A importância da educação ambiental na gestão dos resíduos sólidos Imprimir

2012 . Ano 9 . Edição 74 - 31/10/2012

Maria Lúcia Barciott
Nilo Luiz Saccaro Junior

A aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em agosto de 2010 representou o início de uma época histórica para a área ambiental e de saneamento básico no Brasil. Com a introdução de novas formas de gestão e participação social, abriu-se espaço para oportunidades, desafios e metas inéditos. A implementação da PNRS e dos planos federal, estadual e municipal possibilita o estímulo a soluções inovadoras que, contando com o apoio e a participação dos vários segmentos sociais, farão diferença na qualidade de vida desta e das futuras gerações.

Nesse cenário, a Educação Ambiental (EA), quando aplicada ao tema resíduos sólidos, precisa abarcar formas distintas de comunicação e de relacionamento com os vários atores sociais, comunidades e população. Torna-se necessário estruturar diferentes olhares e níveis de abordagem envolvidos, de modo a caminhar na direção da elucidação das novas dúvidas e desafios.

Os setores educacionais, assim como os gestores públicos e técnicos governamentais, ainda não incorporaram, de forma plena, a seus objetivos, a importância do envolvimento diferenciado, efetivo e consistente da população no tratamento dos resíduos sólidos. Isso tem dificultado a implementação de estratégias, metodologias e novas linguagens e práticas de trabalho, bem como o investimento de recursos adequado.

Uma ampla gama de experiências tem investido grande parte de seus recursos humanos e financeiros em ações de EA restritas ao ambiente escolar, desconsiderando a população ou as comunidades diretamente envolvidas com os projetos ou programas diferenciados de coleta seletiva e/ou outros pertinentes aos temas objetos da PNRS (responsabilidade compartilhada, logística reversa, planos de gestão de resíduos, entre outros). Observa-se ainda que muitas iniciativas de EA envolvendo resíduos ficam, muitas vezes, limitadas à realização de oficinas com materiais recicláveis de baixo valor agregado (que continuam a ser descartáveis, isto é, lixo, após breve uso) ou exposições similares a partir da simples produção de objetos confeccionados com materiais descartáveis ou sucatas. Cuidados devem ser tomados também com projetos, muitas vezes questionáveis, envolvendo mutirões ou coleta de materiais recicláveis para revenda.

Ações como essas podem ocasionar equívocos, principalmente quando realizadas em comunidades escolares, inserindo a ideia de que a simples reutilização destes objetos resolve o problema do excesso de lixo ou ainda provocando o aumento/estímulo ao consumo de determinados produtos ou materiais coletados nos mutirões. Ainda nessa direção, ações de publicidade ou marketing de um produto ou material, mesmo que apresentadas de forma a favorecer a EA, podem induzir ao erro a população, assim como os próprios tomadores de decisão e educadores.

É necessário, portanto, evidenciar a importância do consumo responsável e da diminuição das inúmeras formas de desperdício percebidas na sociedade atual. Uma maior eficácia dos programas e projetos de EA passa pela discussão sobre o excesso de geração de produtos, além do descarte e destinação adequados. Para tanto é necessário, além da sensibilização aos programas de destinação do lixo, um entendimento mais amplo, sob os diferentes pontos de vista existentes, acerca do atual modelo de produção e consumo, suas consequências e os desafios futuros.

Nesse contexto, a discussão de temas globais ( como mudanças climáticas e pegada ecológica, entre outros), assim como questões locais e cotidianas como a qualidade de vida urbana, as escolhas de consumo, a cultura da descartabilidade e da obsolescência programada, relacionam-se diretamente à sensibilização, ao envolvimento e à mobilização dos atores na direção da participação e apoio às ações implementadas pela PNRS.

Se a educação é considerada como um processo de socialização do indivíduo, pode-se dizer que cada tempo da nossa história e cada contexto sociocultural, sugere ou mesmo impõe, novos temas que merecem ser discutidos, refletidos e praticados. A PNRS como exemplo de política pública sistêmica e integrada pode representar excelente avanço, estimulando profundas reflexões da sociedade brasileira sobre a cultura do desperdício e o atual padrão de produção e consumo. Pode também dizer muito da qualidade do ambiente urbano e o cuidado com os recursos naturais, tendo em vista a premente necessidade de sua valorização para o bem-estar humano.

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Maria Lúcia Barciotte é Bióloga e Doutora em Saúde Pública e Ambiental. Pesquisadora do NUPENS/USP. Foi bolsista do PNPD/Ipea.
Nilo Luiz Saccaro Junior é Técnico em Planejamento e Pesquisa da DIRUR – Ipea.

 

 
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