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tips and trick
11/06/2013 16:45

Entrevista

“Reduzimos a pobreza e ajudamos a manter a economia girando. O desafio agora é que as pessoas sejam mais protagonistas de suas vidas”

Marcelo Neri

Najla Passos – de Brasília

Foto: João Viana/Ipea

A visão privilegiada da Esplanada dos Ministérios impressiona quem frequenta o gabinete da presidência do Ipea, no 15º andar do edifício-sede, em Brasília. Não foi diferente com Marcelo Neri, que assumiu o comando do órgão em setembro. Para ele, entretanto, mais do que um deleite visual, o cenário que a janela descortina é a metáfora perfeita sobre a verdadeira missão do Ipea: ajudar o país no desenho, na avaliação e nos debates sobre políticas públicas. Com as diretorias já definidas e a transição caminhando para o fim, Neri mira como uma das suas metas principais as comemorações dos 50 anos do órgão, em 2014. É justamente o ano que o país dará uma mais uma virada importante, segundo o economista: a da superação da miséria no seu sentido mais amplo. Superação que em tudo está relacionada com os avanços que ele, como pesquisador, vem registrando nos últimos anos: a redução da pobreza, a queda na desigualdade de renda, a emergência de uma nova classe média. Enfim, a melhoria dos indicadores sociais do país. Com a palavra, Marcelo Neri.

Desenvolvimento - Antes de assumir o Centro de Políticas Sociais da FGV, há 12 anos, o Sr. foi técnico de planejamento e pesquisa do Ipea. Nesse retorno, que diferenças encontrou?

Marcelo Neri - O Ipea cresceu muito neste período e as atividades se multiplicaram. Isso tem um benefício, porque você ganha nas frentes, mas também perde um pouco o foco. O desafio, então, é fazer bem aquilo que você faz. E é isso que estamos tentando, ao juntar os dois lados do Ipea, que é, ao mesmo tempo, uma usina de ideias e uma plataforma de políticas públicas.

Desenvolvimento - Que mudanças o Sr. já fez no Ipea? Qual a pauta agora?

Marcelo Neri - Aqui no Ipea, temos heterodoxos, liberais e uma riqueza de visões de mundo. Temos de transformar isso em virtude. Essas diferenças e essa diversidade dentro de cada diretoria têm o objetivo, sempre, de contribuir para as políticas públicas do país.

Desenvolvimento - O Sr. aponta a formação de uma nova classe média no país, nos últimos anos. Quem seria essa nova classe média brasileira?

Marcelo Neri - É um assunto polêmico. A classe média que a gente descreve nos estudos e nos livros não é uma classe média americana ou uma classe média europeia, que muitas vezes habita o imaginário. É uma classe média brasileira e uma classe média mundial, no sentido que, se você olhar a distribuição de renda brasileira, percebe que o Brasil é uma espécie de maquete do mundo. A desigualdade brasileira, que já é muito grande, é um pouco menor do que a mundial. Então, nós dividimos a sociedade em três pedaços que fossem os mais homogêneos dentro de si e os mais heterogêneos entre si. E, fazendo isso, deu esse grupo, que era 37%, em 2003, e, hoje, já passou dos 50% da população.

Perfil

Marcelo Côrtes Neri é um economista que lida com temas variados. “Minha especialização é mais metodológica do que temática”, explica. Mas seu foco é produzir conhecimento sobre a vida da população brasileira, em temas como distribuição de renda, pobreza e estratificação social, dentre outros. “Assuntos vivos, contemporâneos”, como ele mesmo esclarece.

Neri cursou graduação e mestrado na PUC-RJ. Foi professor da Universidade Federal Fluminense e técnico de planejamento e pesquisa do Ipea. Fez doutorado na Universidade de Princeton (EUA). Na volta ao Brasil, foi convidado a criar e dirigir o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio, onde atuou nos últimos 12 anos. “A academia costuma ser muito elitista, mas sempre tivemos a preocupação de falar com o João da Silva”, ressalta. Desde setembro, Marcelo Neri é presidente do Ipea. Nesta entrevista, ele fala de sua visão de alguns dos problemas sociais brasileiros e de seus planos para a instituição.

Desenvolvimento - E é realmente possível que mais 12 milhões de brasileiros ingressem nesta classe média até 2014?

