Missão: “Aprimorar as políticas públicas essenciais ao desenvolvimento brasileiro por meio da produção e disseminação de conhecimentos e da assessoria ao Estado nas suas decisões estratégicas”.
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Valor Econômico (SP): Preço de exportações recua e importações ficam mais caras Por Sergio Lamucci Depois de subir 25% em 2010 e 2011, os termos de troca (a relação entre preços de exportação e de importação) acumulam queda de 4,2% de janeiro a agosto em relação ao mesmo período de 2011, ajudando a explicar a piora do saldo comercial neste ano. Nos primeiros oito meses de 2012, as cotações de exportação caíram 2,9%, puxadas pelo recuo de 6,5% dos produtos básicos, com destaque para o tombo do minério de ferro. No mesmo intervalo, os preços de importação subiram 1,3%, especialmente devido à alta de 5,2% dos preços de combustíveis. Os números são da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Para o quarto trimestre deste ano e para o ano que vem, as perspectivas para os termos de troca não são das mais animadoras, dada a aposta dominante num cenário de crescimento global fraco - a China deve crescer também em 2013 a um ritmo não tão exuberante, a Europa tende a seguir estagnada e a recuperação nos EUA é capenga. Com isso, a terceira rodada de afrouxamento quantitativo nos EUA (a ação de política monetária ultraexpansionista, marcada pela compra de títulos hipotecários, conhecida como QE3) deverá ter um impacto limitado sobre os preços de commodities, a despeito de aumentar o dinheiro em circulação nos mercados globais. Neste ano, a balança comercial caminha para fechar o ano com um superávit na casa de US$ 18 bilhões, quase 40% inferior ao saldo de US$ 29,8 bilhões do ano passado. Parte desse tombo se explica pela piora dos termos de troca, diz o especialista em comércio exterior Fernando Ribeiro, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em 2010 e 2011, a balança comercial brasileira registrou superávits expressivos, de US$ 20,1 bilhões e US$ 29,8 bilhões, mesmo com o volume de importações crescendo quase 50% no período. A questão é que, estimulados pela disparada das commodities, os preços de exportação aumentaram 48,5% nesses dois anos, um avanço bem mais forte que os 18,7% dos preços de importações, o que resultou no já mencionado ganho de 25% dos termos de troca em 2010 e 2011. O cenário atual, contudo, é bem diferente, ressalta Ribeiro. As projeções de expansão da economia global para o ano que vem, por exemplo, têm sido frequentemente revistas para baixo. "2013 deverá ser mais um ano de baixo crescimento da economia mundial", afirma ele, observando que nem mesmo a China, grande consumidora de commodities, deverá repetir o desempenho exuberante registrado por muitos anos. Ontem, por exemplo, o Banco Mundial reduziu de 8,2% para 7,7% a estimativa para o avanço da economia chinesa no ano que vem. Um crescimento menos expressivo da China limita as perspectivas para os preços de produtos básicos, que compõem grande parte da pauta de exportações do Brasil. A Europa segue enredada em sua crise. Ainda que não ocorra uma ruptura da zona do euro, a expectativa é de crescimento baixo por muito tempo. Isso prejudica bastante a China, que tem nos países europeus o seu principal mercado de exportação. Nos EUA, há o temor do chamado abismo fiscal, o risco de uma combinação simultânea de fim da redução de impostos e corte de gastos no começo de 2013 - se isso se concretizar, haverá uma contração fiscal violenta, afetando o crescimento. Com esse cenário complicado, a expectativa para os preços de commodities não é das melhores, acredita também o economista Silvio de Campos Neto, da Tendências Consultoria. "A trajetória de médio prazo esperada para os termos de troca é de acomodação ou de um pequeno ajuste para baixo", diz Campos Neto. Ribeiro tem opinião parecida - acha que nos meses que restam de 2012 e ao longo de 2013 o mais provável é que os termos de troca sigam estáveis ou mostrem um pequeno recuo. Para ele, os preços do minério de ferro não deverão ter um comportamento tão ruim quanto neste ano, mas a tendência das cotações do produto com maior peso na pauta de exportação continua a ser pouco favorável, dada o panorama para a economia chinesa. De janeiro a agosto, as cotações de exportação do setor de extração de minerais metálicos (onde está o minério de ferro) recuaram quase 20% em relação ao mesmo período de 2011. Já os preços das commodities agrícolas, como a soja, podem cair, depois da alta registrada nos últimos meses, diz Ribeiro. Para ele, o saldo comercial neste ano deve ficar na casa de US$ 18 bilhões, encolhendo mais um pouco em 2013, embora ainda não tenha uma estimativa fechada para o ano que vem. A recuperação da economia brasileira deve aumentar a demanda por importações, que tendem a avançar a um ritmo superior ao das exportações. "Mas não espero um recuo dramático do superávit", afirma Ribeiro, notando que os termos de troca devem ter pouca influência sobre o resultado da balança comercial no ano que vem, por esperar que eles fiquem estáveis ou tenham pequena queda. Campos Neto vai na mesma linha, projetando um superávit de US$ 15 bilhões em 2013.
Folha de S. Paulo (SP):- Jovens e casais sem filhos investem mais em imóveis Pesquisa do IBGE revela que famílias menores e com mais educação destinam mais recursos para patrimônio Com estabilidade e maior acesso ao crédito, funcionários públicos são os que gastam mais para pagar dívida Por PEDRO SOARES, repórter DO RIO Antes da chegada dos filhos, a prioridade do casal Marcos Mediano, 31, e Tatiana Rehder, 29, foi adquirir um apartamento no Rio. Compraram na planta, usaram o FGTS e pagam as prestações. Esse roteiro é seguido por muitos casais sem filhos e famílias chefiadas por jovens na faixa de 30 a 39 anos. São, segundo o IBGE, os grupos que mais investem no patrimônio com imóveis (aquisição, reforma e terrenos) -7,3% do orçamento e 7,4%, respectivamente, mais do que a média nacional de 5,8%. Os dados integram levantamento da Folha com base na última POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) do IBGE, de 2008 e 2009. Com acesso maior à educação e vivendo em famílias menores, esses grupos têm melhores condições de planejar o futuro, segundo analistas. "É também uma geração que cresceu num ambiente de estabilidade econômica, no qual é mais fácil se programar e investir", diz Gilberto Braga, professor do Ibmec, sobre os mais jovens. Na pesquisa, embora aplicassem mais em imóveis, o grupo entre 30 e 39 anos e o de casais sem filhos não dispunham dos maiores orçamentos, que pertenciam às pessoas entre 50 e 59 anos e aos casais com filhos. Para Cecília Machado, economista da FGV, é natural que os mais novos invistam mais. O alocação de recursos para ampliar o patrimônio declinava gradualmente conforme avança o grupo etário. A economista da FGV destaca ainda a importância das mudanças demográficas no país nos últimos anos e a maior facilidade de crédito. Com menos filhos, sobram mais recursos para investir. Os casais sem filhos, por sua vez, têm uma renda per capita maior, ressalta Fernando Gaiger, pesquisador do Ipea. É que eles não sustentam dependentes. Para o especialista, a renda maior é determinante para acumulação de patrimônio.\ Famílias chefiadas por empregadores destinavam uma fatia maior (9,9%) de seu orçamento do que aquelas comandadas por empregados domésticos (2,2%). Segundo Cecília Machado, questões culturais também podem influenciar o tipo de investimento -mais focado em imóveis em detrimento aos financeiros, que não são considerados na POF. Talvez seja a explicação, diz, para os evangélicos de missão (luteranos, batistas e outros) e moradores da região Sul aplicarem mais no aumento do patrimônio. DÍVIDAS Com crédito fácil e estabilidade no emprego, as famílias chefiadas por funcionários públicos compunham o grupo que destinava a maior parcela do orçamento para dívidas. Elas empregavam 3,6% da despesa total, contra média geral de 2,1% de todas as famílias. Considerando a posição na ocupação, o trabalhador doméstico, que tem renda menor e acesso restrito ao crédito, estava no outro extremo: gastava 1,2% do orçamento para pagar dívidas. Para Marianne Hanson, a oferta de financiamentos para servidores cresceu muito nos últimos anos com o crédito consignado, e o emprego estável encoraja a categoria a assumir mais dívidas.
