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Gerente Técnica de Gestão do Conhecimento de Aeronavegabilidade, Cleide Gomes fala da experiência do PGC na ANAC

 

Cleide Gomes

A Gerente Técnica de Gestão do Conhecimento de Aeronavagabilidade (GTGC/ANAC), Cleide Gomes, explica de que forma se concretizou a ideia de implementar uma política de compartilhamento do conhecimento na Agência Nacional de Aviação Civil de forma a preparar os servidores menos experientes para o desempenho dos trabalhos técnicos de certificação de aeronaves. 

 

Confira a entrevista na íntegra.

 

Embarque Imediato - De onde surgiu a ideia de implementar um projeto de gestão do conhecimento na SAR?
Cleide Gomes - Antes de entrar no histórico do projeto, é importante destacar que o nosso namoro com a gestão do conhecimento (GC) começou há muito tempo. Todos sabemos que o Brasil está colocado entre as 4 autoridades mais importantes do mundo na certificação de produtos aeronáuticos. Esta posição foi conquistada historicamente pelo desenvolvimento da indústria aeronáutica e pelo reconhecimento internacional de seus processos de certificação de produtos, desde o projeto do Bandeirante, um avião de transporte de passageiros que envolveu recursos do PNUD para que a autoridade norte-americana transferisse expertise em certificação para engenheiros e técnicos brasileiros. A Certificação de Tipo tem como principal objetivo assegurar o cumprimento de requisitos mínimos de segurança e aeronavegabilidade do projeto da aeronave, é um processo bastante complexo que depende de profundo conhecimento técnico de projetos de aeronaves, visando assegurar ao máximo a segurança de voo. O profundo conhecimento técnico, aliado à constante evolução das tecnologias empregadas nos novos projetos das aeronaves e ao substancial crescimento do mercado, torna a necessidade de formação de mão de obra qualificada crucial para uma atuação eficiente nas atividades de regulação e fiscalização da aviação civil. A responsabilidade de zelar pela segurança recai sobre a ANAC que, para evitar descontinuidades nas atividades anteriormente exercidas pelo antigo Departamento de Aviação Civil (DAC), incorporou, em seu início, inúmeros técnicos oriundos da Força Aérea Brasileira.
A equipe designada para o desenvolvimento do processo é multidisciplinar, organizada de forma matricial, e tem como missão ajustar todos os detalhes necessários para o cumprimento da prioridade maior: segurança total e aplicação integral dos requisitos mínimos para a garantia de risco zero. Para isso, precisa ser treinada e constantemente atualizada “no estado da arte” em tecnologias e processos aeronáuticos.
Sob um alto nível de responsabilidade, a equipe que atua nesse processo demora, em média, 10 anos para estar plenamente capacitada e apta a se lançar em voos solos. É preciso, portanto, muita aplicação e disciplina desses profissionais, além do compartilhamento de vivências anteriores, para que, assim, possam aplicar e revisar os regulamentos e procedimentos necessários à consecução de um projeto aeronáutico. Considerando ainda que a vivência em projetos anteriores fortalece a capacitação dos mais novos, era preciso que, além da formação – que tem requisitos específicos para acesso por concurso público e treinamentos técnicos vinculados às áreas específicas de atuação –, fosse identificado e registrado o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes tão exigidos desses profissionais e que precisam ser preservados e disseminados para a manutenção do nível de excelência requerido. Com esse objetivo, suscitou-se a necessidade e a importância de se ter, junto ao plano de capacitação da SAR, a identificação dos conhecimentos pertinentes ao processo de Certificação de Tipo para a adoção de práticas de gestão do conhecimento, por intermédio de ações estruturadas, com o objetivo de compartilhar e preservar os conhecimentos críticos entre os servidores. Essa foi, inclusive, uma das motivações que sustentou o estabelecimento de parceria com instituição sem fins lucrativos, para que os conhecimentos dos mais experientes, que sempre trabalharam na certificação, pudessem ser transferidos para os recém-chegados na Gerência-Geral de Certificação de Produto Aeronáutico. O principal objetivo era prepará-los, em um curto espaço de tempo, para os desafios desta atividade tão complexa e tão importante para o nosso país. Vale destacar que esses conhecimentos não se encontram com facilidade no mercado, e foi preciso assegurar-se de que esses profissionais experientes, muito reconhecidos até hoje no universo da certificação, auxiliariam neste processo.
E deu certo! Tenho absoluta certeza de que esta foi uma das experiências mais exitosas na história da capacitação dos servidores da ANAC!
Em seguida, logo que o Dino Ishikura assumiu a Superintendência de Aeronavegabilidade (SAR), ele sempre buscou “plantar a ideia” e nos sensibilizar para a Gestão do Conhecimento (GC). O objetivo era nos fazer “sair da caixinha”, ou seja, sair de uma cultura voltada ao treinamento e à capacitação para uma cultura muito mais ampla e abrangente, a da Gestão do Conhecimento. Como sou uma pessoa apaixonada por “gente”, pelo “conhecimento” e pela “aviação”, quando a ficha realmente caiu, não teve mais volta! No início, éramos apenas três, os desbravadores da GC na ANAC: Dino, Nelson Nagamine e eu. Inclusive eu costumo nos chamar de “Os impossíveis”! Depois, outros servidores agregaram o time e, juntos, ninguém mais nos segurou! Iniciamos, então, o primeiro projeto-piloto, que tinha como objetivo mapear os conhecimentos críticos no processo de certificação de tipo (o histórico do primeiro projeto-piloto está disponível em: http://portal.crie.coppe.ufrj.br/arquivos/Cadernos_Crie_ANAC_2012.pdf). Considerandoo contexto da ANAC e o posicionamento da SAR, que enfatiza a Gestão com foco no Conhecimento como um dos fatores mais importantes da estratégia organizacional para suas atividades, identificou-se que seria necessário o desenvolvimento de iniciativas que pudessem contribuir para a consecução dos objetivos institucionais da Agência, em consonância com sua missão, visão, valores e planejamento estratégico. Nesta ótica, o projeto de Mapeamento dos Conhecimentos do processo de Certificação de Tipo de Aeronaves de aeronaves e a identificação de ações e práticas de gestão do conhecimento alinhadas às necessidades da SAR ofereceria à equipe de especialistas que atua nesse processo condições de transformar os conhecimentos dos processos, ativos intangíveis em sua essência, em maior produtividade e, consequentemente, auxiliar a melhoria do desempenho organizacional da Agência como um todo. O projeto da SAR foi apresentado em diversos eventos: III Encontro Nacional de Desenvolvimento de Pessoas, VII - Congresso de Gestão do Conhecimento na Esfera Pública – CONGEP, Simpósio SAE Brasil de Gestão do Conhecimento, Seminário IPEA – Casos Reais de Implantação do Modelo de GC para a Administração Pública Brasileira, 1º e 2º Colóquios Brasileiros de Gestão do Conhecimento, Capital Intelectual e Ativos Intangíveis, dentre outros. Outras instituições públicas também fizeram benchmarking conosco, como a Receita Federal e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Embarque Imediato - Quais são as atividades relacionadas ao projeto que estão sendo executadas atualmente?
Cleide Gomes - Após o encerramento do projeto, em junho de 2014, as ações e práticas de GC passaram a integrar os processos vinculados à Gerência Técnica de Gestão do Conhecimento de Aeronavegabilidade - GTGC, e são realizadas em parceria com as lideranças, servidores e Comitês de Conhecimento. Hoje temos diversas práticas em andamento, dentre elas: Mentoria, Lições Aprendidas, Trilhas de Aprendizagem, Melhores Práticas, Disseminação de Conhecimentos, Comunidades de Práticas, Coaching, entre outras. Implantar Gestão de Conhecimento é um grande desafio, um trabalho árduo que requer muita determinação, comprometimento e persistência, pois nem sempre os resultados são tão visíveis como todos gostariam. Além disso, é muito importante destacar que, dentre outros aspectos, os servidores devem ser sempre os verdadeiros responsáveis pelo sucesso desta iniciativa pioneira na Agência, pois foram e continuarão sendo os protagonistas desta história.