Marcelo Neri - É a nossa projeção. Serão 12 milhões de pessoas a ingressar na classe média, fora os 7,7 milhões que subirão para a classe AB que, na verdade, é a que mais está crescendo agora. Logo, nós falaremos de uma nova classe AB como, nos últimos anos, falamos da C.

Desenvolvimento - Até que ponto essa ascensão é sustentável?

Marcelo Neri - A principal protagonista é a renda do trabalho, que resulta da redução do desemprego e do aumento do salário. Principalmente do emprego com carteira, que é o símbolo dessa nova classe média. O nosso estudo se chama “A nova classe média, o lado brilhante dos pobres”. E por que “o lado brilhante dos pobres”? Porque um fato surpreendente é que esta nova classe média é mais sustentável do que acreditávamos: boa parte do crescimento da renda do brasileiro se deu por renda do trabalho, ou seja, três quartos da renda e 58% da queda da desigualdade.

Desenvolvimento - E quanto à desigualdade, quais as projeções?

Marcelo Neri - Há muitos anos, o Brasil foi apelidado de Belíndia, que comporta uma pequena e rica Bélgica e grande e pobre Índia. A citação continua atual, não só porque a desigualdade continua, mas porque o lado indiano do Brasil está crescendo muito mais do que o belga. Por exemplo, os 10% mais pobres melhoraram de vida 550% mais rápido do que os 10% mais ricos, durante uma década inteira. E este processo continua. Por outro lado, o abismo entre pobres e ricos está caindo. Se você pegar o estado mais pobre do país há oito anos, que era o Maranhão, verá que ele cresceu 46%. Já a renda de São Paulo, o mais rico pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), cresceu 7,2%. A renda no Nordeste cresceu 42%. No Sudeste, 16%. Na área rural, 49%. O Brasil que prospera é o Brasil que tinha ficado para trás. É o Brasil do campo, do negro, da periferia. Isso foi de alguma forma até captado por algumas novelas, como Avenida Brasil e Cheia de Charme quando falam das “empreguetes”.

Foto: João Viana/Ipea

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Desenvolvimento - A vida dos brasileiros que vivem no campo também está melhorando?

Marcelo Neri - Sim, mas, neste caso, mais por conta do efeito das transferências. Por exemplo, na década de 1980, 81% da renda de quem morava do campo vinha do trabalho. Hoje, são 66%. Então, no campo, é importante buscar maior sustentabilidade desse crescimento.

Desenvolvimento - Falta reforma agrária?

Marcelo Neri- Eu não fiz um estudo aprofundado sobre isso. É um tema delicado, complexo, que eu prefiro não entrar muito. Mas a renda do trabalho no campo não cresceu tanto. A renda dos programas sociais desempenha um papel mais importante.

Foto: João Viana/Ipea

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Desenvolvimento - Nesse quadro, é possível pensar na erradicação da miséria no Brasil, em curto prazo?

Marcelo Neri - É um quadro bem difícil. Eu diria que a superação da extrema pobreza, no sentido exato do termo, é mais um norte a ser seguido. É uma meta válida, importante, mas é uma espécie de “Santo Graal”, que você nunca vai alcançar. Entretanto, é uma busca nobre, que enriquece a sociedade.

Desenvolvimento - Qual o papel da educação para alavancar este modelo de desenvolvimento em curso no país?

Marcelo Neri - A educação tem papel central, é a mãe de todas as políticas públicas. No Brasil, o que acontece com a educação é um pouco o que acontece com a desigualdade, com a informalidade e com uma série de problemas. A fotografia ainda é muito ruim, porém menos ruim do que era há dez ou 15 anos. O Brasil é um dos países que faz o Programme for International Student Assessment (PISA), uma avaliação de proficiência sobre o desempenho dos alunos aplicada em 67 países, a maioria desenvolvidos. Está em 54º lugar, mas é um dos três onde a proficiência está crescendo mais. O nível é baixo, mas o progresso é forte. Outro dado importante é que o brasileiro está dando mais importância à educação. Era a sétima prioridade e, agora, já é a segunda. Em 1970, cada mulher brasileira tinha 5,7 filhos. Hoje, tem 1,9. E por uma escolha, não por políticas artificiais como na China. E essas crianças passaram a ir para a escola. Em 1990, 16% das crianças estavam fora da escola. Hoje, menos de 2%. Você pode até dizer que o Brasil virou um país normal. É verdade, mas isso é uma revolução em si. Não é que a gente foi para o céu, mas a gente estava no inferno. De certa forma, as estatísticas sociais estão para o Brasil como as estatísticas econômicas estão para a China. O Brasil ainda tem indicadores sociais muito fracos, mas com uma taxa de progresso bastante expressiva.

