financiamento.
É inegável, contudo, que o aumento dos déficits comerciais tem produzido uma volatilidade indesejável nos mercados financeiros -- a exemplo do observado em março último nos mercados de câmbio e juros -- reforçada mais recentemente pelo aumento das taxas de juros norte-americanas. Numa tentativa de contrapor-se a este aumento da volatilidade, foi adotada a medida de restrição ao financiamento de importações com prazos inferiores a 360 dias. O impacto esperado é de US$ 1,5 bilhão a US$ 2 bilhões e, somado à esperada desaceleração da atividade econômica, esta medida deverá produzir nos próximos meses uma queda na taxa de crescimento das importações -- principalmente naqueles setores, como os de bens de consumo e alguns intermediários, em que o financiamento externo representava um fator "espúrio" de competitividade para o produto importado frente ao nacional. Pelo lado das exportações, o governo tem enfatizado a questão dos financiamentos (por exemplo, a ampliação dos produtos com acesso ao Proex) -- até mesmo porque, com a redução das taxas de juros domésticas, os ganhos que anteriormente eram alcançados através de ACC"s também se reduziram substancialmente.
A inter-relação entre crescimento econômico e importações não se esgota na análise dos desempenhos agregados. A composição setorial do crescimento, com destaque para o desempenho da produção de bens duráveis de consumo e recuperação ainda frágil da produção de bens de capital, ajuda a explicar a reação mais do que proporcional das importações anteriormente destacada. As variações dessazonalizadas da produção de bens de consumo duráveis no segundo e terceiro trimestres de 1996 foram de, respectivamente, 4,1 e 9,9%, estabilizando-se nos dois trimestres seguintes (1996.IV e 1997.I) com taxas de crescimento em torno de 0,7% (ver gráfico abaixo).

BC 37 - Panorama - Gráfico 2

 

