Capa - Depois da crise - Desafios faz uma retrospectiva, revendo os impactos, os canais de transmissão, e as consequências da turbulência que modificou, e ainda modifica, a economia global PDF Imprimir E-mail

2011 . Ano 8 . Edição 64 - 10/02/2011

Por Bruno De Vizi - de São Paulo

A maior crise do capitalismo moderno desde 1929 lançou dúvidas, questionou conceitos e promoveu mudanças no cenário econômico e político internacional. A Desafios do Desenvolvimento faz uma retrospectiva, revendo os impactos, os canais de transmissão, e as consequências da turbulência que modificou, e ainda modifica, a economia global.


No dia 15 de setembro de 2008 iniciava-se, simbolicamente, a segunda maior crise já enfrentada pelo capitalismo moderno, representada na falência do banco norteamericano Lehman Brothers. Sua origem visível foram problemas com créditos do mercado hipotecário norte-americano, chamados de subprime, concedidos fartamente a um público que não possuía recursos para quitar suas dívidas, e alimentando uma bolha especulativa cujo estouro abalou as finanças globais.

A velocidade da internet e das transações eletrônicas disseminou rapidamente pelo mundo os efeitos da crise, alastrada pelo capital financeiro, interconectado globalmente. Governos e suas equipes econômicas começaram a discutir o real impacto da crise para o mundo e para suas economias, enquanto bolsas de valores caíam vertiginosamente em diferentes regiões do planeta.

O Lehman Brothers era um dos principais bancos dos EUA, e se enquadrava em uma categoria de empresas e instituições financeiras consideradas, até então, muito grandes para quebrar. Não foi o que se viu, e a debacle que se seguiu a este evento mostrou que muitos conceitos econômicos seriam seriamente reconsiderados nos anos seguintes, e os reflexos da crise podem ser sentidos até hoje em praticamente todo o globo.

Não há consenso sobre o exato momento em que se inicia, de fato, o tremor financeiro. Alguns consideram que este começou já em 2004, outros vão mais além, apontando as políticas de financiamento de habitação da era Clinton (William Clinton, 1993-2001), no final década de 1990. Grandes bancos de presença global possuíam volumosos estoques deste tipo de ativo, sem lastro, cujos valores exatos não se sabia precisar corretamente, devido à interconexão entre agentes financeiros, bolsas, produtos e estoques de capital dos bancos. Estes títulos, muitas vezes empacotados em instrumentos financeiros complexos, chamados derivativos, ganharam o apelido de "toxic assets", ativos tóxicos em inglês, por sua capacidade de contaminar instituições e outros ativos que não estavam diretamente ligados a qualquer mercado imobiliário.

Assim, a crise estendia-se do mercado financeiro à economia real, afetando diretamente o setor industrial, de serviços, empregos, consumo e renda. "A economia mundial não é mais apenas de fluxos, mas de estoques. Há o fluxo da renda nova, e da produção, mas também uma economia de estoques, sobretudo os estoques financeiros. A crise que se seguiu à quebra do Lehman Brothers é uma crise de estoque de ativos, que se desvalorizaram. Algo como US$ 35 trilhões se desvalorizaram só nas bolsas", lembra Marcos Cintra, diretor-adjunto da Dinte (diretoria e relações econômicas e políticas internacionais) do Ipea. Ele destaca que essa macroeconomia dos ativos financeiros funciona "como uma espécie de grande sanfona mundial, que infla e desinfla, interligando todas as bolsas mundiais. O mundo está conectado". Bancos e instituições não bancárias interagiram nos mercados de derivativos de balcão, em especial nos mercados de derivativos de crédito. (ver tabela 1). Em julho de 2008 o volume total de derivativos de balcão somava US$ 684 trilhões.