Embarque Imediato - De que forma as experiências obtidas ao longo da execução do projeto da SAR podem contribuir para o projeto da Agência, como um todo?
Cleide Gomes - Aprender com os erros e acertos é uma maneira efetiva de iniciar a implementação da GC, pois não é preciso “reinventar a roda”. Além disso, esses resultados poderão auxiliar a ANAC a construir uma “cultura do compartilhamento e de colaboração” que auxiliarão na implementação de práticas de GC. Importante também disseminar o conceito de que a GC não vem para substituir áreas, e sim para contribuir e integrar as áreas com intensa produção de conhecimento e possibilitar o alcance de resultados em curto prazo. A SAR sempre optou por trabalhar com voluntários, e deu muito certo, espero que a ANAC também siga neste caminho, pois faz toda a diferença: as pessoas estão lá porque querem estar. As experiências da SAR também poderão contribuir para a ANAC a criar e promover a cultura de valorização do conhecimento e do compartilhamento, a identificar e buscar suprir as lacunas de conhecimento existentes, auxiliar a ANAC a fazer melhor o que faz para o alcance dos objetivos estratégicos da Agência, de forma a obter melhores resultados, a estimular a inovação visando a aprimorar os processos de trabalho, identificar, capturar, codificar, disseminar e preservar o conhecimento, aumentar a capacidade de realização das pessoas, elevar o grau de estruturação da memória organizacional, e melhorar e padronizar processos. Ao estender a iniciativa para a Agência como um todo, importante a ANAC adotar a metodologia proposta no livro do Prof. Dr. Fabio Ferreira Batista, pois ela dará o norte que precisamos, e, com certeza, auxiliará a Agência a acertar desde o início, vale destacar que uma de suas principais premissas é alinhar a GC aos objetivos estratégicos da Agência, e ter foco em resultados, o que faz toda a diferença! Também poderão contribuir para que a ANAC possa preparar e formar as equipes para que a criação, compartilhamento, aplicação e preservação do conhecimento estejam no dia a dia de todos, de forma que possamos alcançar resultados ainda melhores, e prestar um serviço ainda melhor à sociedade. Já dizia Einsten, “a mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original”, desta forma, a GC hoje faz parte do nosso dia a dia, e deve ser entendida não como algo mais a ser feito, e sim uma forma diferente de fazer as coisas! Partindo do princípio que trabalhar coletivamente é uma das premissas da gestão do conhecimento, acredito que o time de GC da SAR poderá ajudar a ANAC a se tornar uma verdadeira organização de aprendizado, um lugar onde as pessoas poderão expandir as suas capacidades de criar, cocriar de forma a alcançar resultados extraordinários! Um dos meus sonhos é que a nossa ANAC seja uma instituição “fora da caixa”, em que a aprendizagem individual e organizacional e a inovação façam realmente parte do cotidiano das pessoas, e que elas possam colaborar umas com as outras, e compartilhar, sem medo de ser feliz! Uma agência em que as aspirações coletivas possam ser liberadas, um local onde as pessoas, que fazem com que a ANAC aconteça, estejam sempre aprendendo a aprender juntas, e também reaprendendo a aprender!

 

Texto retirado na íntegra de:

Embarque Informativo (NURAC/ANAC), Ano 1, n. 4, março e abril de 2015.