
Boletim Conjuntural 33 - abril 96InflaçãoEncerrado o primeiro trimestre do ano, e com a nova moeda completando 21 meses, é inegável que os resultados obtidos em termos da inflação, medida por qualquer um dos índices de preços disponíveis, continuam sendo os melhores até agora obtidos nesses 10 anos de programas de estabilização de sucesso efêmero. Chama atenção o fato de que a Fipe registrou em março passado a menor variação mensal de seu índice desde 1958. A Tabela 3.1 contém a taxa de variação mensal média, trimestre a trimestre, para três importantes índices de preços (INPC, IPC-Fipe, IGP-DI). Em março, a média geométrica dos três foi não apenas a menor do Plano Real (0,25%), como também se observou a menor variabilidade entre os três índices (0,29% para o INPC, 0,23% para o IPC-Fipe e 0,22% para o IGP-DI), indicando convergência entre os preços ao consumidor (em que os bens não- comercializáveis têm peso significativo) e os índices de preços no atacado (quase totalmente compostos por bens comercializáveis). Não se deve, contudo, extrapolar para o resto do ano o comportamento excepcional do bimestre fevereiro/março, pelas razões que apresentaremos a seguir.
O aumento dos preços dos combustíveis, inicialmente esperado para março, acabou adiado para abril. Analisando o índice da Fipe, as únicas pressões vieram, novamente, dos serviços e dos preços administrados: os gastos com educação cresceram 4,7%, por causa do aumento de 5,8% no item matrícula e mensalidade escolar; e os serviços públicos residenciais aumentaram 5,5%, por causa do reajuste de 42% na conta de telefone. Nos demais serviços, apenas os serviços médicos e o aluguel apresentaram variação mensal acima de 1,5%. Dos sete grandes grupos que compõem o IPC-Fipe, três apresentaram deflação em março: vestuário (-6,1%), despesas pessoais (-0,21%) e alimentação (-0,22%). Na terceira quadrissemana de abril, a Fipe já registra uma inflação de 1,17%, 0,79 ponto percentual maior do que a pesquisada na terceira quadrissemana de março. Além disso, acontece uma reversão nos fatores que mais contribuem para a alta dos preços: os gastos em educação, saúde e habitação (redução significativa nos serviço públicos residenciais) pressionam menos, mas observa-se um aumento considerável da inflação nos itens alimentação (semi-elaborados), transportes (aumento dos preços do álcool e da gasolina) e vestuário (entrada da coleção de inverno). Como já aconteceu no ano passado, o segundo trimestre deve apresentar também em 1996 a maior inflação média do ano, conseqüência da concentração nesses meses de reajustes de preços importantes da economia. Os reajustes de gás, água e esgoto, mas principalmente o impacto direto que o reajuste do salário mínimo tem sobre os serviços em geral e especificamente nas despesas de condomínio e manutenção do domicílio, certamente pressionarão os resultados de abril a julho. Somam-se a estas pressões a chegada do inverno, com os novos preços de vestuário, e a entressafra do leite e da carne.
PERSPECTIVASUm fato estilizado entre os economistas brasileiros é que a nossa inflação é uma combinação linear de salários, câmbio, tarifas e preços agrícolas. Supondo que esta seja uma aproximação bastante boa da realidade, caberiam alguns comentários sobre as perspectivas de médio prazo para o comportamento dessas quatro variáveis-chave. Os aumentos nos salários reais, ao contrário do que aconteceu em 1994 e 1995, não devem ultrapassar os ganhos de produtividade; o câmbio continuará estável, sem desvalorizações acentuadas; as tarifas já tiveram aumentos reais e as novas correções serão menores.
Os preços agrícolas são, portanto, a fonte mais provável de pressão. Como discutido na Seção 7 deste Boletim, a alta internacional dos preços do milho se traduz em aumento do preço da ração, com reflexos diretos sobre o preço das aves; trigo e soja também apresentam preços recordes na Bolsa de Chicago. Além disso, a redução da safra doméstica terá impacto sobre os preços agrícolas em geral, em particular daqueles que já apresentam alta no mercado internacional.
Apesar do cenário bem menos favorável do que em 1995 para os preços dos alimentos, as perspectivas para a inflação continuam bastante tranqüilas nos próximos meses. Os não-comercializáveis (em especial, os serviços) acumulam variações reais suficientes para permitir crescimentos reais negativos em 1996 (ou seja, abaixo da inflação média), o que compensaria em certa medida as altas que certamente se observarão nos alimentos. É provável que a inflação mensal, medida pelo IPC-Fipe, fique acima de 1% em todos os meses daqui até setembro (e em julho mais próxima dos 2%), para depois voltar a cair no último trimestre do ano. Novamente, é importante ressaltar que a mudança de patamar inflacionário foi mais do que tudo uma mudança de regime, na medida em que a redução dos mecanismos de indexação tem permitido reajustes diferenciados de preços e que elevações na taxa em um mês sejam seguidas por taxas significativamente menores nos meses seguintes, a exemplo do que ocorreu recentemente em janeiro, fevereiro e março.
|
| Outras seções |