Boletim Conjuntural 33 - abril 96

Política Agrícola

INTRODUÇÃO

Em 1995, os preços agropecuários ajudaram a sustentar os baixos índices inflacionários, com destaque para os produtos animais e seus derivados, que tiveram variação negativa de preços. Isso aconteceu não obstante o fato de as cotações no mercado internacional de grãos terem estado em crescimento contínuo, e se explica pela boa safra doméstica de grãos em 1995 e pela presença decisiva do governo na comercialização agrícola através da venda de seus estoques.

Entretanto, após uma quebra de safra e a redução dos estoques governamentais, podem ser esperados preços mais elevados em 1996. Neste contexto, pretende-se avaliar, nesta seção, as perspectivas dos preços agropecuários para este ano, dando-se destaque aos produtos de origem animal, em particular aos bovinos.

OS ÍNDICES DE PREÇOS DE ALIMENTAÇÃO NO VAREJO E NO ATACADO

Apesar das expectativas de elevação dos preços agrícolas em 1996, a entrada da safra tem viabilizado variações negativas no item alimentação do índice da Fipe (Tabela 7.1).

BC 33 - Tab. 7.1

Através dos itens selecionados do índice de preços no atacado (Tabela 7.2), pode-se notar a volatilidade inerente do item legumes e frutas. Cereais e grãos mostram forte elevação de preços no final de 1995 e início deste ano, parcialmente revertida com a entrada da safra.

BC 33 - Tab. 7.2

A Tabela 7.2 mostra ainda que, além da "âncora verde" em 1995, contou-se com uma "âncora vermelha", já que animais e derivados tiveram variação de 18,78% durante o Plano Real, frente à elevação do IPA de 24,6%. Em 1995, o índice de preços destes produtos caiu 12,66%. O preço dos produtos pecuários esboçou alguma recuperação em março, basicamente devido aos ovos (elevação de 19,42%, após variação de 7,51% em fevereiro) e aves (10,34%). Os preços dos bovinos não vêm se recuperando, devido à safra.

Finalmente, as lavouras para exportação, que ficaram com os preços contidos ao longo do Plano, têm pressionado a inflação, basicamente devido ao café, cujo preço em março esteve 33% acima dos praticados em janeiro.

A RECUPERAÇÃO DOS PREÇOS AGRÍCOLAS EM 1996

Passado o pico de colheita da safra de grãos de 1995/96, os preços agrícolas no final de março e início de abril começaram a reverter sua queda, à exceção do arroz de sequeiro, como mostra a Tabela 7.3. Essas elevações de preços, inicialmente captadas em nível de produtor, já se refletiram no atacado, exceto com relação ao óleo de soja, que tem processo de formação de preços diferenciado. Espera-se uma reversão no caso do feijão, devido ao início da colheita da segunda safra (Tabela 7.3).

BC 33 - Tab. 7.3a

BC 33 - Tab. 7.3b

Neste ano, a reversão da queda sazonal dos preços iniciou-se já no período da safra, devido ao quadro conjuntural interno e externo diferente daquele verificado em 1995, quando a queda característica do período da safra prolongou-se até julho (Tabela 7.5).

BC 33 - Tab. 7.4a

BC 33 - Tab. 7.4b

A quebra da safra 1995/96 é a segunda maior desde 1990, tanto em termos percentuais (13%) como em volume (10 milhões de t). Como conseqüência, constata-se que os níveis de preços agrícolas, em termos reais, encontram- se mais elevados neste ano do que na entressafra do ano passado (ver Tabelas 7.5 e 7.6).

BC 33 - Tab. 7.5

BC 33 - Tab. 7.6

A esta conjuntura interna soma-se um quadro internacional também instável, onde os preços de grãos como trigo, milho e soja vêm apresentando elevações atípicas mesmo para um período de entressafra, com altas de 37, 58 e 30%, respectivamente, em relação ao mesmo período do ano passado. Este cenário se sustenta à medida que se confirma a tendência de redução dos estoques mundiais e norte-americanos (ver Tabela 7.7). O início do plantio da safra de 1996/97 nos Estados Unidos certamente será um importante fator nos próximos meses para atenuar a pressão sobre as cotações, caso não haja um agravamento dos problemas climáticos que vêm ocorrendo na região das grandes planícies.

BC 33 - Tab. 7.7

Diante deste cenário, a recuperação dos preços agrícolas internos ao longo de 1996 é inevitável, devendo se manter estáveis no caso do arroz, mas acima da média de 1995 até maio, e podendo se elevar ainda mais após este período, com a entrada da entressafra (algo em torno de 20%). Quanto ao milho, a expectativa de alta também se mantém. Como é o grão cuja situação se encontra mais crítica, o governo para este ano adotou estratégias mais ousadas.

Geralmente, o preço de liberação de estoques (PLE), parâmetro que determina a intervenção do governo, é relevante apenas na entressafra. Para este ano, o PLE, fixado em R$ 8,55/saca (cotação Ponta Grossa), foi anunciado para operar durante a comercialização da safra. Foi uma estratégia nova do governo na esperança de que, na entressafra, os preços no mercado interno passem a ser balizados pelos praticados internacionalmente. Apesar das cotações atuais estarem elevadas, o governo presume que, com a entrada da safra norte-americana, as cotações venham a ceder (os preços futuros já confirmam esta tendência). A estratégia de vendas destes estoques será a de realizar as vendas em pequenos lotes comercializados nas microrregiões, pois com esta medida um maior número de armazéns ofertará o produto, o que levará os leilões a se estenderem por dois a três dias, dando chances de aquisição a um maior número de compradores.

