Jornal do Commercio (RJ): Jovens demais para envelhecer
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09/07/2013 12:18

Jornal do Commercio (RJ): Jovens demais para envelhecer

Chegar aos 60 anos deixou de ser sinônimo de incapacidade. Os idosos estão mais próativos, independentes e distantes dos estereótipos da velhice. Condição que, segundo pesquisadora do Ipea, permitiria um aumento na idade que marca o início dessa fase da vida.

Aos 69 anos, o professor universitário Newton Lima Braga não pretende deixar o trabalho tão cedo. "Nunca pensei em parar e ainda não penso. Brinco que vou estar de bengala dando aulas", diz. Funcionário público aposentado, Newton trabalha em média seis horas por dia. Depois que saiu do serviço público, em 2003, aproveitou o tempo livre para se dedicar exclusivamente ao magistério. "Era uma atividade que eu já exercia, mas com menos tempo, e que me dava prazer. Não queria ficar parado e dar aulas me ajuda a estar bem", conta o professor de economia. Newton acredita que a passagem do tempo lhe trouxe mais experiência e considera essa uma das principais vantagens do envelhecimento, mas reconhece também os prejuízos do avançar da idade.

"Não tenho o mesmo vigor, a mesma força. Algumas coisas são mais difíceis. Isso é natural. Por mais que eu queira, não sou mais um jovem", explica, para, logo em seguida, ressaltar que está longe de entregar os pontos. "Eu acredito que me sinto melhor e mais jovem por manter a minha vida em movimento, por não estar parado", diz o também adepto das caminhadas diárias.

A certeza proferida pelo professor Newton e constatada em ruas, parques, escritórios, clubes de dança e de esporte, cada vez mais frequentados por quem passou dos 60 anos, é analisada por estudiosos. Cientistas acreditam que fatores como o aumento da longevidade, a melhora na qualidade de vida e o prolongamento do tempo dedicado ao trabalho indicam que convivemos com uma nova terceira idade. "A definição de população idosa ficou velha?", provoca a demógrafa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano. A especialista acredita que sim e defende a alteração da idade que determina a passagem para a velhice de 60 (como delimita o Estatuto do Idoso) para 65 anos.

Para o chefe do Centro de Oncologia do Hospital Universitário de Brasília, Marco Polo Dias Freitas, o envelhecimento precisa ser entendido como um processo em que a idade não define necessariamente as condições individuais. "É importante entender que o envelhecimento é um processo. Não é porque a pessoa fez 60, 65 anos que automaticamente deixa de ser adulta e passa a ser idosa", afirma. Professora de psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) e especialista em saúde do idoso, Hilma Khoury, acredita que a visão que se tem hoje da velhice se tornou distinta. "A cronologia não é um critério preciso para demarcar o início da velhice. O envelhecimento é um processo heterogêneo, influenciado por fatores genéticos, pelas condições do ambiente em que vive o indivíduo e também pela maneira como cada pessoa influencia o seu curso de vida", afirma.

Com 60 anos, a arquiteta Yeda Garcia assegura que está em uma fase da vida de plena atividade. Trabalho, academia, viagens, tudo isso faz parte do cotidiano da arquiteta que, no dia a dia, comprova que o envelhecimento começa mais tarde. "As pessoas saem de casa com mais idade do que antes, têm filhos mais tarde e a chegada da velhice também vem depois", afirma. Para Yeda, a visão que se tinha de alguém de 60 anos no passado já não condiz com o momento atual. "Eu não me sinto com 60 anos do modo como eu via uma pessoa dessa idade quando eu era mais nova. Me sinto ótima, em plena atividade. Alguém de 60 anos nem sempre é idoso", afirma.

Segundo a arquiteta, uma das dificuldades que pode ser trazida pelo envelhecimento é não conseguir acompanhar as novidades que surgem a todo momento, "estranhar o novo". "A pessoa não consegue seguir as mudanças. Ela acaba se tornando fechada, reacionária",explica. Na vida de Yeda, porém, a situação não é assim. "Eu me sinto completamente conectada com o mundo. Não tenho dificuldade em assimilar a linguagem atual. Percebo isso, por exemplo, quando visito exposições de arquitetura e me vejo em total sintonia com as novas tendências", diz.