ECOS DA CRISE Os impactos que a crise teve em cada país dependeram da exposição dos bancos a estes ativos tóxicos, da robustez do sistema financeiro de cada nação para suportar os efeitos iniciais, e das medidas adotaras por cada governo para responder aos desafios colocados pela turbulência financeira que se seguiu à quebra do banco norte-americano. Diferente das crises antecessoras, esta se concentrou, desde o primeiro momento, nos países centrais do capitalismo, com sistemas bancários mais comprometidos com os ativos tóxicos, cujos valores se erodiam em velocidade recorde. Mas a crise não se restringiu apenas a bancos americanos e europeus, alcançando também instituições não bancárias - fundos de investimento, hedge funds, private equities funds, instituições especializadas em hipotecas.

Bancos ícones do capitalismo moderno, especialmente dos EUA, foram negociados, reduzidos, ou tiveram que receber recursos do governo para manterem-se de pé. Instituições como Merril Lynch, Freddie Mac, Fannie Mae perderam espaço, importância e crédito, forçando o governo norte-americano a intervir com compra de parte dos ativos problemáticos, com o TARP (Troubled Asset Releif Program, ou programa de alívio para ativos problemáticos, em tradução livre). Aprovado ainda no governo de George W. Bush, em 3 de outubro de 2008, inicialmente o programa tinha previsão de custar US$ 356 bilhões, mas as estimativas mais recentes dão conta de algo próximo a US$ 30 bilhões.

Entretanto, a compra de ativos tóxicos não foi a única medida adotada pelo governo dos EUA. No final de 2010 o congresso norteamericano solicitou ao Federal Reserve, banco central do país, que discriminasse os recipientes de 21 mil transações do Term Auction Facility, programa para auxiliar instituições financeiras em dificuldade, nos EUA e fora do país, em ajuda cujo valor total soma US$ 3,3 trilhões.

NO BRASIL As primeiras previsões sobre os impactos da crise no Brasil, um tanto catastróficas, não se confirmaram. Houve inicialmente uma disparada do dólar, que saltou rapidamente para R$ 2,50, após ser comercializado nos meses anteriores à crise em patamar próximo a R$ 1,60, e com pouca volatilidade. Apesar de efeitos mais imediatos no câmbio, na concessão de crédito, e no comércio exterior, no plano macroeconômico a recessão durou apenas dois trimestres, com retração da atividade econômica no último quartil de 2008 e nos três primeiros meses do ano seguinte, com o país encerrando 2009 com taxa de crescimento próxima de zero (-0,2%).

A taxa de desocupação, depois de alcançar 9% da população economicamente ativa (PEA) em março de 2009, recuou para 7,4% em novembro de 2009, e em outubro de 2010 alcançou 6,1%, o nível mais baixo de toda a série histórica medida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Três grupos de canais de transmissão da crise financeira internacional para a economia brasileira são apontados pela assessora da Dimac, Denise Gentil, e pelo técnico em planejamento e pesquisa do Ipea, Victor de Araújo, no artigo Avanços, recuos, acertos e erros: uma análise da resposta da política econômica brasileira à crise financeira internacional.

O primeiro atuou sobre as contas externas: "a desaceleração econômica mundial aliada à queda dos preços internacionais das commodities agro-minerais atuaria sobre a balança comercial, reduzindo preço e quantum exportados. A contração da liquidez internacional, por sua vez, levaria empresas e especuladores a repatriar seus lucros para as matrizes, deteriorando ainda mais o já combalido déficit da conta de serviços e rendas, por um lado, e provocando, por outro, fuga de capitais pela conta financeira" cita o documento.

O segundo canal de transmissão foi o sistema financeiro, que no caso brasileiro atuou de forma distinta quando comparada aos países do centro capitalista. "Se por um lado os grandes bancos [brasileiros] não se envolveram com ativos de alto risco como os subprime, dada a existência de alternativa mais segura e rentável oferecida pelos títulos públicos, por outro os bancos de menor porte, com menor estrutura de captação de recursos no mercado de varejo, adotavam estratégias mais arriscadas, captando recursos via emissão de CDBs (Crédito de Depósitos Bancários) e vinculando-os a contratos de derivativos cambiais" citam os pesquisadores no texto, destacando como consequência o aumento da aversão ao risco e a preferência pela liquidez no sistema bancário nacional. "A contração do crédito atingiria empresas e consumidores, provocando redução da demanda agregada e desaceleração econômica".