Desenvolvimento - Então, o Sr. avalia que o modelo de desenvolvimento brasileiro está funcionando. E ele coloca, de fato, o país em uma posição confortável para enfrentar a crise econômica mundial?

Marcelo Neri - Este modelo se mostrou bom, e até está sendo copiado. Eu tive a oportunidade, nos últimos três anos, de ir a todas as reuniões dos Brics (grupo de países emergentes que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e conversar com os chineses. Eles querem entender o que está acontecendo no Brasil, como cresce este mercado interno, que é fruto da redução da desigualdade. Tem um paradoxo no Brasil que é o seguinte: este será um ano complicado para a economia por causa do PIB. As previsões do Banco Central apontam que o produto vai crescer 1,6% e o PIB per capita, 0,6%. Agora, uma pesquisa que lançamos sobre renda inclusiva mostra que a renda do trabalho per capita está crescendo a 4,6% ao ano. Então, a vida das pessoas está melhorando mais do que o PIB reflete. Na época do regime militar, se dizia que, se o país vai bem, o povo vai mal. Agora, o povo está indo melhor do que a economia, pelo menos do que o PIB, que é o seu principal indicador. O Brasil é muito mais o país que está fazendo uma revolução social do que um milagre econômico, como no passado. E mais importante do que a riqueza das nações, é o brilho nos olhos do brasileiro. Quanto à crise, o Brasil escolheu o caminho do meio, da moderação e da esperança. A gente respeita os contratos, controla o déficit público, faz as metas de inflação, mas tem uma política social ativa. Não é o Consenso de Washington, mas também não o que se faz na Venezuela. O caminho do meio tem funcionado relativamente bem para as pessoas, e é a nossa escolha. E não estou nem dizendo, como economista, que é a melhor escolha. Mas vivemos em uma democracia e esta é a escolha política que os governos têm feito democraticamente, e o brasileiro, na sua vida, tem feito também.

Desenvolvimento - O Brasil pode chegar a ostentar um crescimento igual ou superior aos da China ou da Índia?

Marcelo Neri - Eu acho que não. A quantidade de crescimento da China e da Índia é muito maior do que a nossa. Mas a qualidade do crescimento brasileiro é melhor, na medida em que temos um crescimento mais equitativo e que beneficia mais a população.

Foto: João Viana/Ipea

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Desenvolvimento - As pesquisas apontam que o brasileiro é otimista por natureza, a ponto de esse otimismo prejudicar seus investimentos em poupança. Como se dá isso?

Marcelo Neri - Há uma pesquisa recente do Ipea que confirma este otimismo, muito similar a sondagens internacionais, feitas pelo Instituto Gallup, que a gente processou. Todas elas apontam que o Brasil é o país do mundo onde as pessoas dão a melhor nota sobre sua satisfação com sua vida no futuro. E isso ajuda a entender por que a taxa de poupança no Brasil é tão baixa (um quarto da taxa de poupança familiar dos chineses, por exemplo) e por que a taxa de juros aqui é tão alta (senão o sujeito antecipa o futuro de uma maneira irresponsável). Agora, o otimismo não é uma qualidade, mas um atributo do brasileiro. E há certa dissonância aí. Quando se pergunta para o brasileiro qual a nota para o conjunto do país nos cinco anos seguintes, é bem menor.

Desenvolvimento - Então, o brasileiro é otimista quanto à sua vida, mas nem tanto quanto ao futuro do país?

Marcelo Neri - Esses dados ajudam a entender o que se pode chamar de “jabuticabeira brasileira”: aqueles problemas que só têm no Brasil estão associados a essa dissonância de como a pessoa vê a vida dele e como ele vê o conjunto do país. Os grandes problemas brasileiros são problemas coletivos, problemas de relacionamento entre as pessoas, que estão ligados à ação coletiva, como era a inflação e ainda é a desigualdade. No caso da inflação, o pensamento era “eu reajusto meu preço, o outro reajusta o dele”. E todo mundo terminava com inflação alta. Mas conseguimos parar com isso. No da desigualdade, é algo do tipo “não me importo muito com o outro, se eu tenho uma renda 50 vezes maior do que a dele”. Mas isso também está mudando, sinal de que estes problemas coletivos estão sendo tratados.

