
Boletim Conjuntural 33 - abril 96Setor ExternoEm março, a taxa de câmbio efetiva real para o total das exportações manteve o movimento de desvalorização observado desde março de 1995, registrando uma depreciação de 0,5%, que no acumulado do período já alcança 11,7%. O atraso cambial desde a implementação do Plano Real, no entanto, ainda é de 14,2%. As exportações apresentaram no primeiro trimestre do ano um crescimento de 9,9% com relação ao mesmo período de 1995, enquanto as importações caíram 11%, resultando em um déficit na balança comercial de US$ 46 milhões. No front externo, o cenário pode ser considerado relativamente desfavorável em termos de nossa balança comercial, dada a expectativa de redução da taxa de crescimento do volume do comércio mundial, queda dos preços das principais commodities de exportação (com exceção da soja) e valorização do dólar, que reduz a competitividade das exportações. BALANÇA COMERCIALO saldo comercial, após três meses de resultados relativamente elevados no segundo semestre de 1995, registrou expressiva queda a partir de novembro, mantendo-se, no entanto, razoavelmente equilibrado até fevereiro último, tornando-se negativo em março, quando a balança comercial registrou um saldo negativo de US$ 106 milhões, com exportações de US$ 3.767 milhões e importações de US$ 3.873 milhões. Tais valores significaram uma queda das exportações e das importações de, respectivamente, 0,8 e 18,2% com relação aos valores registrados em março do ano passado (Tabela 4.1). O significativo declínio no saldo comercial nos dois últimos meses do ano passado foi explicado em grande parte pela sazonalidade adversa do comércio externo no final do ano. No entanto, já em fevereiro, em termos dessazonalizados, o saldo já havia se tornado mais fortemente negativo (-US$ 200 milhões), alcançando em março -US$ 305 milhões. No acumulado do ano, as exportações atingiram US$ 10.693 milhões e as importações US$ 10.739 milhões, o que resultou em um saldo ligeiramente negativo de US$ 78 milhões. As exportações no primeiro trimestre do ano apresentaram um crescimento de 9,6%, enquanto as importações registraram uma queda de 11,4% (Tabela 4.2).
Deve-se ressaltar, no entanto, que, ao contrário de nosso procedimento habitual, os valores das exportações em março são baseados em estimativas e não em dados oficiais. Como resultado de uma parada técnica do Siscomex, não foram computadas em março as exportações dos dois últimos dias do mês. As nossas estimativas foram realizadas imputando-se aos dois últimos dias os valores médios observados nos 19 primeiros dias úteis do mês. As exportações totais, na série dessazonalizada, após permanecerem entre maio e novembro em um patamar médio de US$ 4,1 bilhões, caíram para a média de US$ 3,85 bilhões entre dezembro e março, o que representou uma redução de 6,1% (Gráfico 4.1).
O crescimento das exportações no primeiro trimestre do ano (9,6%) é explicado pelo crescimento dos semi-elaborados (9,7%) e dos manufaturados (6,2%), já que os produtos básicos registram uma queda de apenas 2,2%. Ao contrário do observado no ano passado, quando o crescimento dos semimanufaturados foi explicado basicamente pelo crescimento dos preços, neste ano o crescimento é explicado pela elevação do quantum exportado: entre os 20 produtos com maior participação na pauta, 12 registraram taxas positivas de crescimento, sendo que para sete deles observou-se uma redução de preços, e mesmo nos demais o efeito quantum exportado foi mais importante do que o efeito preço Em termos do destino das exportações, verifica-se que o crescimento para os nossos três principais parceiros comerciais, considerados individualmente, foi negativo quando comparado com igual período do ano passado: no acumulado do ano, a taxa de crescimento das exportações para os Estados Unidos foi -2,8%, para a Argentina -2,4% e para o Japão -0,4%. Registraram alta, no entanto, as exportações para a União Européia, que no primeiro trimestre alcançaram 16,1%. Taxas de crescimento extremamente elevadas foram observadas para mercados não-tradicionais, como Tailândia (171,1%), Formosa (90,7%), Venezuela (75,8%) e Hong Kong (53,5%). As importações, exclusive petróleo, em termos dessazonalizados, que haviam caído de um patamar médio de US$ 4,5 bilhões no primeiro semestre de 1995 para US$ 3,6 bilhões no segundo semestre, voltaram a apresentar elevação a partir de janeiro, situando-se, em média, em US$ 4 bilhões em fevereiro/março, o que representa um crescimento de 11,1% em relação aos valores médios do segundo semestre do ano passado (Gráfico 4.2).