Estado de Minas (MG):- A grana é deles Por GEÓRGEA CHOUCAIR E MARINELLA CASTRO, repórteres Mais velhos, mais ativos e mais ricos. A população com mais de 60 anos ocupa hoje espaço diferente dentro dos lares. Onde estão presentes, eles garantem o orçamento doméstico: respondem, em média, por 66,4% do ganho total das famílias onde estão inseridos na Grande Belo Horizonte, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e da Fundação João Pinheiro (FJP). No lugar de ocupar um quartinho de fundos na casa do filho ou do genro,o idoso agora é o dono da casa e o chefe do lar. As famílias com pessoas com 60 anos ou mais somam 471 mil na Grande BH. A proporção de idosos que são chefes de famílias é de 89,5%, segundo o Dieese e FJP. No Brasil, a população com mais de 60 anos que é responsável pelos domicílios soma 15,8 milhões de pessoas, sendo 44,6% mulheres e 55,4% homens. A última reportagem da série Vida nova,publicada pelo Estado de Minas,mostra a importância dos ganhos da população com maior idade nas famílias onde está inserida. Eles têm renda familiar média de R$ 2,47 mil equando trabalham ocupam 24,9% dos cargos de direção e planejamento, o maior índice entre as faixas etárias. “São cargos que precisam de grande experiência. Geralmente as pessoas de mais idade são as indicadas”, explica Mario Rodarte, professor de economia e demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O aposentado Lúcio Antônio Resende, de 69 anos, é responsável por cerca de 80% das despesas de sua casa. Ele mora com a mulher, o filho Ricardo, de 37, a nora Maria Fernanda, de 32, e há pouco tempo ganharam um novo integrante na casa: a neta Maria Eduarda, que tem apenas cinco meses. A mulher de Resende, Hermelinda Ricoy Pinheiro, de 63, também é aposentada. Mas como a aposentadoria de Resende é integral, ele é responsável pela maior parte do orçamento. “A casa tem dois andares, há espaço suficiente para toda a família. É bom que acompanhamos o crescimento da neta e eles fazem companhia para a gente”, afirma. Se o filho tivesse que alugar uma casa e ir morar por conta própria, Resende afirma que a situação financeira seria difícil, pois Ricardo é autônomo e não tem renda fixa. Resende é casado com Hermelinda há 42 anos. Ela afirma que quando estava na ativa tinha o salário em torno de 60% maior do que o do marido. “Mas eu não me aposentei com o salário integral. Aí ele passou a ganhar mais”, diz. O filho, a nora e a neta são companhia para o casal. “Nós perdemos duas filhas. Nossa neta é nossa alegria agora”, diz. DEPENDENTES O universo familiar vive hoje inversão na realidade de dependência, analisa Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Temos hoje a geração canguru, que não sai da bolsa, e a ioiô, que vai e volta. Isso não é só um fenômeno brasileiro. Acontece no mundo inteiro”, afirma. Ana Amélia há 10 anos concentra suas pesquisas na área do envelhecimento. Ela revela que 80% dos idosos com mais de 65 anos têm hoje o benefício da Seguridade Social, 12% das mulheres acumulam pensão e aposentadoria e 25% da população aposentada trabalha. “A renda vitalícia é maior do que a do adulto jovem”, diz. Ela ressalta que cerca da metade dos domicílios com idosos no Brasil tem filhos com mais de 21 anos, sendo que um terço não tem renda. Alvimar Gomes da Fonseca, de 75 anos, faz parte do batalhão de 4,7 milhões de aposentados que ainda trabalha no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele já se aposentou há 40 anos, mas tem uma representação comercial de brinquedos. Fonseca tem seis filhas, sendo que três moram com ele e a mulher. O pequeno Breno, seu neto de seis meses, também garante a alegria na residência. “Minha casa é grande e a Flávia, mãe do Breno, gosta de ficar aqui”, diz. A filha mais velha, a Mônica, de 50 anos, não trabalha. A Grasiely, de 25, faz estágio na área de engenharia de alimentos. O aposentado conta que é responsável por 70% da renda da família. Com o trabalho, ele consegue aumentar em 70% a renda da aposentadoria. “O trabalho enobrece e não empobrece a gente. É muito bom até para o meu bem-estar. Eu não bebo nem fumo. Estou na ativa desde os 7 anos. E não tenho planos de parar tão cedo”, diz Fonseca.
Revista ÉPOCA - Marcelo Neri Pretendo estudar a renda dos mais ricos O economista conhecido por identificar a ascensão da nova classe média quer agora entender melhor a desigualdade no Brasil Por Isabel Clemente, repórter ALTO DO MORRO DOS CABRITOS, FAVELA PACIFICADA NO RIO DE JANEIRO, É UMA DAS VISTAS prediletas do economista Marcelo Neri. Aos 49 anos, recém-empossado na presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ele não admira apenas a beleza cênica do mirante. Mas a peculiar mistura de extremos de luxo e pobreza. Por 12 anos, à frente do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio, mediu a queda nos índices de desigualdade do país e a ascensão social dos mais pobres. Foi um dos que identificaram e batizaram a nova classe emergente do país. Agora no Ipea, diz que quer investigar dois mistérios: a renda verdadeira dos mais ricos e por que os brasileiros poupam tão pouco. Nos últimos dez anos, 23 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza. Em que década o país está entrando agora? Marcelo Neri - Se você reparar, as décadas não são muito gregorianas. A da democratização começou em 1984, a da estabilização em 1994. Em 2004, a volta do crescimento com geração de emprego deu início à década da inclusão social e, puxando um pouco a sardinha para minha brasa, da nova classe média. Num certo sentido, a nova década começará em 2014. E a meta principal do governo federal é superar a pobreza. Só que, desta vez, levando o Estado aos pobres, com educação de qualidade, microcrédito e infraestrutura. O desafio é dar poder a eles. Época - A desigualdade brasileira caiu pelo índice deGini, usado mundialmente para comparar a renda dos mais ricos e mais pobres. Nesta nova década, seria o momento concentrar em indicadores que não avançaram tanto, como na educação? Neri - A educação no Brasil continua ruim. Mas está menos ruim do que era, como o índice de Gini. Nossos indicadores de desigualdade, informalidade e educação ainda são inaceitáveis, mas a taxa de progresso é forte. Concordo que o índice de Gini esconde alguns problemas. Mas ele revela que, na última década, a renda dos 10% mais pobres cresceu 91% e a renda dos 10% mais ricos aumentou 16%. A gente ainda não olhou para isso com os devidos cuidados.ÉPOCA - O aumento de 16% na renda dos 10% mais ricos parece pouco para explicar a explosão do consumo de luxo no Brasil. Até que ponto podemos confiar num índice feito a partir de pesquisas que se baseiam na renda declarada? Neri - É um bom ponto. As pesquisas sobre renda domiciliar funcionam melhor para os pobres. Os mais ricos podem ficar constrangidos em declarar sua renda verdadeira. Mas a metodologia atual do índice de Gini permite uma comparação internacional. Com ele, conseguimos ver que estamos em 172 lugar no mundo em termos de desigualdade. Pretendo trazer para o ipea uma linha de pesquisas baseadas em dados do Imposto de Renda, uma tendência lá fora. Com eles, você pega a renda dos mais ricos e nâo fica esperando que as pessoas contem quanto ganham. É claro que não entraremos no sigilo fiscal de ninguém. Nos Estados Unidos, esse tipo de pesquisa revelou que os 10% mais ricos têm metade da renda do país. Isso equivale ao ápice da nossa desigualdade em 1989, na hiperinfiação. Não acredito que o levantamento com o Imposto de Renda aqui mude muito nosso índice atual de desigualdade. Mas vamos pesquisar. ÉPOCA - A crise pode empobrecer a nova classe média? Neri - O Brasil é uma maquete do mundo. A desigualdade entre países é tão grande quanto a nossa interna. E vem caindo também loucamente. A nova classe média brasileira não tem dois carros e dois cachorros como a americana, mas tem dois filhos, o que é importante porque dá sustentabilidade ao crescimento. Há um paradoxo no Brasil. A renda das pesquisas domiciliares cresce bem mais que o PIB. Até agosto de 2012, a renda real per capita das seis regiões metropolitanas cresceu 4,6%. A previsão do PIB para o ano é de 1,6%. Uma explicação possível é que o desemprego baixo e a formalidade em alta estejam amortecendo a crise. Emprego formal dá FGTS e seguro-desemprego. Por isso, acredito que a classe média siga prosperando apesar da crise. Existem duas visões um pouco esquizofrênicas, como se a população estivesse num mundo e o PIB em outro. O presidente Emílio Garrastazu Médici (que governou de 1969 a 1974) dizia que o povo ia mal e o país ia bem. Agora o povo vai bem, e a economia mal. ÉPOCA - O Bolsa Família perde relevância num país menos desigual? Neri - A queda na desigualdade graças ao Bolsa Família foi de 13%. Não acho que o ciclo diminuiu. Por dois motivos. Primeiro, por ser uma plataforma de serviços. O governo federal incentiva parcerias com Estados e municípios. Rio, Distrito Federal e Minas já têm. São programas baratos que ficam de pé em pouquíssimo tempo. Aqui no Rio, a gente desenhou um programa, na FGV, o Renda Melhor, que atende hoje 1 milhão de pessoas no Estado, com benefícios que variam de R$ 30 a R$ 300. Segundo ponto: o custo-benefício do Bolsa Família é 0,5% do PIB. De graça. Como a meta agora é superar a pobreza, não