
Boletim Conjuntural 33 - abril 96Nível de AtividadeAs informações relativas à atividade econômica no primeiro trimestre de 1996 têm sido divergentes. Contrariando todas as expectativas dos analistas econômicos, bem como resultados de pesquisas realizadas por entidades representativas de alguns setores produtivos, inclusive os da CNI e da Fiesp, os resultados dessazonalizados da produção industrial da pesquisa mensal do IBGE têm mostrado, a partir de janeiro, uma reversão do processo de recuperação que vinha se delineando desde setembro de 1995. Eles são coincidentes em apontar números ainda bastante inferiores aos do primeiro trimestre do ano passado (em cerca de 9%), como era de se esperar, dada a base de comparação muito elevada. Adiante se discutem duas possibilidades para essas discrepâncias: as bruscas e significativas alterações de fatores sazonais da série do IBGE, que, caso se mantivessem semelhantes aos do primeiro bimestre do ano passado, reverteriam os resultados; e a representatividade das amostras das entidades produtoras de estatísticas não-oficiais, cuja limitação pode não estar representando o fenômeno da produção na sua totalidade. Não importando com quem esteja a razão, o processo de recuperação que se vislumbra na trajetória da produção industrial se mostra lento na comparação com os números do ano anterior. A obtenção de resultados positivos para a produção industrial este ano, portanto, irá exigir ações de política econômica mais incisivas no que diz respeito a reduções nas taxas de juros, especialmente na ponta dos empréstimos, e maiores facilidades de crédito que venham a estimular o investimento e, em menor medida, o consumo. PRODUTO INDUSTRIALA produção industrial, de acordo com o Indicador Ipea, continuou em março a apresentar queda, tanto no indicador dessazonalizado (-1,8% em relação a fevereiro) como na comparação com igual mês do ano anterior (-11,7%). Vale notar que, na comparação com março de 1995, é preciso levar em conta que naquele mês a produção industrial medida pelo IBGE cresceu 16,7%, quando comparada com fevereiro de 1995.
Caso o IBGE confirme os resultados do Indicador IPEA, o primeiro trimestre do ano terá acumulado uma queda de 3,5% em relação a dezembro último (dados da série dessazonalizada) e de 4,2% em relação à média do ano passado. Na comparação com o excelente primeiro trimestre de 1995, a queda terá sido de 9%. Estes resultados negativos do indicador dessazonalizado têm contrariado as informações dos órgãos ligados à indústria (CNI e Fiesp), de empresários e de diversos analistas (ver Nota 1), que têm anunciado uma recuperação (ainda que lenta) da produção industrial, a despeito de reconhecerem que, na comparação com igual período do ano anterior, os resultados ainda são bastante negativos. Os dados da CNI e da Fiesp revelam, para janeiro e fevereiro, crescimento tanto das vendas reais quanto das horas trabalhadas. Para a CNI, as vendas aumentaram 4% em janeiro e 2,4% em fevereiro, enquanto para a Fiesp estes resultados foram de +6,9 e +3,9%, respectivamente. Nas horas trabalhadas, a CNI aponta variações de +1,4 e +0,6% em janeiro e fevereiro, enquanto a Fiesp registra -1,1 e +1,7% de variação nos mesmos meses. Embora produção não seja a mesma coisa que vendas ou horas trabalhadas, é de se esperar que as séries caminhem, na média, juntas. Em particular, não há indicações de que a indústria tenha terminado o ano com estoques excessivos, até mesmo porque as vendas do Natal parecem ter superado as expectativas do próprio comércio, que estaria então, neste início de ano, repondo seus estoques. Deste modo, é difícil atribuir o aumento das vendas da indústria a uma desova de estoques. Duas ordens de fatores, abaixo analisadas, podem contribuir para explicar as discrepâncias entre os resultados do IBGE e o das demais fontes: uma, de caráter mais técnico, relacionada ao processo de dessazonalização das séries pelo IBGE; outra, mais ligada ao próprio desempenho da economia, refere-se à grande disparidade de comportamentos setoriais, o que acaba afetando a percepção coletiva -- muitas vezes subjetiva -- do desempenho agregado. a) A questão da sazonalidade. A primeira explicação decorre da significativa alteração que ocorreu nos fatores sazonais calculados para os primeiros dois meses deste ano relativamente àqueles do ano anterior, uma instabilidade que não é normal nesse tipo de fator. Assim, por exemplo, os fatores sazonais em janeiro e fevereiro de 1996 cresceram 3,5 e 4,5%, respectivamente, em relação aos de iguais meses de 1995 (ver Gráfico 1.5). Isto significa que o índice de base fixa da produção industrial observado, quando dessazonalizado, tende a produzir um índice com ajuste sazonal significativamente menor. Se, por exemplo, aplicarmos os mesmos fatores sazonais de janeiro e fevereiro de 1995 aos índices de base fixa dos meses correspondentes em 1996, obtemos resultados diversos: um crescimento acumulado de 2,7% em relação a dezembro, ao invés da queda de 1,7% que o IBGE divulgou recentemente, ou seja, uma diferença de 4,4 pontos percentuais. Lembramos que a dessazonalização é simplesmente uma tentativa de distribuir, ao longo do ano, a trajetória de uma série segundo um padrão regular que, embora possa se alterar no tempo, deve ser relativamente estável. A própria queda da inflação poderia justificar uma mudança no sentido de padrões de produção e consumo mais suavemente distribuídos ao longo do ano. Dificilmente, no entanto, estas mudanças ocorrem abruptamente.
De qualquer modo, se os fatores sazonais de janeiro e fevereiro aumentaram tanto, então os dos demais meses do ano (ou de alguns deles) terão que diminuir, pois a média dos fatores sazonais tem sempre que ser igual a 1 num período de 12 meses. Vamos supor, por hipótese, que todo ajuste seja feito em março -- cujo fator sazonal teria que declinar 6,8% (para compensar o crescimento dos fatores de janeiro e fevereiro). Aplicando-se o novo fator sazonal assim obtido ao índice de base fixa estimado pelo Indicador IPEA, chegaríamos a um crescimento dessazonalizado da produção industrial, relativamente a fevereiro, de 5,2% (ao invés da queda de 1,8% apresentada acima, que foi calculada utilizando-se o fator sazonal de março do ano passado, conforme a série divulgada pelo IBGE). Este é, obviamente, um exemplo radical para mostrar que, apenas devido ao efeito estatístico derivado dos métodos de dessazonalização, pode-se esperar um comportamento mais favorável da produção industrial nos próximos meses. Ou, em outras palavras, que parte (possivelmente grande) da queda do primeiro bimestre se deve a essa mudança nos fatores sazonais. Caso se faça uma distribuição do aumento observado nos fatores sazonais em janeiro e fevereiro ao longo do resto do ano (respeitando a tendência de suavizar essas variações), a indústria teria uma queda de 0,6% em março em relação a fevereiro. Lembramos que em fevereiro, a despeito de todo o esforço feito para utilizar um fator sazonal mais adequado para a série do Indicador IPEA (tendo-se optado pelos próprios fatores sazonais do IBGE então disponíveis) e apesar de todos os componentes desse Indicador apontarem crescimento, a diferença entre o nosso resultado e o do IBGE foi significativa (+2,7% contra -0,5%). b) A disparidade setorial. Independente das considerações relativas ao padrão sazonal, o resultado negativo de março apontado pelo Indicador IPEA para a indústria geral é corroborado pelas informações setoriais dos componentes do Indicador para este mês. A produção de papelão ondulado, que é um importante indicador antecedente, aponta para uma queda de 4,3% na série dessazonalizada em relação ao mês anterior. Na atividade metalúrgica observa-se queda na produção de laminados (-10,6%), aço bruto (-2,8%) e ferro-gusa (-5,0%); por sua vez, o consumo de óleo diesel apresentou a expressiva queda de 6,0%, quando havia crescido de forma notável em fevereiro (+4,9%). O desempenho setorial diferenciado constitui assim um segundo possível elemento para explicar a discrepância entre os dados do IBGE e a percepção mais ampla de que estaria ocorrendo uma lenta recuperação da atividade industrial (a qual, embora lenta, já vem sendo observada desde setembro). Dados