Foto: João Viana/Ipea

“Nos últimos anos,
nós levamos os pobres
aos mercados, reduzindo a
pobreza de várias formas e
ajudando a manter as rodas da
economia girando. Agora, falta
darmos mercado e Estado aos
pobres. O desafio, de maneira
geral, é que as pessoas sejam
mais protagonistas
de suas vidas”

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Desenvolvimento - Falando um pouco sobre o Ipea, quais as principais publicações previstas para o período?

Marcelo Neri - Nosso grande desafio é o Brasil em Desenvolvimento. O tema chave deste ano é a questão da territorialidade, uma pauta transversal, que aproveita um pouco a safra do censo demográfico para avaliar como se deu o avanço na última década. Também já definimos o tema do ano seguinte, que é importante anunciar com antecedência para as pessoas colocarem nos seus planos de trabalho. Será sobre as contribuições do Ipea às políticas públicas, no âmbito das celebrações dos 50 anos da entidade, em 2014. O Ipea também tem realizado trabalhos de campo, como pesquisas sobre percepções da realidade. Se por um lado o nosso objetivo é melhorar a oferta de políticas públicas feitas pelos Ministérios e demais órgãos, por outro é importante ouvir às demandas da população. Agora, no sentido mais amplo da palavra publicações, que é o de tornar publico, nós tivemos as Conferências do Desenvolvimento, realizadas nas 27 unidades da federação. Também estamos com uma linha importante em língua estrangeira, em inglês em particular, que é um esforço grande de falarmos com mundo. Uma janela importante para o mundo ver o Brasil e para o Brasil observar o mundo. E ainda no âmbito externo, estamos com programa de bolsas para vários países latino-americanos.

Foto: João Viana/Ipea

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“Há muitos anos,
o Brasil foi apelidado
de Belíndia, que comporta
uma pequena e rica Bélgica e
grande e pobre Índia. A citação
continua atual, mas o lado
indiano está crescendo muito
mais do que o belga. O Brasil
que prospera é o Brasil que
tinha ficado para trás”

Desenvolvimento - Então, o programa de internacionalização do Ipea caminha bem?

Marcelo Neri - Exatamente. Nosso objetivo não é só falar com o João da Silva, mas também com o John Smith. O Brasil tem uma marca importante, uma espécie de soft power, que é um poder que não se aproxima da Índia ou da China em termos econômicos, mas que o credencia a ser ouvido internacionalmente pelo seu papel moderador, muito bem representado pela diplomacia brasileira.

Desenvolvimento - E a programação para os 50 anos do Ipea, já está definida?

Marcelo Neri - A ideia é fazer um jubileu o ano inteiro. Queremos pautar ações que propiciem reflexões sobre a missão do Ipea. Com o que o Ipea, nas diferentes áreas, já contribuiu e com o que pretende contribuir para o país. O interessante é que nós temos o costume de observar essa metáfora das décadas, mas se a gente for ver as transições, as mudanças fortes no Brasil, elas sempre ocorreram em anos terminados em quatro. Em 1964, ano em que o Ipea foi criado, tivemos o golpe militar. Em 1974, foi quando o governo perdeu as eleições e começou a distensão lenta, gradual, cujo ápice foi 1984, com o movimento Diretas Já. Em 1994, conseguimos a estabilização econômica. E 2004 foi o momento onde se conjugou crescimento, geração de emprego com carteira e redução da desigualdade.

Desenvolvimento - E qual a grande transição prevista para 2014?

Marcelo Neri - De alguma forma, há uma meta importante de superação de pobreza que, em minha opinião, não significa a erradicação da miséria no país, mas acontece quando você empodera as pessoas em um sentido mais pleno. Por que nos últimos anos, nós levamos os pobres aos mercados, reduzindo a pobreza de várias formas e ajudando a manter as rodas da economia girando. Agora, falta darmos mercado e Estado aos pobres. O desafio, de maneira geral, é que as pessoas sejam mais protagonistas de suas vidas.

 
 

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