está claro que o impacto tenha acabado. ÉPOCA - O senhor sempre criticou um sistema de benefícios previdenciários que dá mais aos idosos do que às crianças. Num país que envelhece, essa desproporção tende a aumentar? Até há pouco tempo, a renda dos idosos crescia mais. Mas isso está mudando. O governo aumentou o número de crianças atendidas no Bolsa Família, incluiu a gestante e criou o Brasil Carinhoso, que reduziu em 40% a pobreza nas famílias com crianças na faixa de 0 a 6 anos. A queda na desigualdade foi fantástica. Podíamos ter feito mais. A alta da carga tributária atrapalhou. Roubou crescimento. Mas sou otimista, porque as pesquisas mostram que 76% do crescimento da renda no Brasil foi produzido por trabalho remunerado, e não veio de benefícios previdenciários ou sociais. Além disso, 58% da queda na desigualdade também foi efeito do trabalho. Quando você tem empresas querendo contratar, mesmo com os custos trabalhistas, é um sinal e tanto. Tem outro ponto: pergunte ao brasileiro o que ele acha da vida dele. ÉPOCA - A felicidade do brasileiro não é cultural? Neri - Pode ser. Por cinco vezes consecutivas, o brasileiro é o primeiro no ranking da expectativa de felicidade futura. Quando questionados sobre que nota daríamos para a vida em cinco anos, estamos em primeiro lugar entre 158 países pesquisados. A economia é a ciência triste. Como ela olha para um povo feliz? Não existe nenhum país do mundo onde a felicidade presente seja menos sensível a melhoras substantivas e reais, como acesso a bens. O brasileiro se acha o cara”. É difícil para os economistas entenderem isso sem fatos. ÉPOCA - Que aspectos da sociedade precisam ser olhados com a mesma lupa que o senhor pretende dirigir aos ricos? Neri- A poupança das famílias. A gente não sabe nem qual é. Fora das contas nacionais, não há estudos sobre isso. É preocupante porque, se tudo der certo, olha o que acontecerá. A população idosa cada vez maior não poupa. A taxa de juros, um prêmio para a poupança, deve continuar caindo. Com programas sociais, o incentivo não é poupar contra as incertezas. A tendência é de queda na poupança. O povo brasileiro precisa aprender a guardar dinheiro. Outro assunto é microcrédito. A cena que eu tinha na cabeça era um país ficando mais igualitário, com pequenos negócios prosperando. Não é o que está acontecendo. O emprego formal está subindo porque as empresas estão ficando maiores, o que não é ruim porque são mais sofisticadas, disputam no mercado externo. Mas eu queria ver mais empreendedorismo na base.
Valor Econômico - Velocidade máxima Por Luiz Maciel, repórter Uma pequena revolução está colocando o Brasil na rota de país mais empreendedor do mundo. Ainda não há tantas empresas quanto na China e nos Estados Unidos - os campeões nesse quesito, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que mapeia anualmente o empreendedorismo em 54 países -, mas é no território verde-amarelo que o maior número de novas companhias são abertas por ano. É uma arrancada comandada pelos microempreendedores individuais, que a burocracia estatal identifica como MEIs e que desde meados de 2009 estão sendo resgatados da economia subterrânea para participar da cadeia formal, com direito a CNPJ e Previdência Social, dando em contrapartida uma contribuição mensal de R$ 37, no máximo, aos cofres públicos. Para contar com tais benefícios, os MEIs não podem faturar mais que R$ 60 mil por ano, o que dá uma média de R$ 5 mil por mês. Eles formavam um contingente de pouco mais de 800 mil no fim de 2010, saltaram para 1,87 milhão um ano depois e hoje se aproximam dos 3 milhões - o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) contabilizou 2,9 milhões na última aferição, dez dias atrás. "Não conheço outro país que tenha formalizado tanta gente em apenas três anos, quando foi criada a categoria, fruto da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas", destaca o presidente do Sebrae, Luiz Barretto. A entidade prevê que o número de empreendedores individuais chegue a 4,3 milhões em 2014, superando o total de micro e pequenas empresas no país, que hoje ronda os 4 milhões. Enquadram-se entre as micro as companhias que movimentam até R$ 360 mil por ano, e entre as pequenas as que faturam desse patamar até R$ 3,6 milhões. Além de se multiplicarem em altíssima velocidade, à razão de 170 novos inscritos no CNPJ por hora (foram 122 mil por mês no período de janeiro a setembro deste ano), os MEIs, segundo pesquisa do Sebrae, são em geral mais jovens do que os empreendedores de maior porte (a maioria tem entre 24 e 39 anos), refletem melhor a igualdade entre os sexos (46% são mulheres, comparados a 30% de participação feminina no comando das MPEs tradicionais) e tocam o barco sozinhos (apenas 4% têm um ou mais funcionários contratados). A grande maioria (69%) declarou ter buscado a formalização principalmente pela oportunidade de abrir um negócio. Os benefícios previdenciários, que os analistas do governo supunham ser o maior atrativo para os MEIs, foram apontados como a maior motivação apenas por 31% dos entrevistados. Mais de um terço deles (38%) já exercia o mesmo trabalho informalmente, enquanto 28% estavam desempregados. Para 55% dos ouvidos, a constituição da empresa foi decisiva para aumentar os rendimentos. E quase todos (94%) se mostraram satisfeitos e recomendaram a formalização. O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri, nota que os MEIs foram os grandes responsáveis pela virada do empreendedorismo captada pela última Pesquisa de Amostra de Domicílios (PNAD), em 2011. "O número de trabalhadores por conta própria, que vinha diminuindo nas pesquisas anteriores, passou a crescer. O incentivo aos MEIs é uma política importante, que agora precisa ser reforçada com a oferta de crédito a esses pequenos empreendedores, além de outras ações que facilitem o acesso deles ao mercado", afirma. Nos últimos dez anos, lembra Neri, a renda dos 10% mais pobres aumentou 91,2% no país, enquanto a dos 10% mais ricos cresceu 16,6%. Outro dado interessante registrado pelo Ipea é o persistente crescimento da renda do trabalho em geral num nível bem acima do PIB. "De 2003 a 2011, o PIB cresceu 27%, enquanto a renda do trabalho subiu 40%. E nos primeiros oito meses de 2012 o descolamento entre esses dois índices foi ainda mais flagrante, com a renda crescendo 4,6%, cinco vezes mais do que o PIB. O mercado de trabalho no Brasil está aquecido, embora a economia nem tanto. É exatamente o oposto do que ocorre na China e na Índia", observa. Enquanto nas MPEs a venda direta representa 59% do faturamento, nas microempresas individuais esse percentual - embora ainda não medido com precisão - é de praticamente 100%. Os MEIs dedicam-se basicamente ao comércio (39%), à prestação de serviços (36%) e a pequenas atividades industriais, como a produção de bijuterias, roupas e doces (17%) - nas MPEs, esses índices são, respectivamente, de 58%, 28% e 13%. Mas se o acesso à vida empresarial ficou muito mais fácil com a instituição do microempreendedor individual, o desafio da inovação na iniciativa privada também cresceu. O mesmo GEM que coloca o Brasil entre os países mais empreendedores ressalva que estamos entre os povos menos inovadores do planeta. "Estamos tentando reverter isso com programas como o Sebraetec, que subsidia até 90% de consultorias para companhias dispostas a inovar, e com a rede de Agentes Locais de Inovação, formada por universitários recém-formados, que oferece soluções inovadoras para os gargalos de micro e pequenas empresas", afirma Luiz Barretto, do Sebrae. Os dados do próprio Sebrae sobre o assunto, pesquisados pela última vez em 2009, não são nada animadores: segundo eles, 54% das MPEs brasileiras não realizaram nenhuma inovação nos 12 meses anteriores ao levantamento, 43% introduziram algum tipo de inovação no produto, no processo de produção ou na técnica mercadológica, e só 4% realizaram inovações nessas três áreas. O peso da inovação no crescimento empresarial é percebido mais claramente em programas de estímulo à excelência, como o adotado pela Endeavor, organização internacional sem fins lucrativos presente em 17 países emergentes, entre eles o Brasil. Ao contrário do Sebrae, que se propõe a orientar todo o universo das micro e pequenas empresas brasileiras, e agora também das MEIs, em seus mais variados estágios de maturação, a Endeavor seleciona companhias que se destacam pelas propostas inovadoras para apoiar e transformar em exemplos de sucesso. "Nós damos as ferramentas e acompanhamos os planos de expansão, por meio de um gestor que atua como 'sócio oculto' da empresa e dos conselhos de 300 mentores, recrutados entre os maiores empresários brasileiros, que doam sua experiência ao programa. O resultado é um crescimento médio anual acima de 40% entre essas empresas", explica o diretor de educação e pesquisa da Endeavor, Juliano Seabra. As 55 companhias brasileiras que participam desse programa faturam R$ 2,4 bilhões em conjunto, empregam 14,5 mil pessoas e representam 20% do desempenho global das 443 empresas apoiadas pela Endeavor nos 17 países. Nessa privilegiada amostra, bem ao contrário do que acontece entre as empresas nacionais como um todo, o Brasil se revela quase duas vezes mais inovador do que os demais países participantes do programa.