Por fim, Denise e Araujo apontam as expectativas como o terceiro canal de transmissão da crise. "A deterioração [das expectativas] tenderia a reforçar, por parte dos bancos, a aversão ao risco e a contração do crédito, e levaria empresas e famílias a adiar decisões de investimento e consumo, com previsíveis efeitos de desaceleração da atividade econômica", destaca o estudo.

Os impactos da crise no país também responderam a um fator psicológico, de temor pelo sistema financeiro nacional. "Após a falência do Lehman Brothers, apesar de os bancos brasileiros deterem pequena participação no mercado de securitização americano, aumentou em muito a desconfiança sobre a higidez do sistema financeiro. Essa desconfiança é explicada pelos mecanismos psicológicos de contágio da crise internacional e pela revelação da deterioração patrimonial de empresas exportadoras que haviam vendido derivativos de câmbio para apostar na valorização do real", cita o artigo O Brasil na crise mundial de 2008 e as possibilidades de um imposto sobre transações financeiras internacionais, de autoria de André Calixtre, Dante Chianamea, e Marcos Cintra, e que integra o livro Globalização para todos, lançado pelo Ipea em 2010.

VOLTA AO NORMAL Parte das perdas com a crise já foi absorvida pela economia global. Se por um lado ainda há países sentido reflexos da crise (a Irlanda recentemente engrossou o grupo de países desenvolvidos que solicitou auxílio ao FMI para manter-se solvente), por outro o mercado de capitais parece ter esquecido a queda abrupta, estimulando o sentimento de "volta à normalidade".

A principal bolsa de valores brasileira, a BM&FBovespa, que no auge da crise chegou a interromper por duas vezes o pregão para conter perdas excessivas, já retomou os níveis pré-crise, em alguns casos com o Ibovespa superando os 70 mil pontos.

Para efeito de comparação, quando foi acionado o "circuit breaker" (mecanismo que interrompe por 30 minutos todas as negociações quando o Ibovespa atinge um limite de baixa de 10% em relação ao índice de fechamento do dia anterior), em 29 de setembro de 2008, o índice estava a 45 mil pontos.

Cintra lembra que dos US$ 35 trilhões que se desvalorizaram nas bolsas globais, cerca de US$ 20 trilhões já retornaram ao sistema. "Os ativos financeiros claramente já voltaram a se valorizar, assim como as bolsas de valores, commodities, preço do petróleo".

A volta ao normal também se deu em setores da economia real. Dados da Confederação Nacional da Indústria apontam que em julho de 2009 o Brasil já havia recuperado metade dos quase 800 mil empregos perdidos nos primeiros meses da crise, e um ano depois a totalidade dos empregos foi recuperada. A partir de então o saldo entre vagas abertas e fechadas no país começou a ficar fortemente positivo, encerrando o ano de 2010 com a criação de mais de 2,5 milhões de empregos formais.

Após perdas iniciais no comércio exterior, com diminuição das exportações e do saldo comercial, a balança comercial brasileira fechou 2010 com superávit de US$ 20,1 bilhões e as exportações brasileiras no ano passado somaram o recorde de US$ 201,9 bilhões, segundo dados do ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

RETROVISOR Diante de um evento com implicações em quase todos os países do mundo, o Ipea não se absteve de discutir, avaliar, debater e apontar caminhos e desafios a serem superados. O instituto produziu diversos estudos, planos, artigos, avaliações, livros, palestras e apresentações abordando diferentes aspectos da crise e seus efeitos, que ultrapassam em muito o campo estritamente econômico e financeiro. O assunto foi extensamente trabalhado, analisado e discutido, seja como tema principal de várias publicações do instituto, seja como tema transversal.

