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Visão Geral de Conjuntura

Carta de Conjuntura nº 35

Por José Ronaldo de Castro Souza Júnior, Paulo Mansur Levy e Marco Antônio F. de H. Cavalcanti

A inflação, a economia internacional e as contas externas seguem em trajetórias benignas que ajudam a melhorar o ambiente macroeconômico brasileiro. O fator que claramente inibe uma retomada cíclica mais vigorosa é o problema fiscal. É evidente que a situação crítica das contas públicas não tem como ser resolvida com medidas tradicionais de ajuste de curto prazo, mas é necessário que se vislumbre a factibilidade do ajuste de longo prazo proposto pelo governo. Por isso, a mudança recente do quadro político afeta diretamente o nível de incerteza em relação às projeções macroeconômicas. Na Carta de Conjuntura anterior, trabalhamos com projeções condicionais a um cenário de aprovação mais rápida das reformas estruturais, em especial da reforma da previdência. A agilidade na realização das reformas vislumbrada na edição anterior desta publicação tornou-se, porém, menos provável. Isso implica mudanças importantes em nossas projeções, que, agora, estão condicionadas a um cenário com incerteza mais elevada e, por conseguinte, com maior risco país e com o câmbio em trajetória oposta. Esse aumento da incerteza tem impactos negativos sobre a retomada da economia, com destaque para o comportamento esperado dos investimentos. Como é comum ocorrer em períodos de retomadas cíclicas, esperava-se que os investimentos fossem um dos principais drivers para o crescimento da demanda. Porém, esse componente do PIB é muito sensível ao nível de confiança sobre o desempenho futuro da economia. Como estamos trabalhando nesta edição com um quadro de incerteza mais elevada, nossas projeções passaram a apontar para variações mais modestas para o investimento – que ainda ficariam no terreno negativo neste ano e apresentariam um crescimento mais moderado no ano que vem.

Os dados mensais mais recentes – analisados detalhadamente na seção de Atividade Econômica desta Carta de Conjuntura – corroboram este cenário de retomada mais lenta do crescimento. Mais especificamente, os dados de confiança de junho da FGV já refletem esse aumento da incerteza.

As novas projeções também incorporam os dados mais recentes de atividade econômica, inclusive as Contas Nacionais Trimestrais referentes ao primeiro trimestre de 2017, que não estavam disponíveis quando da elaboração de nossas últimas projeções. Apesar do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ter surpreendido positivamente no primeiro trimestre, este aumento deveu-se fundamentalmente ao avanço do setor agropecuário, ao passo que a recuperação da indústria e dos serviços revelou-se mais lenta do que previsto anteriormente – com repercussões negativas para o crescimento ao longo do ano.

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Atividade Econômica: desempenho do PIB

Carta de Conjuntura nº 35

Por Leonardo Mello de Carvalho

De acordo com os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) interrompeu uma sequência de oito trimestres de retração, avançando 1% na comparação entre o último trimestre do ano passado e o primeiro de 2017. Embora ainda seja prematuro afiançar que a recessão já tenha chegado ao fim, este resultado corrobora a visão de que o pior da crise já passou e que a economia caminha para uma trajetória de recuperação gradual. A melhora nos fundamentos macroeconômicos, traduzida em um cenário com inflação controlada e estoques ajustados, segue permitindo a flexibilização da política monetária, contribuindo para a melhora nos níveis de confiança dos agentes.

 Embora positivos, os resultados refletem um cenário ainda frágil, afetado negativamente pelas adversidades presentes no mercado de trabalho e, mais recentemente, pelo aumento de incerteza política. Corroborando este diagnóstico, o bom desempenho do PIB nos primeiros três meses de 2017 não foi observado em nenhum de seus principais componentes pelo lado da demanda. Todo o crescimento da produção, advindo do ótimo desempenho da agropecuária e de um início de recuperação da indústria, transformou-se em acúmulo de estoques e exportações. Um fator determinante para o desempenho esperado para os próximos trimestres continua sendo que a aprovação de reformas constitucionais melhore o ambiente macroeconômico.