The Guardian (Inglaterra): Brazil is covering Venezuela's back Far from being incompatible opposites, Venezuela and Brazil have established the most solid strategic alliance in the region Por Raúl Zibechi For most analysts, the political regimes of Venezuela and Brazil are very different. Some governments, such as Barack Obama's, suggest the two regimes are opposites, even conflicting. But the solid alliance between the two countries, overlooked by the media, does not mesh with these simplistic analyses. The Venezulean government of Hugo Chávez is accused of being populist and authoritarian, because the state plays a central role in the economy and society, and the regime of showing a dangerous tendency towards single-party politics that makes it very similar to that of Cuba. The Brazilian governments of Luiz Inácio Lula da Silva (2003-10) and Dilma Rousseff, on the other hand, support private companies and have a good relationship with the opposition, to the extent that half a dozen parties, ranging from communist to centre-right, make up the government led by the Workers party. The leading players in Brazilian media, such as Rede Globo, do not mention the existence of censorship in the country. One of the main differences between the two countries is the relationship between the state and civil society. In Brazil, social movements such as Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (Landless Workers' Movement), arose against the state. In Venezuela, they were created to a great extent by the state after Chávez got to power. The conservative media consider Venezuela to be a potential danger for the security of the US and a threat to democracy and its neighbours. We should remember that the George W Bush administration assigned Brazil the role of "moderating" Venezuela's alleged radical impulses. What these analyses fail to explain is why two regimes that are meant to be opposites and incompatible with one another have established the most solid strategic alliance in the region, as solid or more so as that of Brazil and Argentina. After Lula's arrival in government, the quality of Brazil's relationship with Venezuela leapt. In 2003, the trade between the two countries amounted to $800m. By 2011, this figure had gone up to $5bn. The two countries tightened institutional links through consultancy on public policies and training courses for leaders provided by the prestigious Brazilian research centre Ipea (Institute of Applied Economic Research) and Embrapa (the Brazilian Agricultural Research Corporation), which opened offices in Caracas. In 2005, Lula and Chávez signed the Brazil-Venezuela strategic alliance and in 2007, they started holding quarterly presidential meetings – an unheard-of regularity – to accelerate the integration of infrastructure, which continued until 2010 In May 2011, Ipea, which is dependent on Brazil's ministry of strategic affairs, published two important studies that highlight the progress made on integration, involving areas such as the road, river and air transport systems. A "common economic area" is being created, stretching from the north of Brazil to the south of Venezuela. Brazil contributes to the industrial development of Venezuela to help it reduce its dependency on oil exports and the import of 70% of all food consumed. Venezuela has started to supply industrial consumables to north Brazil, creating complementary industrial chains in the border area, in sectors such as the metal mechanics industry and agro-industry. Brazilians emphasise "the quantity and quality" of the region's resources. Venezuela has the largest oil reserves in the world, having displaced Saudi Arabia, the third-largest bauxite reserves, the fourth-largest gold reserves, the sixth-largest natural gas reserves and the 10th-largest iron reserves. The Brazilian state of Roraima, on the border with Venezuela, holds the world's biggest reserves of gold, niobium and tin, in addition to important deposits of thorium, cobalt, molybdenum, diamonds and titanium. However, the main goals of Lula and Chávez were geopolitical. Samuel Pinheiro Guimarães, the most influential diplomat in the Brazilian chancellery, explained that Brazil's strategy sought to prevent the "removal" of Chávez through a coup, to block the reincorporation of Venezuela into the North American economy, to extend Mercosur with the inclusion of Bolivia and Ecuador and to hinder the US project to consolidate the Pacific Alliance, which includes Chile, Colombia, Mexico and Peru. This high level of contact and co-operation shows that the analysts who believe these two nations represent opposites in their approach to the politics of the left are wrong. The friendly relations forged by Chávez and Lula have continued under Rousseff. They present a challenge to those seeking to undermine Venezuela by promoting a so-called "Brazilian" way: in fact the two models are closer than we are led to b
Valor Econômico - Inflação no Brasil se descola de padrão global Por Arícia Martins, repórter A inflação do Brasil se descolou ainda mais dos padrões internacionais no terceiro trimestre. De 22 países que adotam o regime de metas inflacionárias, e já divulgaram números referentes a agosto, em apenas três o índice de preços ao consumidor superou os 5,2% acumulados pelo indicador brasileiro em 12 meses. Até junho, seis países ainda mostravam variação de preços acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que, na época, marcava alta anualizada de 4,9%. Dentro desse grupo de 22 países, em 12 deles a inflação acumulada em 12 meses está acima do centro do alvo perseguido pelo banco central - o Brasil é um deles. A meta brasileira, de 4,5%, no entanto, é elevada se comparada à de outras economias. Apenas Guatemala e Indonésia miram o mesmo nível de inflação que o BC brasileiro, enquanto Turquia e Gana trabalham com metas mais folgadas, de 5% e 8,7%, respectivamente. Nos demais, o alvo é inferior ao brasileiro, a maioria entre 2% e 3%. Para economistas, o mercado de trabalho apertado, o alto grau de indexação, a baixa taxa de investimento e o descompasso entre oferta e demanda continuam por trás da resistência dos preços no país, mas dois fatores passaram a ter papel predominante sobre a dinâmica inflacionária nos últimos meses: o choque de commodities e a depreciação cambial. Analistas avaliam que o efeito da escalada dos grãos após a estiagem nos Estados Unidos poderia ter sido ao menos parcialmente neutralizado por alguma valorização do real, o que está descartado diante das ações do governo para controlar a taxa de câmbio. Daniel Moreli Rocha, superintendente de tesouraria do Banco Indusval & Partners (BI&P), calcula que, desde 1º de março, quando o dólar ainda estava em R$ 1,71, a moeda brasileira se desvalorizou 18,5% em relação à americana, enquanto uma cesta de moedas de sete países produtores de commodities ficou praticamente estável frente ao dólar no período. "Nos ciclos anteriores de altas de commodities, o real estava se valorizando, então um movimento compensava o outro", diz Rocha, para quem a inflação brasileira "certamente" sofrerá mais impacto da disparada dos grãos do que a de outros países cujas moedas se apreciaram. Caso não tivesse ocorrido novo choque de matérias-primas neste ano, ele acredita que o IPCA poderia encerrar 2012 com aumento de 5,1%, projeção que foi elevada em 0,4 ponto percentual após a forte subida dos grãos. Para Tony Volpon, diretor da Nomura Securities International, o Banco Central e o governo não têm como evitar a volatilidade causada por choques externos, mas podem escolher qual canal será afetado por movimentos imprevistos. Em um regime de câmbio flutuante, diz, o impacto esperado seria a apreciação da moeda. "Quando há um câmbio tabelado, necessariamente parte dessa volatilidade tem de ir para outro lugar. Se o BC não está disposto a apertar as condições monetárias, esse lugar é a inflação." Segundo Volpon, o regime de câmbio passou de uma flutuação "suja" para outra inexistente, o que dificulta estimar o repasse da variação cambial para os preços internos. "A única coisa que sabemos é que em um regime de câmbio fixo, o choque externo tem de se internalizar via aumento dos juros ou mais inflação. Sem os juros, o 'pass through' (repasse) será maior", explica. Com base em fundamentos econômicos, a tendência natural seria que a moeda brasileira estivesse em apreciação, de acordo com Juan Jensen, sócio da Tendências Consultoria. Para ele, definir piso e teto para a taxa de câmbio não é uma ação compatível com o regime