
Setor ExternoAs contas externas brasileiras em 1996 registraram dois momentos bastante distintos no primeiro e no segundo semestre do ano. Nos primeiros seis meses, a balança comercial registrou um déficit de apenas US$ 312 milhões, e o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses, que havia sido de 2,47% do PIB em 1995, caiu para 1,88% em junho de 1996. No segundo semestre, o déficit comercial acumulou US$ 5,2 bilhões, e o déficit em conta corrente no acumulado do ano ficou em 3,27% do PIB. Nitidamente, esse desempenho acompanhou de perto a trajetória do nível de atividade, que parece ter afetado tanto importações quanto exportações. Em contrapartida, a conta de capital apresentou um desempenho excepcional, com aumento dos recursos ingressados, elevação dos prazos e redução dos custos de captação, e grande crescimento dos investimentos diretos, colocando boas perspectivas para a atração de recursos externos para o Brasil nos próximos anos.
Balança Comercial e Taxa de CâmbioO resultado da balança comercial de dezembro, com um déficit de US$ 1,8 bilhão, elevou o déficit comercial do ano para US$ 5,5 bilhões, valor 65% superior ao déficit de 1995. A maior parte desse déficit US$ 3,9 bilhões -- foi gerada no último trimestre do ano, por conta da aceleração do nível de atividade nesse período. Vale notar que, em termos dessazonalizados, o saldo desse trimestre ficaria em US$ 3 bilhões, uma vez que essa época do ano tradicionalmente gera resultados piores na balança comercial.
As exportações no mês de dezembro alcançaram US$ 3,8 bilhões, com queda de 2,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Esse resultado confirma a tendência de queda das exportações (na comparação mês contra mesmo mês do ano anterior) observada desde meados do ano. Na comparação entre o segundo semestre de 1996 e o mesmo período do ano anterior, o valor das exportações ficou praticamente estável, enquanto no primeiro semestre a variação havia sido de 6,8%. Dessa forma, o crescimento acumulado em 12 meses, que chegou a estar em 8,5% em abril de 1996, reduziu-se gradativamente para 2,7% no final do ano, com um valor total das exportações de US$ 47,7 bilhões. Entre os grupos de produtos, os manufaturados tiveram uma trajetória bastante similar à das exportações totais, apresentando um razoável crescimento no primeiro semestre e uma estagnação no segundo. No total do ano, as exportações desses produtos somaram US$ 26,4 bilhões, com crescimento de 3,2% ante 1995. Este crescimento se deveu basicamente a aumentos de quantidade exportada, especialmente de calçados, suco de laranja, automóveis e máquinas e aparelhos agrícolas. Possivelmente, o fraco crescimento das exportações de manufaturados se deveu ao aquecimento da atividade econômica, tal que gerou um redirecionamento dos excedentes exportáveis para o mercado interno. Isso pode ser uma indicação de que alguns setores produtores de manufaturados podem estar sofrendo importantes restrições de capacidade produtiva, o que acaba por sacrificar o desempenho exportador. As exportações de semimanufaturados tiveram, em dezembro último, queda de 20% em relação a dezembro do ano anterior, mantendo-se a tendência observada desde o final de 1995. O acumulado do ano registrou US$ 8,3 bilhões, valor 8,7% inferior ao do ano anterior, refletindo fundamentalmente a redução dos preços internacionais de produtos como celulose, óleo de soja, alumínio em bruto e semimanufaturados de ferro e aço, os quais respondem por quase 50% da pauta de semimanufaturados. A situação oposta se verificou nos produtos básicos, que registraram, em geral, significativos ganhos de preço. As exportações desses produtos registraram US$ 12,2 bilhões em 1996, com crescimento de 11% em relação ao ano anterior, beneficiado pelos aumentos de preços de produtos como farelo de soja, fumo em folhas, soja em grão e minério de ferro, responsáveis por 61% da pauta de básicos. As importações de dezembro foram de US$ 5,6 bilhões, valor 42% superior a dezembro do ano anterior, o que levou o total do ano a US$ 53,3 bilhões, registrando um crescimento de 6,9% em relação a 1995. Com um movimento inverso ao das exportações e similar ao do nível de atividade, as compras externas registraram queda de 10% no primeiro semestre do ano passado diante do mesmo período de 1995, mas se recuperaram no segundo, tendo um crescimento de 25%. Ao longo dos meses, observou-se uma trajetória inicial de queda das taxas de crescimento no acumulado em 12 meses, de modo que essas ficaram próximas de zero em agosto, voltando a se elevar daí por diante.