Este crescimento desbalanceado impacta desproporcionalmente as importações na medida em que a produção de duráveis tende a carregar um componente de importações superior à média da indústria. Segundo estudo recente do BNDES [1] para um coeficiente importação/produção médio de 15,6% em 1996, os setores-matriz "Material, Aparelhos Eletrônicos e de Comunicação", "Condutores e Outros Materiais Elétricos - exclusive para veículos" e "Motores e Peças para Veículos" apresentavam coeficientes de 64,7, 24 e 23,7%, respectivamente. A relação saldo comercial/produção, que em 1996 foi de -1,1% para a média da indústria, alcançou -4,4% para o setor de duráveis (depois de ter registrado 4,5% na média do período 1990/93). Na classificação das importações por setor de destino, as indústrias de material eletroeletrônico e a de material de transporte responderam no ano passado por 22% das importações totais (atrás apenas do comércio varejista) e por 34,2% das importações de bens de capital. Entre janeiro e março de 1997, as importações de material elétrico e de material de transporte cresceram, respectivamente, 40,4 e 84,3% em relação ao primeiro trimestre de 1996 variação bem superior à média de 27,7%.
A produção de duráveis impulsionou a retomada ao longo de 1996 e ainda se mantinha elevada no primeiro trimestre de 1997. O consumo interno, estimulado pela flexibilização das condições de crédito, cresceu a taxas ainda mais elevadas no período: de acordo com a FCESP, as vendas físicas do primeiro trimestre de 1997 foram 10,2% maiores do que em igual período de 1996. Excluídas as vendas de veículos (que apresentaram crescimento de 30,4%), o desempenho se reduz para 1,5%. As vendas de duráveis (exclusive veículos), na mesma comparação, cresceram 4,6%. Obviamente, a base de comparação deprimida contribui para estas taxas ainda elevadas, mas o impacto sobre as importações, conforme já discutido, não pode ser minimizado.
Existem fatores que sugerem uma reversão endógena deste crescimento nos próximos meses: os índices de inadimplência, mesmo quando considerados como proporção do total de empréstimos, aumentaram substancialmente em março, devendo se manter elevados também em abril. A massa de rendimentos do trabalho em termos reais, segundo a PME, que em meados de 1996 ainda apresentava taxas anuais de crescimento (mês contra igual mês do ano anterior) superiores a 10%, crescia em janeiro a uma taxa abaixo de 4%, e a perspectiva é de continuidade desta redução nos próximos meses. Por fim, a política fiscal, discutida mais adiante, deverá contribuir a partir de agora para uma expansão mais controlada da demanda. O próprio Banco Central, diante dos desenvolvimentos recentes nos mercados financeiros e de produtos, interrompeu em abril a trajetória de queda das taxas básicas de juros de modo a impedir uma queda ainda mais acentuada do cupom cambial que, em termos líquidos, chegou em março a níveis próximos a 8% a.a., recuperando-se novamente em abril. O fato é que, desde o ano passado, tem-se observado, a julgar pelas informações relativas ao comportamento dos fluxos cambiais no mercado flutuante, uma saída intensa de recursos de curto prazo que vêm sendo substituídos por recursos de prazos mais longos. A recente decisão de eliminar o IOF sobre os ingressos de curto prazo constitui um movimento de reação a esta tendência. De qualquer modo, a utilização dos juros como instrumento de política, e que foi intensa ao longo de 1995, parece esbarrar no momento em limites estreitos dados tanto pelo impacto sobre as contas públicas diante do elevado nível de endividamento interno quanto pela necessidade de não desestimular o investimento que deve garantir a consistência a médio e longo prazos da atual estratégia.
A necessidade de conter a taxa de crescimento do consumo de bens duráveis volta, portanto, a ser considerada na agenda da política econômica, mesmo que os indicadores agregados mostrem, na margem, uma desaceleração da expansão da produção industrial e do PIB. Os impactos da estabilização sobre o crescimento da renda, especialmente nos estratos inferiores da distribuição, e da oferta de crédito para consumo são de tal magnitude que, na ausência de uma política fiscal contracionista que neutralize estes efeitos, a elevação do investimento necessário para promover a modernização e reorientação da estrutura produtiva implica a persistência de elevados desequilíbrios pelo lado externo.
Os indicadores da política fiscal neste primeiro trimestre do ano têm mostrado uma substancial melhora em relação a igual período do ano passado. O resultado primário do governo consolidado, segundo os dados das NFSP calculados pelo Banco Central, evoluiu de um déficit de R$ 266 milhões no primeiro bimestre de 1996 para um superávit de R$ 405 milhões em igual período de 1997. A melhora mais expressiva ocorreu nos estados e municípios, com queda de quase 65% nos déficits. Em termos do resultado operacional, o governo consolidado passou de um déficit de R$ 5,4 bilhões no primeiro bimestre de 1996 para um déficit de R$ 3 bilhões em janeiro-fevereiro de 1997, ou seja, uma queda de 45,6%. Nos fluxos acumulados em 12 meses, o déficit nominal, que nos primeiros dois meses de 1996 haviam correspondido a cerca de 7,6% do PIB, reduziu-se para cerca de 5,8% do PIB. Esta trajetória, em que pesem as dificuldades de se avançar de forma mais rápida e profunda com as reformas estruturais, parece consistente com a meta de se obter um superávit primário de 1,5% do PIB em 1997 para o governo consolidado. Ela contrasta, no entanto, com os dados estimados para a identidade macroeconômica básica, apresentados na tabela abaixo, e que apontam para a necessidade de se ampliar ainda mais o esforço fiscal.