de metas inflacionárias. Além desse antagonismo, Jensen aponta que o centro da meta não é mais o primeiro objetivo do BC, ao contrário do que acontece em outros países da América Latina, onde as expectativas futuras de inflação são alinhadas ao alvo central. Levantamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostra que o Brasil tem a terceira maior expectativa de inflação do mercado para 2013 entre os oito países latino-americanos que adotam o regime de metas, de 5,5%, atrás apenas de Uruguai (6,9%) e Paraguai (5,6%). Chefe de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs, o economista Alberto Ramos observa que a inflação brasileira já parte de um nível mais alto do que o de outras economias. Enquanto no Brasil, o centro da meta perseguido pelo BC é de 4,5% - o mesmo percentual desde 2005 -, no Chile e na Colômbia, os alvos são de 3%. No Peru, o centro é de 2%. O que diferencia o Brasil dessas economias, além do câmbio mais depreciado no momento, diz Ramos, é a inércia inflacionária, fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a inflação futura, o que, aliado ao baixo desemprego, permite repasses maiores nos preços de serviços. Nos 12 meses encerrados em agosto, o grupo de preços formado por aluguel, mensalidade escolar, cabeleireiro e empregado doméstico subiu 7,9% no IPCA. Ramos também chama atenção para a taxa de investimento brasileira, na casa de 18% do PIB, o que limita a capacidade de a economia crescer sem gerar inflação. "Todas as economias latinas estão crescendo acima de 5% e investindo entre 26% e 28% do PIB. Com a taxa de investimento brasileira, qualquer aumento da demanda gera pressões inflacionárias", afirma. Júlia Braga, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e colaboradora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), concorda com a avaliação de que a baixa taxa de investimento contribui para repasses maiores aos preços - ao limitar ganhos de produtividade -, mas não vê a desvalorização cambial como principal vetor de aceleração de preços este ano. Apesar de ter chegado aos alimentos derivados de grãos no IPCA, o repasse cambial, diz ela, não alcançou os bens industrializados no varejo, o que reduziu o efeito do câmbio na inflação. Para Júlia, os problemas climáticos que diminuíram a produção interna de alimentos foram cruciais para desviar ainda mais o IPCA da inflação em outros países, ao lado do choque externo de commodities. Apenas em agosto, o preço do tomate saltou 18,9%, após alta de 50,3% em julho.
Folha de S.Paulo - OMS cobra mais ações para a prevenção dos acidentes de trânsito Por ANDRÉ MONTEIRO, repórter Especialistas internacionais e a OMS (Organização Mundial da Saúde) fizeram um apelo nesta quarta-feira (3) para que os países em desenvolvimento implementem políticas efetivas para a redução das mortes e ferimentos causados por acidentes de trânsito. Segundo a entidade, que realiza uma conferência sobre o tema nesta semana em Wellington (Nova Zelândia), as mortes no trânsito já são superiores a doenças como malária e tuberculose --foram 1,3 milhões de mortes no mundo todo em 2009, e cerca de 50 milhões de pessoas ficaram feridas ou incapacitadas. A maioria das mortes ocorreu nos países em desenvolvimento. O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking elaborado pela OMS, atrás de Índia, China, EUA e Rússia. Um novo relatório sobre a violência no trânsito será lançado em dezembro, mas, segundo especialistas da OMS, o Brasil deve continuar no topo da lista. De acordo com o último levantamento do Ministério da Saúde, em 2010 as mortes em acidentes chegaram a quase 42,8 mil. A taxa brasileira (22,4 mortes por 100 mil habitantes) é mais que o dobro da média dos países ricos, que implementam políticas de prevenção há décadas. "O Brasil já adotou algumas medidas, mas por outro lado o número de mortes continua muito alto, então ainda é preciso fazer mais. Uma das coisas é aumentar o trabalho de fiscalização, de colocar em prática as leis que já existem mas que às vezes estão só no papel", disse Etienne Krug, diretor do Departamento de Prevenção da Violência da OMS. Há dois anos, a ONU estabeleceu a meta de reduzir as mortes no trânsito em 50% até 2020, na chamada Década de Ação para a Segurança no Trânsito. O governo federal se comprometeu com o objetivo e chegou a lançar um plano nacional em maio do ano passado, mas até hoje não apresentou nenhum balanço das atividades. No mês passado, a presidente Dilma Rousseff anunciou uma nova campanha ao lado de celebridades, mas não especificou ação ou instituições envolvidas. O ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades), cuja pasta é responsável pelas ações de segurança e educação no trânsito, afirmou depois que estão previstos R$ 70 milhões para a campanha até o fim do ano, mas que o plano ainda estava sendo fundamentado. "O comprometimento político é fundamental para a implementação de políticas de prevenção, assim como um trabalho integrado entre os setores responsáveis tanto pelo gerenciamento do trânsito quanto da saúde pública", disse Francesco Zambon, coordenador de estatísticas da OMS na Europa. Segundo Krug, as experiências internacionais mais bem sucedidas na redução da violência no trânsito vão além de campanhas educativas. "Se essas campanhas não forem acompanhadas de outras medidas efetivas, os resultados são mínimos e elas acabam sendo um desperdício de verbas." VIDA NO TRÂNSITO Diante da ausência de metas claras nas campanhas do governo federal, a OMS coordenda desde 2010 um projeto piloto em capitais das cinco regiões brasileiras: Belo Horizonte, Campo Grande, Curitiba, Palmas e Teresina. O objetivo é reduzir as mortes em até 10% em 2013. O Brasil foi um dos dez países em desenvolvimento selecionados para receber parte de uma doação de 125 milhões de dólares feita pela fundação de Michael Bloomberg, prefeito de Nova York. "Ele pesquisou qual era a 'doença' que estava matando mais gente e recebendo menos verba e descobriu que era o trânsito", disse Krug. O foco do projeto brasileiro, batizado de "Vida no Trânsito", é no controle da velocidade e da ingestão de bebida. Bafômetros e radares também foram comprados. Policiais, agentes de trânsito e técnicos das cinco cidades estão sendo treinados pela Universidade Johns Hopkins, dos EUA, que também foi contratada para monitorar se o programa está tendo resultados. Segundo o último balanço, em 2011 houve redução no número de mortos e feridos em quatro cidades, menos Belo Horizonte. Segundo Krug, o Brasil recebeu cerca de 7 milhões da doação. Já o governo federal disse ter liberado R$ 12,8 milhões para todas as capitais e cidades com mais de 1 milhão de habitantes interessadas em implantar o projeto. SAÚDE Segundo pesquisadores, os acidentes de transito são uma importante questão de saúde publica. "Além das mortes em si, há consequências duradouras tanto para a família das vítimas como para a sociedade em geral", afirma Alexander Butchart, coordenador diretor do Departamento de Prevenção da Violência da OMS. Entre as consequências para as famílias já listadas em estudos está a maior chance de desenvolver distúrbios mentais e outras doenças ligadas ao luto. Na sociedade, o principal impacto citada pelo coordenador e por outros especialistas é de fundo econômico, já que as mortes no trânsito atingem principalmente os mais jovens, sendo a primeira causa entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo todo. A perda prematura de força de trabalho, além dos enormes custos para o sistema de saúde pública no atendimento dos feridos, representam um impacto de cerca de 1% a 3% do PIB mundial. No Brasil, o impacto dos acidentes nas rodovias federais em 2011 foi calculado pelo Ipea em cerca de R$ 15 bilhões. ECONOMIA É justamente no campo econômico que pesquisadores estão sendo estimulados pela OMS para demonstrar que investimentos na prevenção de acidentes representam economia no orçamento dos governos. "Estudos consistentes mostram que cada dólar investido em ações contra motoristas alcoolizados, por exemplo, representam uma economia de 56 dólares em recursos públicos", disse Krug, da OMS. Outros estudos apresentados na conferência e embasados pela OMS apontam relações semelhantes, como a de que cada dólar gasto na compra e instalação de radares de velocidade representa 27 dólares de economia