da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) revelam que as vendas no primeiro trimestre de 1996 situaram-se em nível 31,7% acima de igual período do ano passado (Gazeta Mercantil de 16/04/96, p. A5) -- certamente neste caso o argumento da desova de estoques deve ter pouco peso explicativo. Este dado de vendas é consistente com informações da FCESP para março, que indicam um aumento de 4,5% nas vendas físicas do comércio como um todo (excluindo as concessionárias), e de 4,1% nas de bens duráveis. Estes últimos apresentam, na variação acumulada do primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 1995, o expressivo crescimento de 3,6%. Na contramão do desempenho dos duráveis encontra-se o setor produtor de bens de capital, que apresentava em dezembro de 1995 um nível de produção (dessazonalizado) 31,5% inferior ao de março do mesmo ano (quando ocorre o pico de produção). No entanto, nos primeiros dois meses de 1996 já se esboça uma recuperação, especialmente em fevereiro, quando se observa um crescimento de 7,2%. Tanto a queda vertiginosa ao longo de 1995 quanto a reversão de fevereiro são fortemente influenciadas pelo desempenho do segmento de máquinas agrícolas, que neste último mês cresce 35,7%. Nas estimativas do Indicador IPEA para março, segundo categorias de uso, as quedas, nas séries dessazonalizadas, ocorrem para todas as categorias, com destaque, novamente, para o declínio estimado para os bens de capital (-15,1%).
Portanto, a reversão da trajetória de recuperação da produção industrial que se observou de setembro a dezembro do ano passado (+6,2% em relação a agosto), interrompida com a queda estimada para o primeiro trimestre, nos parece um resultado ainda sub judice, embora, na comparação com igual trimestre do ano passado os resultados ainda sejam expressivamente negativos (Tabela 1.2).
O Indicador de Nível de Atividade (INA), da FIESP, apresentou os seguintes resultados para o nível de atividade industrial para São Paulo em março que são compatíveis com as estimativas do Indicador IPEA para o Brasil: expressiva queda (8%) em relação a março de 1995, enquanto a série dessazonalizada apresenta estabilidade (-0,1%) em relação a fevereiro. PERSPECTIVAS DA PRODUÇÃO INDUSTRIALAs estimativas para o resultado da indústria, com dados do IBGE até fevereiro sem Indicador IPEA para março, apontam para uma queda expressiva (-8,3%) no primeiro trimestre de 1996 em relação ao mesmo período do ano passado (com o Indicador, a queda seria de 9%, como se viu). Já a previsão até o final do primeiro semestre deste ano mostra uma ligeira recuperação, com a queda se reduzindo para -6,7%. É importante ressaltar que estas comparações, ainda que negativas, levam em conta uma elevada base de comparação, ou seja, o primeiro semestre do ano passado (Tabela 1.1). A despeito do fato de a base de comparação do primeiro trimestre ser elevada, assim como a de todo o primeiro semestre, e de ser baixa a base do segundo semestre, considerando os resultados até março, para que se venha a obter em 1996 um crescimento de 1%, por exemplo, a indústria teria que crescer, em média, 2,4% ao mês entre abril e dezembro. Por categorias de uso, o resultado do primeiro semestre seria de: -20,4% para bens de capital, -5,5% para bens intermediários, +3,5% para bens de consumo duráveis e +0,1% para bens de consumo não-duráveis. EVOLUÇÃO DO CONSUMOInformações sobre o comércio na região metropolitana de São Paulo da pesquisa da FCESP, utilizadas pelo GAC como proxy do consumo interno, apóiam de certa forma a análise da evolução da produção industrial. O consumo total apresentou estagnação no segundo trimestre de 1995 e iniciou no terceiro trimestre uma trajetória de queda que prosseguiu no primeiro trimestre deste ano, embora em fevereiro tenha apresentado elevado crescimento, com um índice dessazonalizado superior inclusive ao de dezembro do ano passado. Entretanto, se isolamos as vendas de veículos, a trajetória de declínio inicia-se apenas em maio de 1995 e a reversão para uma trajetória positiva já se faz presente desde novembro do ano passado (Tabela 1.3).