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Atividade Econômica

Carta de Conjuntura nº 33

 Por Leonardo Mello de Carvalho

Embora o quadro recessivo tenha sofrido um arrefecimento ao longo do primeiro semestre de 2016, o desempenho recente dos indicadores de atividade econômica apontam para um cenário ainda marcado pela instabilidade. Conforme foi destacado em edições anteriores da Carta de Conjuntura, algumas atividades industriais haviam apresentado melhora no decorrer dos primeiros seis meses do ano, notadamente àquelas mais voltadas para o comércio exterior. No entanto, a trajetória recente da produção industrial se deteriorou, revertendo grande parte do ganho acumulado no primeiro semestre. Nos próximos meses, o desempenho da produção industrial deverá permanecer instável. Os indicadores coincidentes já disponíveis apontam para uma melhora em novembro, traduzida numa estimativa de 1,7% de crescimento sobre o período anterior de acordo com o Indicador Ipea de Produção Industrial (prévia do indicador de produção industrial mensal do IBGE – PIM-PF). Além disso, também como reflexo da recessão, a demanda interna por bens segue caindo num ritmo acima daquele observado na produção doméstica medida pela PIM-PF.  É o que mostram os resultados do indicador Ipea de consumo aparente de bens industriais (detalhados nesta seção).

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Atividade Econômica

Carta de Conjuntura nº 32

 Por Leonardo Mello de Carvalho

O ciclo recessivo que atinge a economia brasileira desde o segundo trimestre de 2014 ainda persiste. Apesar disso, a trajetória recente dos indicadores de atividade econômica sugere que o pior momento da crise já foi superado. De um modo geral, é possível verificar uma desaceleração no ritmo de queda, enquanto alguns setores já apresentam desempenho positivo em 2016, como é o caso da produção industrial e dos investimentos. Porém, com base nas informações referentes aos primeiros meses do terceiro trimestre, ainda não é possível antecipar o final da crise, mas a economia segue caminhando para a estabilização. Essa melhora no cenário econômico tem se refletido na recuperação dos indicadores de confiança, embora a situação ainda frágil do mercado de trabalho aponte para um processo bastante gradual.

 Em relação às perspectivas para o terceiro trimestre, o Indicador Ipea de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) aponta um recuo nos investimentos de 10% entre os meses de junho e julho de 2016, na comparação com ajuste sazonal. Essa queda prevista devolveria parte do crescimento verificado em junho (12,3%), mas não altera a percepção de melhora no cenário relativo aos investimentos. Olhando para o índice da média móvel trimestral, que possibilita uma análise mais estável, os investimentos contraíram 0,5% no mês de julho, resultado que sucedeu uma expansão de 4% no período anterior. Já o Indicador Ipea de Produção Industrial estima um recuo de 2,1% em agosto, frente o mês anterior, na série dessazonalizada. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, a queda teria sido de 3,8%.

 Os dados referentes ao desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2016, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ao final de agosto, revelam uma economia ainda em recessão. A queda de 0,6% na comparação com o primeiro trimestre, já descontados os efeitos sazonais, representou a sexta variação negativa consecutiva nesta base de comparação. Este resultado deixa um carregamento estatístico (carry-over) de -3,1% para 2016, ou seja, caso apresente variação nula nos dois próximos trimestres, o PIB apresentará, ao final do ano, queda de 3,1% na comparação com 2015. Embora o fim do ciclo recessivo ainda não tenha sido registrado nesses dados do segundo trimestre, há diversos elementos que indicam que o pior da crise já passou. Apesar do recuo do PIB no segundo trimestre, o ritmo de queda nos dois primeiros trimestres de 2016, em termos anualizados, ficou em -2%, bastante inferior àquele apresentado ao longo de 2015, quando o PIB caiu a uma taxa média anual de -5,9%.

Conforme apontado na última edição da Carta de Conjuntura, os indícios de estabilização do nível de atividade econômica têm se mostrado mais acentuados nos setores ligados à produção industrial. Se, num primeiro momento, essa melhora estava concentrada nos setores onde a atividade exportadora possui papel relevante, já é possível notar uma maior disseminação do crescimento. Após cinco resultados negativos em sequência, o setor industrial voltou a crescer, registrando alta de 0,3% no segundo trimestre. Além do impulso vindo do comércio exterior, os demais setores que compõem a indústria de transformação vêm sendo positivamente afetados por outros fatores, como, por exemplo, a evolução do ajuste de estoques e um ainda modesto processo de substituição de importações. Refletindo esse início de recuperação, os indicadores de confiança dos empresários e das famílias seguem melhorando, com destaque também para o setor industrial. Além disso, os preços dos ativos também têm apresentado bom desempenho recente, fato que normalmente antecipa a melhora na atividade econômica.

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Atividade Econômica

Carta de Conjuntura nº 31

 Por Leonardo Mello de Carvalho

Não obstante o quadro geral relativo à atividade econômica continuar sendo caracterizado pelo ciclo recessivo iniciado no segundo trimestre de 2014, já há indícios de que o início da recuperação pode estar mais próximo. Se, por um lado, o elevado grau de disseminação e intensidade da queda da atividade econômica lhe confere um caráter resiliente, por outro o desempenho recente de alguns indicadores sugere que a crise começa a perder fôlego. Dentro deste contexto, os primeiros sinais deste possível início de recuperação cíclica têm se concentrado na indústria.

Como já fora citado na edição anterior da Carta de Conjuntura, o ajuste proveniente do setor externo começa a gerar efeitos positivos, notadamente nos setores industriais mais voltados para o comércio exterior. Além disso, a contração da demanda doméstica segue provocando um forte ajuste de estoques, o que pode representar mais uma fonte de estímulo para a recuperação da produção. Talvez como consequência dessa melhora no cenário,  os níveis de confiança dos empresários vêm registrando altas nos últimos meses – embora ainda se mantenham em patamares muito próximos dos mínimos históricos. Em contrapartida, espera-se uma recuperação mais lenta do consumo de bens e serviços, cujo desempenho está fortemente associado à dinâmica do mercado de trabalho.

Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB (Produto Interno Bruto) voltou a recuar no primeiro trimestre de 2016, registrando queda de 0,3% em relação ao período anterior, na série livre de influências sazonais. Embora tenha sido a quinta retração consecutiva na margem, o resultado representou acentuada desaceleração no ritmo de queda verificado na média dos quatro períodos anteriores (-1,5%). Com isso, o carry-over para 2016 ficou em -2,6%, ou seja, caso permaneça estagnado durante os próximos três trimestres, na série com ajuste sazonal, o PIB de 2016 terá sido 2,6% menor que o do ano passado. Tomando por base os comparativos interanuais, os efeitos gerados pelo longo período de recessão ainda se fazem presentes. Embora a queda de 5,4% frente ao primeiro trimestre de 2015 tenha sido menor que a observada no período anterior (-5,9%), a taxa acumulada em quatro trimestres voltou a registrar recorde negativo na série histórica iniciada em 1996, recuando de -3,8% para -4,7%.

A análise dos componentes do PIB pelo lado da demanda destaca mais uma forte contração da absorção doméstica, que apresentou recuo de 2,1% ante o último trimestre do ano passado, na série com ajuste sazonal[1]. No comparativo interanual, este componente foi responsável pela subtração de 10,2 pontos percentuais (p.p.) na taxa de variação do PIB ante o primeiro trimestre de 2015. A queda foi tão intensa que, pela primeira vez na série histórica do IBGE, a demanda interna apresentou variação negativa em termos nominais (de -0,7%). Enquanto o consumo das famílias registrou a quinta retração consecutiva na margem, recuando 1,7% frente ao período anterior, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) encolheu pela décima vez, período no qual acumulou uma perda de 27,1%.

O destaque positivo pelo lado da demanda voltou a ser o desempenho das exportações líquidas, ajudando a suavizar a queda do PIB no período. A trajetória de deterioração da absorção doméstica reflete, por um lado, os impactos negativos provenientes do desempenho do mercado de trabalho sobre o comportamento do consumo das famílias. Os resultados mais recentes divulgados pelo IBGE indicam uma intensificação da perda de postos de trabalho, o que deve manter os níveis de confiança dos agentes em patamar reduzido. Além disso, os rendimentos seguem encolhendo em termos reais, o que deprime ainda mais o orçamento das famílias, já bastante comprometido pelo custo elevado dos serviços de dívidas feitas anteriormente. Os dados divulgados na Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE, corroboram esse cenário, apontando nova queda nas vendas do varejo ampliado, que recuaram 1,4% abril, na série sem efeitos sazonais.

Registre-se, ademais, que a queda continuada na demanda doméstica levou a uma forte redução no grau de utilização da capacidade da indústria, o que poderá retardar a recuperação dos investimentos. Outro fator negativo é a desvalorização do real frente ao dólar, que encarece a importação de máquinas e equipamentos. Por outro lado, a melhora da confiança dos investidores em relação ao futuro da economia brasileira pode contribuir para aumentar o retorno esperado dos investimentos. De acordo com estimativas próprias do Ipea, o bom desempenho dos indicadores da construção civil e do consumo aparente de máquinas e equipamentos no mês de abril indica que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) teve um bom início de segundo trimestre, com alta de 2,8% na comparação com ajuste sazonal.

 Pelo lado da oferta, todos os setores recuaram na margem. Após registrar alta de 2,9% no último período do ano passado, a agropecuária contraiu 0,3%. Com isso, registrou queda de 1% no acumulado em quatro trimestres, a primeira variação negativa desde o final de 2012. Por sua vez, o setor de serviços também apresentou resultado negativo, com  retração de 0,2%, a quinta variação negativa nesta base de comparação. Assim como no caso do PIB, este resultado representou forte redução na taxa média de crescimento marginal verificada em 2015, que foi negativa em -1,1%. Registre-se, ainda, que a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, apontou mais uma queda no início do segundo trimestre, com recuo de 4,5% sobre abril de 2015. Por fim, a indústria registrou a oitava queda em dez trimestres, com recuo de 1,2% na margem, acumulando uma perda de 6,9% no comparativo em quatro trimestres.

Embora a produção industrial tenha recuado para níveis observados há quase uma década, alguns indicadores já apontam para um possível ponto de inflexão na sua trajetória de queda. Mesmo ainda apresentando alguma volatilidade no desempenho marginal, os resultados positivos têm se tornado mais frequentes. Um exemplo disso está no comportamento do indicador de produção industrial física do IBGE que, após registrar duas altas consecutivas nos meses de março (1,4%) e abril (0,1%) na série dessazonalizada, deve retroceder 1,6% em maio, segundo estimativas do Ipea.

Esta melhora recente de desempenho tem sido acompanhada por um aumento do grau de difusão, que já se encontra num patamar compatível com estabilidade. Dentre os fatores que estariam por trás desse início de recuperação, o processo de depreciação da taxa de câmbio brasileira parece estar gerando seus primeiros efeitos positivos. Com base nos indicadores de comércio exterior, já se verifica uma melhora no volume de bens exportados em alguns setores cuja atividade exportadora é mais relevante, como, por exemplo, têxteis, calçados e madeira. Além disso, nota-se também que a desvalorização da moeda pode estar estimulando alguma substituição de importações, notadamente na produção de bens intermediários.

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[1] Dessazonalização própria.



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Atividade Econômica

Carta de Conjuntura nº 30

Por Leonardo Mello de Carvalho

O desempenho recente dos indicadores relacionados à atividade econômica continua retratando o ciclo recessivo da economia brasileira iniciado no segundo trimestre de 2014. Sendo caracterizada por um elevado grau de disseminação e intensidade, a crise atual também se mostra persistente, não dando ainda sinais mais consistentes de recuperação. Como já foi analisado em edições anteriores da Carta de Conjuntura, o círculo vicioso que se instalou na economia é reflexo de um amplo conjunto de fatores, tanto de ordem doméstica quanto externa. Além disso, ao contrário de outros momentos de crise, o atual quadro de recessão não se instalou de forma abrupta, em resposta a algum evento envolvendo ruptura. O que temos observado nestes últimos dois anos é o resultado de um processo mais lento, que foi se disseminando de maneira gradual, fato este que lhe confere um caráter mais resiliente.

Embora o cenário da atividade econômica tenha deteriorado de forma mais significativa a partir do segundo trimestre de 2014, quando se observa uma maior difusão da crise, a produção industrial, por exemplo, já vinha enfrentando dificuldades desde meados do segundo semestre de 2010, sendo negativamente afetada por uma série de restrições pelo lado da oferta, refletidas, em grande medida, no descolamento entre o custo da mão de obra e a sua produtividade. Posteriormente, com o agravamento dos desequilíbrios internos na economia, evidenciados pelo resultado das contas públicas e pela aceleração dos índices de preço, o governo optou por  implementar um ajuste recessivo, impactando diretamente nos níveis de demanda. Nesse contexto, os indicadores referentes ao mercado de trabalho passaram a demonstrar uma crescente fragilidade, com efeitos negativos tanto nos níveis de ocupação, quanto nos rendimentos. O receio quanto à segurança do emprego, somado à redução do poder de compra dos salários, deprimiu os níveis de confiança dos consumidores. Num ambiente já contaminado por um alto comprometimento com dívidas passadas, a queda na procura por novas compras foi inevitável, o que acabou ajudando a propagar a crise pelos demais setores produtivos, como, por exemplo, o comércio de bens e serviços. Enquanto o mercado doméstico encolhia, a conjuntura externa também não se apresentava favorável. Além do lento crescimento da demanda mundial, o Brasil tem presenciado uma contínua deterioração dos seus termos de troca, influenciados, principalmente, pela trajetória decrescente dos preços das commodities.

A conjuntura atual apresenta outro aspecto que pode vir a retardar a saída da recessão. Além de todas as questões citadas anteriormente, o ambiente econômico brasileiro tem se caracterizado pela presença de um elevado nível de incerteza. Seja ela associada à questões de ordem econômica, uma vez que a própria crise vem impondo ao governo um estreitamento dos graus de liberdade na condução da economia, seja ela associada à questões políticas, que tem prejudicado a capacidade de implementação de medidas tidas como necessárias para debelar os desequilíbrios internos.

Se, por tudo o que foi dito, uma recuperação mais rápida da economia parece pouco provável no curto prazo, o ajuste do setor externo normalmente associado a cenários envolvendo deterioração da atividade econômica e movimentos de desvalorização cambial, tem ocorrido da forma como esperado. Embora a depreciação do real também ofereça um risco para a inflação, seus efeitos positivos em termos de competitividade já começam a ser percebidos em alguns setores exportadores. Mesmo que grande parte da melhora observada no saldo comercial ainda esteja associada à forte queda das importações, este pequeno avanço pode representar um alento. Outra parte do ajuste também caminha no sentido correto, refletido no processo de normalização dos níveis de estoques indesejados na indústria. Influenciados por estes dois fatores, o comportamento dos indicadores de confiança tem apresentado alguma estabilidade nos últimos meses, embora ainda permaneçam em níveis muito baixos.

Apesar desse alento, a maioria dos indicadores de atividade econômica ainda segue se deteriorando. Segundo os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB voltou a recuar no último trimestre do ano passado, registrando queda de 1,4% em relação ao período anterior, na série livre de influências sazonais. Este resultado foi a sexta retração na margem em sete trimestres, período no qual o PIB acumulou uma queda de 7,2%. Com isso, o carry-over para 2016 ficou em -2,5%, ou seja, caso permaneça estagnado durante os próximos quatro trimestres, na série com ajuste sazonal, o PIB cairá 2,5% no ano. Tomando por base os comparativos interanuais, a trajetória de queda acelerou. O recuo de 5,9% frente ao mesmo período de 2014 foi o mais alto em toda a série histórica do IBGE, iniciada em 1996. Com isso, o PIB encerrou o ano de 2015 registrando contração de 3,8%, o pior resultado desde o ano de 1990, quando a economia encolheu 4,4%.

A análise dos componentes do PIB pelo lado da demanda voltou a apontar forte contração da absorção doméstica, que apresentou recuo de 6,3% no acumulado em quatro trimestres. Enquanto o consumo das famílias registrou a sua quarta queda consecutiva na margem, recuando 1,3% frente ao período anterior, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) segue em queda forte. A redução de 4,9% na margem foi a décima consecutiva, período no qual acumulou uma perda de 25,5%. O destaque positivo pelo lado da demanda voltou a ser o desempenho das exportações líquidas, ajudando a suavizar a queda do PIB no período. Pelo lado da oferta, a indústria registrou a sétima queda em nove trimestres, com recuo de 1,4% na margem, acumulando uma perda de 6,2% em 2015. Enquanto isso, o setor de serviços também apresentou mau desempenho, com a retração de 1,4%, a quarta variação negativa nesta base de comparação. Este resultado representou 2,7% de queda em 2015, sua primeira variação negativa anual em toda a série histórica. Por fim, o destaque positivo ficou por conta da agropecuária, que avançou 2,9% na margem, encerrando o ano com crescimento de 1,8%.

As informações disponíveis para os meses de janeiro e fevereiro continuam apontando para uma trajetória declinante da atividade econômica. Após ter apresentado pequena variação positiva em janeiro, com avanço de 0,4% no comparativo com ajuste sazonal, o indicador de produção física industrial mensal do IBGE voltou a sofrer forte recuo em fevereiro, com queda de 2,5%. Com isso, os níveis de utilização dos fatores de produção mantiveram-se em patamares historicamente baixos. Por outro lado, a recessão continua estimulando o processo de ajuste dos níveis de estoques indesejados na indústria. O cenário não é diferente para o setor de serviços, cujos indicadores também sugerem um fraco desempenho no primeiro bimestre do ano. Pelo lado da demanda, são esperadas novas quedas tanto no comércio varejista, quanto nos investimentos.

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