O Globo - Sem truque contábil, meta fiscal não será alcançada Para analistas, só com artifícios país chegará a superávit de 3,1% do PIB este ano BRASÍLIA - Sem recorrer a algum truque para turbinar as receitas federais, como já fez no passado, o governo não cumprirá a meta cheia de superávit primário do setor público em 2012, de R$ 139,8 bilhões, ou 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país). Esta é a avaliação de especialistas ouvidos pelo GLOBO, e que foi confirmada, nos bastidores, por técnicos da equipe econômica. Em 12 meses, o superávit do setor público está em 2,46% do PIB. Se não conseguir cumprir a meta, o governo terá de se valer do desconto das despesas com investimentos para fechar as contas. As despesas continuaram crescendo acima da receita, como mostra levantamento feito no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi). De janeiro a setembro, as despesas de custeio e investimentos cresceram, em média, 12% em relação ao mesmo período de 2011, enquanto a receita líquida cresceu 7,5% de janeiro a agosto (último dado disponível). Governo tem usado receitas atípicas Em relação à estimativa do decreto de programação financeira 7.680/12, editado em fevereiro com a programação do Orçamento para o ano, a frustração da receita administrada (impostos e contribuições federais) já chega a R$ 34,8 bilhões. A previsão de arrecadação de R$ 699, 8 bilhões caiu para R$ 665 bilhões na última avaliação do governo. E a tendência é que a diferença cresça nos últimos meses do ano, dizem os analistas, apesar da reação da economia. - O governo costuma economizar mais nos primeiros meses do ano. A tendência dos últimos meses é expansionista. Sem algum truque, não vai dar para alcançar a meta cheia de superávit - observou o economista do Ipea Mansueto Almeida, especialista em contas públicas. Do lado das receitas, as contas estão sendo afetadas pelo crescimento minguado da economia, que derrubou a arrecadação de impostos. Para compensar, o governo se vale de receitas atípicas, como dividendos pagos por empresas e bancos públicos, cuja previsão de arrecadação subiu de R$ 19,8 bilhões no decreto de fevereiro, para R$ 29 bilhões na última avaliação. Nos estados, resultado também está aquém Esse recurso é visto pelos analistas como uma manobra para melhorar as contas públicas, sobretudo no caso do BNDES, que vem recebendo aportes bilionários do Tesouro para reforçar o caixa, mas em forma de empréstimos, sem impacto, portanto, no resultado primário e na dívida líquida do governo federal. Em contrapartida, só este ano, o BNDES já repassou ao Tesouro R$ 9 bilhões em dividendos, dos R$ 16 bilhões arrecadados das empresas e bancos públicos. Quanto às despesas do Orçamento, só os gastos com pessoal crescem em percentual abaixo das receitas este ano. De janeiro a setembro, esses gastos aumentaram 3,6% em relação ao mesmo período do ano passado. Há ainda outros entraves que dificultam o cumprimento da meta cheia de superávit fiscal. Do lado da receita, algumas estimativas de arrecadação não devem se confirmar, avaliam técnicos do Orçamento no Congresso, como, por exemplo, a receita com concessões, estimada em R$ 4,65 bilhões na última reavaliação do governo. Além disso, destacam esses técnicos, as contas dos estados também vão mal este ano e esses entes dificilmente conseguirão cumprir a meta de superávit de 0,95% do PIB. Em 12 meses encerrados em agosto, o esforço desses entes estava em 0,60% do PIB.
Publicação aborda temas como o papel dos vereadores e a situação da Justiça infantojuvenil
Comunicados do Ipea nº 156 e 157, com base na PNAD 2011, serão apresentados no Rio de Janeiro
O Globo - Farc querem ter Brasil de mediador Um representante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no processo de paz, que começa dia 15 em Oslo, disse ao GLOBO que a guerrilha deseja contar com o Brasil nas negociações com o governo colombiano. O Itamaraty se disse pronto a ajudar. Farc querem Brasil à mesa Negociador da guerrilha defende participação do país no processo de paz com o governo Por Vitor Sorano, repórter Apoio. Militares e helicóptero brasileiros usados no resgate de reféns libertados pelas Farc: apesar de fornecer armamentos à Colômbia, Brasil é visto com bons olhos pela guerrilha diálogo na colômbia As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) defendem a participação do Brasil no processo de paz colombiano. "É um país que tem tido uma boa posição. Sobretudo, não declarou as Farc terroristas", justifica Marco León Calarcá, um dos quatro negociadores nomeados pela guerrilha para se sentarem à mesa de negociação. O primeiro encontro está previsto para ocorrer no dia 15 em Oslo. Depois, as reuniões continuam em Cuba, de onde Calarcá falou, por telefone, ao GLOBO. No início do mês passado, o governo colombiano e a guerrilha anunciaram aquela que será a quarta tentativa de pôr um ponto final ao conflito, iniciado há 48 anos. A decisão tomada pelo governo do presidente Juan Manuel Santos significou uma guinada em relação à postura de confronto intransigente adotada pelo então presidente Álvaro Uribe (2002-2010), padrinho político de Santos e hoje uma das principais vozes críticas ao processo de paz. - As Farc sempre quiseram tratar o problema nacional pelo diálogo e não pela guerra. Se as circunstâncias permitirem, esse será o caminho a seguir e esse será o caminho à paz - diz Calarcá, que nega o risco de que, uma vez firmado o acordo pela cúpula da guerrilha, grupos dissidentes possam manter vivo o conflito. - As determinações que se tomem numa mesa são compromisso para toda a organização. Não há espaço para que isso aconteça. O processo conta com o apoio direto de Venezuela, Cuba, Chile e Noruega. O Brasil ficou de fora. O presidente Santos ligou para a presidente Dilma Rousseff pouco antes de anunciar o acordo. Segundo uma fonte da diplomacia brasileira, a ausência brasileira não causa nenhum prejuízo e está de acordo com a política "de resultados, não de prestígio" adotada pelo país. itamaraty "pronto a apoiar" As Farc são consideradas uma organização terrorista pelos EUA (desde 1997) e pela União Europeia (desde 2002). Tanto Uribe como Santos tentaram convencer o Brasil a fazer uma declaração semelhante, mas sem sucesso. Isso fez com que o país ganhasse pontos com a guerrilha, como indica a declaração de Calarcá. Isso apesar de o Exército colombiano contar com aviões da Embraer para combatê-la, e de declarações como a feita pelo então ministro da Defesa Nelson Jobim, em 2010, de que receberia os guerrilheiros "à bala" se entrassem no Brasil. Além disso, o acordo de cinco pontos discutirá temas como a questão agrária colombiana e o narcotráfico - a guerrilha, acusada por EUA e ONU de ser ativa no tráfico, é favorável à legalização das drogas, alegando ser uma forma de combater o fenômeno - além de prever a possibilidade de participação dos desmobilizados na política. Ou seja, caso o processo de paz dê certo, as Farc poderão emergir como um ator político convencional. Nessas condições, o peso brasileiro é outro atrativo. - O Brasil é um dos países que têm importância latino-americana, que pode influir sobre a economia regional em eixos de grande alcance - diz Calarcá. - Nós sempre consideramos que são necessárias mudanças na vida colombiana e em todo o continente por igual. Se nos dão a possibilidade de fazer parte das decisões do país (Colômbia), bem-vinda seja. Em nota, o Itamaraty afirmou que "o governo apoia o processo de negociação" e que, "na medida em que puder ajudar, o Brasil está pronto a continuar a apoiar o diálogo e as negociações." Professora da Universidade Nacional de Quilmes (Argentina) e bolsista do ipea, Monica Hirst avalia que uma eventual participação brasileira seria positiva para o país, inclusive no que toca ao pleito de uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Alguns analistas políticos afirmam que a recente chegada ao poder de governos de esquerda - como os liderados pelos ex-guerrilheiros Dilma Rousseff e José Mujica (no Uruguai) - é um dos estímulos à desmobilização das Farc. Calarcá vê o caso colombiano nesse contexto. - O conflito colombiano com certeza parece muito com (os de) Brasil, Uruguai, Paraguai e Chile. O negociador das Farc também indica que não irá exigir que o cessar-fogo, um dos pontos do plano de paz, seja uma condição para os diálogos. Santos diz que não haverá tréguas. - Tem que se chegar a isso no momento claro. Quando já houver todos os elementos em concordância e definidos na mesa, então se acordará como fazer o cessar-fogo - diz Calarcá. Mas, enquanto Santos tem dito que o processo de paz será uma questão de "meses, não de anos", o negociador da guerrilha prefere rejeitar quaisquer limites de tempo. - O importante é que o acordo saia, e não o tempo.