Entre os diversos grupos de produtos, a trajetória foi similar, com crescimento mais acelerado no segundo semestre. A exceção fica por conta dos bens de capital, cujo crescimento veio desacelerando ao longo do ano, mas ainda assim terminou o ano em 12,1%. Atualmente, esses bens respondem por 23,8% da pauta de importações. A maior participação permanece sendo das matérias-primas e bens intermediários (46% da pauta), que também tiveram um crescimento significativo no ano (10%), também concentrado no final do ano, atingindo compras de US$ 24,6 bilhões. O item combustíveis e lubrificantes teve um crescimento bastante elevado (19,3%), influenciado principalmente pelo grande aumento das compras de petróleo, tanto devido a preços quanto a volume importado, que cresceram 83% no segundo semestre em relação ao mesmo período de 1995.
As importações de bens de consumo, após terem se reduzido fortemente nos primeiros meses de 1996 especialmente as importações de automóveis, que chegaram a cair mais de 80%, voltaram a se elevar a partir de setembro, na comparação mês contra mês do ano anterior. Esse movimento foi mais destacado nos bens duráveis, que após terem caído até 60% nos primeiros meses do ano, cresceram 98% em dezembro ante o mesmo mês de 1995, embora fechando o ano ainda em queda de 25%. No caso dos bens não-duráveis, a queda foi mais suave nos primeiros meses, assim como a recuperação no segundo semestre. As importações desses bens cresceram 38,8% em dezembro e 6,7% no acumulado do ano. A manutenção do ritmo de desvalorização do câmbio nominal na casa de 0,5/0,6% no mês de dezembro, juntamente com uma variação mais elevada do IPA em dezembro (1,21%), levou a uma valorização da taxa de paridade R$/US$ de 0,3% no mês, embora no ano tenha havido desvalorização de 1,6%. Desde meados de 1995, um dos elementos que têm influenciado a situação da taxa de câmbio brasileira tem sido o movimento de apreciação do dólar diante das principais moedas internacionais, de modo que a valorização do dólar ante a cesta de moedas internacionais considerada nas contas do GAC foi de 1,3% em dezembro e 4,3% no acumulado no ano. Com isso, a taxa de câmbio efetiva real registrou valorização de 1,6% no mês, acumulando no ano uma valorização total de 2,8%. Desde o início do Plano Real, essa taxa acumula valorização de 15,9%. Quando se considera apenas as exportações de manufaturados (tendo como deflator o IPA-indústria de transformação), a valorização da taxa efetiva foi de 1,1% em dezembro, mas no ano acumulou-se uma pequena desvalorização de 2,9%.
Balança de Serviços e Conta CorrenteA balança de serviços registrou um resultado deficitário em US$ 21,7 bilhões, sendo responsável por quase 90% do déficit em conta corrente em todo o ano de 1996. Somente no mês de dezembro o déficit foi de US$ 2,9 bilhões, valor 97% superior ao do mesmo mês de 1995, e o crescimento do saldo dos serviços em todo o ano de 1996, em relação a 1995, foi de 16,7%. O maior déficit, tanto no mês quanto no ano, foi basicamente devido aos maiores pagamentos de juros da dívida externa e à elevação das despesas com viagens internacionais. A conta de juros teve déficit de US$ 1,2 bilhão em dezembro e de US$ 9,8 bilhões no total do ano, elevando-se, respectivamente, 80 e 20% em relação a iguais períodos de 1995. Esse movimento de elevação das despesas com juros reflete basicamente o maior endividamento externo do setor privado nacional, cujo valor da dívida cresceu cerca de US$ 10 bilhões somente nos primeiros seis meses de 1996. No mesmo período, a dívida do setor público se reduziu em cerca de US$ 3 bilhões. Quanto ao item viagens internacionais, o déficit no ano passado foi de US$ 3,6 bilhões, sendo o item da balança de serviços que apresentou o maior crescimento do déficit em relação a 1995 -- 48,5%. Tal desempenho reproduz a trajetória dessa conta observada desde o início dos anos 90, como conseqüência da maior facilidade de acesso a câmbio para esse tipo de operação. De fato, em 1994 essa conta registrou crescimento de 47,8% em relação ao ano anterior e, em 1995, nada menos que 104,8%. Outros itens da conta de serviços também apresentam déficits significativos -- como transportes (US$ 3,2 bilhões), lucros e dividendos (US$ 2,6 bilhões) e serviços diversos (US$ 1,6 bilhão) -- mas com pequeno crescimento em relação a 1995, ou mesmo queda (como no caso dos lucros e dividendos), contribuindo com apenas uma pequena parte do aumento do déficit total na balança de serviços. Como resultado