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17/04/2017 16:07
Idealizador do Ipea, Roberto Campos completaria 100 anos
Economista e diplomata, Campos influenciou gerações como pensador do futuro do Brasil   

Nesta segunda-feira, 17 de abril, comemora-se o centenário de Roberto Campos, idealizador do Ipea. Ao assumir o cargo de ministro do Planejamento no governo Castello Branco, em 1964, Campos decidiu criar o Escritório de Planejamento Econômico Aplicado (Epea) com o propósito de formar um grupo de profissionais capazes de organizar e analisar dados que lhe desse suporte ao planejamento econômico. Uma das primeiras missões do Epea – que, a partir de 1967, passou a se chamar Ipea – foi elaborar o Programa de Ação Econômica do Governo, o PAEG (1964-1966).

Roberto Campos destacou-se não só na economia, onde é reconhecido como um dos principais defensores do liberalismo no país, mas também na política e diplomacia. Começou sua carreira pública no Itamaraty, em 1939, onde trabalhou como diplomata nos Estados Unidos. Fez pós-graduação em Economia na Universidade George Washington, testemunhou a criação do Banco Mundial na Conferência de Bretton Woods e foi um dos responsáveis pela criação do que é hoje o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Campos foi ministro de Estado para o Planejamento e Coordenação Econômica entre 1963 e 1967. Após desempenhar outros cargos de atuação internacional, foi eleito senador pelo Mato Grosso e depois deputado federal pelo Rio de Janeiro, onde faleceu em 2001, aos 84 anos.

Em 31 de março passado, o jornal Valor Econômico publicou texto sobre a tese perdida de mestrado do economista Roberto Campos, resgatada pelo presidente do Ipea, Ernesto Lozardo, na biblioteca da Universidade George Washington em novembro de 1970. Segue o texto:

A esquecida dissertação de mestrado em Washington

Sergio Lamucci

Em novembro de 1970, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ernesto Lozardo, encontrou a dissertação de mestrado de Roberto Campos, de 1947, na biblioteca da Universidade George Washington. Em 1999, a tese foi publicada, em inglês, com apoio da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), sendo entregue ao autor numa solenidade que contou com a presença de vários economistas. "Campos nos contou, na ocasião, que já não tinha mais a tese original, pois sua ex-nora tinha tomado emprestado e a perdeu."

Intitulada "Some Inferences Concerning the International Aspects of Economic Flutuations", a tese foi escrita quando Campos tinha 30 anos. O presidente do Ipea descobriu a tese quando passava uma temporada em Washington, durante um programa de treinamento no Banco Mundial. Lozardo tinha ido a Nova York visitar o professor de economia Albert Hart, da Universidade de Columbia, que fora professor de Campos "quando ele se preparava para realizar o doutorado", que não foi concluído. Na conversa, Hart disse que Campos tinha feito seu mestrado em economia na Universidade George Washington e mencionou a dissertação.

"De volta a Washington, fui assim que pude à universidade, em busca da tese de mestrado de Campos. Foram três dias de pesquisa e finalmente a encontrei, no meio de um acervo de teses antigas. Havia uns quatro volumes datilografados, cópias obtidas com papel carbono." Mal se conseguia ler, segundo Lozardo.

"Na tese de Campos encontram-se as evidências do seu conhecimento econômico liberal", diz. "Ao confrontar as teorias de ciclos econômicos e crescimento de [Friedrich] Hayek, [Joseph] Schumpeter e [John Maynard] Keynes, ele analisa as limitações de cada uma das teorias e aponta novos caminhos." Para Lozardo, "o pensamento analítico de Campos se mostra muito próximo da teoria de crescimento de Hayek. É clara a sua concepção sobre a importância do liberalismo econômico, o livre mercado como sendo o ambiente efetivo para formação de preços, a importância da abertura e as inexoráveis flutuações econômicas. De modo que a prerrogativa do câmbio fixo vem a ser um fator impeditivo aos ajustes dos preços relativos de cada nação".

No livro "A Lanterna na Popa", ao falar de sua dissertação de mestrado, Campos diz que um de seus "ídolos intelectuais da época" era o economista austríaco Joseph Schumpeter, que dava aulas em Harvard. "Como minha tese se intitulava 'Algumas Inferências Sobre a Propagação Internacional dos Ciclos Econômicos', correspondi-me com Schumpeter, cujo 'opus magnum' – 'Business Cycles' – me servira de inspiração", relata Campos. "Enviei-lhe, a Harvard, sem esperar resposta de um homem tão famoso, o esboço da tese e um relato das ideias diretoras. Para minha surpresa, Schumpeter respondeu-me com palavras de encorajamento, chegando mesmo a dizer que o montante de pesquisas que já havia feito era suficiente para uma tese doutoral, ao invés de uma simples tese de mestrado."

As ideias de Hayek, Nobel de Economia em 1974, tiveram grande importância para Campos, segundo o ex-ministro Antonio Delfim Netto. "Já bem maduro, o Roberto me disse uma vez: 'Perdi muito tempo. Devia ter lido só Hayek."

Editor da Topbooks, José Mario Pereira diz que o Hayek de quem Campos "se aproximou na maturidade, muito mais que o economista, foi o filósofo liberal que escreveu obras seminais como 'A Constituição da Liberdade'". Nos anos de formação, duas influências importantes foram Keynes, principalmente pelo seu "Tratado sobre a Moeda", e o Schumpeter, de "Business Cycles", afirma Pereira, que editou "A Lanterna na Popa". Dois de seus professores – o austríaco Gottfried Haberler e o estoniano Ragnar Nurkse – também o influenciaram, segundo Pereira.

 

 

 
 

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