O Estado de S. Paulo (SP): Produção industrial tem terceira alta seguida Na avaliação do IBGE, crescimento de 1,5% em agosto foi puxado pela redução do IPI Por Daniela Amorim A produção industrial avançou pelo terceiro mês seguido em agosto. A alta de 1,5%, a maior desde maio do ano passado, foi puxada por setores beneficiados pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "O crescimento da produção foi muito calcado em bens de consumo duráveis, e não por acaso eles foram os beneficiados pela redução de IPI. A produção de automóveis, eletrodomésticos e móveis é destaque. Em três meses, há um ganho acumulado de 9,4% na produção dos bens de consumo duráveis", disse André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE. O aumento de 3,3% na venda de veículos automotores foi o principal responsável pelo bom desempenho da indústria em agosto, mas a expectativa é de que o segmento deva provocar uma queda na próxima leitura do indicador, por causa da diminuição nas vendas de automóveis em setembro, anunciada pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Mesmo assim, analistas preveem que o resultado não impedirá um PIB melhor no terceiro trimestre. O Banco WestLB prevê queda de 0,8% na produção industrial em setembro. Mas os resultados positivos da indústria acumulados em julho e agosto já "levariam a um crescimento de 1% no PIB (brasileiro), no terceiro trimestre ante o segundo", calculou Luciano Rostagno, estrategista-chefe do WestLB do Brasil. "Há uma recuperação em curso, está evidente nos números. Mas não podemos dizer que é uma recuperação sustentável", disse Rostagno, ressaltando que a expansão na indústria ainda é calcada em incentivos do governo. Em agosto, a divulgação do forte crescimento da indústria foi acompanhada por revisões das taxas dos meses anteriores, que mostram agora um desempenho ligeiramente melhor. Os dados foram bem recebidos pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que considerou "um resultado robusto, que reflete a retomada da economia brasileira e confirma uma possível nova tendência para a indústria brasileira já neste segundo semestre". Entre julho e agosto, todas as categorias da indústria mostraram expansão na produção, bem como 20 das 27 atividades pesquisadas. "Esse resultado de agosto, além de ter magnitude mais intensa em relação aos meses anteriores, mostra também um espalhamento do crescimento, algo que não era observado no segmento industrial havia algum tempo", disse Macedo. No entanto, na comparação com o mesmo período do ano anterior, a indústria ainda tem perdas. A queda foi de 2% em agosto. No ano, a produção ainda recua 3,4%. Enquanto a fabricação de automóveis cresceu 6,5% no período, a de caminhões despencou 35,4%, fazendo com que o segmento de veículos automotores tivesse perda de 11,2%. "Nem toda a cadeia caminha bem. A produção de automóveis caminha em velocidade muito superior à produção de caminhões. Há uma evolução puxada pelos automóveis, mas a pressão negativa dos caminhões faz com que esse segmento de veículos automotores seja o principal impacto negativo na indústria em agosto ante agosto de 2011", apontou Macedo. A queda na produção de caminhões é explicada por uma antecipação do consumo no fim do ano passado, mas também pela desaceleração da economia e de setores estratégicos, como o extrativo e a construção civil, segundo o IBGE. Como resultado, o desempenho dos bens de capital também vem sendo afetado. “Estamos caminhando para uma retomada” Por Irany Tereza Apesar da reação de parte do mercado, que esperava um crescimento industrial em agosto mais forte do que a alta de 1,5% apurada pelo IBGE, o economista Paulo Levy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) considera bom o resultado e diz que já podemos classificar o período atual como o início da recuperação da indústria. A seguir, os principais trechos da entrevista: Afinal, o resultado da produção industrial veio bom ou ruim? É um resultado bom, principalmente porque vem acompanhado de uma maior disseminação do crescimento. Este é um fator positivo a ser destacado. Mostra que não são apenas aqueles setores atingidos por medidas específicas, como a indústria automobilística, que estão produzindo crescimento. Agora é o efeito de medidas mais gerais, como redução de taxa de juros, relaxamento das condições de crédito, redução do compulsório e a própria política fiscal mais expansionista. Tudo isso converge para uma situação em que a demanda tende a crescer de maneira mais generalizada e a impactar a indústria como um todo. O sr. considera o resultado dentro dos parâmetros esperados? A estimativa do Ipea era de exatamente crescimento de 1,5% em agosto. A única coisa um pouco frustrante, mas compreensível, é que a produção de bens de capital continue deprimida. Cresceu apenas 0,3% na margem. Já vivemos um período de recuperação da indústria? Acho que sim. Sabemos que não dá para crescer 1,5% ao mês continuamente, mas estamos caminhando para uma retomada, principalmente no curto prazo. A questão da sustentação disso a médio prazo é que é a questão relevante e vai depender muito de como vai se comportar o investimento. Setor está dando sinais de reação, avalia Mantega Já há um gradual aquecimento da economia, avaliou ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao comentar o crescimento de 1,5% da produção industrial em agosto ante julho. "Estamos deixando para trás a condição pior para a indústria. A indústria vem de um primeiro semestre fraco, mas está dando sinais de reação. Já há vários elementos." Mantega observou que, entre os fatores que contribuíram para o resultado, estão o aumento da demanda por produtos industriais e a alta das exportações de manufaturados. Segundo ele, graças a medidas adotadas pelo governo na área do câmbio, o dólar está mais favorável às exportações. Além disso, a desoneração da folha de pagamentos também favorece as vendas externas, já que o produto exportado é totalmente desonerado. O ministro disse ainda que a elevação da produção industrial em agosto, de 1,5%, é forte e vai se manter nos próximos meses. Metade da indústria tem tendência de melhora Dos 27 ramos da indústria analisados pelo Iedi, 13 já apresentaram tendência de melhora em agosto Por Luiz Guilherme Gerbelli O resultado da indústria em agosto faz com que quase metade dos ramos industriais apresente recuperação. Dos 27 ramos da indústria, 13 estão com tendência de melhora, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O resultado apurado em agosto é bem mais positivo do que o de julho, quando apenas sete ramos apresentaram tendência de melhora - em junho, eram quatro. Entre os setores com tendência positiva, estão alimentos (alta de 2,1% ante julho, segundo o IBGE) e veículos automotores (3,3%) - este último impulsionado pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O levantamento do Iedi ainda aponta seis setores com oscilação, "que, por isso, não podem ser considerados como tendo uma tendência de melhora ou de que continuam com quadro ruim". Nesse grupo, por exemplo, está o setor de equipamentos de instrumentação médico-hospitalar (recuo de 2,7% em agosto ante o mês anterior). Em julho, eram oito ramos com oscilação. A quantidade de ramos com tendência de desempenho ruim está em cinco, segundo o Iedi - o mesmo verificado em julho. Nesse grupo, estão calçados e artigos de couro (-0,1%). Há ainda a indústria extrativa, que foi classificada como menos ruim. Os setores de fumo e diversos não foram analisados. Mudança. Na avaliação do professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Julio Gomes de Almeida, o resultado da produção industrial em agosto foi "muito bom" e houve uma "mudança no quadro" do setor, que vinha com dificuldade de mostrar sinais de melhora, apesar dos incentivos do governo. Entre os resultados, o professor da Unicamp destaca a melhora da indústria de bens intermediários, cuja variação positiva foi de 2% em agosto ante julho. "Quando esse setor cresce bem, toda a indústria cresce." Nesse cenário de melhora industrial, Almeida cita dois ramos importantes que tiveram reação: alimentos e veículos. Cada um deles representa cerca de 10% da produção industrial do Brasil. "No caso de veículos, há um fator decisivo de redução do IPI. É uma ação extra mercado e importante porque ela vai permitir que o setor ajuste completamente os seus estoques." A expectativa para os próximos meses, de acordo com o professor da Unicamp, é que o setor industrial continue crescendo. Na avaliação dele, a indústria não deve manter o ritmo de alta de 1,5% como em agosto. "Mas um crescimento de 1% pode acontecer nos próximos meses. A indústria deve ter uma etapa de melhora", afirma. Ele ressalta que os problemas estruturais da indústria continuam. Para Almeida, a melhora ainda está dentro de um quadro preocupação, sobretudo em relação à competitividade "No mundo atual, a nossa competitividade deixa a desejar", diz. "Mas há um melhora do setor. É como se estivéssemos falando de um doente, cuja a febre diminuiu." Estoque nas montadoras cresce, mas não preocupa Apesar