Os últimos resultados da balança comercial sugerem que podem ser esperados novos déficits na balança comercial, principalmente se houver uma aceleração no ritmo de crescimento da economia, ainda que de magnitude inferior ao registrado no primeiro semestre de 1995 devido às alterações efetuadas no âmbito das políticas comercial e cambial. POLÍTICA CAMBIALEm março, a taxa de câmbio efetiva real para o total das exportações manteve o movimento de desvalorização observado, com exceção de alguns poucos meses, desde março de 1995, apresentando uma depreciação de 0,5%, explicada basicamente pela desvalorização da taxa de paridade do real em relação ao dólar. A desvalorização acumulada desde fevereiro de 1995 por esse indicador já alcançava, em março último, 11,7%. Mesmo assim, a valorização da taxa de câmbio efetiva desde junho de 1994 era de 14,2% e de 26,8% com relação aos valores médios de 1992, ano de maior taxa de câmbio efetiva real média da década (Gráfico 4.3).
Quando se considera a taxa de câmbio efetiva real para manufaturados -- os mais afetados por oscilações acentuadas no câmbio --, verifica-se que a defasagem cambial estimada para esse indicador é inferior à estimada para a taxa de câmbio efetiva real para o total das exportações. Em março, a taxa específica para manufaturados apresentou uma desvalorização de 0,7%, também explicada basicamente pela depreciação da taxa de paridade do real frente ao dólar, ficando a desvalorização no acumulado desde fevereiro em 7,3%. Com relação a junho de 1994, a defasagem acumulada em março era de 11,2%, enquanto com relação aos valores médios observados em 1992 esta era de 20,1% (Gráfico 4.4).
A relação câmbio efetivo/salário, que serve como proxy da rentabilidade das exportações, que havia apresentado uma certa estabilidade nos 10 primeiros meses de 1995, registrou forte valorização nos dois últimos meses do ano passado, explicada exclusivamente pela elevação dos salários, dado que nesses meses a taxa de câmbio efetiva real permaneceu praticamente estável. Nos dois primeiros meses do ano, a relação câmbio efetivo/salário apresentou desvalorização, que em fevereiro último alcançou 3,3%. Com relação a junho de 1994, o atraso acumulado por esse indicador em fevereiro último era de 35,3%, muito superior, portanto, ao valor registrado para a taxa de câmbio efetiva real para manufaturados. Deve-se ressaltar, no entanto, que a queda na relação câmbio efetivo/salário é explicada, no período, principalmente por uma elevação dos salários, que veio acompanhada por significativos ganhos de produtividade. Observou-se também nesse período uma elevação de preços dos produtos exportados, principalmente os semi-elaborados: no período entre fevereiro de 1995 e janeiro de 1996, os preços externos do produtos básicos, semimanufaturados e manufaturados cresceram, respectivamente, 2,9, 23,8 e 9,2% segundo dados divulgados pelo Boletim Iceg de março da Universidade Santa Úrsula. Nesse sentido, o atraso cambial acumulado por esse indicador em fevereiro não pode ser interpretado como uma redução de igual magnitude na rentabilidade das exportações. A ordem de magnitude do atraso cambial acumulado por esse indicador nesse período, no entanto, sugere alguma deterioração na rentabilidade das exportações. Tendo em vista aumentar a competitividade das exportações, medidas de incentivo às exportações foram tomadas não apenas pela elevação dos recursos para o seu financiamento, como também em termos de desgravação tributária. ECONOMIA MUNDIALO panorama econômico mundial no primeiro trimestre de 1996 foi marcado pela continuidade do movimento generalizado de desaceleração