A rotina cheia de atividades e projetos demanda uma preocupação com o corpo, alerta o médico Marco Polo Dias Freitas. Segundo ele, manter-se ativo fisicamente após os 60 anos é importante para não ser surpreendido com o desgaste natural do corpo. "A atividade física ajuda a adaptar o condicionamento e diminui impactos negativos para todas as idades. No caso de idosos, ela mantém a pessoa mais preparada para a vida cotidiana", explica.

Ciclismo

Delfino Rodrigues da Silva, de 60 anos, encontrou no ciclismo um modo de permanecer com uma vida dinâmica. Vigilante há 20 anos, ele trabalha à noite e conta que, com o tempo, não perdeu a vontade de praticar o esporte. "Também faz 20 anos que eu pedalo e cada vez me sinto melhor. Eu pensei que, quando chegasse aos 60, precisaria parar, mas foi o contrário. O corpo pede para continuar", afirma.

As pedaladas diárias de no mínimo 25 minutos, contribuem para manter a saúde em dia. Delfino, que costuma fazer viagens de cerca de 100 quilômetros de bicicleta, comemora ter começado sétima década de vida sem problemas de saúde. "De seis em seis meses, eu vou a uma nutricionista para adequar a alimentação à minha rotina. Diminuir ou aumentar algumas vitaminas, por exemplo. Às vezes, você acredita que certo alimento faz muito bem para alguma coisa específica, mas, com o acompanhamento, descobre que, em excesso, o efeito é o contrário", ensina.

Uma das maiores satisfações de Delfino é encontrar alguém que elogie a vitalidade dele. "Às vezes, encontro alguns amigos que não têm uma vida tão ativa e percebo que estou melhor. Mas o bom mesmo é ouvir: 'Nossa, como você está bem!' De algum modo, sinto também que posso ser um incentivo para os outros", afirma. Quando questionado se pensa em parar, o vigilante responde sem pensar muito: "Posso até diminuir o ritmo, mas parar não. Enquanto eu puder, vou continuar pedalando. Os exercícios me fazem sentir mais jovem."

Benefícios em risco

Apesar da constatada mudança no perfil e no comportamento dos brasileiros que chegaram aos 60 anos, a redefinição do conceito do idoso de 60 para 65 anos, proposta defendida pela pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano, é vista com cautela por outros especialistas. Um dos argumentos é que, no Brasil, as condições para a velhice podem ser muito distintas se consideradas as diferenças regionais e de classes sociais.

"Somos um País com grandes desigualdades em todos os níveis. Teríamos que pensar nas implicações para a saúde e para a vida das pessoas, especialmente as mais pobres, de um aumento no limite da idade para ser considerado idoso", afirma a psicóloga especialista em idoso Ilma Khoury. Especialista em gerontologia, Maria Eliane Catunda alerta que a mudança na idade também pode interferir em benefícios já assegurados à terceira idade, como a preferência em atendimentos e a gratuidade em transporte. "Reduzir a idade pode trazer prejuízos a uma parcela da população", alerta.

Independentemente da mudança, os especialistas reforçam que, para quem passou dos 60 anos, se manter produtivo e, consequentemente, demorar mais para se sentir velho pode trazer benefícios à vida. "Perceber-se mais jovem do que se é pode favorecer a independência e a autonomia na velhice, bem como a capacidade de adaptação às mudanças e às novas circunstâncias, características indicadoras de velhice saudável e bem-sucedida", diz Khoury. A psicóloga alerta, no entanto, que é preciso ter sempre em mente que a idade demanda cuidados especiais. "Pode haver o lado negativo, quando a postura implica uma negação do envelhecimento e, consequentemente, em uma desconsideração da necessidade de cuidados com a saúde, por exemplo."

 
 

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