Para o setor agrícola e para a economia como um todo, esta recuperação dos preços ocorre em momento certo. Sem ainda impactar fortemente a inflação, uma vez que o aumento do preço dos grãos é mais que compensado pela redução do preço das carnes e seus derivados, esta é a oportunidade que os produtores têm para se capitalizar e, assim, conseguir fôlego para o plantio da próxima safra.

O IMPACTO SOBRE OS PREÇOS DOS PRODUTOS ANIMAIS

O impacto da elevação interna dos preços dos grãos sobre outros setores tem sido inevitável. No caso do trigo, as altas no mercado internacional vêm se refletindo sobre os preços internos no atacado desde maio de 1995. Nos últimos 12 meses, esta matéria-prima, que já acumula uma elevação de 60%, vem exercendo influência em seus derivados no varejo, como panificados, massas e farinhas. No índice da Fipe, esses derivados pesam 2,31% e diferenciam-se quanto à incorporação do aumento do preço do trigo. Nos últimos 12 meses, subiram de preço a farinha de trigo (72%), os panificados (45%), o macarrão (29%) e os biscoitos e salgadinhos (16%). O aumento do preço do trigo já vem, assim, sendo incorporado na cadeia de produtos derivados.

Um setor que ainda será afetado pela alta interna dos grãos, entretanto, é o de carnes. No caso do frango, a defasagem entre o preço recebido e o custo de produção já levou a uma queda de 5% no alojamento de pintos de um dia em 1996, indicando que mais adiante deverá ocorrer uma retração da oferta para o mercado e uma conseqüente pressão sobre os preços no varejo e no atacado.

No caso da carne bovina, o Gráfico 7.1 mostra que a forte queda do preço do boi gordo, verificada durante 1995 e início de 1996, tem a ver com um aumento expressivo do abate bovino total entre meados de 1994 e fins de 1995 (de cerca de 20%). Este aumento da oferta de animais gordos (peso da carcaça) certamente refletiu o baixo preço das rações (o que favoreceu o confinamento), além do clima mais favorável para as pastagens em 1995. Mas, como mostra o Gráfico 7.2, essa elevação da oferta de carne bovina decorreu também de um maior "descarte" de vacas, fenômeno que deve ter sido intensificado no início de 1996. Segundo o IBGE (mesma fonte das séries que foram dessazonalizadas e apresentadas no Gráfico 7.2), o abate bovino total aumentou em 11,1% em 1995, sendo que o de bois aumentou 7,3% e o de vacas, nada menos que 22,2%. Enquanto isso, o abate de suínos aumentou 18,2% e o de aves, 13,6%.

BC 33 - Gráf. 7.1

BC 33 - Gráf. 7.2

Este maior "descarte" de vacas, por sua vez, pode ser explicado em função da própria queda do preço dos bovinos (em particular, dos bezerros). É possível, contudo, que a redução da inflação tenha também diminuído a preferência por ativos reais, com menor retenção de vacas.

De qualquer maneira, isto evidencia a necessidade de se voltar a dar a atenção devida ao comportamento do abate bovino, já que ele é ainda o principal determinante dos preços do "complexo pecuário", especialmente quando se considera sua volatilidade. Nesse sentido, cabe ao governo estar preparado para uma eventual queda mais acentuada do abate bovino na entressafra de 1996 (e um menor aumento na safra de 1997), devido não apenas ao aumento dos preços dos grãos, mas também ao fato de que haverá menos vacas a serem "descartadas". A própria recuperação esperada dos preços de bovinos tenderá a intensificar essa redução no abate de fêmeas.

SUMÁRIO E CONCLUSÕES

Esta seção procurou, inicialmente, retratar o processo de ajustamento dos preços agrícolas à redução da safra doméstica e à elevação dos preços externos dos grãos. O alinhamento dos preços domésticos aos internacionais é automático no caso de alguns produtos, como trigo e soja, mas parcial nos casos de milho e arroz, em função da intervenção do governo, que neste ano pretende ser inovadora na comercialização de seus estoques.

Quanto à transmissão desse aumento dos preços dos grãos aos preços dos alimentos que os utilizam como insumos, focalizamos o caso dos produtos de origem animal. A este respeito, alertamos que a preocupação corrente quase exclusiva com a carne de frango, "musa do Plano Real", é indevida. A carne bovina pode surpreender no segundo semestre e no início do próximo ano, gerando pressões adicionais àquelas com origem na alta de preços dos grãos.

Nota - Esta seção foi redigida por Regina Petti, do IEA, bolsista do convênio Anpec/PNPE no IPEA, Guilherme Soria Bastos, da FGV, e Gervásio Castro de Rezende, que coordenou o trabalho. Os autores agradecem a colaboração da equipe do projeto Conab/IPEA, Ingreed S. Valda Estevez e Ricardo Sandes Ehler, que estimaram os modelos utilizados na dessazonalização das séries analisadas.

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