BC 37 - Panorama - Tabela 1


As estimativas de poupança e investimento para 1996 mostram dois fatos importantes: em primeiro lugar, o investimento agregado manteve-se praticamente constante em relação a 1995 quando medido a preços correntes. A preços constantes, embora se observe crescimento ao longo do ano em 1996, fechou-se com uma taxa inferior a 1995 (16 contra 16,6% do PIB, respectivamente). No primeiro trimestre de 1997 a taxa de investimento estimada foi de 16,3% do PIB -- quase um ponto percentual acima dos 15,5% do PIB do último trimestre de 1995 mas sem alteração em relação à taxa estimada para o último trimestre do ano passado. O aumento relativamente lento do investimento, quando medido a preços constantes, até o momento (depois de uma expansão acelerada nos primeiros nove meses do Plano Real) não tem se constituído em problema para o crescimento da economia dada a elevada produtividade marginal que o tem caracterizado. Investimentos em modernização e racionalização da produção, em melhoria de qualidade de produto e em novos métodos gerenciais, por exemplo, são relativamente pouco dispendiosos na medida em que ocorrem sobre uma estrutura já existente e podem resultar em grande aumento de produção [2]. No entanto, ao se passar para a fase de ampliação de capacidade produtiva através da construção de novas plantas ou, principalmente, para os investimentos em infraestrutura, a relação marginal capital-produto deve voltar a crescer, exigindo assim taxas de investimento mais elevadas para uma dada meta de crescimento do produto.
A aceleração do programa de privatizações, à medida que passam a ser incorporadas à fase de execução as transferências e concessões dos setores portuário, elétrico e de telecomunicações, deve promover um aumento da taxa de investimento. O investimento das empresas estatais federais declinou de 4,5% do PIB no período 1980/84 para 3,3% do PIB no período 1985/89 e 1,9% do PIB no período 1990/95. A julgar pela experiência passada, e que no caso dos setores de infraestrutura apenas é dramatizada diante do quadro atual de carências, os investimentos após as privatizações ou concessões ao setor privado tendem a se elevar significativamente [3].
Em segundo lugar, observa-se uma melhora da poupança pública em 1996 relativamente ao ano anterior. Esta melhoria, de cerca de 0,4% do PIB, reflete o melhor desempenho das contas públicas observado anteriormente, mas mostra também que ainda se está distante da posição alcançada no período 1991/94. Em contrapartida a esta redução na despoupança do setor público, observa-se uma queda da poupança privada de cerca de 1% do PIB, de 18,6 para 17,1% do PIB.
Esta queda da poupança privada encontra respaldo tanto na teoria quanto na experiência de estabilização de outros países, por exemplo Argentina e México. Diante de fatores como a redução do motivo precaucional num ambiente de maior previsibilidade dos fluxos de renda, redistribuição da renda para os estratos inferiores da distribuição, ampliação da oferta de crédito para consumo e aumento dos preços dos ativos domésticos devido aos fluxos de capital externo e valorização cambial, ela implica a necessidade de um ajuste compensatório na poupança pública como forma de evitar uma ampliação das necessidades de poupança externa para fazer frente aos maiores níveis de investimento requeridos para promover a transição da economia para uma nova configuração de preços relativos e maior exposição ao comércio internacional.
A discussão sobre os níveis de consumo e o lento crescimento do investimento colocam em relevo os riscos de se utilizar a poupança externa para financiar seja o aumento de gastos do setor público (como parece ter sido o caso em 1995), seja o aumento do consumo privado (a exemplo do que parece ter ocorrido em 1996). Novamente, parece claro que, diante de uma distribuição da renda ainda excessivamente concentrada e de uma demanda reprimida por bens de consumo durável ainda elevada, o maior esforço de recomposição da poupança doméstica continua dependendo da elevação da poupança pública. O programa de privatizações e as reformas estruturais são essenciais para que este objetivo seja alcançado, garantindo desta forma que o processo de absorção de poupança externa associado à elevação do investimento prossiga de forma sustentável.
N.E. - A partir desta edição do Boletim Conjuntural passaremos a divulgar os índices de quantum de exportações, calculados pela Funcex em convênio com o IPEA. Além disso, uma série de tabelas nos textos e nos anexos foram alteradas de forma a adequar os dados apresentados às análises e à própria evolução da conjuntura depois do Plano Real. Embora todo esforço tenha sido feito no sentido de se evitar descontinuidades, no caso de interesse por dados que constavam das tabelas e gráficos antigos sugerimos que se entre em contato com o GAC.

1 Ver Moreira, Maurício M., Abertura Comercial e Indústria: atualizando os resultados, Sinopse Econômica, BNDES, março de 1997.

2 Ver CNI/Cepal, Investimentos na Indústria Brasileira - 1995/1999 - Características e Determinantes, Rio de Janeiro, 1997.

3 Ver Pinheiro, Armando Castelar, Impactos Microeconômicos da Privatização, PPE, v. 26, nº 3, dezembro de 1996, no prelo.

 

Resumo das Projeções

BC 37 - Resumo das Projeções

 

 

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