Boletim Conjuntural 32 - janeiro 96 (resenha)

Inflação

A inflação acumulada em 12 meses, quando medida por qualquer dos principais índices de preços ao consumidor (Fipe, INPC ou IPC-FGV) ou pelo IGP-DI, vem caindo ininterruptamente. No caso da Fipe, a taxa acumulada dos primeiros 12 meses pós-plano foi de 32,31%, enquanto a taxa acumulada nos 12 meses encerrados em setembro de 1995 foi de 27,56% e a do ano de 1995 foi de 23,16%. Cabe ressaltar que a variação de janeiro a dezembro nos preços atacadistas chegou a ser negativa nos preços agrícolas (-5,62%), medidos pelo IPA-OG, e no caso dos bens industriais (13,1%) bastante inferior a qualquer dos índices de preços ao consumidor.

A Tabela 3.1 mostra o comportamento no ano passado dos principais índices de preços. Medida pelo índice combinado, que é a média geométrica do IGP-DI, INPC e IPC-Fipe, a inflação atingiu seu ponto máximo no segundo trimestre, com reduções consecutivas no terceiro e quarto trimestres. Enquanto as elevações de preços administrados (transporte público, gás e água) e dos serviços, em especial matrículas escolares e aluguel, tiveram peso decisivo na média mais elevada do trimestre abril/junho, no segundo semestre destacam-se a contribuição que o desaquecimento da atividade econômica e os produtos agropecuários tiveram na queda da inflação.

BC32 - Inflação (Tabela 3.1)

Em dezembro, as principais pressões altistas vieram dos gastos com habitação e saúde: o pagamento do 13 salário pressionou para cima as despesas de condomínio, e o reajuste da conta mínima de telefone teve impacto nos serviços públicos residenciais, enquanto os remédios e produtos farmacêuticos aumentaram 6,4%, de acordo com o IPC da Fipe.

O INPC de dezembro já incorporou os aumentos de energia elétrica (25,08% na média do país) e de telefone e correios (22,53%, também na média). Por causa da diferença na metodologia de apuração - enquanto o IBGE utiliza a informação fornecida pelos órgãos do governo que autorizam os reajustes de tarifas públicas, a Fipe pesquisa junto aos domicílios os aumentos verificados quando as contas são efetivamente pagas - e como a elevação da tarifa de energia elétrica entrou em vigor em São Paulo somente a partir de dezembro, certamente o impacto dos reajustes sobre o índice da Fipe acontecerá apenas a partir de janeiro, embora já tenha atingido o INPC em dezembro. Por essa razão, o IPC da Fipe será superior ao INPC, exatamente o inverso do que se observou em dezembro.

O resultado das duas primeiras quadrissemanas da Fipe de janeiro surpreendeu negativamente. Já era esperado um índice superior a 1,5% devido aos reajustes de mensalidades escolares, além do impacto da correção da tarifa telefônica e da tarifa de energia elétrica. Por causa de problemas climáticos, no entanto, os alimentos, e em especial os in natura, mostraram uma subida considerável que, dado o peso que os gastos com alimentação têm no índice, contribuiu com 0,48 ponto percentual para o 1,95% observado na segunda quadrissemana.

Perspectivas

Com inflação alta, política monetária passiva e indexação generalizada, aumentos de preços-chave da economia - como tarifas públicas, salários e correções cambiais - eram imediatamente acompanhados por correções de todos os demais preços, independentemente das condições de oferta e demanda em determinado mercado.

Nesses 18 meses de inflação baixa, algumas mudanças já podem ser observadas no regime de inflação, além da mudança de patamar dos 40% ao mês anteriores a julho de 1994 para o atual 1,5%. O sucesso da política monetária na reversão do excessivo aquecimento da atividade no primeiro trimestre do ano passado e o impacto que a restrição ao crédito - via taxas de juros elevadas e limites aos prazos de financiamentos - teve sobre a demanda e os preços de bens duráveis (em especial automóveis) são sinais de que a inflação baixa permitiu à política monetária recuperar eficácia como instrumento de política econômica. Além disso, a redução sensível da indexação da economia, ainda que formalmente presente na legislação sobre reajustes salariais, permitiu tornar mais clara a diferenciação de comportamento dos bens e serviços em função do regime de formação de preços.

O último boletim da Macrométrica apresenta uma análise interessante, sobre a qual nos baseamos para construir a tabela a seguir. Para cada grupo de preços do índice da Fipe (Tabela 3.3) - classificados em competitivos, administrados, oligopólicos e de serviços - foram calculados a média e o desvio padrão das 12 taxas mensais de inflação observadas no ano de 1995. Depois se dividiu o desvio padrão pela média para se obter o "coeficiente de variação". Um coeficiente de variação elevado significa que, de um mês para o outro, a inflação naquele grupo de produtos pode variar muito; quando o coeficiente é baixo, o comportamento da inflação mensal daquele grupo é mais ou menos estável, ou seja, não se observam grandes elevações ou grandes quedas na taxa mensal. O peso que cada um desses grupos tem no índice geral é o seguinte: competitivos representam 28,26% do total; administrados, 21,27%; oligopolistas, 31,08% e o grupo de serviços, 19,39%.

BC32 - Inflação (Tabela 3.3a)

BC32 - Inflação (Tabela 3.3b)

A tabela mostra que os grupos que mais contribuíram para a variabilidade na taxa de inflação de um mês para o outro - ou seja, os grupos com maior coeficiente de variação - foram os preços administrados (o reajuste de uma tarifa pública provoca um salto na inflação naquele momento) e os competitivos (aumentos ou reduções acentuados, principalmente por causa do comportamento dos preços agrícolas). De comportamento mais regular, sem variações acentuadas de um mês para o outro e, portanto, contribuindo para a previsibilidade dos índices, estiveram os preços oligopolizados (abaixo do índice geral médio) e os serviços (acima da inflação o ano todo).

BC32 - Inflação (Tabela Final)

Este padrão não se deve alterar em 1996, ao menos em termos do coeficiente de variação de cada grupo - por exemplo, os bens competitivos, pelas próprias características de mercado, devem continuar trazendo imprevisibilidade ao índice.

Por outro lado, os reajustes médios mensais serão menores para serviços, o que no caso de aluguéis já vem acontecendo ininterruptamente há cinco meses, e maiores para preços competitivos, já que os alimentos devem seguir uma trajetória mais altista por duas razões: porque a safra agrícola será menor e porque a cotação internacional do trigo deve continuar subindo.

Para os próximos meses, apesar de a inflação em janeiro ter ficado acima das expectivas iniciais, as previsões feitas pelo mercado financeiro para os meses de fevereiro e março não foram revistas, o que reforça o comentário já feito em Cartas e Boletins anteriores de que eventuais choques de oferta ou de demanda passaram a ter efeito pontual e de que reajustes de tarifas públicas não se espalham na forma de aumentos generalizados de preços.

 

Outras seções: