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Edição 15
Janeiro/2005

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Matriz de novos empreendedores
A Fundação Certi, de Florianópolis, atingiu a maioridade aos 21 anos e funcionou como articuladora de empresários, cientistas e poder público para gerar uma das melhores experiências brasileiras de fomento ao empreendedorismo e de estímulo à inovação em tecnologia e negócios

Ottoni Fernandes Jr

A empresa de desenvolvimento de software Agriness Gerenciamento de Agroempresas está abrigada na incubadora Celta, de Florianópolis. Apesar de criada em 2001, é muito conhecida entre os granjeiros catarinenses do setor de suinocultura porque desenvolveu um software que ajuda a controlar e a aumentar a produtividade de suas granjas, do nascimento ao abate dos animais. A pequena empresa está abrigada na incubadora Celta desde outubro de 2001, mas revela ousadia, pois pretende conseguir metade de seu faturamento no exterior em 2007. A empresa já tem clientes na Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai, Portugal e França e não fará esse roteiro internacional desacompanhada, pois a empresa francesa de genética suína Pen Ar Lan atuará como parceira e cicerone. É uma das líderes européias no fornecimento de animais de alto desempenho para os suinocultores. Seus dirigentes brasileiros conheceram o software da Agriness por meio de granjeiros que usam o produto. Foi o famoso boca a boca. "Traduzimos nosso software para o francês porque a Pen Ar Lan quer oferecê-lo na França", conta Everton Gubert, sócio e fundador da Agriness, antiga Anitec. E a empresa francesa já está produzindo uma versão em polonês, interessada nesse mercado em que a suinocultura moderna está em expansão depois da integração do país à União Européia.

Também não é novidade para Gubert e seus sócios fazer parceria com grandes empresas. Em janeiro de 2004 fecharam um acordo com a Sadia para instalar o Anitec S2, de gerenciamento da produção em 300 granjas de produtores de carne suína associados até o final de 2006. A implantação já foi feita em 180 granjas e existe a possibilidade de estender o projeto para os outros 700 fornecedores da Sadia. Outra grande produtora de alimentos de origem animal, a Seara já instalou o Anitec S2 em 138 de suas 600 granjas. Essas alianças alavancaram o faturamento da empresa, que deve chegar a 1,5 milhão de reais em 2005. Parece pouco, mas será o triplo do que venderam no ano passado. Os planos para 2006 já estão desenhados e será marcado pelo ingresso no mercado internacional, avisa Gubert.

A trajetória da Agriness é um bom exemplo das sinergias construídas pela Fundação Certi, que envolveu universidade, empresas, entidades de classes e entidades governamentais. E comprova que vale a pena conhecer de perto a realidade dos clientes. Gubert se formou em Ciência da Computação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1999 e começou a desenvolver projetos de informática para empresas de conhecidos. "Acabaram os amigos e eu não tinha um produto de prateleira. Tive meu primeiro contato com um suinocultor quando fui visitar minha cidade natal, Xanxerê, no oeste catarinense, onde fui procurar oportunidades de negócio." E ele achou. Ao visitar uma granja conheceu um software norte-americano, o Pigchamp, que não tinha interface gráfica e rodava no sistema operacional DOS. Percebeu que o programa era voltado para as necessidades do veterinário, e não do granjeiro. Também detectou o potencial de mercado, pois Santa Catarina é o maior produtor de carne suína do Brasil, com 45% do total.

O caminho para o sucesso exigiu muita dedicação de Gubert e de seus sócios. Em primeiro lugar, era preciso conhecer o processo de produção dos suinocultores e a realidade dos diversos tipos de granjeiros, quase sempre pequenos produtores. "Passei 54 dias na propriedade de um granjeiro amigo, dormi no chão do escritório, mas fiz uma pós-graduação em suinocultura." Gubert também percebeu que não seria tarefa fácil desenvolver o software, que rodaria com o sistema operacional Windows. Foi preciso encontrar um sócio, que ficou com metade dos direitos autorais e custeou o desenvolvimento e o lançamento do software SuinoSys, de gerenciamento de granjas suínas, em abril de 2001. Na ocasião, ainda não tinham uma empresa, e todo o desenvolvimento foi feito num quarto do apartamento da mãe de Gubert. Registraram a companhia e decidiram disputar uma vaga na incubadora Celta. "Tivemos de fazer um plano de negócios e fomos aceitos em outubro de 2001", narra Gubert.
Pronto, já tinham uma sede de 30 metros quadrados, acesso rápido para a Internet, telefones, luz, água, serviço de limpeza. Além de infra-estrutura, recorda Gubert, receberam treinamento em gestão de negócios, vendas, recursos humanos e controle de qualidade, pois o Celta tem uma parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de Santa Catarina. O Celta também ajudou Gubert e seus sócios a conseguir, em maio de 2003, um financiamento, a fundo perdido, de 189 mil reais com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia, o que lhes deu fôlego para lançar em maio de 2003 o Anitec S2, versão mais avançada do pioneiro SuinoSis.

Daqui a pouco a Agriness vai ter de pensar em nova pousada, pois o espaço de 120 metros quadrados que agora utiliza na incubadora Celta começa a ficar pequeno para sua equipe de 15 pessoas, que inclui Gubert e seus quatro sócios. Além disso, o Celta estimula que as empresas saiam da incubadora depois de quatro anos como "hóspede", período que vence neste mês.

Pouca gente sabe, mas a Suntech, empresa que foi criada na incubadora Celta, de Florianópolis, está ganhando dinheiro com a corrupção, ou melhor, com a luta contra a corrupção e contra o crime em geral. Ela desenvolveu um software para gestão das interceptações legais de ligações feitas de telefones móveis celulares que é líder no mercado brasileiro, utilizado por 90% das operadoras que adotaram a tecnologia GSM, como Claro, Oi e Tim. É outro bom exemplo de como o conhecimento da necessidade do mercado e a capacidade de inovar tecnologicamente empurram empreendedores para o pódio do sucesso empresarial.

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