História - Bretton Woods Imprimir

2009 . Ano 6 . Edição 50 - 21/05/2009

Quarenta e quatro paises, inclusive o Brasil, participaram da reunião em New Hampshire (EUA): o mundo vivia a ressaca da crise de 1929,seguida da Segunda Guerra Mundial

Por Pedro Henrique Barreto, de Brasília

Recessão, escassez de crédito, produção em queda, reservas em risco em todo o mundo. Os sons disparados pelo alarme financeiro global nesse início de ano não são inéditos. A experiência anterior, a Grande Depressão de 1929, levou as principais potências a sentarem à mesa e rediscutirem a arquitetura financeira mundial. O encontro de Bretton Woods foi um marco que redesenhou o funcionamento do capitalismo. Hoje, mais uma vez, as principais nações se encontram para tentar ajustar os ventos da economia global. Conseguirá o G-20 desligar o alarme e trazer de volta o equilíbrio?

Em julho de 1944, o sistema financeiro internacional estava despedaçado. As maiores potências do mundo ainda estavam em guerra, mais preocupadas com avanços bélicos que econômicos. A Grande Depressão de 1929 resultou em diminuição drástica de produção, comércio e emprego e lançou toda a sorte de protecionismos: barreiras comerciais, controle de capitais, medidas de compensação cambial. A política que ficou conhecida como "beggar-thy-neighbor" (empobreça seu vizinho), disseminada nos anos 1930 e que primava pelo aumento de tarifas para reduzir déficits na balança de pagamento, era a cartilha dos governos.

Foi nessa atmosfera que 730 delegados de 44 países, o Brasil entre eles, encontraram-se na cidade de Bretton Woods, estado de New Hampshire, nos Estados Unidos, para a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas. O objetivo era urgente: reconstruir o capitalismo mundial, a partir de um sistema de regras que regulasse a política econômica internacional.

ESTABILIDADE O primeiro passo era garantir a estabilidade monetária das nações. O acordo de Bretton Woods definiu que cada país seria obrigado a manter a taxa de câmbio de sua moeda "congelada" ao dólar, com margem de manobra de cerca de 1%. A moeda norte-americana, por sua vez, estaria ligada ao valor do ouro em uma base fixa.

Além disso, foram criadas instituições multilaterais encarregadas de acompanhar esse novo sistema financeiro e garantir liquidez na economia: o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). "A tendência à concordância em Bretton Woods era muito forte, devido à magnitude das ameaças. Esse filme de cada um por si ninguém queria ver de novo", explica Renato Baumann, diretor do escritório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que faz parte da Organização das Nações Unidas (ONU), outra instituição que nasceu após Bretton Woods.

Esse sistema liberal, que primava pelo mercado e pelo livre fluxo de comércio e capitais, foi a base para o maior ciclo de crescimento da história do capitalismo. Com sua moeda regendo o mundo e supremacia nos setores industrial, tecnológico e militar, um país foi o grande vencedor: os Estados Unidos.

De 1944 para cá, muita coisa mudou. A hegemonia erguida e mantida pelos Estados Unidos a partir de Bretton Woods já não é a mais a mesma. A União Européia se fortaleceu e países antes nomeados como "emergentes", como Brasil, China e Índia, aceleraram seu ritmo de crescimento e adquiriram importância incontestável nas decisões que trilham a economia mundial.

É com esse novo arranjo geopolítico que o mundo começa a fazer frente a mais grave crise econômica desde a Grande Depressão. No início de abril, líderes dos 20 países mais desenvolvidos (G-20), que respondem por 90% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, se reuniram para coordenar uma reação conjunta à recessão. São eles: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Coréia do Sul, China, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia, Turquia e União Européia.

OPINIÕES DIVIDIDAS Os anúncios feitos em Londres, Inglaterra, sede do encontro, de injetar U$1,1 trilhão de dólares no FMI, fiscalizar com maior rigidez o mercado financeiro e nem se aproximar do termo "protecionismo", dividiram opiniões. O G-20 está no caminho certo para chegar a uma engenharia eficaz como a de Bretton Woods para salvar o capitalismo com rapidez e, principalmente, evitar que os países mais pobres do globo paguem a conta?

Para Simão Davi Silber, professor-doutor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), sim. "A própria reunião do G-20 é um reconhecimento de que não são sete ou oito países que vão trazer soluções", afirma. "Grupos técnicos têm estudado medidas para frear a recessão, o encontro de Londres significa um grande avanço". Ele lembra que uma das novidades de Bretton Woods é hoje um dos pilares para se enfrentar a crise: o socorro de instituições multilaterais.

Renato Baumann também aposta no significado diplomático da cúpula do G-20 para que o pós-crise se traduza em um equilíbrio definitivo de forças. "A discussão de Bretton Woods aconteceu mesmo entre as grandes potências, três ou quatro países. Hoje, o próprio governo americano fala em saídas negociadas entre todos. Países em desenvolvimento têm voz significativa na coordenação financeira mundial, daí o otimismo para as conseqüências desse novo quadro geopolítico". Um novo encontro do G-20, ainda sem data definida, deve acontecer nesse ano.

O fim do dólar? - Um dos pilares de Bretton Woods, a conversibilidade dólar-ouro foi posta abaixo pelo presidente norteamericano Richard Nixon, em 1971, diante da grande demanda mundial por ouro. Na medida que o capitalismo se desenvolvia, a moeda dos Estados Unidos tornou-se o dinheiro hegemônico nas reservas mundiais e a referência de todo o sistema financeiro mundial.

Hoje, com os efeitos da crise exigindo idéias e soluções, volta à tona um tema polêmico, defendido recentemente, inclusive, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva: pode alguma moeda substituir o dólar como padrão internacional? Na opinião de Renato Baumann, essa é uma perspectiva distante. "Não vejo possibilidades dessa mudança. Há que se ter confiança no emissor, toda a fortaleza do dólar não se altera da noite pro dia. O ideal seria termos uma moeda mundial, mas não estamos nem perto disso".

Simão Davi Silber concorda. "Essa é uma mudança que levaria décadas. É a grande moeda do mundo, não há medidas que alterem esse status. Porém, cerca de um quarto das operações financeiras mundiais já são em euro. Se somarmos ao yuan, à libra, ao franco, já temos um grande montante, que sinaliza que a influência do dólar já não é a mesma de tempos atrás".

O intelectual Franklin Leon Peres Serrano, doutor em Economia pela University of Cambridge (Inglaterra), explica o que a mudança significaria para as economias em desenvolvimento: ganho de competitividade. "Os Estados Unidos perdem competitividade quando o dólar se valoriza, mas não têm restrição externa e podem deixar seu déficit em conta corrente crescer. Como o dólar é o meio de pagamento internacional e a unidade de conta nos contratos e nos preços dos mercados internacionais, acaba por se tornar também a principal reserva de valor".

 
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