do tombo nas vendas de automóveis e veículos comerciais leves em setembro, que registraram queda de 31,5% ante agosto, as montadoras não acreditam que tenha ocorrido um grande acúmulo de estoques indesejados na indústria. A Anfavea, que reúne a indústria, divulga o nível de estoques de setembro amanhã. Segundo a entidade, o resultado não deve provocar uma grande preocupação. As montadoras tinham encerrado agosto com volume de produto equivalente a 19 dias de vendas, enquanto a marca normal é de 28 dias. Com recuo nas vendas, provocado pela ressaca de antecipação de consumo por causa do fim do IPI reduzido que terminaria em agosto, o estoque deve ter subido para algo entre 20 e 23 dias, informa a Anfavea. Uma certeza e algumas dúvidas Análise: Daniel Keller de Almeida A certeza quanto aos últimos resultados da produção da indústria é que inequivocamente o setor saiu da fase de aguda retração do primeiro semestre, quando acumulou queda próxima a 4%. Não foram apenas os estímulos extras promovidos pelo governo, a exemplo do menor IPI para veículos e outros bens duráveis, os determinantes da recuperação. Também colaboraram as medidas mais gerais que já há algum tempo a política econômica vinha promovendo, como a redução da taxa de juros, o melhor posicionamento da taxa de câmbio e as ações de política industrial. Contudo, o ajuste de estoques que tardou a ser concluído na indústria foi também relevante. Em 2011 e parte deste ano os produtores foram acumulando estoques por causa da concorrência dos importados. Todavia, nos últimos meses esse desajuste foi revertido. Isso significa que o ciclo de estoques passou a ter efeito positivo sobre a produção, ao invés de negativo, como vinha prevalecendo. É claro que nos setores de automóveis, móveis e produtos da linha branca a redução de impostos foi fator destacado para a desova de estoques. Porém, o fato de que a produção foi retomada com vigor em outros ramos, como alimentos e setores de bens intermediários, indica que o crescimento da indústria teve causas mais abrangentes. A engrenagem industrial funciona a pleno vapor quando existe um segmento de bens intermediários plenamente constituído - como ainda é o nosso caso -, o que permite que um estímulo de demanda seja multiplicado pela dinâmica endógena da indústria. Pode ser que o excepcional crescimento de agosto (1,5%) não se repita nos próximos meses, pois algumas dúvidas persistem acerca da intensidade da reativação industrial. Primeiro, a indústria ainda não tem forças para concorrer com os importados, muito mais baratos. O governo vem agindo nessa questão, mas os efeitos só começarão a surgir a partir de 2013. Segundo, as exportações industriais estão muito fracas, o que pode neutralizar em parte os fatores de impulsão da indústria. Uma terceira dúvida diz respeito ao resultado para o segmento de bens de capital, que não acompanhou o desempenho global, crescendo apenas 0,3%. Será esse um indicador de que o investimento na economia ainda não mostra sinais de melhora?
Jornal do Brasil - Investimentos e melhor educação são as necessidades do país, diz economista Por Carolina Mazzi, repórter Apesar das limitações na pesquisa que mostrou queda na desigualdade social, divulgada no final de setembro pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), o Brasil apresenta melhoras significativas nas áreas de renda e na expansão do mercado de trabalho. Ainda assim, é preciso que o país continue crescendo, aumentando seus níveis de investimento e melhorando a educação para que este movimento continue a longo prazo. Estas são as opiniões do economista Fernando Cardim de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, Cardim critica a metodologia usada pelo Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e reclama por "anos de ausência de estratégia de desenvolvimento" para o país. Ex-secretário executivo da ANPEC (Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia), ele é atualmente consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), além de professor da UFRJ e pesquisador CNPq. Confira abaixo a entrevista. JB - Segundo pesquisa da Pnad divulgada nesta sexta-feira, a renda dos mais pobres da população subiu 29%, enquanto a dos mais ricos subiu apenas 4,4%. Para o senhor, quais foram as políticas econômicas feitas no passado que permitirem esses números? Fernando Cardim de Carvalho - É um resultado de várias políticas, mas também de uma deficiência conhecida de pesquisas como a Pnad. Começando pela deficiência, que é antiga e difícil de resolver, a Pnad não capta bem o arco completo de distribuição de renda no Brasil, porque ela não capta apropriadamente outras rendas que não as de trabalho. Rendas do capital, ganhos com valorização de ativos financeiros e outros, são de difícil medição e seus beneficiários não divulgariam esse tipo de informação em uma pesquisa de domicílios. Ela capta muito mais acuradamente a distribuição da renda do trabalho, entre salários. Mas aqui também é preciso tomar cuidado. Remunerações mais elevadas são muitas vezes realizadas através de instrumentos de avaliação complexa, como no caso de executivos que recebem opções de compra de ações da empresa, por exemplo, algo que era muito comum até recentemente em instituições financeiras. O salário formal pode ser muito alto em comparação com os mais baixos, mas mesmo assim uma pesquisa tipo Pnad dificilmente conseguiria captar adequadamente a renda real dos mais ricos. Até mesmo a receita federal teria dificuldades, quanto mais o IBGE. Dito isso, é inegável que houve melhoras, pelo menos na distribuição da renda do trabalho, em resultado da política de valorização persistente do salário mínimo, que não só eleva os pisos salariais, mas também afeta várias categorias que tem suas remunerações associadas ao salário mínimo. O crescimento econômico, apesar de tímido, desde o final do período FHC vem apresentando um comportamento mais animador, permitindo a várias categorias de trabalhadores extrair maiores ganhos de suas barganhas coletivas. Também o aumento da formalização das relações de trabalho tem contribuído para uma melhora, já que, via de regra, empregos ditos "com carteira assinada" não só tendem a pagar mais como também dão acesso aos benefícios da segurança social. Eu acho que em termos de renda do trabalho, esses fatores certamente foram importantes. JB - Este movimento indica uma queda em um problema crônico brasileiro: a desigualdade. É um movimento sustentável? É possível manter esses níveis de crescimento? FCC - Sim, se as políticas de valorização do salário mínimo continuarem e o crescimento econômico for retomado com mais consistência. Por outro lado, é preciso um esforço mais consequente na qualificação da mão de obra, para que suas demandas por salários reais mais elevados sejam compatíveis com a rentabilidade das empresas, em um círculo virtuoso de investimento, progresso técnico e aumento de produtividade. Esse lado da equação ainda exige um esforço mais eficaz, não só na criação de escolas, mas na transformação dessas escolas em centros efetivos de qualificação do trabalho no país. JB - O que deve ser feito, economicamente, para que o Brasil continue diminuindo a desigualdade de renda? Quais fatores podem prejudicar este movimento? FCC - Certamente o pior dos riscos é a estagnação. Uma economia estagnada perde investimentos, que são os motores do progresso técnico e do aumento da produtividade, alem de prejudicar os trabalhadores em suas negociações salariais, porque o desemprego enfraquece a posição deles. A inabilidade em melhorar educação e saúde públicas poderiam contribuir para reduzir a parcela da remuneração ao cidadão que toma a forma de bens públicos essenciais. Isto é, pessoas que são remuneradas com tão pouco que se tornam dependentes dos serviços públicos. O que se deve fazer é continuar o que se fez até agora, com o acréscimo de estímulos a investimento, e à qualificação da mão de obra. O que esperar nos próximos anos? FCC - O governo parece ter consciência da necessidade de prosseguir com o que deu certo e melhorar aquilo que falta, como no caso da educação, da saúde, etc. Torço para que as boas intenções se concretizem. Depois de anos de ausência de estratégia de desenvolvimento, nos anos FHC e Lula, o governo parece ter encontrado um caminho que pode conciliar recuperação do crescimento e distribuição. FHC não conseguiu nem uma coisa nem outra. Lula conseguiu melhorar a distribuição, mas o crescimento veio mais pela sorte de contar com um cenário internacional favorável. Agora dependemos mais da competência do governo em implementar as políticas corretas. Neste ano o governo parece estar acertando mais que errando. Se continuar assim, será ótimo.
Diagnóstico dos resíduos sólidos de transportes aéreos e aquaviários
Diagnóstico dos resíduos sólidos de transportes terrestres rodoviários e ferroviários
Luis Cláudio Kubota, do Instituto, e Rafael Moreira, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
Diagnóstico de educação ambiental em resíduos sólidos

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