do crescimento observado no âmbito dos países do G-7 (as sete nações industrializadas mais importantes) principalmente a partir do segundo semestre de 1995 -- com exceção do Japão, que apresentou desde o quarto trimestre de 1995 uma suave recuperação --, mantendo sob controle as pressões inflacionárias nesses países. A previsão do projeto LINK das Nações Unidas para o conjunto dos países industrializados aponta para uma taxa de crescimento de 2,1% em 1996. A acentuada desaceleração do ritmo de crescimento desses países permitiu um abrandamento das suas políticas monetárias: desde o início de 1995 até abril último, as taxas da juros de curto prazo caíram 0,25 ponto percentual nos Estados Unidos, 1,5 na Alemanha e 1,25 no Japão. Com relação as taxas de juros de longo prazo, as projeções do banco de investimento Goldman Sachs, em um horizonte superior a seis meses, apontam para uma elevação das taxas de juros dos títulos do governo de 10 anos nesses três países. Com relação ao comércio internacional, segundo as últimas estimativas da OECD, o crescimento do volume das importações destes países deverá atingir 7,7% em 1996, inferior em quase um ponto de percentagem ao observado em 1995. Para o Brasil, a "demanda dirigida" -- medida pela taxa de crescimento do volume de importações dos principais parceiros comerciais, ponderada pelas respectivas participações na pauta de exportações brasileiras -- deverá também alcançar 7,7% em 1996. Após sofrer uma forte desvalorização frente ao iene e ao marco em 1994 e nos primeiros quatro meses de 1995, o dólar voltou a partir de maio do ano passado a apresentar tendência de valorização frente a essas moedas, movimento que deve perdurar ao longo do ano, já que os fundamentos continuam favoráveis a uma trajetória de valorização do dólar. O índice da média dos preços das commodities com cotação em dólar publicados na revista The Economist manteve-se relativamente estabilizado no primeiro trimestre de 1996, atenuando o movimento de queda que vinha sendo observado desde o início do ano passado. Este movimento resulta da conjugação de preços deprimidos para produtos como alumínio, cobre e café, com a forte alta que vem sendo observada nas cotações de alguns produtos agrícolas, principalmente grãos. As cotações do petróleo (tipo Brendt) experimentaram uma forte recuperação desde fins de janeiro, quando se situavam ao redor de US$ 16, ultrapassando em meados de abril os US$ 23. Apesar da demanda na Ásia (exclusive Japão) e nos países em desenvolvimento ainda se manter bastante aquecida -- em contraste com o que se observa para a OECD --, os analistas mostram-se unânimes em afirmar que a recente alta dos preços não se sustenta e que a curto prazo as cotações deverão se acomodar em um patamar significativamente inferior. Para o Brasil, o cenário da economia mundial se mostra relativamente desfavorável em termos de nossa balança comercial. As perspectivas de desaceleração do comércio mundial e de valorização do dólar -- reduzindo a competitividade das exportações brasileiras -- deverão afetar negativamente os grandes agregados da balança comercial. Também com relação às nossas principais commodities de exportações, com exceção do complexo soja, os sinais são desfavoráveis, já que as perspectivas são de preços deprimidos, enquanto se observa uma forte elevação no preço do trigo, do qual o Brasil é um importador líquido. Por outro lado, a redução das taxas de juros de curto prazo deverá levar a uma diminuição do serviço da dívida externa "velha", contribuindo positivamente para o saldo em transações correntes. |
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