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Matriz de novos empreendedores
A Fundação Certi, de Florianópolis, atingiu a maioridade aos 21 anos e funcionou como articuladora de empresários, cientistas e poder público para gerar uma das melhores experiências brasileiras de fomento ao empreendedorismo e de estímulo à inovação em tecnologia e negócios
Ottoni Fernandes Jr
A empresa de desenvolvimento de software Agriness Gerenciamento de Agroempresas
está abrigada na incubadora Celta, de Florianópolis. Apesar de criada
em 2001, é muito conhecida entre os granjeiros catarinenses do setor de
suinocultura porque desenvolveu um software que ajuda a controlar e a
aumentar a produtividade de suas granjas, do nascimento ao abate dos animais.
A pequena empresa está abrigada na incubadora Celta desde outubro de 2001,
mas revela ousadia, pois pretende conseguir metade de seu faturamento
no exterior em 2007. A empresa já tem clientes na Argentina, Bolívia,
Uruguai e Paraguai, Portugal e França e não fará esse roteiro internacional
desacompanhada, pois a empresa francesa de genética suína Pen Ar Lan atuará
como parceira e cicerone. É uma das líderes européias no fornecimento
de animais de alto desempenho para os suinocultores. Seus dirigentes brasileiros
conheceram o software da Agriness por meio de granjeiros que usam o produto.
Foi o famoso boca a boca. "Traduzimos nosso software para o francês porque
a Pen Ar Lan quer oferecê-lo na França", conta Everton Gubert, sócio e
fundador da Agriness, antiga Anitec. E a empresa francesa já está produzindo
uma versão em polonês, interessada nesse mercado em que a suinocultura
moderna está em expansão depois da integração do país à União Européia. Também não é novidade para Gubert e seus sócios fazer parceria com grandes
empresas. Em janeiro de 2004 fecharam um acordo com a Sadia para instalar
o Anitec S2, de gerenciamento da produção em 300 granjas de produtores
de carne suína associados até o final de 2006. A implantação já foi feita
em 180 granjas e existe a possibilidade de estender o projeto para os
outros 700 fornecedores da Sadia. Outra grande produtora de alimentos
de origem animal, a Seara já instalou o Anitec S2 em 138 de suas 600 granjas.
Essas alianças alavancaram o faturamento da empresa, que deve chegar a
1,5 milhão de reais em 2005. Parece pouco, mas será o triplo do que venderam
no ano passado. Os planos para 2006 já estão desenhados e será marcado
pelo ingresso no mercado internacional, avisa Gubert. A trajetória da Agriness é um bom exemplo das sinergias construídas
pela Fundação Certi, que envolveu universidade, empresas, entidades de
classes e entidades governamentais. E comprova que vale a pena conhecer
de perto a realidade dos clientes. Gubert se formou em Ciência da Computação
na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1999 e começou a desenvolver
projetos de informática para empresas de conhecidos. "Acabaram os amigos
e eu não tinha um produto de prateleira. Tive meu primeiro contato com
um suinocultor quando fui visitar minha cidade natal, Xanxerê, no oeste
catarinense, onde fui procurar oportunidades de negócio." E ele achou.
Ao visitar uma granja conheceu um software norte-americano, o Pigchamp,
que não tinha interface gráfica e rodava no sistema operacional DOS. Percebeu
que o programa era voltado para as necessidades do veterinário, e não
do granjeiro. Também detectou o potencial de mercado, pois Santa Catarina
é o maior produtor de carne suína do Brasil, com 45% do total. O caminho para o sucesso exigiu muita dedicação de Gubert e de seus
sócios. Em primeiro lugar, era preciso conhecer o processo de produção
dos suinocultores e a realidade dos diversos tipos de granjeiros, quase
sempre pequenos produtores. "Passei 54 dias na propriedade de um granjeiro
amigo, dormi no chão do escritório, mas fiz uma pós-graduação em suinocultura."
Gubert também percebeu que não seria tarefa fácil desenvolver o software,
que rodaria com o sistema operacional Windows. Foi preciso encontrar um
sócio, que ficou com metade dos direitos autorais e custeou o desenvolvimento
e o lançamento do software SuinoSys, de gerenciamento de granjas suínas,
em abril de 2001. Na ocasião, ainda não tinham uma empresa, e todo o desenvolvimento
foi feito num quarto do apartamento da mãe de Gubert. Registraram a companhia
e decidiram disputar uma vaga na incubadora Celta. "Tivemos de fazer um
plano de negócios e fomos aceitos em outubro de 2001", narra Gubert. Daqui a pouco a Agriness vai ter de pensar em nova pousada, pois o espaço
de 120 metros quadrados que agora utiliza na incubadora Celta começa a
ficar pequeno para sua equipe de 15 pessoas, que inclui Gubert e seus
quatro sócios. Além disso, o Celta estimula que as empresas saiam da incubadora
depois de quatro anos como "hóspede", período que vence neste mês. Pouca gente sabe, mas a Suntech, empresa que foi criada na incubadora
Celta, de Florianópolis, está ganhando dinheiro com a corrupção, ou melhor,
com a luta contra a corrupção e contra o crime em geral. Ela desenvolveu
um software para gestão das interceptações legais de ligações feitas de
telefones móveis celulares que é líder no mercado brasileiro, utilizado
por 90% das operadoras que adotaram a tecnologia GSM, como Claro, Oi e
Tim. É outro bom exemplo de como o conhecimento da necessidade do mercado
e a capacidade de inovar tecnologicamente empurram empreendedores para
o pódio do sucesso empresarial.
Pronto, já tinham uma sede de 30 metros quadrados, acesso rápido para
a Internet, telefones, luz, água, serviço de limpeza. Além de infra-estrutura,
recorda Gubert, receberam treinamento em gestão de negócios, vendas, recursos
humanos e controle de qualidade, pois o Celta tem uma parceria com o Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de Santa Catarina.
O Celta também ajudou Gubert e seus sócios a conseguir, em maio de 2003,
um financiamento, a fundo perdido, de 189 mil reais com a Financiadora
de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia,
o que lhes deu fôlego para lançar em maio de 2003 o Anitec S2, versão
mais avançada do pioneiro SuinoSis.