do pior desempenho tanto da balança comercial quanto dos serviços, o déficit em conta corrente em 1996 alcançou US$ 24,3 bilhões, valor 37% superior ao observado em 1995 e correspondente a 3,27% do PIB (em 1995, o déficit foi de 2,47%). Esse resultado, embora um pouco superior ao que era previsto (próximo a 3% do PIB) não significa absolutamente um descontrole das contas externas. De fato, uma boa parte desse saldo (cerca de 44%) foi gerada apenas no último trimestre do ano, indicando uma razoável sensibilidade do déficit ao crescimento da economia. De qualquer forma, embora o mais provável seja uma acomodação natural do nível de atividade, o governo ainda dispõe de instrumentos de controle do nível de atividade para administrar um eventual crescimento do déficit neste ano. Conta de CapitalO último trimestre do ano confirmou um movimento que já se vinha configurando desde o início do ano. Os fluxos de capital para o país permanecem crescendo a taxas significativas, mas com uma importante alteração de perfil no sentido de capitais de médio e longo prazos e, especialmente, investimentos diretos. O total de recursos ingressados no país atingiu US$ 79 bilhões (cerca de 10% do PIB), registrando um crescimento de 46,6% em relação a 1995. Em termos líquidos, os dados disponíveis até o terceiro trimestre do ano indicam uma pequena redução do saldo da conta de capital (-7%), alcançando, em quatro trimestres, o valor de US$ 28,3 bilhões. No entanto, essa queda é basicamente devida ao aumento das amortizações e à grande queda (-74%) dos capitais a curto prazo. Em contrapartida, os empréstimos de médio e longo prazos cresceram 31% e os investimentos tiveram aumento de 283%, registrando, respectivamente, US$ 13,8 bilhões e US$ 10,5 bilhões. Esse desempenho se deu não obstante a queda do diferencial entre juros internos e externos observada ao longo do ano. Os dados de prazos e custos das captações externas também confirmam a hipótese de substituição de capitais de curto prazo por outros de maior prazo. O prazo médio das captações de bônus, notes, certificados de depósito e outros papéis colocados no exterior passou de 6,2 anos no quarto trimestre de 1995 para 7,7 anos no mesmo período de 1996, e o custo global caiu de pouco mais de 11% a.a. para 10,2% no mesmo período. Outra mudança importante ao longo de 1996 se deu na composição dos investimentos estrangeiros. Se em 1995 61% dos recursos líquidos foram investimentos em portfólio, em 1996 as proporções se inverteram, de modo que os investimentos diretos responderam por 60% do total dos fluxos líquidos, com um valor de US$ 9,4 bilhões. Estes registraram no ano passado um recorde histórico de ingressos, observando um crescimento de 140% em relação ao ano anterior. Vale notar que os valores acumulados em 12 meses dos investimentos diretos vêm crescendo desde 1993, com uma significativa aceleração em 1996, de forma que eles vêm se tornando uma das fontes primordiais de financiamento externo. Em 1996, eles representaram 38,8% do déficit em conta corrente, devendo essa proporção elevar-se ainda mais neste ano. Mantida a trajetória observada em 1996, as perspectivas de ingressos de capital estrangeiro neste ano são bastante favoráveis, tanto em termos de volume quanto de perfil de recursos, configurando uma situação tranqüila para o financiamento do déficit em conta corrente. Uma questão que vem sendo colocada recentemente com certa ênfase é a necessidade de recursos para fazer frente também às amortizações da dívida de médio e longo prazos previstas para este ano. De fato, esse valor é próximo a US$ 19 bilhões, segundo os últimos dados do Banco Central. Mas três aspectos devem ser lembrados quanto a isso. Em primeiro lugar, o total das captações externas em 1996 (US$ 79 bilhões) é bastante superior à soma dessas amortizações com o déficit em conta corrente. Além disso, a provável manutenção das condições de alta liquidez e baixas taxas de juros no mercado internacional deve propiciar o refinanciamento das dívidas que vencerem neste ano com relativa facilidade. Por fim, a maior parte do endividamento recente tem sido feita pelo setor privado, de modo que o governo brasileiro ainda tem um amplo espaço para elevar suas captações diretas, no caso de as empresas nacionais não renovarem seus atuais empréstimos. Economia MundialO lento crescimento dos países da Europa continental e a desaceleração da economia japonesa no segundo semestre de 1996 contribuíram para manter ausentes as pressões