Dados de março apontam para queda do consumo (-2,7%) em relação a fevereiro. Porém, o consumo apresenta aumento de 1,9% quando são excluídas concessionárias de veículos. Com este dado, muda substancialmente a trajetória do consumo para o primeiro trimestre deste ano mostrando recuperação (+3%) ao invés de queda. Vale notar que essa queda no faturamento das concessionárias contraria outros dados sobre o setor: segundo a ANFAVEA, as vendas da producão nacional para o mercado interno registraram um aumento de 17,7% no primeiro trimestre de 1996 em relação ao mesmo período em 1995. A pesquisa da FCESP, por sua vez, resgistrou queda de 14% das vendas físicas, na mesma base de comparação. Quando se considera a classificação do consumo por grupos/atividades, os resultados chamam a atenção para a profunda modificação na estrutura de consumo causada pela estabilização: em primeiro lugar, o consumo de bens não-duráveis (supermercados e farmácia) e semiduráveis (vestuário e calçados) se eleva em média, respectivamente, 4,1 e 18,6% de 1994 para 1995; e em segundo, duráveis, exceto veículos, teve uma verdadeira explosão de vendas no primeiro ano do real (+48%). O setor com o menor crescimento após a estabilização foi o de automóveis, suas peças e acessórios, cujas vendas cairam 1% em média. A evolução do consumo de 1994 para 1995 reflete, portanto, a proteção dos salário reais que a estabilização propiciou graças ao fim do imposto inflacionário que recaía fortemente sobre os assalariados de mais baixa renda (ver Carta de Conjuntura no 62, de fevereiro de 1996, para uma analise da distribuição da renda depois do real). Com seus salários protegidos, foi possível às classes de mais baixa renda manter seu consumo de bens de necessidade básica e ter acesso ao mercado de eletroeletrônicos domésticos; adicionalmente, a estabilidade da moeda permitiu um salto adicional no consumo graças às facilidades de acesso ao crediário. PIB E INVESTIMENTOCom dados de indústria do IBGE até fevereiro (isto é, sem considerar as estimativas do Indicador IPEA), estima-se uma variação acumulada (contra igual período do ano anterior) de -1,7% para o PIB no primeiro trimestre do ano. Este resultado é fortemente influenciado pelas quedas da indústria de transformação (-8,8%) e da lavoura (-6,8%). Contrabalançando estas quedas, tem-se o setor serviços (+2,2%) e a produção animal (+6,4%).
Incorporando as projeções da indústria ao nosso modelo de previsão do PIB, assim como dos demais setores de atividade com dados até fevereiro, estimamos que o PIB apresente uma queda de 1,5% no primeiro semestre deste ano quando comparado com o mesmo período de 1995. Os serviços sustentariam o crescimento durante este primeiro semestre, contrapondo o fraco desempenho de lavouras e indústria, em particular de transformação e construção civil (Tabela 1.4).
O investimento na economia brasileira, que vinha crescendo de forma contínua desde 1992, interrompe esta trajetória no segundo trimestre de 1995. A despeito disso, a taxa média do ano (15,8%) foi superior à de 1994 (15%), impulsionada, principalmente, pelo crescimento das máquinas e equipamentos importados, já que a construção civil e a produção de bens de capital se mantiveram estagnados em 1995 (0,1 e 0,3%, respectivamente). Estimativas preliminares para o primeiro trimestre deste ano apontam para uma reversão daquela trajetória, com a taxa de 15,5% superando as dos dois trimestres anteriores, graças à recuperação da indústria da construção civil, segundo dados dessazonalizados. |
| Nota 1 - Ver, a respeito, a excelente análise contida em Economic update, do Citibank, de 12/04/96.[Voltar] |
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