Produzidas no calor dos acontecimentos, as publicações do instituto refletem as diferentes fases e formas de contágio da crise financeira internacional no Brasil, bem como os desafios e oportunidades que eram postos diariamente ao país, ao governo, e aos pesquisadores. Uma destas foi o livro Respostas progressistas à crise, produzido para a Conferência de Governança Progressista, realizada no Chile em março de 2009, reuniu a contribuição de 40 profissionais de áreas diversas, diferentes nacionalidades, e de distintas linhas de pensamento. No prefácio, o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, já destacava uma das mais imediatas consequências da crise: a promoção do debate. "O momento é auspicioso. Para além de posições ideológicas, quase todos hoje concordam que é preciso mudar. Um novo paradigma civilizatório é possível, um modelo em que Estado e mercado estejam a serviço das pessoas, e não o contrário".

Nove meses após a eclosão da crise, o instituto publicou o livro Impacto da crise sobre as mulheres que abordou os efeitos que o tremor financeiro poderia então causar, e dos que já tinha causado, em especial no mercado de trabalho brasileiro. No estudo é discutida a relação entre crise e gênero, com dados sobre a estrutura do mercado de trabalho feminino, trazendo alguns dos primeiros reflexos da crise no acompanhamento conjuntural de indicadores de emprego.

Mais recentemente, já em 2010, foi publicado o livro: Marcos Regulatórios no Brasil: Revendo o Papel do Estado após a Crise Financeira. O quinto volume da série Marcos Regulatórios no Brasil reúne estudos de especialistas nacionais e estrangeiros, que trataram especificamente dos temas Regulação Financeira, Governança de Estatais, o Papel dos Bancos Públicos, Análise de Impacto Regulatório e Análise da Eficácia da Política de Defesa da Concorrência. Parte do debate surge da dimensão da crise, que "criou um sentido de urgência sobre a necessidade de 'mais regulação', em um mercado até então convencido das virtudes do laissez-faire", cita a introdução da obra.

Mas não só os livros do Ipea abordaram o tema. Publicações como a revista Tempo do mundo, lançada em dezembro de 2009, trataram diretamente do assunto, trazendo opiniões e estudos de pesquisadores estrangeiros sobre o impacto da crise em seus países, como os artigos Globalização financeira e perspectivas pós-crise, de Robert Guttman, da universidade de Hofstra, nos Estados Unidos, ou o artigo Crise ou oportunidade: resposta da China à crise financeira global, de Cai Fang, Du Yang e Wang Meiyan, da Academia Chinesa de Ciências Sociais. O tema também fez-se presente no Boletim de economia e política internacional, editado pela diretoria de estudos internacionais do Ipea, em artigos como Crise internacional: medidas de políticas de países selecionados, que faz um comparativo entre as medidas de políticas e instrumentos financeiros adotados por alguns países em resposta ao tremor financeiro.

RUMOS Passados mais de dois anos do início simbólico da crise, o mundo, e principalmente o Brasil, passam a vivenciar uma nova fase, de recuperação do crescimento, com maior distribuição de poder e de renda ao redor do globo. Os efeitos da primeira onda do "terremoto financeiro" parecem já ter sido absorvidos, ao menos em parte, pelas economias ao redor do globo, mas a possibilidade de haver uma nova onda de turbulência e recessão econômica não pode ser descartada com segurança. Países como Grécia e Islândia, que pediram auxílio ao Fundo Monetário Internacional para manterem de pé suas economias, ou Irlanda, que receberá um empréstimo de 67,5 bilhões de euros com o mesmo fim, mostram que a crise ainda está bem viva, e ainda mantém seu potencial de causar recessão e insegurança econômica global.

Por este motivo é válida uma visão em retrospectiva para o evento mais significativo dos últimos anos para a economia mundial. Os estudos, análises, livros e textos que o Ipea produziu (e produz) sobre o tema possibilitam reconsiderar as expectativas e medidas tomadas contra a crise, bem como seus efeitos na economia brasileira e global. As publicações também auxiliam a previsão de rumos, e propõem caminhos para que o Brasil possa enfrentar eventuais rescaldos, ou novas ondas recessivas na economia global. A partir destas publicações é possível fazer uma releitura em perspectiva, avaliando os caminhos da crise, quais seus principais efeitos, e como eles foram superados pelo Brasil, que, definitivamente, saiu da crise maior do que entrou.

 
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