inflacionárias nos países industrializados. Mesmo nos Estados Unidos e no Reino Unido, que apresentaram um ritmo relativamente maior de crescimento, não se observou até o momento movimento significativo de alta da inflação. O moderado desempenho das economias industrializadas ao longo de 1996, com ausência de pressões inflacionárias, levou os Bancos Centrais desses países a manterem inalteradas as taxas de juros de curto prazo nos últimos dois meses do ano. A ênfase que vem sendo colocada no ajustamento fiscal, principalmente nos países da UE e no Japão, deverá contribuir para manter baixas as taxas de juros nesses países. Nos Estados Unidos, uma elevação da taxa de juros de curto prazo só deverá ocorrer se a economia apresentar sinais de um crescimento mais vigoroso. As perspectivas em 1997 para os principais países industrializados são de um comportamento mais uniforme do nível de atividade em praticamente todas as economias, ao contrário do ocorrido no ano passado. Nos Estados Unidos as perspectivas são de manutenção de sua longa trajetória de crescimento sustentado, com expansão do PIB de 2,3%, igual ao ano passado, segundo projeção do Consensus Forecasts de dezembro. No Japão as projeções têm apontado para uma desaceleração na taxa de crescimento do PIB em 1997, que deverá alcançar 1,4%, com relação a uma taxa estimada para 1996 de 3,6%, a maior registrada desde 1992. Na Alemanha, a desaceleração do nível de atividade em fins de 1995 e inícios de 1996 foi revertida no segundo e terceiro trimestres, sendo projetada uma aceleração do crescimento de 1,4% em 1996 para 2,2% em 1997. Na França, a desaceleração da economia ao longo de 1995, inclusive com retração do nível de atividade ao final do ano, acabou se estendendo para o primeiro semestre de 1996, observando-se claramente a partir de então um movimento de recuperação. As projeções do Consensus Forecasts apontam para um fortalecimento do nível de atividade em 1997, com uma taxa de crescimento de 2,1%, um ponto de percentagem acima do ano passado. No Reino Unido, as projeções para 1997, do Consensus Forecasts de dezembro, são de um crescimento da ordem de 3,2%. O superávit comercial dos países industrializados totalizou, no terceiro trimestre de 1996, segundo estimativas preliminares (dados dessazonalizados), US$ 17,3 bilhões, não muito distinto dos US$ 16,5 bilhões observados no mesmo período do ano passado, mas muito superior à média trimestral de US$ 8,3 bilhões verificada no primeiro semestre do ano. A recuperação recente do saldo externo em mercadorias das economias da OCDE tem sido possível graças ao aumento dos superávits da Alemanha e da França e à redução do déficit comercial do Reino Unido no período, que mais do que compensaram o crescimento do déficit norte-americano na balança comercial. Após ter crescido 9,1% em quantum em 1995, o comércio mundial de mercadorias apresentou desaceleração em 1996 para uma taxa estimada de 6,4%. Em 1997, as previsões são de um crescimento de 7,1%. No entanto, a demanda dirigida pelas exportações brasileiras (em quantum), estimada a partir da evolução esperada das importações dos nossos principais parceiros comerciais, deverá ainda apresentar uma ligeira desaceleração em 1997. O índice dos preços em dólar das commodities da revista The Economist vem registrando acentuada queda, com algumas oscilações, desde meados do segundo trimestre do ano passado. O movimento vem sendo acarretado fundamentalmente pelo forte declínio observado nas cotações internacionais dos produtos agrícolas (grãos), que em abril de 1996 haviam atingido cotações recordes, e pela intensificação do movimento de contração dos preços dos metais, recentemente revertido, em função do escândalo Sumitomo no mercado de cobre. Adicionalmente, a valorização da moeda norte-americana, observada de fato desde maio de 1995, vem contribuindo para comprimir as cotações denominadas em dólar dos principais produtos negociados internacionalmente. O preço do petróleo (tipo Brent) apresentou no segundo semestre de 1996 uma acentuada elevação, ainda que com fortes oscilações, atingindo cotações inéditas desde o conflito do Golfo, em janeiro de 1991. O recente retorno do Iraque ao mercado deverá contribuir para estancar o movimento ascendente dos preços, principalmente no caso de se confirmar o abrandamento do atual inverno no Hemisfério Norte, que, no final de dezembro e início de janeiro de 1997, mostrara-se bastante rigoroso. |
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